20 de novembro de 2015

Capítulo 35

Uma prisão, com montes de sujeira no chão e grades entre Elena e um Stefan adormecido.
Entre ela e Stefan!
Era realmente ele. Elena não sabia como podia saber. Sem dúvida eles podiam distorcer e mudar suas percepções neste lugar. Mas agora, talvez porque ninguém esperasse que ela desse num calabouço, ninguém estava preparado para fazer com que ela duvidasse de seus sentidos.
Era Stefan. Estava mais magro e as maçãs do rosto se pronunciavam. Estava lindo. E sua mente parecia certa, a mistura exata de honra e amor, escuridão e luz, esperança e compreensão melancólica do mundo em que ele vivia.
 Stefan! Ah, me abrace!
Ele acordou e quase se sentou.
 Pelo menos me deixe dormir. E enquanto eu durmo vá embora e coloque outro rosto, sua vaca!
 Stefan! Cuidado com a língua!
Ela viu os músculos dos ombros de Stefan paralisarem.
 O que você... disse?
 Stefan... Sou eu mesma. Não o culpo por xingar. Amaldiçoo este lugar todo e os dois que o colocaram aqui...
 Três  disse ele cansado, e tombou a cabeça. ― Se fosse real, você saberia disso. Vá pedir a eles que lhe digam que meu irmão traidor e os amigos dele é que se aproximam sorrateiros das pessoas com redes kekkai...
Agora Elena não podia esperar para discutir sobre Damon.
 Não pode pelo menos olhar para mim?
Ela o viu se virar devagar, olhar lentamente, depois o viu saltar de um estrado feito de um feno de aparência nauseante, e o viu olhar para ela como se fosse um anjo caído do céu.
Depois ele deu as costas e pôs as mãos nas orelhas.
 Nada de pactos  disse ele categoricamente. ― Nem fale deles comigo. Vá embora. Você está se saindo melhor, mas ainda é um sonho.
 Stefan!
 Eu disse vá embora!
Estavam perdendo tempo. E isso era tão cruel, depois do que ela passou só para falar com ele.
 Você me viu pela primeira vez na frente da secretaria da escola no dia em que levou seus documentos e persuadiu a secretária. Não precisou olhar para mim para saber como eu era. Uma vez eu te disse que me sentia uma assassina porque falei: “Papai, olha” e apontei algo do lado de fora, pouco antes do acidente de carro que matou meus pais. Eu nunca consegui lembrar o que era a coisa. A primeira palavra que aprendi quando voltei do além foi “Stefan”. Um dia, você olhou para mim pelo retrovisor do carro e disse que eu era sua alma...
 Não pode parar de me torturar por uma hora? Elena... A verdadeira Elena... Seria inteligente demais para arriscar a própria vida vindo aqui.
 E onde é “aqui”?  perguntou Elena incisivamente, assustada. ― Preciso saber se devo tirar você daí.
Lentamente, Stefan destampou as orelhas. Ainda mais lentamente, ele se virou para ela.
 Elena?  perguntou, como um menino moribundo que viu um fantasma gentil em seu leito. ― Você não é real. Não pode estar aqui.
 Não acho que esteja. Shinichi fez uma casa mágica e ela leva você onde quiser, se você disser para onde quer ir e abrir a porta com esta chave. Eu disse: Um lugar onde possa ouvir, ver e tocar Stefan” mas,  ela baixou a cabeça ― você disse que eu não posso estar aqui. Talvez tudo não passe mesmo de uma ilusão.
 Silêncio  agora Stefan agarrava as grades laterais de sua cela.
 Era aqui que vocÊ queria ter vindo? Este é o Shi no Shi?
Ele deu uma risadinha, não era um riso verdadeiro.
 Não é exatamente o que qualquer um de nós esperava, não acha? E no entanto eles não mentiram em nada do que disseram. Elena, Elena! Eu disse “Elena”. Elena, você está mesmo aqui!
Elena não podia mais perder tempo. Deu uns poucos passos estalando a palha úmida, espantando as criaturas dali, até as grades que a separavam de Stefan.
Depois voltou a cabeça para cima, segurando as grades nas duas mãos, e fechou os olhos.
Eu vou tocar em você. Eu o tocarei, vou tocar. Eu sou real, ele é real – vou tocá-lo!
Stefan se inclinou – para fazer a vontade dela, pensou Elena – e seus lábios quentes tocaram os dela.
Ela passou os braços pelas grades porque os dois estavam ajoelhados de fraqueza. Stefan ficou pasmo por ela tocá-Io, e Elena ficou aliviada e soluçava de alegria.
Mas... Não havia tempo.
Stefan, tome meu sangue agora... Tome!
Ela procurou desesperadamente alguma coisa para se cortar.
Stefan podia precisar de suas forças e não importava o quanto Damon tenha retirado, Elena sempre teria o suficiente para Stefan. Se isso a matasse, ela teria o bastante. Agora estava feliz nesta catacumba porque Damon a convencera a tomar o sangue dele.
 Calma. Calma, meu amor. Se você fala a sério, posso morder seu pulso, mas...
 Faça isso agora! ― Elena Gilbert, a princesa de Fell’s Church, ordenou. Ela até conseguiu reunir forças para se levantar. Stefan a olhou com certa culpa. ― AGORA! ― insistiu Elena.
