20 de novembro de 2015

Capítulo 34

Um dia Elena caiu da sacada, e Stefan pulou e a pegou antes que ela batesse no chão. Uma queda humana dessa altura teria um impacto fatal. Um vampiro em plena posse de seus reflexos simplesmente giraria no ar como um gato e cairia de leve sobre os pés. Mas um vampiro nas circunstâncias particulares de Damon esta noite...
Pelo som, ele tentou girar, mas acabou caindo de lado e quebrando alguns ossos. Elena deduziu isso pelo palavrão que ele soltou. Ela não esperou para ouvir mais detalhes. Disparou como uma lebre, descendo ao quarto de Stefan – onde de imediato e quase inconscientemente enviou uma súplica muda – e desceu a escada.
A cabana se transformara completamente em uma duplicata perfeita da pensão.
Elena não sabia por que, mas por instinto correu para o lado da construção que Damon menos conhecia: as antigas dependências de empregados. Chegou até lá antes de se atrever a sussurrar coisas para a casa, pedindo e não exigindo, rezando para que a casa obedecesse como obedecera a Damon.
Casa da tia Judith sussurrou, enfiando a chave numa porta; entrou como uma faca quente na manteiga e girou quase por vontade própria. Logo depois ela se viu de novo no que foi sua casa por 16 anos, até sua primeira morte.
Ela estava no corredor, e a porta do quarto da irmã mais nova, Margaret, estava aberta, mostrando a criança deitada no chão do quarto, encarando de olhos arregalados por sobre um livro de colorir.
Vamos brincar de pega-pega, meu amorzinho! anunciou Elena como se fantasmas aparecessem todos os dias na casa dos Gilbert, e Margaret soubesse lidar com isso. ― Você vai correndo até a casa da sua amiga Barbara, e depois ela vai se esconder. Não pare de correr até chegar lá, depois vá ver a mãe de Barbara. Mas primeiro me dê três beijos.
E ela levantou Margaret e a abraçou com força, quase a atirando porta afora em seguida.
Mas Elena... Você voltou...
Eu sei, meu amor, e prometo que a vejo de novo outro dia. Mas agora... Corra, querida...
Eu disse a eles que você ia voltar. Você fez isso antes.
Margaret! Corra!
Sufocando em lágrimas, mas talvez reconhecendo a seriedade da situação com seu jeito de criança, Margaret correu. E Elena a seguiu, mas ziguezagueando por uma escada diferente da que Margaret pegou.
E ela se viu de frente para um Damon com um sorriso malicioso.
Você demora demais falando com as pessoas disse ele, enquanto Elena contava freneticamente suas opções. Subir à sacada pela entrada? Não. Os ossos de Damon ainda podiam doer um pouco, mas se Elena pulasse um andar que fosse, provavelmente quebraria o pescoço. O que mais? Pense!
E então ela estava abrindo a porta do armário de porcelanas, ao mesmo tempo gritando, “Casa da tia Tilda” sem saber se a magia ainda funcionaria. E bateu a porta na cara de Damon.
E ela estava na casa da tia Tilda, mas a casa da tia Tilda do passado.
Não admira que acusassem a pobre da tia Tilda de ver coisas estranhas, pensou Elena, enquanto via a mulher empalidecendo, segurando um grande vidro, cheio de algo que cheirava a cogumelos, gritando e largando o vidro.
Elena! gritou ela. ― O que... Não pode ser você... Você está toda crescida!
Qual é o problema? perguntou a tia Maggie, que era amiga da tia Tilda, vindo de outro cômodo. Ela era mais alta e mais severa do que a tia Tilda.
Estão me perseguindo.  exclamou Elena. ― Preciso achar uma porta, e se virem um rapaz atrás de mim...
Justo nesse momento Damon saiu do armário de casacos. Ao mesmo tempo, tia Maggie o fez tropeçar e disse:
A porta do banheiro atrás de você.
Tia Maggie pegou um vaso e atingiu Damon na nuca quando ele se levantava. Bateu com força.
