26 de novembro de 2015

Capítulo 35

Todavia — os olhos de Damon assumiram um brilho frio, — sem o amuleto, minha assistente e eu não nos apresentamos.
— Mas... Com ele, vocês o farão? Digo, está me dizendo que perdeu seu amuleto aqui?
— Na realidade, sim. Durante os preparativos para a festa. — Damon abriu um lindo e provocante sorriso para os jovens vampiros e o apagou de repente. — Não fazia ideia se teria ajuda, procurava um meio de conseguir um convite. Então, passei aqui para dar uma olhada no lugar.
— Não me diga que foi antes que a grama fosse comprimida — disse alguém com apreensão.
— Infelizmente, sim. Um clarividente me disse que a ch... o amuleto está enterrado aqui em algum lugar.
Houve um coro de gemidos do grupo.
E então se elevaram vozes individuais, apontando as dificuldades: a dureza da grama comprimida, os vários salões com seus inúmeros arranjos florais no solo, a horta e os jardins de flores (que nem vimos ainda, pensou Elena).
— Sei que é praticamente impossível encontrar isso — disse Damon, pegando a metade da chave de raposa e fazendo-a deparecer elegantemente ao passar para a mão de Elena, que estava pronta para recebê-la. Ela agora tinha um lugar especial para a chave... Lady Ulma providenciara.
Damon dizia:
— Por isso eu simplesmente disse não no início. Mas essa é a verdade.
Houve alguns murmúrios, mas depois as pessoas começaram a se afastar em grupos de dois ou três, ou sozinhas, discutindo sobre os melhores lugares para começar a procurar.
Damon, eles vão destruir o terreno de Bloddeuwedd, protestou Elena em silêncio.
Que bom. Vamos oferecer todas as jóias de vocês três e todo o ouro que tenho comigo como recompensa. O que quatro pessoas não podem fazer talvez cem consigam.
Elena suspirou. Ainda queria muito falar com Bloddeuwedd. Não só para ouvi-la falar, mas também para tentar descobrir algumas coisas. Quero dizer, que motivo haveria para uma linda flor como Bloddeuwedd proteger Shinichi e Misao?
A resposta telepática de Damon foi curta. Bom, vamos tentar os cômodos lá de cima, então. Foi para lá que ela se dirigiu, de qualquer maneira.
Eles encontraram um lance de escada de cristal — bem difícil de localizar quando todas as paredes eram transparentes e mais difícil ainda de subir. No segundo andar, procuraram por outra. Foi Elena quem acabou encontrando, tropeçando no primeiro degrau.
— Ah — disse ela, olhando da escada, que agora se revelava com uma linha vermelha na borda da frente, para seu tornozelo, que mostrava o mesmo dano. — Bom, isso pode ser invisível, mas nós não somos.
— Não é tão invisível assim. — Damon estava canalizando Poder para os olhos, ela sabia. Elena faria o mesmo, mas ultimamente se perguntava qual dos dois tinha mais sangue dela no corpo, ele ou ela?
— Não fique nervosa, eu posso ver os degraus — disse ele. — Apenas feche os olhos.
— Meus olhos... — Antes que ela pudesse perguntar por quê, ela já sabia o motivo, e antes que pudesse gritar, ela foi apanhada, o corpo quente de Damon sendo a única coisa sólida que havia ali. Ele subiu a escada segurando Elena de modo que seu vestido ficasse longe das gotas de sangue que caíam livremente no espaço.
Para alguém que tinha medo de altura, foi uma viagem louca e apavorante; mas ela sabia que Damon estava em plenas condições e não a deixaria cair, e tinha certeza de poder ver aonde ele ia. Ainda assim, se dependesse unicamente dela, Elena jamais teria ido além do primeiro degrau.
Naquelas condições, ela nem mesmo se atrevia a se mexer muito para não fazer Damon se desequilibrar. Ela só podia gemer e tentar aguentar.
Quando, uma eternidade depois, chegaram ao topo, Elena se perguntou se alguém a levaria para baixo novamente, ou se ela ficaria ali pelo resto da vida.
Os dois foram confrontados por Bloddeuwedd, a mais encantadora criatura inumana que Elena vira na vida. Encantadora... Mas estranha. Ela estava vendo um leve padrão de prímulas no cabelo, pelas costas e nas laterais? Seu rosto na verdade não tinha o formato de uma pétala de flor de macieira, assim como o tom claro da pétala?
— Estão em minha biblioteca particular — disse ela.
E, como se um espelho tivesse rachado, Elena se libertou do que restava do encanto de Bloddeuwedd.
Os deuses a fizeram de flores... Mas as flores não falam. A voz de Bloddeuwedd era inexpressiva e monótona. Estragou inteiramente a imagem da mulher floral.
— Pedimos desculpas — disse Damon, naturalmente com o fôlego recuperado. — Mas gostaríamos de lhe fazer algumas perguntas.
— Se pensa que vou lhe ajudar, está enganado — disse a mulher pétala de flor no mesmo tom nasalado. — Eu odeio humanos.
— Mas sou um vampiro, como certamente percebeu. — Damon tentava jogar seu charme quando Bloddeuwedd o interrompeu:
— Uma vez humano, sempre humano.
— Como?
O descontrole de Damon pode ter sido a melhor coisa que aconteceu, pensou Elena, se escondendo atrás dele. Ele foi tão sincero em seu desdém pêlos humanos que Bloddeuwedd se abrandou um pouco.
— O que quer saber?
— Apenas se a senhora viu dois kitsune ultimamente. Eles são irmãos e se chamam Shinichi e Misao.
— Sim.
— Ou talvez eles... Como? Sim?
— Aqueles ladrões invadiram a minha casa à noite enquanto estava numa festa. Voltei às pressas e quase os peguei. Mas os kitsune são rápidos.
— Onde... — Damon engoliu em seco. — Onde eles estavam?
— Descendo a escada da frente.
— E lembra-se de quando estiveram aqui?
— Na noite em que o terreno estava sendo preparado para esta festa. Os rolos compressores trabalhavam na grama. A abóbada foi erigida.
Coisas esquisitas para se fazer à noite, pensou Elena, mas então se lembrou... de novo. A luz era sempre a mesma.
Mas seu coração batia acelerado. Shinichi e Misao só podem ter vindo por um motivo: para esconder a chave de raposa.
E talvez largá-la no Grande Salão de Baile, pensou Elena. Ela olhou vagarosamente enquanto todo o exterior da biblioteca girava, como se fosse um planetário gigante, de modo que Bloddeuwedd pudesse pegar um globo e colocá-lo em um aparelho que devia fazer a música tocar nos vários ambientes.
— Com licença — disse Damon.
— Esta é minha biblioteca particular — disse Bloddeuwedd friamente contra o crescendo do glorioso final de O Pássaro de Fogo.
— Isto quer dizer que agora temos de ir embora?
— Não. Isto quer dizer que agora eu vou matá-los.

Um comentário:

  1. Nossa, que estressada, só porque eles entraram sem permissão.

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