26 de novembro de 2015

Capítulo 32

Elena estava radiante de felicidade. Ela foi dormir feliz, e acordou ainda mais feliz, serena, sabendo que em breve, muito em breve visitaria Stefan, e que depois disso — sem dúvida muito em breve também — conseguiria libertar seu amado.
Bonnie e Meredith não ficaram surpresas quando ela quis ver Damon, pensando em quem deveria ir com eles, e o que deveria vestir. Mas suas decisões deixaram as amigas surpresas.
— Se todos estiverem de acordo — disse ela devagar no início, traçando um círculo com o dedo na grande mesa de uma das salas de estar quando todos se reuniram na manhã seguinte, — eu gostaria que algumas pessoas fossem comigo. Stefan tem sido muito maltratado — continuou ela — e iria odiar que outras pessoas o vissem assim. Não quero que ele se sinta humilhado.
O grupo corou ao ouvir isso. Ou talvez fosse um rubor coletivo de ressentimento — em seguida um rubor coletivo de culpa. Com as janelas que davam para o oeste entreabertas, para que a luz vermelha da manhã caísse sobre tudo, era difícil saber. Mas uma coisa era certa: todo mundo queria ir.
— Então, espero — disse Elena, virando-se para olhar nos olhos de Meredith e Bonnie, — que vocês não fiquem magoadas se eu não escolhê-las para me acompanhar.
Isso significava que as duas estavam fora, pensou Elena ao ver a compreensão surgindo no rosto das amigas. Grande parte de seus planos dependia da reação das duas melhores amigas. Meredith elegantemente mordeu a isca primeiro.
— Elena, você passou pelo inferno... literalmente... e quase morreu ao fazer isso... para encontrar Stefan. Leve as pessoas que mais poderão ajudá-la.
— Sabemos que isso não é um concurso de popularidade — acrescentou Bonnie, engolindo em seco, tentando não chorar. Ela realmente queria ir, pensou Elena, mas compreendia perfeitamente. — Stefan pode ficar mais constrangido na frente de uma menina do que de um menino — disse Bonnie.
E ela nem acrescentou: embora jamais fizéssemos alguma coisa para constrangê-lo, pensou Elena, avançando para um abraço e sentindo o corpo macio e pequeno de Bonnie. Depois se virou e sentiu os braços quentes, magros e rígidos de Meredith e, como sempre, sentiu parte de sua tensão se esvair.
— Obrigada — disse ela, enxugando as lágrimas. — E você tem razão, Bonnie, acho que seria mais difícil para ele encarar meninas do que meninos na situação em que está. Também será mais difícil encarar os amigos que ele já conhece e ama. Por isso, gostaria de pedir que Sage, Damon e o Dr. Meggar fossem comigo.
Lakshmi saltou, interessada, como se tivesse sido escolhida.
— Em que cadeia ele está? — perguntou ela, muito animada e Damon respondeu.
— Na Shi no Shi.
Lakshmi arregalou os olhos. Ela olhou Damon por um momento, depois saiu correndo para a porta, a voz trémula flutuando atrás dela:
— Tenho umas coisas para fazer, amo!
Elena olhou diretamente para Damon.
— E o que foi isso? — perguntou ela numa voz capaz de congelar lava a trinta metros.
— Não sei. Realmente, eu não sei. Shinichi me mostrou caracteres kanji e disse que a pronúncia era "Shi no Shi" e que significavam 'a Morte da Morte'... Como a eliminação da maldição morte de um vampiro.
Sage tossiu.
— Ah, meu pequeno crédulo. Mon cher idiot. Não procurou uma segunda opinião...
— Na verdade, procurei. Perguntei a uma senhora japonesa de meia-idade na biblioteca se o romaji, as palavras japonesas escritas em nosso alfabeto, significavam a Morte da Morte. Ela disse que sim.
— E você deu meia-volta e saiu — disse Sage.
— Como sabe disso? — Damon estava ficando irritado.
— Porque, mon cher, essas palavras podem significar muitas coisas. Tudo depende de como os caracteres japoneses estão dispostos... O que provavelmente você não mostrou a ela.
— Eu não os tinha! Shinichi os escreveu no ar para mim, em fumaça vermelha. — Depois, com uma angústia colérica perguntou: — O que mais eles podem significar?