E Elena disparou pela porta do banheiro, gritando:
Robert E. Lee High School no outono passado – na hora em que a sineta tocou!
E ela estava nadando contra a corrente, com dezenas de alunos tentando chegar a suas aulas a tempo – mas um deles a reconheceu, depois outro, e enquanto aparentemente ela conseguia viajar a uma época em que não estava morta – ninguém gritava “fantasma” – ninguém na Robert E. Lee vira Elena Gilbert usando uma camisa de homem por cima de uma combinação, com o cabelo caindo desajeitado pelos ombros.
É o figurino de uma peça! gritou ela, criando uma das lendas imortais sobre si mesma antes antes de ter morrido, ao acrescentar: ― Casa de Caroline!
E entrou em um armário de vassouras. Um segundo depois, o rapaz mais lindo que qualquer um vira na vida apareceu atrás dela e passou pela mesma porta pronunciando alguma coisa numa língua estrangeira. E quando o armário de vassouras se abriu, não havia rapaz nem menina nenhuma ali.
Elena disparou pelo corredor e quase esbarrou no Sr. Forbes, que cambaleava muito. Bebia o que parecia ser um copo grande de suco de tomate que cheirava a álcool.
Não sabemos onde ela vai parar, não é? gritou ele antes que Elena pudesse dizer uma palavra que fosse. ― Ela vai perder o juízo, pelo que sei. Ela está falando da cerimônia na sacada... E o jeito como se veste! Os pais não têm mais nenhum controle sobre os filhos! Ele arriou junto a uma parede.
Desculpe, murmurou Elena.
A cerimônia. Bom, as cerimônias de Magia Negra em geral aconteciam ao nascer da lua ou à meia-noite. E faltavam poucos minutos para a meia-noite. Mas naqueles instantes, Elena já havia bolado o Plano B.
Com licença disse, tirando o drinque da mão do Sr. Forbes e jogando na cara de Damon, que saiu de um armário. Depois ela gritou: ― Algum lugar em que a espécie deles não possa ver!
E entrou no...
Limbo?
Paraíso?


Algum lugar em que a espécie deles não possa ver. No início Elena se indagou sobre si, porque ela mesma não conseguia ver muita coisa.
Mas depois percebeu onde estava, debaixo da terra, abaixo da tumba vazia de Honoria Fell. Um dia, ela lutou aqui embaixo para salvar a vida de Stefan e Damon.
E agora, onde não devia haver nada a não ser escuridão, ratos e mofo, havia uma luzinha brilhante. Como uma Fada Sininho em miniatura – apenas uma centelha pairando no ar – não a chamava, não se comunicava com ela, mas... protegia, percebeu Elena. Ela pegou a luz, que era intensa e fria em seus dedos, e, girando-a, traçou um círculo grande o bastante para um adulto se deitar em seu interior.
Quando Elena se virou, Damon estava sentado no meio.
Ele parecia estranhamente pálido para alguém que tinha acabado de se alimentar. Mas nada disse, nem uma palavra, só a encarava. Elena foi até ele e tocou seu pescoço.


Um segundo depois, Damon estava novamente bebendo profundamente do sangue mais extraordinário do mundo.
Em geral, ele seria analisado pelo sabor: gosto de fruta silvestre ou de fruta tropical, suave ou defumado, amadeirado ou cercado de uma nota sedosa... Mas não agora. Não este sangue, que ultrapassava em muito qualquer coisa para a qual ele tivesse palavras. Este sangue que o enchia de um poder que jamais conheceu...
Damon.
Por que ele não ouvia? Como podia beber este sangue extraordinário que tinha gosto de algo do além, e por que não ouvia a doadora?
Por favor, Damon. Por favor, lute...
Ele devia reconhecer aquela voz. Ele a ouviu muitas vezes.
Sei que estão controlando você. Mas eles não podem controlá-lo por inteiro. Você é mais forte do que eles. Você é o mais forte...