Stefan mordeu seu pulso.
Era uma sensação estranha. Doeu um pouco mais do que quando ele perfurava a lateral de seu pescoço, como sempre fazia. Mas havia boas veias ali, ela sabia; Elena confiava que Stefan encontraria a maior, para que isso levasse o menor tempo possível. A urgência de Elena tornara-se a dele.
Mas quando ele tentou recuar, ela o segurou por uma mecha de cabelo ondulado e preto e disse:
 Mais, Stefan. Você precisa dele... Ah, eu sei disso, e não temos tempo para discutir.
A voz de comando. Meredith uma vez disse que quando ela falava desse jeito, podia liderar exércitos. Bom, podia precisar liderar exércitos para entrar neste lugar e salvá-Ia.
Vou conseguir um exército em algum lugar, pensou ela, meio tonta.
A febre de sangue faminta que Stefan tivera – eles obviamente não o alimentavam desde que ela o vira pela última vez – esmorecia numa ingestão de sangue mais normal que ela conhecia. A mente de Stefan se fundia na dela. Quando você diz que vai conseguir um exército, eu acredito em você. Mas é impossível. Ninguém jamais volta.
Bom, você vai voltar. Eu vou levar você de volta.
Elena, Elena...
Beba, disse ela, sentindo-se uma mãe italiana. O máximo que puder sem ficar nauseado.
Mas como... Não, você me disse como chegou aqui. Era verdade?
A verdade. Eu sempre lhe digo a verdade. Mas Stefan, como vou tirar você daqui?
Shinichi e Misao – você os conhece?
O bastante.
Cada um deles tem metade de um anel. Juntos, eles formam uma chave. Cada metade tem a forma de uma raposa correndo. Mas quem sabe onde podem ter escondido as metades? E como eu disse, só para entrar neste lugar, será preciso um exército...
Vou achar as metades do anel de raposa. Vou uni-las. Vou conseguir um exército. Vou tirar você daí.
Elena, não posso continuar bebendo. Você vai desmaiar.
Eu não desmaio com facilidade. Continue, por favor. Mal acredito que é você...
 Nada de beijar! Tome meu sangue!
Sim, senhora! Mas Elena, é verdade, agora estou satisfeito. Mais do que satisfeito.
E amanhã?
 Ainda estarei satisfeito  Stefan se afastou, um polegar nos pontos onde havia veias perfuradas. ― É verdade, eu não posso, meu amor.
 E no dia seguinte?
 Vou conseguir.
 Você vai... Porque eu trouxe isto. Abrace-me, Stefan  disse, a voz mais branda. ― Abrace-me pelas grades.
Ele obedeceu, parecendo assombrado, e ela sibilou em seu ouvido.
 Aja como se me amasse. Afague meu cabelo. Diga coisas gentis.
 Elena, meu grande amor... ― ele ainda estava perto o bastante mentalmente para dizer por telepatia Agir como se eu a amasse? Mas enquanto as mãos de Stefan afagavam Elena, apertavam-na e se emaranhavam em seu cabelo, as dela estavam ocupadas. Ela transferia para Stefan, por baixo das suas roupas, um frasco cheio de vinho de magia negra.
 Mas onde conseguiu isso?  sussurrou Stefan, assombrado.
 A casa mágica tem tudo. Estive esperando por minha chance de dar a você, se você precisasse.
 Elena...
 Que foi?
Stefan parecia lutar com alguma coisa. Por fim, com os olhos baixos, ele sussurrou:
 Isso não é bom. Não posso me arriscar que você seja morta por uma impossibilidade. Me esqueça.
 Coloque o rosto nas grades.
Ele olhou para ela, mas não fez mais perguntas, e obedeceu. Ela lhe deu um tapa na cara.
Não foi um tapa muito forte... Embora a mão de Elena doesse ao se chocar com o ferro do outro lado.
 Ora essa, que vergonha!  disse ela. E antes que ele pudesse dizer alguma coisa: ― Escute!
Era o latido de sabujos, longe, mas estavam se aproximando.
 Estão atrás de você ― disse Stefan, de repente frenético. ― Você precisa ir!
Ela se limitou a olhá-Io com segurança.
 Eu te amo, Stefan.
 Eu te amo, Elena. Para sempre.
 Eu... Ah, eu sinto muito.
Ela não conseguia ir; o problema era este. Como Caroline falando sem parar, mas sem sair do quarto de Stefan, ela podia ficar ali e conversar sobre aquilo, mas não conseguia fazer nada.
 Elena! Você precisa ir. Não quero que você veja o que eles vão...
 Eu vou matá-Ios!
 Você não é assassina. Não sabe lutar, Elena... E não devia ver isso. Por favor? Lembra que uma vez me perguntou se eu gostaria de ver quantas vezes você me obrigaria a dizer “por favor”? Bom, agora cada um conta por mil. Por favor? Por mim? Você vai embora?
 Mas um beijo...  o coração de Elena batia como um passarinho frenético.
 Por favor!
Cega pelas lágrimas, Elena se virou e segurou a porta da cela.
 Qualquer lugar fora da cerimônia, onde ninguém me verá!  ela arfou e puxou a porta para o corredor, passando por ela.
Pelo menos vira Stefan, mas por quanto tempo isso evitaria que seu coração despedaçasse novamente...
... Ah, meu Deus, estou caindo...
... ela não sabia.


