26 de novembro de 2015

Capítulo 31

 Estou me sentindo bem melhor — disse Elena ao Dr. Meggar. — Gostaria de dar uma caminhada pela propriedade. — Ela tentou não parecer inquieta. — Comi bastante carne, bebi leite e até tomei aquele óleo de fígado de bacalhau que o senhor mandou. Também estou com os dois pés na realidade: estou aqui para resgatar Stefan, e o garotinho dentro de Damon é uma metáfora de seu inconsciente, que o sangue que partilhamos me permitiu "ver". — Ela quicou uma vez, mas disfarçou, estendendo a mão para um copo d'água. — Estou me sentindo como um cachorrinho feliz esperando para passear. — Ela exibiu suas novas pulseiras de escrava recém-desenhadas: prata com lápis-lazúli incrustados em desenhos leves. — Se eu morrer de repente, estou preparada.
As sobrancelhas do Dr. Meggar subiam e desciam.
— Bem, não há nada de errado em sua pulsação ou sua respiração. Não vejo como uma boa caminhada à tarde poderia prejudicá-la. Damon já está de pé mas não dê nenhuma ideia a Lady Ulma. Ela ainda precisa de alguns meses de repouso.
— Ela tem uma escrivaninha linda, feita de uma bandeja de café da manhã — explicou Bonnie, gesticulando para mostrar o tamanho. — Ela desenha as roupas lá. — Bonnie se inclinou para a frente, com os olhos arregalados. — E sabe de uma coisa? Os vestidos dela são mágicos.
— Eu não esperaria menos que isso — grunhiu o Dr. Meggar. Mas, no momento seguinte, Elena se lembrou de algo desagradável.
— Mesmo quando conseguirmos as chaves — disse ela, — ainda teremos que pensar em como sairemos da prisão.
— Como assim? — perguntou Lakshmi, toda animada.
— Bom... Nós conseguimos as chaves da cela de Stefan, mas ainda precisamos pensar em como vamos entrar na prisão e tirá-lo de lá sem que ninguém nos veja.
Lakshmi franziu a testa.
— Por que não entram com os outros na fila e saem com ele pelo portão?
— Porque — disse Elena, se esforçando para parecer paciente — eles não vão deixar que a gente entre para pegá-lo. — Ela semi-cerrou os olhos enquanto Lakshmi colocava a cabeça nas mãos. — No que está pensando, Lakshmi?
— Bom, primeiro você disse que estará com a chave quando for à prisão, depois vai agir como se não deixassem que o tirassem de lá.
Meredith balançou a cabeça, desnorteada. Bonnie pôs a mão na testa como se estivesse doendo. Mas Elena se inclinou para a frente devagar.
— Lakshmi — disse ela, num tom muito baixo, — está dizendo que se tivermos a chave da cela de Stefan é como se tivéssemos um passe para entrar e sair da prisão?
Lakshmi se iluminou.
— Mas é claro! — disse ela. — Se não, para que serviria a chave? Eles podiam trancá-lo em qualquer cela.
Elena mal acreditava na maravilha que acabara de ouvir, imediatamente procurou por falhas naquilo.
— Isso significaria que podíamos ir direto da festa de Bloddeuwedd para a prisão e tirar Stefan de lá — disse ela com o maior sarcasmo que podia injetar na voz. — A gente só precisaria mostrar a chave e eles nos deixariam levar Stefan.
Lakshmi assentiu, ansiosa.
— Isso! — disse ela alegremente, sem notar o sarcasmo entrando. — E não fique chateada, está bem? Mas por que você nunca quis visitá-lo?
— Nós podemos visitá-lo?
— Mas é claro, se marcarem hora.
Meredith e Bonnie haviam voltado à vida e seguravam Elena dos dois lados.
— E quando podemos mandar alguém para marcar uma hora, é rápido? — perguntou Elena entre os dentes, pois precisava de todo o esforço do mundo para falar, todo seu peso estava pousado nas duas amigas. — Quem podemos mandar para marcar hora? — sussurrou ela.
— Eu irei — disse Damon da escuridão carmim atrás delas. — Irei esta noite... Me dê cinco minutos.
***
Matt podia sentir que sua expressão era zangada e teimosa.