Bom, isso certamente era verdade. Mas ele ficava cada vez mais confuso. A doadora parecia estar infeliz e ele era mestre em fazer doadoras felizes. E Damon não se lembrava muito bem... Realmente devia se lembrar de como isso tinha começado.
Damon, sou eu. Elena. E você está me machucando.
Tanta dor e tanto assombro. Desde o início, Elena sabia muito bem que não devia lutar quando bebiam de suas veias. Isso só causaria agonia, e não faria o menor bem a ela, só impediria seu cérebro de trabalhar. Então tentava fazê-Io combater a besta terrível dentro dele.
Ora, sim, mas a mudança tinha de vir de dentro. Se ela o obrigasse, Shinichi perceberia e o possuiria novamente. Além de tudo, o simples mote, Damon, seja forte, não estava dando certo.
Então só o que se podia fazer era morrer? Elena devia pelo menos lutar, embora soubesse que a força de Damon tornaria a luta inútil. A cada gole que tomava de seu novo sangue, Damon ficava mais forte; ele se transformava cada vez mais em...
Em quê? Era o sangue dela. Talvez ele respondesse a seu apelo, que também era o apelo dela. Talvez, em algum lugar lá dentro, ele pudesse derrotar o monstro sem que Shinichi percebesse.
Mas ela precisava de um novo poder, algum truque novo...
E ao pensar nisso, Elena sentiu o novo Poder se movendo nela, e entendeu que sempre esteve ali, esperando pela ocasião certa para ser usado. Era um poder muito específico, não para ser usado na luta, nem para se salvar. Ainda assim, era dela e podia ser aproveitado. Os vampiros que a predavam só conseguiam alguns bocados, mas Elena tinha todo o suprimento de sangue cheio de seu enorme vigor.
E apelar a ele era fácil como tentar alcançá-Io com a mente e as mãos abertas.
Assim que ela o fez, novas palavras vieram a seus lábios e, o mais estranho de tudo, novas asas brotaram de seu corpo, tanto que Damon foi obrigado a se curvar acentuadamente para trás pelos quadris. Essas asas etéreas não eram para voar, mas para outra coisa, e quando se desfraldaram lentamente, formaram um arco imenso da cor do arco-íris cuja ponta se curvava, cercando e envolvendo Damon e Elena.
E ela disse telepaticamente: Asas da Redenção.
E por dentro, sem emitir som algum, Damon gritou.
E as asas se abriram um pouco. Só quem aprendeu muito sobre magia teria visto o que acontecia dentro delas. A angústia de Damon tornava-se a angústia de Elena enquanto ela tirava dele cada incidente doloroso, cada tragédia, cada crueldade que incitou a formação de camadas pétreas de indiferença e indelicadeza em torno de seu coração.
Camadas – duras como a pedra no coração de uma pequena estrela negra – se rompiam e dispersavam. Não paravam. Grandes nacos e pedregulhos fraturados, fragmentos espatifados. Alguns se dissolviam em nada mais do que uma nuvem de fumaça acre.
Mas havia algo no centro – um núcleo mais escuro do que o inferno e mais duro do que os chifres do demônio. Ela não conseguia ver bem o que havia ali. Pensou – teve esperança – de que no fim até aquilo explodisse.
Agora, e só agora, ela podia invocar o par seguinte de asas. Não sabia se sobreviveria ao primeiro ataque; certamente não achava que poderia sobreviver a este. Mas Damon precisava saber.
Damon estava sobre um joelho no chão, com os braços envolvendo firmemente o próprio corpo. Isso devia ser bom. Ele ainda era Damon e provavelmente estaria muito mais feliz sem o peso de todo aquele ódio, preconceito e crueldade. Ele não continuaria se lembrando de sua juventude e dos outros jovens que zombaram de seu pai por ser um velho tolo, com seus investimentos desastrosos e uma amante mais nova do que os próprios filhos. Nem se prenderia interminavelmente à sua infância, quando o pai o espancava em ataques de uma fúria bêbada quando Damon negligenciava os estudos ou andava em companhias questionáveis.
