26 de novembro de 2015

Capítulo 33

Para sua surpresa, Elena não demonstrou raiva, apenas determinação em proteger Stefan, se ela pudesse.
Na cela que ela imaginava estar vazia, havia um kitsune.
O kitsune não era nada parecido com Shinichi ou Misao. Tinha cabelos muito compridos, brancos como a neve — mas seu rosto era jovem. Estava vestido todo de branco, colete e calça de algum tecido leve e sedoso, e sua cauda praticamente enchia a pequena cela, pois era muito peluda. Também tinha orelhas de raposa que se torciam de um lado a outro. Os olhos eram do ouro de fogos de artifício.
Ele era lindo.
O kitsune tossiu de novo, depois pegou — provavelmente tirou de seu cabelo comprido, pensou Elena — uma bolsinha de couro muito pequena e de um material muito fino.
A bolsa perfeita para uma jóia perfeita, pensou Elena.
Em seguida, fingiu pegar uma garrafa imaginária de Black Magic (era pesada, e um gole imaginário foi delicioso) e encheu a bolsa com o vinho.
Depois pegou uma seringa imaginária (assim como o Dr. Meggar havia feito e bateu nela para tirar as bolhas de ar) e a encheu com o líquido da bolsinha. Por fim, enfiou a seringa imaginária entre as grades e apertou o êmbolo, esvaziando-a. — Posso alimentar você com o vinho Black Magic — disse Elena, ao entender o que o kitsune estava tentando mostrar a ela.  Com a bolsinha, posso segurá-la e encher a seringa. O Dr. Meggar podia me ajudar. Mas não há tempo, então terei de fazer eu mesma.
— Eu... — começou Stefan.
— Beba o mais rápido que puder. — Elena amava Stefan, queria ouvir a voz dele, queria encher seus olhos com sua imagem do amado, mas havia uma vida a ser salva, e essa vida era a dele. Ela pegou a bolsinha, agradecendo ao kitsune e deixou o manto no chão. Estava concentrada demais em Stefan para se lembrar como estava vestida.
Ela não permitiu que suas mãos tremessem. Havia três garrafas de Black Magic ali: a dela, em seu manto, a do Dr. Meggar e outra escondida, no manto de Damon.
Assim, com a eficiência de uma máquina, ela repetiu várias vezes o que o kitsune mostrara. Mergulhar a seringa, puxar o êmbolo, passar pelas grades, apertar. Várias vezes, sem parar.
Depois de umas dez vezes, Elena desenvolveu uma nova técnica. Ela encheu a bolsinha de vinho e segurou-a no alto para Stefan posicionasse a boca e pudesse beber, num só gole ela espremesse a bolsa com as mãos.
Sujou as grades, sujou Stefan; jamais teria dado certo se o aço pudesse ferir Stefan, mas acabou forçando uma quantidade surpreendente de Black pela garganta dele.
Ela deu a outra garrafa de vinho ao kitsune, cuja cela era de grades normais. Não sabia como agradecer, mas ao parar por um segundo, virou-se para ele e sorriu. Ele bebia o vinho direto da garrafa e seu rosto tinha uma expressão de prazer frio e apreço.
Aquilo acabou rápido demais. Elena ouviu a voz de Sage trovejando,
 Não é justo! Elena não estará pronta! Elena não tempo suficiente com ele!
Elena não precisava que lhe dissessem que seu tempo acabara. Enfiou a garrafa de Black Magic na cela do kitsune, fez uma última mesura e lhe devolveu a bolsinha — mas com o diamante canário que estava em seu umbigo. Era a maior jóia que lhe restava e ela o viu virá-la com precisão com dedos de unhas compridas e colocar-se de pé para lhe agradecer. Houve uma troca de sorrisos e depois Elena pegou a maleta do Dr. Meggar e vestiu o manto vermelho. Em seguida se virou para Stefan, mais uma vez mole por dentro, ofegando:
— Desculpe. Eu não pretendia que fosse uma visita tão rápida.
— Mas você viu a chance de salvar minha vida e não pôde desperdiçar.