Elena percebeu que estava mesmo em algum lugar do lado de fora da pensão – pelo menos a vinte e cinco metros de altura – e despencava rapidamente. Em pânico, seu primeiro pensamento foi de que iria morrer, depois o instinto a dominou e ela estendeu os braços, chutando com pernas e pés, conseguindo deter a queda depois de seis metros de agonia.
Perdi minhas asas para sempre, não foi?, pensou ela, concentrando-se em um único ponto entre as omoplatas. Ela sabia onde deviam estar... e nada aconteceu.
Depois, com cuidado, ela se aproximou aos poucos do tronco, parando só para mover para um ponto mais alto uma lagarta que dividia o galho com ela. E conseguiu encontrar um lugar onde podia se sentar de lado e chegar para trás. Era um galho alto demais para seu gosto.
Descobriu que podia olhar para baixo e ver a sacada com muita clareza, e que quanto mais olhava para qualquer coisa, mais clara era sua visão. A visão aguçada de vampiro, pensou Elena. Mostrava que ela estava se Transformando. Ou... sim, o céu aqui de algum modo ficava mais claro.
O que se revelava a ela era uma pensão escura e vazia, o que era perturbador, porque o pai de Caroline havia dito sobre a “reunião” e o que ela descobriu telepaticamente por Damon sobre os planos de Shinichi para a noite do Moonspire. Será possível que esta não seja a verdadeira pensão, mas outra armadilha?