E por fim ele não continuaria a saborear e contemplar as mesmas coisas terríveis que fez a si mesmo. Ele fora redimido, em nome dos céus, pelas palavras colocadas na boca de Elena.
Mas agora... Havia algo de que ele precisava se lembrar. Se Elena tivesse razão.
Se ao menos ela tivesse razão.
Que lugar é este? Está ferida, menina?
Em sua confusão, ele não a reconhecia. Estava de joelhos; agora Elena se ajoelhou ao lado dele.
Ele a olhou com ardor.
Estamos rezando ou fazendo amor? Estamos de vigília ou na casa dos Gonzalgo?
Damon disse ela ― sou eu, Elena. Agora estamos no século XXI, e você é um vampiro. Depois, abraçando-o com gentileza, com o rosto encostado no dele, ela sussurrou: ― Asas da Lembrança.
E um par de asas de borboleta transparentes, nas cores violeta, cerúleo e azul meia-noite, brotaram de suas costas, pouco acima dos quadris. As asas eram decoradas com safiras e ametistas mínimas e translúcidas, num desenho intrincado. Com músculos que ela jamais usou na vida, ela as levou facilmente para cima e para frente, até que se curvassem de dentro para fora, e Damon foi abrigado dentro delas. Era como ser fechado numa caverna escura cravejada de joias.
Ela podia ver nas feições refinadas de Damon que ele não queria se lembrar de nada mais do que já recordava agora. Mas novas lembranças, memórias ligadas a ela, já se acumulavam dentro dele. Ele olhou o anel de lápis-lazúli que tinha no dedo, e Elena pôde ver lágrimas brotando em seus olhos. Depois, lentamente, o olhar dele se voltou para ela.
Elena?
Sim.
Alguém me possuiu e me tirou as lembranças do tempo que passei possuído sussurrou.
Sim... Pelo menos, acho que sim.
E alguém a feriu.
Sim.
Jurei matá-Io ou fazer dele seu escravo mais de cem vezes. Ele bateu em você. Tirou seu sangue à força. Inventou histórias ridículas sobre machucar você de outras maneiras.
Damon. Sim, é verdade. Mas por favor...
Eu estava atrás dele. Se eu o encontrasse, podia tê-Io atropelado; podia ter arrancado seu coração ainda batendo do peito. Ou podia ter ensinado as lições mais dolorosas que ouvi... E ouvi muitas histórias... E, no fim, com a boca ensanguentada, ele teria beijado seus pés, seria seu escravo até morrer.
Isso não era bom para ele. Elena podia ver. Os olhos de Damon estavam cercados de branco, como os de um potro apavorado.
Damon, eu lhe imploro...
E aquele que machucou você... Fui eu.
Não se culpe. Você mesmo disse. Estava possuído.
Você teve tanto medo de mim que tirou a roupa para mim.
Elena se lembrou da camisa Pendleton original.
Eu não queria que você e Matt brigassem.
Você deixou que eu a sangrasse, contrariando sua própria vontade.
Desta vez ela não conseguiu dizer nada a não ser umSim”.
Eu... Meu Deus!... Usei meus Poderes para lhe provocar uma aflição horrível!
Se quer dizer um ataque que provoca dor e convulsões horrendas, sim. E você fez pior com Matt.
Matt não estava no radar de Damon.
E depois eu a raptei.
Você tentou.
E você pulou de um carro em alta velocidade em vez de se arriscar comigo.
Você estava jogando pesado, Damon. Eles lhe disseram para pegar pesado, talvez até para quebrar seus brinquedos.
E eu fiquei procurando por quem fez você pular do carro... Não conseguia me lembrar de nada antes daquilo. E jurei que arrancaria os olhos e a língua dele antes que morresse em agonia. Você não podia andar. Teve que usar uma muleta para atravessar o bosque e, justo quando a ajuda devia chegar, Shinichi a atraiu para uma armadilha. Ah, sim, eu o conheço. Você ficou vagando dentro do globo de neve dele... E ainda estaria vagando se eu não o tivesse quebrado.