Aqueles irmãos às vezes eram parecidos demais.
— Stefan, não! Oh, eu amo você!
— Elena. — Ele beijou seus dedos comprimidos na grade. Depois, se virou para os guardas: — Não, por favor, por favor, não a levem embora! Tenham piedade, nos deem mais um minuto! Só um minuto!
Mas Elena teve de soltar os dedos para fechar o manto. Na última vez que viu Stefan, ele socava as grades com os punhos e gritava: ― Elena, eu te amo! Elena!‖
Então Elena foi arrastada pelo corredor e uma porta se fechou atrás deles.
Ela desfaleceu.
Braços estavam ao seu redor, ajudando-a a andar. Elena estava furiosa! Se Stefan fosse colocado em sua antiga cela tomada de piolhos — como devia estar agora —, ele poderia andar. E aqueles demônios não faziam nada de boa vontade, ela sabia. Ele provavelmente estava sendo tratado como um animal, podia até mesmo estar sendo torturado.
Elena já conseguia andar sozinha.
Quando chegaram na frente do saguão da Shi no Shi, Elena olhou em volta.
— Onde está Damon?
— No coche — respondeu Sage com uma voz muito gentil. — Ele precisava de um tempo.
Parte de Elena disse: ― Vou dar um tempo a ele! Tempo para gritar uma vez antes que eu rasgue sua garganta!  Mas no fundo ela estava apenas triste.
— Não consegui falar nada do que queria. Eu queria contar a ele o quanto Damon estava arrependido; que ele mudou. Ele nem se lembrava de ver Damon lá...
— Ele falou com você? — Sage parecia surpreso.
Sage e Elena, saíram pelas últimas portas de mármore do prédio dos Deuses da Morte — nome escolhido mentalmente por Elena para a prisão.
A carruagem estava junto ao meio-fio diante deles, mas nenhum dos dois entrou. Sage conduziu Elena gentilmente a certa distância dos outros, pôs as mãos grandes em seus ombros e falou, ainda naquela voz muito suave.
— Deus, minha criança, não quero lhe dizer isso. Mas devo. Temo que mesmo que tiremos Stefan aqui no dia da festa de Lady Bloddeuwedd... Temo que seja tarde demais. Em três dias ele pode estar...
— Esta é sua opinião médica? — perguntou Elena incisivamente, olhando para ele de cima. Ela sabia que seu rosto estava inchado e pálido e que ele tinha muita pena dela, mas queria era uma resposta sincera.
— Não sou médico — disse devagar. — Sou apenas outro vampiro.
— Apenas outro Antigo, você quer dizer? — As sobrancelhas de Sage se ergueram.
— Ora, o que lhe fez pensar isso?
— Nada. Desculpe se eu estiver enganada. Mas pode, por favor, trazer o Dr. Meggar?
Sage a olhou por mais um longo instante, depois foi buscar o médico. Os dois homens voltaram.
Elena estava preparada para eles.
— Dr. Meggar, Sage só viu Stefan no início, antes de o senhor lhe dar a injeção. Ele acha que Stefan estará morto em três dias. O senhor concorda com isso, mesmo depois da injeção?
O Dr. Meggar olhou para ela e Elena podia ver as lágrimas surgindo em seus olhos míopes.
— É... possível... apenas possível que, se ele tiver força de vontade suficiente, possa sobreviver. Mas é mais provável...
— O que você diria se eu dissesse que ele tomou talvez um terço da garrafa de Black Magic esta noite? — Os dois homens a encararam.
— Está dizendo...
— Este é só um plano seu?
— Por favor! — Esquecendo-se da capa, esquecendo-se de tudo, Elena segurou as mãos do Dr. Meggar. — Encontrei uma maneira de fazer com que ele bebesse essa quantidade. Faz alguma diferença? — Ela apertou as mãos velhas do Dr. Meggar até sentir os ossos.
— Certamente sim. — O Dr. Meggar parecia desnorteado e com medo de dar esperanças. — Se realmente conseguiu que essa quantidade entrasse em seu organismo, ele provavelmente viverá até a noite da festa de Bloddeuwedd. É isso que quer, não é?