— Ah, tenha dó — disse Tyrone, parecendo se divertir. Os dois estavam se preparando para uma ida à mata. Isso significava vestir dois dos casacos cheios de naftalina e usar fita adesiva para prender as luvas nos casacos. Matt já estava suando.
Mas Tyrone era um cara legal, pensou ele. De repente, Matt falou:
— Ei, sabe a coisa bizarra que aconteceu com o coitado do Jim Bryce na semana passada? Bom, está tudo relacionado com uma coisa ainda mais bizarra... Tem algo a ver com espíritos raposa e o antigo bosque, e a Sra. Flowers disse que se não nos prepararmos para o que vai acontecer, estaremos ferrados. E a Sra. Flowers não é só a velha maluca do pensionato, como todo mundo acha.
— Claro que não — a voz brusca da Dra. Alpert veio da soleira da porta.
Ela baixou a maleta preta; ainda era uma médica do interior, mesmo quando a cidade estava em crise, e se dirigiu ao filho — Theophilia Flowers, a Sra. Saitou e eu nos conhecemos há muito tempo. Elas sempre foram muito prestativas. É da natureza delas.
— Bom... — Matt viu uma oportunidade e a aproveitou de imediato. — Agora é a Sra. Flowers que precisa de ajuda. Precisa mesmo de ajuda.
— Então, o que está fazendo sentado aí, Tyrone? Vá logo ajudar a Sra. Flowers. — A Dra. Alpert ajeitou os próprios cabelos castanhos grisalhos com os dedos, depois acariciou os cabelos pretos do filho com ternura.
— E eu ia mesmo, mãe. Já estávamos saindo quando você chegou.
Tyrone, vendo a história de terror que Matt tinha como carro, educadamente ofereceu-se para levá-los à casa da Sra. Flowers em seu Camry.
Matt, temeroso que seu carro pudesse literalmente morrer em um momento crucial, aceitou com muita satisfação.
Ele ficou feliz porque Tyrone seria o esteio do time de futebol americano da Robert E. Lee no ano que vem. Ty era o tipo de cara com quem se podia contar — como comprovava sua oferta imediata de ajuda hoje. Ele levava tudo na esportiva e era inteiramente correto. Matt não conseguia deixar de ver como as drogas e o álcool arruinaram não só os jogos atuais, mas o espírito esportivo de outros times do campus.
Tyrone também era um cara que sabia ficar de boca fechada. Ele não perguntou nada a Matt no caminho até o pensionato, mas; soltou um assovio quando chegaram, não para a Sra. Flowers, mas para o Modelo T amarelo vivo que ela dirigia para o antigo estábulo.
— Caramba! — disse ele, saltando para ajudá-la com a sacola de compras, enquanto seus olhos varriam o Modelo T de um para-choques a outro. — É um Ford sedã Modelo T! Seria um carro bonito se... — Ele parou de repente e sua pele morena ardeu com um brilho de poente.
— Ah, meu caro, não se constranja com a Diligência Amarela! — disse a Sra. Flowers, permitindo que Matt levasse outra sacola de mantimentos para a cozinha. — Ela serviu a minha família por quase cem anos e acumulou alguma ferrugem e arranhões com o tempo. Mas faz quase 45 quilómetros por hora em estradas pavimentadas! — acrescentou a Sra. Flowers, falando não só com orgulho, mas com um respeito temeroso que merece uma viagem em alta velocidade.
Os olhos de Matt encontraram os de Tyrone e Matt entendeu que os dois pensavam a mesma coisa.
Restaurar à perfeição o carro dilapidado, gasto, mas ainda bonito, que passou a maior parte de seu tempo em um estábulo convertido.
— Podemos fazer isso — disse Matt, sentindo que, como representante da Sra. Flowers, devia fazer a oferta primeiro.
— Claro que podemos — disse Tyrone, sonhando com a ideia.
— Ele já está numa garagem grande... Não teremos problema com espaço.
— Nem teríamos que desmontar tudo até o chassi... Ele realmente roda como um sonho.
— Tá brincando! Mas podemos limpar o motor; dar uma olhada nas válvulas, nas correias, mangueiras e essas coisas. E... — com os olhos escuros brilhando subitamente — meu pai tem uma desbastadora. Podemos tirar a pintura e pintar novamente com o mesmo tom de amarelo!