— Bom, podem significar o que você disse. Também podem significar 'a nova morte'. Ou 'a verdadeira morte'. Ou até... 'os Deuses da Morte'. E dado o modo como Stefan vem sendo tratado...
Se um olhar pudesse matar, Damon agora seria um cadáver. Todos o olhavam com uma expressão acusativa. Ele se virou como um lobo acuado e mostrou seus dentes naquele sorriso brilhante de sempre.
— De qualquer forma, não imaginei que fosse algo agradável — disse ele. — Só pensei que o ajudaria se livrar da maldição de ser um vampiro.
— De qualquer forma — repetiu Elena. Depois disse: — Sage, se você puder ir e cuidar para que nos deixem entrar quando chegarmos, eu ficaria imensamente grata.
— Considere feito, Madame.
— E... Deixe-me ver... Quero que todos usem algo um pouco diferente para visitá-lo. Se todos concordarem, conversarei com Lady Ulma a respeito.
Ela podia sentir os olhares assustados de Meredith e Bonnie em suas costas ao sair.
Lady Ulma estava pálida, mas seus olhos brilharam quando Elena foi acompanhada até o quarto dela. Seu caderno de desenho estava aberto, o que era um bom sinal.
Foram necessárias apenas algumas palavras e um olhar sincero antes de Lady Ulma dizer com firmeza:
— Teremos tudo pronto em uma ou duas horas. É só uma questão de chamar as pessoas certas. Eu prometo.
Elena apertou o pulso dela com muita delicadeza.
— Obrigada. Obrigada... milagreira!
— Quer dizer que vou de prisioneiro — disse Damon. Ele estava bem ao lado da porta de Lady Ulma quando ela saiu e Elena desconfiou de que ele estivesse ouvindo.
— Não, isso nunca me ocorreu — respondeu ela. — Só que se vocês estiverem vestidos como escravos Stefan ficará menos constrangido. Mas por que acha que eu ia querer castigar você?
— E não quer?
— Você está aqui para me ajudar a salvar Stefan. Já passou por... — Elena parou e olhou as mangas, procurando um lenço limpo, até que Damon lhe ofereceu o seu, de seda preta.
— Tudo bem — disse ele, — não vamos brigar por isso. Desculpe. Eu simplesmente falo, sem pensar antes.
— E nem mesmo ouve outra vozinha? Uma voz que diz que as pessoas podem ser boas e talvez não estejam tentando prejicar você? — perguntou Elena com tristeza, perguntando-se como a criança acorrentada estaria agora.
— Não sei. Talvez. Às vezes. Mas como essa voz geralmente está errada neste mundo cruel, por que devo dar atenção a ela?
— Eu gostaria que você às vezes tentasse — sussurrou Elena. — Assim seria mais fácil discutir com você.
Eu gosto muito destas condições, disse-lhe Damon telepaticamente e Elena percebeu — como isso acontecia? — que eles se fundiam num abraço. Pior, ela estava com seus trajes da manhã — um vestido de seda comprido e um penhoar do mesmo tecido, os dois no tom mais claro de azul perolado, que ficava violeta nos raios do eterno sol poente.
Eu... eu também gosto, admitiu Elena, sentindo o poder percorrer Damon a partir da sua pele, passando por seu corpo, e no fundo, bem no fundo do poço impenetrável que podia ser visto ao olhar nos olhos dele. Só estou tentando ser sincera, acrescentou ela, assustada com a reação dele. Não posso esperar que alguém seja sincero comigo, se eu não for.
Não seja sincera, não seja sincera. Odeie-me. Despreze-me, implorou-lhe. Damon, ao mesmo tempo acariciando seus braços e a duas camadas de seda, que era só o que havia entre as mãos dele e a pele de Elena.
— Mas por quê?
 Porque não mereço confiança. Sou um lobo mau e você é um cordeirinho branco puro e recém-nascido. Não permita que eu a magoe.
 E por que você me magoaria?
 Porque eu podia... Não, não quero morder você... Só quero beijá-la, só um pouco, assim. — Houve uma revelação na voz mental de Damon. Ele a beijou com tanta doçura, e sabia exatamente quando os joelhos dela estavam prestes a ceder e a pegava antes que ela caísse no chão.