 Conseguimos!  Bonnie exclamou ao se aproximarem da casa.
Ela sabia que sua voz estava estridente, mais do que estridente, mas de algum modo a visão da pensão iluminada, como uma árvore de Natal com uma estrela no alto, a reconfortava, mesmo que soubesse que estava tudo errado. Bonnie tinha vontade de chorar de alívio.
 Sim, conseguimos  disse a voz grave da Dra. Alpert. ― Todos nós. É Isobel quem precisa de mais tratamento, e o mais rápido possível. Theophilia, prepare suas panaceias; e alguém leve Isobel e lhe dê um banho.
 Eu farei isso  Bonnie disse numa voz trêmula, depois de uma breve hesitação. ― Ela vai ficar tranquila como está agora, não é? Não é?
 Eu vou com Isobel  Matt falou. ― Bonnie, você vai ajudar a Sra. Flowers. E antes de a gente entrar, quero deixar uma coisa bem clara: ninguém vai a lugar nenhum sozinho. Vamos todos andar em grupos de dois ou três.  Havia um tom de autoridade na voz dele.
 Faz sentido  Meredith concordou rispidamente, tomando lugar ao lado da médica. ― É melhor ter cuidado, Matt; Isobel é a mais perigosa.
Foi quando vozes altas e agudas foram ouvidas do lado de fora da casa. Pareciam duas ou três menininhas cantando.

“Isa-chan, Isa-chan.
Beba seu chá e coma seu flã.”

 Tamra? Tamra Bryce?  perguntou Meredith, abrindo a porta enquanto a música recomeçava.
Ela disparou para frente, depois pegou a médica pela mão e a arrastou para o lado ao avançar de novo.
E sim, Bonnie viu, havia três figuras pequenas, uma de pijama e duas de camisola, e elas eram Tamra Bryce, Kristin Dunstan e Ava Zarinski. Ava só tinha uns 11 anos, pensou Bonnie, e não morava perto nem de Tamra, nem de Kristin. As três soltavam risos estridentes. Depois recomeçaram a cantar, e Matt foi atrás de Kristin.
 Socorro!  gritou Bonnie.
De repente ela estava pendurada como num potro chucro que esperneava e escoiceava para todo lado. Isobel parecia ter enlouquecido e ficava mais louca a cada repetição da música.
 Eu a peguei  disse Matt, fechando-se nela com um abraço de urso, mas nem os dois conseguiam manter Isobel parada.
 Vou dar outro sedativo a ela  a Dra. Alpert falou, e Bonnie viu os olhares entre Matt e Meredith, olhares de desconfiança.
 Não... Não, deixe que a Sra. Flowers faça alguma coisa  Bonnie disse desesperadamente, mas a agulha hipodérmica já estava quase no braço de Isobel.
 Não vai dar nada a ela  disse Meredith categoricamente, deixando o disfarce de lado e, com um chute de bailarina, mandou a seringa pelos ares.
 Meredith! Qual é o seu problema?  exclamou a médica, segurando seu pulso.
 A questão é qual é o seu problema, doutora. Quem é você? Onde estamos? Esta não pode ser a verdadeira pensão.
 Obaasan! Sra. Flowers! Podem nos ajudar?  Bonnie ofegava, ainda tentando segurar Isobel.
 Vou tentar  disse a Sra. Flowers, decidida, indo na direção de Bonnie.
 Não, eu quis dizer com a Dra. Alpert... E talvez Jim. A senhora sabe... conhece algum feitiço... para fazer com que as pessoas assumam sua verdadeira forma?
 Oh!  disse Obaasan. ― Nisso eu posso ajudar. Deixe-me descer, Jim, meu querido. Logo todos estaremos em nossas verdadeiras formas.


Jayneela era uma segundanista de olhos grandes, sonhadores e escuros que em geral se perdiam num livro. Mas agora, enquanto a meia-noite se aproximava e a avó ainda não tinha ligado, ela fechou o livro e olhou para Ty.
Tyrone parecia grande, feroz e mau durante o jogo, mas fora dele era o irmão mais velho mais gentil, mais legal e mais delicado que uma menina podia querer.
 Acha que a vovó está bem?
 Hein?  Tyrone também estava com o nariz metido num livro, mas era um daqueles livros de entre-para-a-universidade-dos-seus-sonhos. Como estava indo para o último ano, ele precisava tomar algumas decisões sérias. ― Claro que está.
 Bom, vou dar uma olhada na garotinha, pelo menos.
 Sabe de uma coisa, Jay?  Ele a futucou de brincadeira com o dedo do pé. ― Você se preocupa demais.
Logo ele estava perdido de novo no Capítulo Seis, “Como Aproveitar ao Máximo Seu Serviço Comunitário”. Mas vieram gritos de cima. Gritos longos, altos e agudos – a voz da irmã. Ele largou o livro e correu.