A Sra. Flowers de repente ficou radiante.
— Isso era o que a querida mama esperava que você dissesse, meu jovem — disse ela, e Matt se lembrou de suas maneiras por tempo suficiente e apresentou Tyrone a Sra. Flowers.
— Agora, se você dissesse vamos pintá-la de borgonha‖, ou azul‖ ou qualquer outra cor, tenho certeza de que ela iria se opor — disse a Sra. Flowers enquanto preparava sanduíches de presunto, salada de batatas e uma grande panela de feijão. Matt viu a reação de Tyrone à menção da "mama" e ficou satisfeito: houve um segundo de surpresa, seguido por uma expressão tranquila. A mãe dele havia dito que a Sra. Flowers não era uma velha maluca: portanto ela não era uma velha maluca. Um peso imenso pareceu sair dos ombros de Matt. Ele não estava mais sozinho com uma senhora frágil a quem tinha que proteger. Tinha um amigo em quem confiar, que era um pouco maior do que ele.
— Agora vocês dois comam um sanduíche de presunto, enquanto faço a salada de batata. Sei que os meninos — a Sra. Flowers sempre falava dos homens como se fossem um tipo especial de flor — precisam de uma boa refeição antes de entrar em uma batalha. E não há motivos para sermos formais, podem comer.
Eles obedeceram, satisfeitos. Agora se preparavam para a batalha, sentindo-se prontos para combater tigres, uma vez que a ideia de sobremesa da Sra. Flowers era uma torta de noz, que seria dividida entre os meninos, junto com xícaras imensas de um café capaz de limpar o cérebro como uma desbastadora.
Tyrone e Matt foram para o cemitério na lata-velha de Matt, seguidos pela Sra. Flowers no Modelo T. Matt sabia muito bem o que as árvores podiam fazer com os carros e não ia fazer o Camry limpinho de Tyrone correr esse risco. Eles desceram a colina até o esconderijo de Matt e do sargento Mossberg. Os dois rapazes ajudaram a frágil Sra. Flowers nas partes mais complicadas. Ela tropeçou e quase caiu uma vez, mas Tyrone cravou as pontas de seus sapatos na colina e se firmou como uma montanha enquanto ela tombava contra ele.
— Ah, meu Deus... Obrigada, Tyrone, querido — murmurou ela, e Matt entendeu que Tyrone, querido tinha sido aceito grupo.
O céu estava escuro, a não ser por um trecho de escarlate enquanto eles chegavam ao esconderijo. A Sra. Flowers pegou o distintivo do xerife, muito sem jeito, devido às luvas de jardinagem que usava e o levou à testa, em seguida, o afastou lentamente ainda segurando-o diante dos olhos.
— Ele ficou parado aqui e se curvou, e ficou de quatro aqui — disse ela, abaixando-se no que era realmente o lado correto do esconderijo. Matt assentiu, sem saber o que estava fazendo, e a Sra. Flowers disse sem abrir os olhos: — Não me dê nenhuma pista, Matt, querido. Então ele ouviu alguém atrás dele e girou, sacando a arma. Mas era Matt, e eles conversaram baixinho por um tempo. Depois ele de repente se levantou.  A Sra. Flowers levantou-se de súbito, e Matt ouviu seu corpo velho e delicado estalar. ― Ele saiu andando... rápido... para aquela mata. Aquela mata do mal.‖
Ela partiu para a mata como o xerife Rich Mossberg havia feito quando Matt estava com ele. Matt e Tyrone saíram correndo atrás dela, prontos para impedi-la se ela mostrasse algum sinal de querer entrar no que ainda restava do antigo bosque.
Em vez disso, ela voltou, segurando o distintivo na altura dos olhos.
Tyrone e Matt assentiram um para o outro e, sem dizer nada, cada um deles pegou um braço da Sra. Flowers e deram a volta pela beira da mata, uma volta completa, com Matt na frente, a Sra. Flowers atrás e Tyrone por último. De repente, Matt percebeu que as lágrimas desciam pelo rosto enrugado da Sra. Flowers.