Damon, Damon, pensava ela, sentindo-se muito amorosa, porque sabia que estava lhe dando prazer, quando de repente caiu em si.
Oh! Damon, por favor, me solte... Tenho uma prova de roupa agora!
Envergonhado, ele devagar e com relutância baixou-a, pegando-a antes que ela pudesse cair e a colocou de pé.
 Acho que eu também estou passando por uma prova agora, — disse-lhe Damon com sinceridade enquanto andava trôpego pela sala, errando a porta da primeira vez.
 Não uma provação... uma prova de roupa! — Disse Elena às costas dele, não soube se ele ouviu. Mas estava satisfeita por ele tê-la soltado, sem realmente entender nada, a não ser que ela dizia não. Isso era um grande progresso.
Depois ela correu para o quarto de Lady Ulma, que estava cheio de todo tipo de gente, inclusive dois modelos, que usavam calças e camisas compridas.
— As roupas de Sage — disse Lady Ulma, assentindo para o mais alto — e de Damon. — Ela apontou para o homem mais baixo.
— Ah, são perfeitas!
Lady Ulma a fitou com a mais leve dúvida no olhar.
— São feitas de estopa genuína — disse ela. — A roupa mais miserável e inferior na hierarquia da escravidão. Tem certeza que eles vão usar?
— Sim, ou não irão comigo — disse Elena categoricamente, e piscou.
Lady Ulma riu.
— Um bom plano.
— Sim... Mas o que você acha do meu outro plano? — perguntou Elena, genuinamente interessada na opinião de Lady Ulma, mesmo enquanto corava.
— Minha querida benfeitora — disse Lady Ulma. — Antigamente eu acompanhava minha mãe preparar as roupas... Depois de eu ter feito 13 anos, claro... E ela me dizia que sempre a deixavam feliz, porque ela estava levando alegria a dois de uma só vez, e que o propósito não era outro senão a alegria. Eu lhe prometo, Lucen e eu terminaremos a tempo. Agora, você não devia estar se arrumando?
— Ah, sim... Oh, eu amo você, Lady Ulma! É tão engraçado. Quanto mais gente você ama, mais quer amar! — E dizendo isso Elena correu de volta a seus aposentos.
Suas damas de companhia estavam preparadas, esperando ela. Elena tomou o banho mais rápido e mais animado da vida — ela estava nervosa — e se viu num sofá, no meio de um bando sorridente de olhos perspicazes, cada uma delas fazendo seu trabalho.
Ela fez depilação, é claro — nas pernas, nas axilas e fez as sobrancelhas.
Enquanto duas mulheres trabalhavam nela, outra, com os cremes macios e unguentos, criava uma fragrância única para Elena, e uma quarta considerava pensativamente seu rosto e corpo como um todo.
Essa mulher escureceu um pouco as sobrancelhas de Elena e cobriu as pálpebras com um tom dourado e metalizado antes de usar algo que acrescentou pelo menos meio centímetro aos cílios. Depois realçou seus olhos com linhas horizontais exóticas de kohl. Por fim, deixou cuidadosamente os lábios de Elena num vermelho brilhante que, de algum modo, lhe dava a impressão de estarem permanentemente franzidos para um beijo. Depois dis-so, a mulher borrifou um leve pó furta-cor em todo o corpo de Elena.
Finalmente, um diamante canário muito grande, enviado da bancada de joalheria de Lucen, foi firmemente colado a seu umbigo.
Enquanto as cabeleireiras cuidavam das últimas mechas na testa de Elena, ela recebeu duas caixas e uma capa escarlate das mulheres de Lady Ulma.
Elena agradeceu com sinceridade a todas as damas de companhia, as cabeleireiras e a maquiadora, pagou-lhes uma bonificação que as deixou bem agitadas e pediu que a deixassem sozinha. Quando hesitaram, ela pediu novamente, com a mesma educação, mas num tom mais sério. As mulheres saíram.
As mãos de Elena tremiam quando pegou as roupas que Lady Ulma havia criado. Eram decorosas como um traje de banho, mas pareciam ter jóias estrategicamente coladas em tiras de tule dourada. Tudo combinava com o diamante canário: do colar às braçadeiras e pulseiras que denotavam que, embora Elena estivesse vestida com trajes caros, ainda era uma escrava. Então era isso. Ia usar tule e jóias, perfume e maquiagem, para ver Stefan. Elena pôs o manto escarlate com muito cuidado para não amassar nem sujar nada por baixo e calçou os pés em delicadas sandálias douradas com saltos muito altos.