 Obaasan?  chamou Bonnie.
 Só um minuto, meu bem  disse a vovó Saitou.
Jim a baixara e agora ela o olhava bem de frente: olhava para cima, e ele para baixo. E havia algo muito estranho nisso.
Bonnie sentiu uma onda de puro terror. Será que Jim pode ter feito alguma maldade com Obaasan enquanto a carregava? É claro que podia. Por que ela não pensou nisso? E havia a médica com sua seringa, pronta para sedar qualquer um que ficasse “histérica” demais. Bonnie olhou para Meredith, mas a amiga tentava lidar com duas menininhas que se retorciam e só conseguiu olhar de lado, desesperançada.
Muito bem, então, pensou Bonnie. Vou dar um chute onde mais vai doer nele e afastar a velha. Ela se virou para Obaasan e se sentiu paralisar.
 Só tenho que fazer uma coisinha...  disse Obaasan.
E ela fez. Jim se curvava na altura da cintura, dobrado em dois para Obaasan, que estava na ponta dos pés. Eles se grudaram num beijo íntimo e profundo.
Ah, meu Deus!
Eles encontraram quatro pessoas no bosque – e supuseram que duas eram sãs e duas insanas. Como podiam saber quais eram insanas? Bom, se duas delas viram coisas que não existiam...
Mas a casa estava ali; Bonnie também podia ver. Estaria ela insana?
 Meredith, venha!  ela gritou.
Perdendo inteiramente a coragem, ela começou a correr da casa, fugindo para o bosque.
Algo vindo do céu pegou Bonnie com a mesma facilidade que uma coruja pega um camundongo e a manteve em um aperto implacável.
 Vai a algum lugar?  a voz de Damon perguntou de cima dela enquanto ele planou por alguns metros até parar, com Bonnie metida sob um braço de aço.
 Damon!
Os olhos de Damon estavam um tanto cerrados, como que para uma piada que só ele podia ver.
 Sim, o mal em pessoa. Diga alguma coisa, minha pequena fúria.
Bonnie já se exaurira tentando fazer com que ele a soltasse que nem conseguira rasgar as roupas dele.
 O quê?  rebateu ela.
Possuído ou não, Damon a vira quando ela o invocou para salvá-Ia da insanidade de Caroline. Mas segundo o que Matt contou, ele tinha feito alguma coisa medonha com Elena.
 Por que as meninas adoram converter um pecador? Por que incitam neles qualquer atitude se eles sentem que reformaram vocês?
Bonnie não sabia do que ele falava, mas podia imaginar.
 O que você fez com Elena?  perguntou com ferocidade.
 Dei o que ela queria, só isso ― disse Damon, os olhos escuros cintilando.  Há alguma coisa tão horrorosa nisso?
Bonnie, assustada com aquele brilho nos olhos dele, nem tentou correr de novo. Sabia que era inútil. Ele era mais rápido e mais forte, e podia voar. De qualquer modo, ela vira no rosto dele uma espécie de falta de remorso distante. Não eram só Damon e Bonnie juntos ali. Eram o predador e a presa naturais.
E agora aqui estava ela, de volta a Jim e Obaasan – não, com um rapaz e uma menina que nunca vira antes. Bonnie chegou a tempo de ver a transformação.
Ela viu o corpo de Jim se encolher e seu cabelo ficar preto, mas não foi isso que a impressionou. O impressionante foi que em todas as pontas, o cabelo não era preto, mas carmim. Era como se chamas lambessem das pontas para a escuridão. Os olhos eram dourados e sorridentes.
Ela viu o corpo velho de boneca de Obaasan tornar-se mais jovem, mais forte e mais alto. Aquela menina era linda; Bonnie teve de admitir. Tinha belos olhos puxados e um cabelo sedoso que ia quase até a cintura. Seu cabelo era como o do irmão – só que o vermelho era mais vivo, escarlate e não carmim. Usava um top de renda preto, transparente, que mostrava como seu corpo era delicado na parte superior. E, é claro, calças pretas de cós baixo para mostrar o mesmo embaixo.
Calçava sandálias de salto alto pretas que pareciam caras, e as unhas dos pés estavam pintadas com um esmalte do mesmo vermelho vivo da ponta de seus cabelos. No cinto, em um círculo sinuoso, havia um chicote enroscado com um punho preto e escamoso.
A Dra. Alpert disse lentamente:
 Minha neta...?
 Eles não têm nada a ver com isso  disse o rapaz de cabelo estranho de um jeito encantador e sorridente. ― Se cuidarem da própria vida, não terá de se preocupar com eles nem um pouco.