Não disse Elena em voz baixa. ― Eu teria morrido há muito tempo. Você me encontrou quando eu estava quase asfixiada, lembra?
Sim um momento de alegria intensa em seu rosto. Mas voltou o olhar vidrado e apavorado. ― Eu fui o torturador, o perseguidor, aquele de quem você teve tanto medo. Eu a obriguei a fazer coisas com... com...
Matt.
Ah, Deus disse ele, e era claramente uma invocação à deidade, não apenas uma exclamação, porque ele olhou para cima, erguendo as mãos cerradas para o céu. ― Pensei que seria um herói para você. Em vez disso, eu sou a abominação. E agora? Por direito, eu já devia estar morto aos seus pés.
Ele fitou Elena com os olhos arregalados, animalescos e negros. Não havia humor neles, nenhum sarcasmo, nem hesitação. Ele parecia muito novo e bastante desvairado e desesperado. Se fosse uma pantera negra, teria andado pela jaula freneticamente, mordendo as grades.
Depois tombou a cabeça para beijar os pés descalços de Elena.
Elena ficou chocada.
Sou seu para fazer o que quiser de mim disse ele na mesma voz atordoada. ― Pode ordenar que eu morra agora mesmo. Depois de toda minha conversa sagaz, vejo que o monstro sou eu.
E Damon chorou. Provavelmente nenhuma outra circunstância podia levar lágrimas aos olhos de Damon Salvatore. Mas ele ficou encurralado. Jamais quebrou sua palavra, e prometeu que arrebentaria o monstro, aquele que fez tudo isso com Elena. O fato de que Damon estava possuído – no início um pouco, depois cada vez mais, até que toda sua mente era simplesmente mais um dos brinquedos de Shinichi, a ser usado e descartado a seu bel-prazer – não compensava seus crimes.
Você sabe que eu... sou amaldiçoado disse, como se talvez nisso fosse um atalho para a reparação.
Não, eu não sei, ― disse Elena. ― Porque não acredito isso. E Damon, pense em quantas vezes você os combateu. Sei que eles queriam que você matasse Caroline naquela primeira noite, quando disse que sentiu algo no espelho dela. Você disse que quase a matou. Sei que eIes queriam que você me matasse. Vai fazer isso?
Ele se curvou aos pés de Elena de novo, e ela apressadamente o pegou pelos ombros. Não suportava ver Damon com tanta dor.
Mas agora Damon olhava para cá e para lá, como se tivesse um propósito definido. Ele também girava o anel de lápis-lazúli.
Damon... No que está pensando? Diga-me no que está pensando!
Que ele pode me escolher como sua marionete novamente... E desta vez pode haver uma estaca de madeira de verdade. Shinichi... Ele é o monstro por trás de sua crença inocente. E ele pode me dominar num átimo. Nós vimos isso.
Ele não poderá, se você me deixar lhe dar um beijo.
O quê? Damon a olhou como se ela não tivesse acompanhado a conversa corretamente.
Deixe-me lhe dar um beijo... E tirar esse malach moribundo de dentro de você.
Moribundo?
Ele morre um pouco mais a cada vez que você recupera forças suficientes para dar as costas a ele.
É... muito grande?
A essa altura, do seu tamanho.
Que bom sussurrou ele. ― Eu só queria poder lutar com ele eu mesmo.
Pour le sport? respondeu Elena, mostrando que seu verão na França no ano anterior não foi um completo desperdício.
Não. Porque eu o odeio mortalmente e preferia sofrer mil vezes sua dor, desde que eu soubesse que estava ferindo a coisa.
Elena concluiu que não era hora de se demorar. Ele estava pronto.
Vai me deixar fazer essa última coisa?
Eu já lhe disse... O monstro que machucou você é agora seu escravo.