Ela desceu correndo a escada e chegou bem a tempo. Sage e Damon estavam vestindo mantos bem fechados — o que significava que estavam com a roupa de estopa por baixo. Sage deixara o coche de Lady Ulma preparado.
Elena ajeitou as pulseiras de ouro, odiando-as porque precisava usá-las, embora ficassem lindas contra o debrum de peles brancas do manto escarlate. Damon lhe estendeu a mão para ajudá-la a subir no coche.
— Eu vou aí dentro? Isso quer dizer que não preciso usar... — Mas, olhando para Sage, suas esperanças foram esmagadas.
— A não ser que queira fechar as cortinas de todas as janelas — disse ele, — você está viajando legalmente sem as pulseiras escrava.
Elena suspirou e deu a mão a Damon. De pé contra o sol, ele era uma silhueta escura. Mas enquanto Elena piscava para a luz, ela encarava, pasmo.
Elena sabia que ele vira suas pálpebras douradas. Os olhos de Damon caíram nos lábios dela, prontos para um beijo. Elena corou.
— Eu o proíbo de me ordenar a mostrar o que está por baixo do manto — disse ela rapidamente. Damon ficou frustrado.
— O cabelo em cachos mínimos por toda a testa, manto cobrindo tudo, do pescoço aos pés, batom como... — Ele olhou novamente. Sua boca se retorceu como se ele estivesse sendo impelido a encaixar seus lábios nos dela.
— Já está na hora de ir! — cantarolou Elena, entrando apressadamente na carruagem. Ela estava muito feliz, embora entendesse por que escravos libertos nunca mais usassem pulseira na vida.
Ela ainda estava feliz quando chegaram à Shi no Shi — aquele prédio grande que parecia conjugar uma prisão com uma instalacão de treinamento para gladiadores. E quando os guardas no grande posto de controle da Shi no Shi os deixaram entrar sem mostrar nenhum sinal de hesitação, mas era difícil dizer se o manto teve algum efeito sobre eles. Eram demônios: rabugentos de pele malva, fortes como touros.
Ela percebeu algo que no início foi um choque, mas depois se transformou em um rio de esperança em seu íntimo. Havia uma porta do lado do saguão, na frente do prédio, que parecia a porta lateral do depósito de escravos: estava sempre fechada; símbolos estanhos no alto; pessoas andando para ela nos trajes mais variados e anunciando um destino antes de girar a chave e abrir a porta.
Em outras palavras: uma porta dimensional. Bem ali, na prisão de Stefan.
Só Deus sabia quantos guardas iriam atrás deles se tentassem usá-la, mas era algo para se ter em mente.
Os guardas nos pisos inferiores do prédio da Shi no Shi, o que parecia mais um calabouço, tiveram reações claras e agressivas a Elena e seu grupo.
Eram de alguma espécie mais baixa de demônio — demoniozinhos, talvez, pensou Elena — que dificultavam tudo para os visitantes. Damon teve de suborná-los a fim de conseguir permissão para entrar na área onde ficava a cela de Stefan e ir sozinho, sem um guarda por visitante, e permitir que Elena, uma escrava, fosse ver um vampiro livre.
E mesmo quando Damon lhes deu uma pequena fortuna para passar por esses obstáculos, eles riram com escárnio e soltaram gorgolejos guturais. Elena não confiava neles. E tinha razão.
Em um corredor onde Elena sabia, por suas experiências fora do corpo, que deviam virar à esquerda, eles seguiram reto. Passaram por outro grupo de guardas, que quase desmaiaram de rir.
Ah meu Deus estão nos levando para ver o cadáver de Stefan?, perguntou-se Elena de repente. Então foi Sage quem realmente a ajudou. Ele amparou Elena até que ela sentiu as pernas firmes novamente.
Continuaram andando, entrando cada vez mais no que agora era um calabouço sujo e fedorento, com piso de pedra. Depois, abruptamente, viraram à direita.