 Foi suicídio ou tentativa de suicídio... Ou coisa assim  disse Tyrone ao policial, quase chorando. ― Acho que era um cara chamado Jim. Ele era da minha escola no ano passado. Não, isso não tem nada a ver com drogas... Eu vim para cá para cuidar de minha irmã mais nova, Jayneela. Ela estava de babá... Olha, basta subir, está bem? Aquele cara mastigou a maioria dos dedos e quando eu entrei, ele disse: “eu sempre te amei, Elena”. Pegou um lápis e... Não, não sei se ele está vivo ou morto. Mas tem uma senhora idosa lá em cima e eu sei que ela está morta, porque não está respirando.


 Mas quem diabos é você?  dizia Matt, olhando o menino estranho com beligerância.
 Eu sou o...
 ... e que diabos está fazendo aqui?
 Eu sou o diabo Shinichi  falou o rapaz num tom mais alto, parecendo irritado por ser interrompido. Quando Matt se limitou a encará-Io, ele acrescentou num tom irritado: ― Sou o kitsune... A raposa-homem, você diria... Que andou mexendo com sua cidade, idiota. Andei meio mundo para fazer isso e acho que você deve pelo menos me ouvir. E esta é minha linda irmã, Misao. Somos gêmeos.
 Não ligo que sejam trigêmeos. Elena disse que alguém além de Damon estava por trás disso. E Stefan disse o mesmo antes de... O que você fez com Stefan? O que fez com Elena?
Enquanto os dois estranhos se eriçavam – quase literalmente no caso de Shinichi, uma vez que seu cabelo estava quase ereto nas pontas – Meredith trocou olhares com Bonnie, a Dra. Alpert e a Sra. Flowers. Depois olhou para Matt e se tocou de leve no peito. Era a única com força suficiente para lidar com ele, embora a Dra. Alpert assentisse rapidamente indicando que ajudaria.
E depois, enquanto os meninos gritavam cada vez mais alto, Misao ria no chão e Damon se encostava numa porta de olhos fechados, elas agiram. Sem sinal nenhum que as unisse, por instinto elas correram, em grupo, Meredith e a Dra. Alpert pegaram Matt, uma de cada lado e simplesmente o ergueram do chão, justo quando Isobel inesperadamente pulou em Shinichi dando um grito gutural. Elas não esperavam nada de Isobel, mas foi muito conveniente, pensou Bonnie, ao saltar sobre obstáculos sem vê-Ios direito. Matt ainda gritava e tentava correr para o outro lado e descontar alguma frustração primitiva em Shinichi, mas não conseguiu se libertar para fazer isso.
Bonnie mal acreditou quando se deram no bosque de novo. Até a Sra. Flowers conseguiu acompanhar, e a maioria ainda tinha as lanternas.
Era um milagre. Eles escaparam de Damon. A questão agora era ficar em silêncio e tentar atravessar o antigo bosque sem perturbar nada. Talvez eles encontrassem o caminho de volta à verdadeira pensão, concluíram. Depois podiam pensar em como salvar Elena de Damon e os dois amigos. Até Matt enfim teve de admitir que era improvável que conseguissem vencer pela força as três criaturas sobrenaturais.
Bonnie só queria que tivessem conseguido trazer Isobel.