Muito bem. Podiam discutir essa questão mais tarde. Elena se inclinou para frente e ergueu a cabeça com os lábios franzidos de leve.
Depois de alguns segundos, Damon, o Don Juan das trevas, entendeu o que ela queria.
Ele a beijou com muita gentileza, como se temesse fazer contato demais.
Asas da Purificação sussurrou Elena contra os lábios dele.
As asas eram brancas como neve e pareciam renda, mal visíveis em alguns lugares. Arquearam-se acima de Elena, no alto, cintilando com uma iridescência que a lembrava do luar em teias de aranha congeladas. Envolveram mortal e vampiro numa teia feita de diamantes e pérolas.
Isto vai doer em você disse Elena, sem entender como sabia.
O conhecimento parecia vir no momento em que ela precisava dele. Era quase como estar num sonho em que grandes verdades são compreendidas sem a necessidade de aprendê-Ias, e são aceitas sem assombro.
E era assim que ela sabia que as Asas da Purificação procurariam e destruiriam qualquer coisa estranha dentro de Damon e que a sensação podia ser muito desagradável para ele. Quando o malach não pareceu sair por vontade própria, ela disse, incitada por sua voz interior:
Tire a camisa. O malach está preso à sua coluna e está mais perto da pele de sua nuca, por onde entrou. Vou ter que arrancá-Io pela mão.
Preso à minha coluna?
Sim. Já sentiu? Acho que no início deve ter parecido uma picada de abelha, enquanto entrava em você, só um furo afiado e uma bolha de gelatina que grudou na sua coluna.
Ah. A picada de mosquito. Sim, eu senti. E mais tarde meu pescoço começou a doer, e por fim todo o meu corpo. A coisa estava... crescendo dentro de mim?
Sim, e controlando cada vez mais seu sistema nervoso. Shinichi controlava você como uma marionete.
Meu bom Deus, eu lamento tanto.
Vamos fazer com que ele se lamente, e não você. Vai tirar a camisa?
Em silêncio, como uma criança confiante, Damon tirou a jaqueta preta e a camisa. Depois, enquanto Elena o colocava na posição correta, ele se deitou atravessado em seu colo, as costas pálidas para cima e os músculos firmes contra o chão escuro.
Desculpe disse ela. ― Livrá-lo desse jeito... Puxando pelo buraco por onde entrou... Vai doer de verdade.
Que bom grunhiu Damon. E ele enterrou o rosto em seus braços macios e musculosos.
Elena usou as pontas dos dedos, tateando o alto da coluna de Damon, procurando o que queria. Um ponto mole. Uma bolha. Quando a encontrou, a perfurou com as unhas até que o sangue de repente brotou.
Ela quase o perdeu ao tentar agarrá-lo, mas o estava perseguindo com as unhas afiadas – e demorava demais. Por fim ela teve de segurá-lo com firmeza entre as unhas do polegar e de outros dois dedos.
O malach ainda estava vivo e consciente o bastante para resistir um pouco a Elena. Mas era como uma água-viva tentando resistir – só que a água-viva se parte quando a puxamos. Esta coisa escorregadia e pegajosa em forma de homem conservou sua forma à medida que ela o puxava lentamente pela brecha na pele de Damon.
E isso provocava dor em Damon. Elena sabia. Ela começou a tomar parte de sua dor para si, mas ele arfou, “Não!” com tal veemência que ela decidiu deixar que ele suportasse sozinho.
O malach era muito maior e muito mais substancial do que ela havia imaginado. Deve ter crescido ali por um bom tempo, pensou – uma bolinha de gelatina que se expandiu até controlar Damon até a ponta dos dedos. Ela precisou se sentar, depois se afastar de Damon e depois voltar para que o malach estivesse no chão, uma caricatura branca, viscosa e filamentosa de corpo humano.
Acabou? Damon estava sem fôlego; realmente doera.
Sim.