Elena se curvou e deu um pequeno beijo em suas mãos antes de soltá-las.
— E agora vamos contar as boas-novas a Damon — disse ela.


Na carruagem, Damon estava sentado ereto, o perfil delineado contra um céu vermelho-sangue. Elena entrou e fechou a porta. Sem expressar nada, ele perguntou:
— Acabou?
— Se acabou? — Elena não era burra, mas queria ter certeza do que Damon estava falando.
— Ele está... morto? — disse Damon, cansado, apertando os olhos.
Elena deixou que o silêncio durasse mais algumas batidas do coração.
Damon certamente sabia que Stefan não morreria na meia hora seguinte. Mas enquanto não tinha uma confirmação, parecia angustiado.
— Elena, me conte! O que aconteceu? — perguntou, com urgência na voz. — Meu irmão está morto?
— Não — disse Elena em voz baixa. — Mas provavelmente morrerá em alguns dias. Desta vez ele estava lúcido, Damon. Por que não falou com ele?
Damon se encolheu.
— O que eu diria a ele? — perguntou, rispidamente. ― 'Ah me desculpe por quase ter matado você? Ah, espero que aguente por mais uns dias'?
— Sim, se você conseguisse evitar o sarcasmo.
— Quando eu morrer — disse Damon de um jeito afiado — estarei sobre os próprios pés, lutando.
Elena lhe deu um tapa na boca. Não havia espaço para tormar impulso, mas ela colocou no movimento o máximo de Poder que se atreveu sem se arriscar a quebrar a carruagem.
Depois disso, houve um longo silêncio. Damon tocava o lábio que sangrava, acelerando a cura, ao engolir o próprio sangue.
Por fim ele falou.
— Nunca lhe ocorreu que você é minha escrava, não é? Que eu sou seu senhor?
— Se vai apelar para a fantasia, o problema é seu — disse Elena. — Tenho de lidar com o mundo real. E a propósito, logo depois de você fugir, Stefan estava não só de pé, mas também rindo.
— Elena... — disse ele em um tom crescente. — Você conseguiu lhe dar sangue? — Ele segurou o braço dela com tanta força que a machucou.
— Sangue, não. Um pouco de Black Magic. Se nós dois estivéssemos lá, teria sido duas vezes mais rápido.
— Vocês eram três lá dentro.
— Sage e o Dr. Meggar tiveram de distrair os guardas.
Damon afastou a mão.
— Já sei — disse ele sem expressão. — Então falhei com ele de novo.
Elena olhou para ele, solidária.
— Você agora está dentro da pedra, não é?
— Não sei do que está falando.
— A pedra em que você guarda qualquer coisa que possa te machucar. Você até se retira para dentro ela, embora deva ser apertado lá dentro. Katherine deve estar lá, imagino, emparedada em seu próprio quartinho. — Elena se lembrou da noite no hotel. — E sua mãe, é claro. Eu deveria dizer a mãe de Stefan. Ela era a mãe, você sabia disso.
— Não... Minha mãe... — Damon mal conseguiu formar uma frase coerente.
Elena sabia o que ele queria. Ele queria ser abraçado e tranquilizado, ouvir que tudo estava bem — só os dois, sob o manto de Elena, envolvido em seus braços quentes. Mas ele não ia conseguir isso. Desta vez ela ia dizer não.
Ela prometera a Stefan que isso era para ele, e só para ele. E, pensou Elena, ela manteria sua palavra mesmo que só em espírito.


À medida que a semana avançava, Elena ia se recuperando da dor de ver Stefan. Embora nenhum deles pudesse falar a respeito, a não ser por exclamações breves e sufocadas, eles ouviram quando Elena disse que ainda havia uma tarefa a ser cumprida e que, se a executassem com sucesso, poderiam ir para casa logo — ao passo que, se não a concluíssem, Elena não se importava se iria para casa ou ficaria ali, na Dimensão das Trevas.
Ir para casa! Parecia um paraíso, embora Bonnie e Meredith soubessem em primeira mão o inferno que esperava por elas em Fell's Church. Mas de algum modo qualquer coisa seria preferível a esta terra de luz de sangue.