O coração de Elena disparou. Dizia errado, errado, errado, mesmo antes de chegarem à última cela do corredor. Era completamente diferente da antiga cela de Stefan. Era cercada não por grades, mas por uma espécie de tela encimada por espetos afiados. Não havia como passar uma garrafa de Black Magic por ali, nem como posicionar a garrafa para servir o vinho direto na boca que aguardava do outro lado. Nenhum espaço, até, para colocar o dedo ou a abertura de um cantil para o habitante da cela. A cela em si não era suja, mas não tinha nada, a não ser um Stefan apático. Sem comida, sem água, sem cama para esconder alguma coisa, sem palha. Só Stefan.
Elena gritou. Não fazia ideia se realmente disse alguma coisa ou se apenas berrou. Atirou-se na cela ou tentou fazer isso. Suas mãos seguraram rolos de aço afiados como navalha, e verteram sangue instantaneamente onde tocavam, e Damon, que normalmente reagia mais rápido, puxou-a para trás.
E então ele tirou-a, empurrando-a, e olhou boquiaberto o irmão mais novo, um jovem de cara cinzenta, esquelético, que mal respirava. Parecia uma criança perdida em seu uniforme prisão amarrotado, sujo e puído.
Damon levantou a mão como se tivesse se esquecido da barreira — e Stefan encolheu. Stefan parecia não reconhecer nenhum deles. Espiou mais de perto as de sangue que ficaram na cerca afiada onde Elena a segurou, cheirou, e depois, como se alguma coisa tivesse penetrado a névoa de sua confusão, olhou em volta. Stefan levantou a cabeça para Damon, cujo manto tinha caído, mas seus olhos vagaram.
Damon soltou um ruído sufocado e se virou, esbarrando em outras criaturas ao sair, correndo para o outro canto. Se tinha esperanças de que todos os guardas o seguissem, para que seus aliados pudessem tirar Stefan de lá, estava enganado. Alguns o seguiram, como macacos, gritando insultos. O restante ficou, atrás de Sage.
Enquanto isso, a mente de Elena se agitava de planos. Por fim ela se virou para Sage.
— Use todo o dinheiro que tivermos além deste — disse ela, colocando a mão sob o manto, pegando o colar de diamante canário, de mais de duas dúzias de pedras preciosas do tamanho de um polegar — e me diga se precisar de mais. Me dê meia hora com ele. Vinte minutos que sejam! — Sage balançava a cabeça.
— Atrase-os de algum modo; consiga pelo menos vinte minutos. Vou pensar em alguma coisa mesmo que isso me mate.
Depois de um momento Sage olhou-a nos olhos e assentiu.
— Farei isso.
Depois Elena olhou suplicante para o Dr. Meggar. Será que ele tinha alguma coisa — será que existia alguma coisa — que pudesse ajudar?
As sobrancelhas do Dr. Meggar desceram, depois a parte interna subiu.
Era um olhar de pesar, de desespero. Mas ele franziu o cenho e cochichou:
— Existe uma coisa nova... Uma injeção que dizem ajudar em casos extremos. Posso tentar.
Elena se segurou para não cair aos pés dele.
— Por favor! Por favor, tente! Por favor!
— Só vai ajudar por alguns dias...
— Não precisamos de alguns dias! Vamos tirá-lo daí antes disso!
— Muito bem. — Sage conseguira conduzir todos os guardas para fora, dizendo que era um negociante de pedras preciosas e que tinha umas coisinhas que todos deveriam ver.
O Dr. Meggar abriu sua maleta e pegou uma seringa.
— Agulha de madeira — disse ele com um sorriso melancólico enquanto a enchia com um líquido vermelho claro que estava num frasco. Elena pegou outra seringa e examinou-a ansiosamente enquanto o Dr. Meggar tentava atrair Stefan para perto dele, fazendo-o levantar os braços até a grade. Por fim Stefan fez o que o Dr. Meggar queria — só para dar um salto com um grito de dor e se afastar enquanto uma seringa era enfiada em seu braço o líquido urticante injetado.
Elena olhou desesperada para o médico.
— Quanto ele tomou?
— Cerca da metade. Está tudo bem... Coloquei o dobro da dose e injetei com a maior força que pude para conseguir que o... — disse um termo médico que Elena não reconheceu —... penetrasse nele. Eu sabia que doeria mais, injetando com tal rapidez, mas consegui o que queria.
