20 de novembro de 2015

Capítulo 32

 Quem é? ― Uma voz vinha da escuridão do bosque. ― Quem está aí?
Bonnie nunca ficou tão grata a ninguém em toda a sua vida como ficou a Matt por abraçá-la naquele momento. Precisava de contato humano. Se apenas pudesse se enterrar fundo nos outros, de algum modo ficaria segura. Ela mal conseguiu reprimir o grito enquanto a lanterna que enfraquecia girava para uma cena surreal.
 Isobel!
Sim, era mesmo Isobel, e ela não estava no hospital em Ridgemont, mas ali, no bosque. Estava parada de pé, nua, a não ser pelo sangue e pela lama em seu corpo. Bem ali, contra aquele fundo, parecia ao mesmo tempo uma presa e uma espécie de deusa da floresta, uma deusa da vingança e das caçadas, da punição a qualquer ser que atravessasse seu caminho. Estava sem fôlego, ofegava, tinha bolhas de saliva saindo pela boca, mas não estava fraca. Só era preciso ver seus olhos, de um vermelho brilhante, para entender isso.
Atrás dela, pisando em galhos e soltando um ocasional gemido ou palavrão, havia mais duas figuras. Uma era alta e magra, mas volumosa no alto, e outra mais baixa e atarracada. Pareciam gnomos tentando seguir uma ninfa do bosque.
 Dra. Alpert!  Meredith parecia não ser capaz de demonstrar seu autocontrole.
Ao mesmo tempo, Bonnie viu que os piercings de Isobel tinham piorado muito. Ela perdera a maior parte das tachas, argolas e agulhas, mas sangue e pus saíam dos ferimentos.
 Não a assuste  sussurrou Jim das sombras. ― Estamos seguindo Isobel desde que tivemos de parar.
Bonnie podia sentir Matt, que tinha puxado o ar para gritar, de repente sufocar o grito. Ela também podia ver por que Jim parecia ter uma cabeça tão grande. Carregava Obaasan, no estilo japonês, nas costas, com os braços dela em seu pescoço. Como uma mochila, pensou Bonnie.
 O que aconteceu com vocês? ― sussurrou Meredith. ― Achamos que tinham ido para o hospital.
 De algum modo, uma árvore caiu na estrada enquanto deixamos vocês e não conseguimos contorná-Ia para ir ao hospital, nem a lugar nenhum. Mas não é só isso, era uma árvore com um ninho de vespas dentro. Isobel despertou assim ― a médica estalou os dedos ― e quando ouviu as vespas, saiu aos tropeços e correu delas. Corremos atrás dela. Posso dizer que eu teria feito o mesmo se estivesse sozinha.
 Alguém viu essas vespas?  perguntou Matt depois de um segundo.
 Não, ficou escuro logo. Mas nós as ouvimos bem. A coisa mais esquisita que já ouvi. Parecia uma vespa de uns 30 centímetros  disse Jim.
Meredith agora apertava o braço de Bonnie do outro lado. Bonnie não sabia se era para mantê-Ia em silêncio ou estimulá-Ia a falar.
E o que ela poderia dizer? As árvores caídas aqui só ficam caídas até que a polícia decida procurar por elas?” “Ah, cuidado com os enxames diabólicos de insetos rastejando por seu braço?” “E a propósito, provavelmente há um deles dentro de Isobel agora?” Isso sim deixaria Jim em pânico.
 Se eu soubesse o caminho de volta à pensão, deixaria esses três lá  dizia a Sra. Flowers. ― Eles não fazem parte disso.
Para surpresa de Bonnie, a Dra. Alpert não se excluiu da declaração de que ela mesma não “fazia parte disso”. Nem perguntou à Sra. Flowers o que fazia com duas adolescentes a essa hora no antigo bosque. O que ela disse foi ainda mais assombroso.
 Vimos luzes quando vocês começaram a gritar. Fica bem aqui atrás.
Bonnie sentiu os músculos de Matt enrijecer contra ela.
 Graças a Deus  disse ele. Depois, devagar: ― Mas isso não é possível. Eu saí da casa dos Dunstan dez minutos antes de nos encontrarmos, e fica na margem do bosque, do outro lado da pensão. Eu levaria pelo menos 25 minutos para ir a pé até lá.
 Bom, não sei se é possível ou não, mas vimos a pensão, Theophilia. Todas as luzes estavam acesas, de cima a baixo. Era impossível confundir. Tem certeza de que não está calculando maI o tempo?  acrescentou ela a Matt.
O nome da Sra. Flowers é Theophilia, pensou Bonnie, e teve de reprimir o impulso de rir. A tensão levava a melhor sobre ela.
Mas justo quando estava pensando nisso, Meredith lhe de outro cutucão.
Às vezes, Bonnie achava que ela, Elena e Meredith tinham uma espécie de telepatia. Talvez não fosse telepatia verdadeira, mas às vezes bastava um olhar para dizer mais do que discussões sem fim. E às vezes – nem sempre, mas de vez em quando – Matt ou Stefan pareciam fazer parte disso. Não que fosse realmente telepatia, com vozes claras na cabeça como ficariam aos ouvidos, mas às vezes os meninos pareciam estar... em sintonia com as meninas. Porque Bonnie sabia exatamente o que significava o cutucão.