Com a esperança aumentando as chamas de seu entusiasmo, elas mais uma vez sentiram prazer com os vestidos que Lady Ulma lhes fazia. Desenhar era uma atividade de que a dama ainda podia desfrutar durante seu repouso, trabalhando arduamente em seu caderno de desenhos. Como a festa de Bloddeuwedd seria ao ar livre e no interior da mansão, todos os três vestidos tiveram de ser cuidadosamente desenhados para parecer atraentes tanto sob a luz de velas quanto sob os raios carmim daquele sol vermelho gigante.
O vestido de Meredith era de um azul-escuro metalizado, violeta ao sol, e mostrava um lado inteiramente diferente da garota no vestido de sereia colado que foi ao baile de Fazina. Fazia, Elena se lembrar de uma princesa egípcia.
Novamente, deixava os braços e os ombros de Meredith à mostra, mas a saia modesta e estreita que caía em linhas retas até a altura de suas sandálias, e a delicadeza das contas de safira que enfeitavam as alças, conferiam a Meredith um visual despretensioso. Este efeito era realçado pelo cabelo dela, que Lady Ulma determinou que estivesse solto, e seu rosto, quase sem maquiagem, a não ser por um leve toque de delineador em volta dos olhos. No pescoço, um ornato feito de grandes safiras de lapidação arredondada formavam um colar elaborado. Ela também tinha pedras preciosas azuis nos pulsos e nos dedos magros.
O vestido de Bonnie era uma pequena invenção inteligente: feito de um tecido sedoso que assumia um tom pastel da cor da luz ambiente. Num ambiente fechado reluzia como a lua, brilhava num rosa claro, lembrando o tom arruivado do cabelo de Bonnie. O visual era composto por cinto, colar, pulseiras, brincos e anéis de opalas brancas em lapidação cabuchão. Os cachos de Bonnie foram cuidadosamente presos e afastados do rosto, numa mecha ousada com gel, deixando sua pele transparente brilhando num rosado suave à luz do sol e de uma palidez éterea no interior da casa.
Mais uma vez, o vestido de Elena era o mais simples e o mais impressionante. Era escarlate tanto sob o sol vermelho-sangue quanto sob as luzes a gás do interior. Era bem decotado, dando à sua pele cremosa um brilho dourado à luz do sol. Ficava justo no corpo e tinha uma fenda ao lado para que ela pudesse andar ou dançar confortavelmente. Na tarde da festa, Lady Ulma fez com que o cabelo de Elena fosse cuidadosamente escovado em uma nuvem elaborada de brilho dourado-avermelhado ao ar livre, mas apenas dourada dentro de casa. Ela estava coberta de diamantes, desde a base do decote, passando pelos dedos, pulsos, um antebraço. Também usava uma gargantilha de diamantes que cobria o colar de Stefan. Tudo isso brilhava vermelho como rubi ao sol, mas de vez em quando emitia outra cor impressionante, como uma explosão de pequenos fogos de artifício. Os espectadores, prometeu Lady Ulma, ficariam deslumbrados.
— Mas não posso usar essas jóias — protestou Elena com Lady Ulma.  Pode ser que não os veja mais... Depois de pegar Stefan, teremos que fugir!
— Nós também — acrescentou Meredith rapidamente, olhando cada uma das meninas em suas cores azul-prateado, escarlate e opala dentro da casa. — Todas estaremos usando as jóias com que ficaremos dentro ou fora da casa... Mas a senhora pode perder todas!
— E vocês podem precisar de todas elas — disse Lucen em voz alta. — Mais um motivo para cada uma de vocês usá-las. Pode ser que precisem trocar por carruagens, segurança, comida, o que for. O design delas é simples... Vocês podem arrancar uma pedra e usar como pagamento, e elas têm um engaste simples também, difícil não ser do gosto de algum colecionador.
Além disso, todas são da mais alta qualidade — acrescentou Lady Ulma. — São os exemplares mais perfeitos de seu tipo que conseguimos em tão pouco tempo.