— Que bom — disse Elena em êxtase. — Agora quero que encha essa seringa com o meu sangue.
— Sangue? — o Dr. Meggar ficou desanimado.
— Sim! A seringa é grande o bastante para passar pela grade. O sangue vai pingar do outro lado. Ele pode beber à medida que pingar. Isso pode salvá-lo! — Elena pronunciou cada palavra com cuidado, como se falasse com uma criança. Ela queria desesperadamente transmitir o que pretendia. '
— Ah, Elena. — O médico se sentou, com um tinido, e pegou uma garrafa de Black Magic escondida no colete. — Eu sinto muito. Mas para mim é muito difícil tirar sangue de alguém. Meus olhos, criança... Eles estão arruinados.
— Mas os óculos... as lunetas...?
— Não me servem mais. É um problema complicado, você deve conseguir pegar uma veia, de qualquer maneira. A maioria dos médicos não me serve de nada; sou caso perdido. Desculpe, criança. Mas já faz vinte anos que tive algum sucesso nisso.
— Então vou encontrar Damon e fazê-lo abrir minha aorta. Não ligo se isso me matar.
— Mas eu ligo.
A nova voz que vinha da cela fortemente iluminada diante deles fez com que o médico e Elena levantassem a cabeça derepente.
— Stefan! Stefan! Stefan! — Sem se importar com o que a cerca afiada faria com seu corpo, Elena inclinou-se para tentar segurar as mãos dele.
— Não — sussurrou Stefan, como se partilhasse um segredo precioso. — Coloque os dedos aqui e aqui... Por cima dos meus. Esta cerca é só aço com tratamento especial... Ela diminui meu Poder, mas não pode me ferir.
Elena pôs os dedos onde ele indicou e estava tocando Stefan. Realmente tocando-o. Depois de tanto tempo.
Nenhum dos dois disse nada. Elena ouviu o Dr. Meggar se levantar e se esgueirar para fora em silêncio — até Sage, supunha ela. Mas sua mente estava repleta de Stefan. Ela e ele apenas se olhavam, tremendo, com lágrimas vacilantes nos cílios, sentindo-se muito jovens.
E muito próximos da morte.
— Você disse que eu sempre fazia você falar primeiro, então vou desconcertá-la. Eu te amo, Elena. — Lágrimas caíram dos olhos dela.
— Esta manhã mesmo que estava pensando em quantas pessoas há para amar. Mas na verdade é apenas porque existe uma em primeiro lugar — sussurrou Elena. — Uma para sempre. Eu te amo, Stefan! Eu te amo!
Elena recuou por um instante e enxugou os olhos como todas as meninas espertas sabiam fazer sem estragar a maquiagem: passando os polegares por baixo dos olhos e inclinando-se para trás, colhendo as lágrimas e o kohl em gotículas infinitesimais no ar.
Pela primeira vez, ela conseguia pensar.
— Stefan — sussurrou, — eu sinto tanto. Perdi tempo me vestindo esta manhã... Bom, sendo vestida... Para te mostrar o que o espera quando sairmos. Mas agora... Eu me sinto... Como...
Agora não havia lágrimas nos olhos de Stefan também.
— Mostre-me — sussurrou ele, ansiosamente.
Elena se levantou e, sem encenação, tirou o manto com um dar de ombros. Fechou os olhos, o cabelo em centenas de cachinhos, pequenas espirais finas coladas por todo o rosto. As palpebras douradas, com a pintura à prova d'água, ainda brilhavam. Sua única roupa de tiras de tule dourada com jóias a deixava respeitável. Todo o corpo radiante, a perfeição da primeira flor da juventude que jamais podia ser igualada ou recriada.
Ouviu-se um longo suspiro... depois silêncio, e Elena abriu os olhos, apavorada com a possibilidade de Stefan ter morrido. Mas ele estava de pé, agarrado ao portão de ferro como se pudesse arrancá-lo para chegar a ela.
— Eu tenho tudo isso? — sussurrou ele.
— Tudo isso para você. Tudo para você — disse Elena.
Neste momento houve um som suave atrás dela e ela se virou, vendo dois olhos brilhantes na escuridão da cela à frente a de Stefan.

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