Significava que Meredith tinha apagado a luz do quarto de Stefan no último andar da casa e que a Sra. Flowers apagara as luzes do primeiro andar quando saíram. Assim, embora Bonnie tivesse uma imagem muito nítida da pensão com as luzes acesas, essa imagem não podia corresponder à realidade.
Alguém está tentando nos confundir, era o que significava o cutucão de Meredith. E Matt estava na mesma sintonia delas, ainda que por um motivo diferente. Ele se inclinou um pouco para Meredith, com Bonnie entre os dois.
 Mas talvez a gente deva voltar à casa dos Dunstan  disse Bonnie num tom mais infantil e comovente. ― Eles são pessoas normais. Podem nos proteger.
 A pensão fica logo depois dessa colina  a Dra. Alpert falou com firmeza. ― E eu gostaria muito de seus conselhos para cuidar das infecções de Isobel ― acrescentou ela a Sra. Flowers.
A Sra. Flowers palpitou. Não havia outra palavra para isso.
 Ah, meu Deus, que elogio. A primeira coisa a fazer seria lavar as feridas imediatamente.
Isso era tão óbvio e tão improvável na Sra. Flowers que Matt apertou Bonnie com força enquanto Meredith se inclinava para ela. Aaiiii!, pensou Bonnie.
Ou temos essa história de telepatia ou não! Então é a Dra. Alpert que é o perigo, a mentirosa.
 Então é isso. Vamos para a pensão  disse Meredith com calma. ― E, Bonnie, não se preocupe. Vamos cuidar de você.
 É claro que vamos  Matt confirmou, dando um último apertão. Significava “Eu entendi. Sei quem não está do nosso lado”. Em voz alta, ele acrescentou, num tom que fingia severidade: ― De qualquer modo, não é boa ideia ir à casa dos Dunstan. Já contei à Sra. Flowers e às meninas sobre isso, eles têm uma filha no mesmo estado de Isobel.
 Ela está se furando?  perguntou a Dra. Alpert, parecendo sobressaltada e apavorada com a ideia.
 Não. Anda agindo de forma muito estranha. Mas não é um bom lugar.
Apertão.
Já entendi há muito tempo, pensou Bonnie, irritada. Agora tenho de ficar de boca fechada.
 Vá na frente, por favor  murmurou a Sra. Flowers, parecendo mais palpitante do que nunca. ― Voltemos à pensão.
E eles deixaram que a médica e Jim fossem à frente. Bonnie continuou reclamando baixinho, para o caso de alguém estar ouvindo. E ela, Matt e Meredith ficaram de olho na médica e em Jim.


 Tudo bem  disse Elena a Damon ― estou enfeitada como alguém no convés de um transatlântico, tensa como uma corda esticada de violão e estou farta de toda essa demora. Entããão... Qual é a verdade, toda a verdade e nada além da verdade?
Ela balançou a cabeça. O tempo tinha saltado e se estendia diante dela.
Damon falou:
 De certo modo, estamos num globo de neve minúsculo que eu fiz para mim. Isso significa apenas que eles não nos verão nem ouvirão por alguns minutos. Agora está na hora de ter a conversa de verdade.
 Então é melhor que seja rápida.
Ela sorriu para ele, estimulando-o. Tentava ajudá-lo. Elena sabia que ele precisava de ajuda. Ele queria contar a verdade, mas fugia tanto de sua natureza que era como pedir a um maldito cavalo selvagem para deixar que você o montasse e o domasse.
 Existem mais problemas  Damon disse com a voz rouca, e ela sabia que ele lia seus pensamentos. ― Eles... tentaram me impossibilitar de falar com você sobre isso. Fizeram isso no estilo de um grande conto de fadas antigo: estabelecendo muitas condições. Eu não podia contar a você dentro de uma casa, nem do lado de fora dela. Bom, uma sacada não está dentro, mas também não fica do lado de fora. Eu não podia contar a você à luz do sol nem da lua. Bom, o sol já se pôs, e a lua só vai nascer daqui a uns trinta minutos, e eu diria que estou respeitando as condições. E não podia contar enquanto você estivesse nua ou vestida.
Elena automaticamente se olhou alarmada, mas nada tinha mudado, pelo que ela podia dizer.
 E eu imagino que esta condição também tenha sido cumprida, porque embora ele tenha me jurado que me deixaria sair de um de seus globos de neve, não deixou. Estamos em uma casa que não é uma casa... É a ideia da mente de alguém. Você está com roupas que não são roupas de verdade... São invenções da imaginação.
Elena abriu a boca novamente, mas ele pôs dois dedos nos lábios dela e disse:
 Espere. Deixe-me continuar enquanto ainda posso. Pensei seriamente que ele jamais pararia de impor as condições, que tirara de algum conto de fadas. Ele é obcecado com isso e com a antiga poesia inglesa. Não sei por que, pois ele é do outro lado do mundo, do Japão. Este é o Shinichi. E ele tem uma irmã gêmea... Misao.