A essa altura as três meninas chegaram a seu limite e avançaram para o casal — Lady Ulma em sua cama enorme, com o caderno sempre ao lado, e Lucen de pé, perto dela — e choraram, beijaram, borrando a bela e bem-feita maquiagem.
— Vocês são como anjos para nós, sabiam? — Elena soluçava. — Como fadas madrinhas ou anjos da guarda! Não sei como vou seguir me despedir de vocês!
— Como anjos — disse Lady Ulma então, enxugando uma lágrima do rosto de Elena. Depois segurou Elena, dizendo: ― Olhe!  e gesticulou para si mesma confortavelmente na cama, acompanhada de duas jovens de olhos lacrimosos e radiantes, prontas para atender a seus desejos. Lady Ulma então assentiu para a janela, pela qual se via um pequeno curso d‘agua e algumas ameixeiras com os frutos maduros cintilando como jóias nos galhos; em seguida, com um gesto, indicou os jardins, o pomar, os campos e as florestas da propriedade.
Depois pegou a mão de Elena e a passou na barriga de curvatura suave.
— Está vendo? — Ela falava quase aos sussurros. — Vê tudo isso... e pode se lembrar como me encontrou? Quem de nós é o anjo agora?
Às palavras "como me encontrou", as mãos de Elena voaram para cobrir o rosto — como se ela fosse incapaz de suportar a lembrança que lhe vinha à mente naquele momento. Ela abraçou e beijou Lady Ulma de novo, e deram início a uma nova rodada de abraços que destruíram de vez a maquiagem.
— O amo Damon foi muito gentil em comprar Lucen — disse Lady Ulma — e você pode não acreditar, mas — ela fitou com os olhos cheios de lágrimas o joalheiro calado e barbudo — sinto por ele o que você sente pelo seu Stefan. — E ela corou e escondeu o rosto nas mãos.
— Ele está libertando Lucen agora — disse Elena, ajoelhando-se para pousar a cabeça no travesseiro de Lady Ulma. — E passando a propriedade para o nome da senhora, irrevogavelmente. Ele contratou um advogado... Um bacharel, como dizem... para trabalhar na papelada a semana toda com um Guardião. Mesmo que que aquele general horrível volte, não poderá tocar na senhora. Terá a sua casa para sempre.
Mais choros. Mais beijos. Sage, que inocentemente passava pelo corredor, assoviando, depois de dar uma volta com seu cão, Sabber, passou pelo quarto de Lady Ulma e foi atraído para ele.
— Também vamos sentir a sua falta! — Elena chorava. — Ah, obrigada!


Naquele mesmo dia, Damon cumpriu todas as promessas que fizera a Elena além de dar uma grande bonificação a cada integrante da criadagem. O ar ficou cheio de confete metálico, pétalas de rosa, música e gritos de despedida enquanto Damon, Elena, Bonnie e Meredith eram levados à festa de Bloddeuwedd — e partiam para sempre.
— Pensando bem, por que Damon não libertou a gente? — perguntou Bonnie a Meredith, enquanto seguiam em liteiras para a mansão de Bloddeuwedd. — Sei que precisávamos ser escravas para entrar neste mundo, mas agora já estamos nele. Por que não fazer de nós garotas honestas?
— Bonnie, nós já somos garotas honestas — lembrou-lhe Meredith. — E acho que a questão é que nunca fomos escravas de verdade.
— Bom, quero dizer... Por que ele não nos liberta para que todo mundo saiba que somos meninas honestas. Meredith, você entendeu o que eu quero dizer.
— Porque não se pode libertar alguém que já é livre, é por isso.
— Mas ele podia ter passado pelo cerimonial — insistiu Bonnie. — Ou é tão difícil assim libertar uma escrava por aqui?
— Não sei — disse Meredith, finalmente cedendo a esta inquirição incansável. — Mas vou lhe dizer por que acho que ele não fez isso. Eu acho que é porque assim ele é responsável por nós. Quero dizer, as escravas podem muito bem ser castiga-las... Nós vimos o que aconteceu com Elena. —Meredith parou. As duas estremeceram com a lembrança. — Mas no fim das contas é o dono dos escravos quem pode perder a vida. Lembre-se, eles queriam enfiar uma estaca em Damon pelo que Elena fez.