Damon se levantou e olhou a coisa branca e flácida – que se retorcia um pouco – que o obrigara a perseguir a pessoa de quem ele mais gostava no mundo.
Depois, deliberadamente, pisou nela, esmagando-a sob os calcanhares de suas botas até que ela se desfez em pedaços, em seguida pisoteou os fragmentos. Elena deduziu que ele não se atrevia a explodi-Ia com seu Poder por medo de alertar Shinichi.
Por fim, só o que restou foi uma mancha e um fedor.
Elena não sabia por que se sentiu tonta naquele momento, mas estendeu a mão para Damon e ele a pegou, e os dois ficaram de joelhos, abraçados.
Eu o libero de qualquer promessa que tenha feito... Enquanto estava na posse deste malach disse Elena.
Isto era estratégico. Ela não queria liberá-lo da promessa de cuidar do irmão.
Obrigado sussurrou Damon, o peso de sua cabeça no ombro de Elena.
E agora disse Elena, como uma professora de jardim de infância que quer passar rapidamente a outra atividade. ― Precisamos fazer planos. Mas planos ultrassecretos...
Temos que partilhar sangue. Mas Elena, quanto você doou hoje? Você está pálida.
Você disse que seria meu escravo... e agora não quer tirar um pouco do meu sangue.
Você disse que me liberou... Em vez disso vai me prender para sempre, não é? Mas há uma solução mais simples. Tome um pouco do meu sangue.
E no fim foi o que eles fizeram, embora Elena se sentisse um tanto culpada por isso, como se estivesse traindo Stefan. Damon se cortou com o mínimo de estardalhaço, depois começou a acontecer – estavam partilhando mentes, fundindo-se. Em um período de tempo muito mais curto do que levaria para pronunciar as frases em voz alta, acabou-se: Elena contou a Damon o que os amigos descobriram sobre a epidemia entre as meninas de Fell’s Church, e Damon contou a Elena tudo o que sabia sobre Shinichi e Misao. Elena elaborou um plano para lidar com qualquer outra jovem possuída como Tamra, e Damon prometeu tentar descobrir dos gêmeos kitsune onde Stefan estava.
E, por fim, quando não havia mais nada a dizer e o sangue de Damon restaurava a cor fraca do rosto de Elena, eles combinaram quando se encontrariam novamente.
Na cerimônia.
Depois só havia Elena naquele ambiente, e um grande corvo batia suas asas na direção do antigo bosque.
Sentada no chão de pedra fria, Elena precisou de um momento para reunir tudo o que sabia. Não admirava que Damon parecesse tão esquizofrênico. Não admirava que ele tivesse se lembrado, e depois esquecido, em seguida se lembrado de novo de que era dele que ela fugia.
Ele se lembrou, raciocinou Elena, quando Shinichi não o estava controlando, ou pelo menos o mantinha com rédeas soltas. Mas sua memória era irregular porque várias coisas que fez foram tão terríveis que sua própria mente as rejeitara. Elas se tornaram parte da memória possuída de Damon, porque, quando possuído, Shinichi controlava cada palavra, cada ato. E entre os episódios, Shinichi lhe dizia que precisava encontrar o torturador de Elena e matá-lo.
Tudo muito divertido, supôs ela, para este kitsune, esse Shinichi, mas para ela e Damon foi o inferno.
Sua mente se recusava a admitir que houve momentos maravilhosos misturados aos ruins. Ela era de Stefan e só dele. Isso jamais mudaria.
Agora Elena precisava de mais uma porta mágica e não sabia como encontrar. Mas havia a luz da Fada Sininho de novo. Ela imaginou ser o que restava da magia que Honoria Fell deixara para proteger a cidade que fundou.
Elena se sentiu um pouco culpada, usando-a – mas se isso não era para ela, por que a trouxe aqui?
Para se submeter ao destino mais importante que ela podia imaginar.
Estendendo a mão para a centelha e segurando a chave na outra, ela sussurrou com toda intensidade:
Um lugar onde eu possa ver, ouvir e tocar Stefan.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!