Damon parou de ofegar depois disso, e Elena deduziu que devia haver outros motivos internos para que ele não contasse nada a ela.
 Parece que o nome dele pode ser traduzido como morte-primeira, ou número um em matéria de morte. Os dois parecem adolescentes, com seus códigos e joguinhos. No entanto, têm milhares de anos.
 Milhares?  Elena sondou gentilmente enquanto Damon parava, parecendo exausto, mas decidido.
 Odeio pensar em quantos milhares de anos os dois andaram fazendo crueldades. É Misao quem está fazendo todas aquelas coisas com as meninas na cidade. Ela as possui com seus malach e as obriga a fazer coisas. Você se lembra da aula de história americana? Das bruxas de Salém? Esta era Misao, ou alguém parecido com ela. E aconteceu centenas de vezes antes disso. Pode procurar pelas freiras ursulinas. Tinham um convento tranquilo que se tornou exibicionista e pior... Alguém enlouqueceu, e alguém que tentou ajudar ficou possuído.
 Exibicionistas? Como Tamra? Mas ela é só uma criança...
 Misao é só uma criança, em sua mente.
 E onde Caroline entra nisso?
 Em qualquer caso semelhante, deve haver um instigador... Alguém que esteja disposto a fazer um pacto com o diabo... Ou um demônio, na verdade... Para seus próprios fins. É aí que Caroline entra. Mas, por toda uma cidade, eles devem estar dando alguma coisa realmente grande a ela.
 Toda uma cidade? Eles vão tomar toda Fell’s Church...?
Damon virou o rosto. A verdade era que iam destruir Fell’s Church, mas não tinha sentido dizer isso. Suas mãos estavam frouxas nos joelhos enquanto ele permanecia sentado na cadeira de madeira antiga e frágil na sacada.
 Antes que possamos fazer qualquer coisa para ajudar alguém, temos de sair daqui. Sair do mundo de Shinichi. Isto é importante. Eu posso... bloqueá-Io por curtos períodos de tempo, impedi-Io de nos observar... Mas fico cansado e preciso de sangue. Preciso mais do que você pode regenerar, Elena  ele olhou para ela. ― Ele pôs aqui a Bela e a Fera e vai nos deixar para ver quem triunfará.
 Se quer dizer um matar o outro, no que diz respeito a mim, ele vai ter que esperar muito tempo.
 Isso é o que você pensa agora. Mas isto é uma armadilha. Não há nada aqui, só o antigo bosque, como havia quando começamos a rodar de carro por ele. Também não há nenhuma habitação humana. A única casa é esta, as únicas criaturas vivas somos nós dois. Você vai querer minha morte muito em breve.
 Damon, eu não entendo. O que eles querem aqui? Mesmo com o que Stefan disse sobre todas as Linhas de Poder cruzando Fell’s Church e formando um farol...
 Foi o seu brilho que os atraiu, Elena. Eles são curiosos, como crianças, e tenho a sensação de que já tiveram problemas em outros lugares onde moraram. É possível que eles estivessem aqui vendo o final da batalha, vendo você renascer.
 Então eles querem... nos destruir? Se divertir? Tomar a cidade e nos fazer de marionetes?
 As três coisas, por enquanto. Eles podem se divertir enquanto outra pessoa apela em um tribunal de outra dimensão. E sim, diversão, para eles, significa tomar uma cidade. Embora eu creia que Shinichi pretenda voltar atrás em seu trato comigo por algo que ele quer mais do que a cidade, e assim eles podem acabar lutando um com o outro.
 Que trato com você, Damon?
 Por você. Stefan tinha você. Eu queria você. Ele quer você.
Contra a própria vontade, Elena sentiu um embrulho no estômago, sentiu o tremor distante que começava ali e abria caminho para fora.
 E qual era o trato original?
Ele virou o rosto.
 Esta é a parte ruim.
 Damon, o que você fez?! ― ela exclamou, quase gritando. ― Qual foi o trato?
Todo seu corpo tremia.
 Fiz um pacto com o demônio e, sim, eu sabia o que ele era quando o fiz. Foi na noite em que seus amigos foram atacados pelas árvores... Depois de Stefan me expulsar de seu quarto. Isso e... Bom, eu estava com raiva, mas ele pegou minha raiva e a aumentou. Ele estava me usando, me controlando; agora entendo isso. Foi quando começou com os acordos e as condições.
 Damon...  Elena começou, trêmula, mas ele continuou, falando rapidamente como se tivesse de passar por isso, para ver sua conclusão, antes de perder a coragem.
 O último pacto foi de que ele me ajudaria a tirar Stefan do caminho para que eu pudesse ter você, enquanto ele ficava com Caroline e o resto da cidade para dividir com a irmã. Assim teria Caroline independentemente do acordo que ela tivesse com Misao.
Elena deu um tapa em Damon. Ela não sabia como conseguiu, enojada como estava, ter a mão livre e fazer o movimento de um raio, mas conseguiu.
Depois esperou, olhando uma gota de sangue pendendo do lábio de Damon, que ele revidasse, ou que ela tivesse forças para tentar matá-lo.

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