— Então ele está fazendo isso por nós? Para nos proteger?
— Não sei. Eu... acho que sim — disse Meredith devagar.
— Então... Acho que estivemos erradas sobre ele antes? — Bonnie generosamente disse: ― estivemos‖ em vez de... você esteve.
No grupo de Elena, Meredith sempre foi a mais resistente aos encantos de Damon.
— Eu... acho que sim — disse Meredith de novo. — Mas parece que todo mundo esqueceu que até bem pouco tempo foi Damon quem ajudou os gêmeos kitsune a colocarem Stefan aqui! E Stefan sem dúvida não fez nada para merecer isso.
— Bom, isso é verdade — disse Bonnie, parecendo aliviada por não ter estado tão equivocada, e ao mesmo tempo estranhamente melancólica.
— E só o que Stefan sempre quis de Damon: paz e sossego — continuou Meredith, como se estivesse em terreno mais seguro assim.
— E Elena — acrescentou Bonnie automaticamente.
— Sim, sim... E Elena. Mas só o que Elena queria era Stefan! Quero dizer... Só o que Elena quer... — A voz de Meredith falhou. A frase parecia ter pedido o sentido no presente. Ela tentou de novo. — Só o que Elena quer agora é...
Bonnie a olhava, boquiaberta.
— Bom, seja lá o que for — concluiu Meredith, abalada, — ela quer que Stefan faça parte disso. E não gostaria que nenhuma de nós ficasse aqui... neste... neste buraco do inferno.
Na liteira bem ao lado delas, as coisas estavam muito calma Bonnie e Meredith estavam tão acostumadas a viajar em liteiras fechadas que nem perceberam que outro palanquim se coloca ao lado delas, e que suas vozes eram transportadas com clareza no ar quente e parado da tarde.
Na liteira ao lado, Damon e Elena olharam muito duro pelas cortinas de seda que adejavam.
Agora Elena, com um ar de quem precisava fazer alguma coisa, apressadamente desamarrou a corda e as cortinas se fecharam. Aquilo foi um erro, pois isolou Elena e Damon em um retângulo de brilho vermelho surreal, em que só as palavras que tinham acabado de ouvir pareciam ter validade.
Elena sentiu a respiração acelerar. Sua aura lhe escapava. Tudo lhe escapava.
Elas não acreditam que eu só quero ficar com Stefan!
— Aguente firme — disse Damon. — Esta é a última noite. Amanhã...
Elena levantou a mão como sinal para ele parar de falar.
— Amanhã já teremos achado a outra parte da chave e pegado Stefan e estaremos fora daqui — disse Damon mesmo assim.
Deus queira, pensou Elena. E fez uma oração.
Eles seguiram para a mansão grandiosa de Bloddeuwedd em silêncio. Por um tempo surpreendentemente longo, Elena não percebeu que Damon tremia. Era algo leve e involuntário, mas a alertou.
— Damon... Meu... Meu Deus do céu! — Elena ficou abalada, perplexa, não sem palavras, mas sem as palavras certas. — Damon, olhe para mim! Por quê?
 Por quê? — respondeu Damon na única voz que sabia que não ia tremer, nem falhar. — Porque... Já pensou no que está acontecendo com Stefan enquanto você vai a uma festa com roupas esplêndidas, sendo carregada, para beber o vinho mais refinado e dançar... Enquanto ele... Enquanto ele... — O pensamento não foi concluído.
Era exatamente o que eu precisava pouco antes de ser vista em público, pensou Elena, enquanto chegavam à longa entrada para a casa de Bloddeuwedd. Ela tentou apelar a seus recursos antes que as cortinas fossem puxadas e eles estivessem livres para sair e encontrar a segunda metade da chave.

2 comentários:

  1. É, parece que Damon está realmente, digo realmente, preocupado com Stefan.

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  2. Eu ainda gostaria Elena com Damon, se ele continuar assim.

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