 Bom, temos de ir para a verdadeira pensão, de qualquer forma  disse Damon enquanto Misao finalmente dominava Isobel, deixando-a semiconsciente.  É lá que Caroline estará.
Misao parou de fuzilar Isobel com os olhos e pareceu meio sobressaltada.
 Caroline? Por que queremos Caroline?
 Faz parte da diversão, não é?  Damon perguntou em seu tom de voz mais encantador e sedutor.
Shinichi de imediato abandonou o ar de martirizado e sorriu.
 Essa menina... Não era ela que você estava usando como portadora? ― ele olhou maliciosamente para a irmã, cujo sorriso parecia meio tenso.
 Sim, mas...
 Quanto mais, melhor  disse Damon, mais encantador a cada minuto. Ele não pareceu perceber Shinichi sorrindo com malícia para Misao às costas dele.
 Não se aborreça, querida  ele falou à irmã, beliscando seu queixo enquanto os olhos dourados faiscavam. ― Nunca pus os olhos naquela garota. Mas é claro que se Damon diz que será divertido, é porque será mesmo. ― O sorrisinho de malícia se transformou em um sorriso de triunfo.
 E há alguma chance de elas realmente escaparem?  perguntou Damon, quase distraído, olhando a escuridão do antigo bosque.
 Me dê algum crédito, por favor  rebateu o kitsune. ― Você é um amaldiçoado... Um vampiro, não é? Não devia andar em bosques.
 É meu território, junto com o cemitério...  Damon começava brandamente, mas desta vez Shinichi estava decidido a terminar primeiro.
 Eu moro no bosque  disse ele. ― Controlo os arbustos, as árvores... Trouxe uns experimentos meus. Todos os verão muito em breve. E respondendo a sua pergunta, não, nenhum deles vai escapar.
 Foi o que eu perguntei  Damon devolveu ainda com brandura, mas olhando fixamente os olhos dourados por mais um longo momento. Depois deu de ombros e se virou, fitando a lua que podia ser vista entre nuvens que rolavam no horizonte.
 Ainda temos muito tempo antes da cerimônia  disse Shinichi, atrás dele. ― Não há como nos atrasarmos.
 É melhor que não  murmurou Damon. ― Caroline pode ser incrivelmente estridente e histérica quando as pessoas se atrasam.


Na realidade, a lua subia alta no céu enquanto Caroline chegava no carro da mãe à varanda da pensão. Ela usava um vestido de noite que parecia ter sido pintado em seu corpo com suas cores preferidas, bronze e verde.
Shinichi olhou para Misao, que riu, cobrindo a boca com as mãos e baixou a cabeça.
Damon acompanhou Caroline na escada da varanda até a porta da frente e disse:
 Os melhores lugares estão por aqui.
Houve algum espanto enquanto as pessoas eram selecionadas.
Damon falou animadamente com Kristin, Tamra e Ava:
 Vocês três ficam na fila do amendoim. Isso quer dizer que vocês se sentam no chão. Mas, se forem boazinhas, da próxima vez vou deixar que se sentem conosco lá em cima.
Os outros o seguiram reclamando um pouco, mas foi Caroline que ficou irritada, dizendo:
 Por que temos que entrar? Pensei que seria lá fora.
 Os lugares mais próximos são mais arriscados  disse Damon rispidamente. ― Podemos ter uma melhor visão lá de cima. Camarotes reais, vamos, agora.


As raposas gêmeas e a menina humana o seguiram, acendendo as luzes na casa escura ao subir até a sacada que dava no telhado.
 E agora, onde eles estão?  perguntou Caroline, olhando para baixo.
 Chegarão a qualquer minuto  Shinichi respondeu, com um olhar que era ao mesmo tempo confuso e reprovador, que significava: “Quem essa garota pensa que é?”
Ele não declamou nenhuma poesia.
 E Elena? Ela também vai chegar?
Shinichi não respondeu e Misao se limitou a rir. Mas Damon pôs os lábios perto da orelha de Caroline e sussurrou.
Depois disso, os olhos de Caroline brilharam, verdes como os de um gato. E o sorriso em seus lábios era o de um gato que tinha acabado de colocar as patas num canário.

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