Por fim, a frágil idosa parou, pegou um lenço de renda — depois de uma ou duas tentativas — e enxugou os olhos com um arquejar.
— A senhora o encontrou? — perguntou Matt, incapaz de reprimir a curiosidade por mais tempo.
— Bem... Teremos que ver. Os kitsune parecem ser muito, muito bons em ilusões. Tudo que vi pode ter sido uma ilusão. Mas — ela soltou um suspiro pesado — um de nós terá de entrar no bosque.
Matt engoliu em seco.
— Então serei eu...
Tyrone o interrompeu.
— Ei, de jeito nenhum, cara. Você sabe como a coisa funciona, seja lá que for. Tem que tirar a Sra. Flowers dessa...
— Não, não posso permitir que você corra o risco de se machucar...
— Mas o que estou fazendo aqui, então? — perguntou Tyrone.
— Esperem, meus queridos — disse a Sra. Flowers, quase chorando. Os meninos se calaram de imediato, e Matt sentiu vergonha de si mesmo. — Acho que sei como os dois podem me ajudar, mas é muito perigoso. Perigoso para os dois. Mas talvez, se fizermos isso apenas uma vez, podemos eliminar o risco e aumentar nossa chance de descobrir alguma coisa.
— Mas como? — perguntaram Tyrone e Matt ao mesmo tempo.
Alguns minutos depois, eles estavam preparados. Deitaram-se lado a lado, de frente para o muro formado pelas árvores altas e os arbustos emaranhados da mata. Não só foram amarrados com cordas, mas também espalharam os Post-its da Sra. Saitou pelos braços.
— Agora, quando eu disser 'três', quero que os dois estendam a mão e tateiem o chão. Se sentirem alguma coisa, segurem firme e puxem o braço. Se não sentirem nada, movam a mão um pouco e puxem o mais rápido que puderem. E a propósito — acrescentou ela calmamente, — se sentirem algo tentando puxar vocês ou imobilizar seu braço, gritem, lutem, esperneiem e berrem, e vamos ajudar a sair.
Os três ficaram quietos por bom tempo.
— Então basicamente acha que existem coisas pelo chão da mata, que podemos pegar simplesmente tateando às cegas — disse Matt.
— Sim — respondeu a Sra. Flowers.
— Tudo bem — falou Tyrone, e mais uma vez Matt olhou para ele com aprovação. Ele não ousou perguntar: 'Que tipo de coisas podem nos puxar para o bosque?'
Agora eles estavam posicionados e a Sra. Flowers contava: ― Um, dois, três, — e Matt lançou o braço direito o mais longe que pôde, e movia o braço enquanto tateava.
Ele ouviu um grito ao lado.
— Peguei! — Mas imediatamente depois ouviu: — Tem alguma coisa me puxando!
Matt puxou o próprio braço para fora da mata antes de ajudar Tyrone.
Algo caiu nele, mas bateu num Post-it e o golpe como se tivesse sido golpeado por um pedaço de isopor.
Tyrone se debatia loucamente e já tinha sido arrastado até os ombros.
Matt o pegou pela cintura e usou toda a sua força para puxá-lo de volta.
Houve um momento de resistência e então Tyrone saiu da mata de repente, como uma rolha que estourava.
Tinha arranhões no rosto e no pescoço, mas não onde os casacos o cobriam ou onde estavam os Post-its.
Matt teve vontade de dizer 'obrigado', mas as duas mulheres que haviam fabricado os amuletos estavam longe dali, e ele se sentiu idiota dizendo isso ao casaco de Tyrone. De qualquer modo, a Sra. Flowers estava agitada, agradecendo às pessoas o bastante pelos três.
— Ah, Matt, quando aquele galho grande desceu, achei que você ia, no mínimo quebrar o braço. Graças ao bom Deus as mulheres Saitou fizeram amuletos excelentes. E Tyrone, querido, por favor, tome um gole de seu cantil...
— Eu não costumo beber...
— É apenas limonada quente, receita minha, querido. Se não fosse por vocês dois, não teríamos conseguido. Tyrone, achou alguma coisa, não foi? Depois você foi apanhado e não estaria salvo se Matt não estivesse aqui para ajudar você.
— Ah, tenho certeza de que ele teria conseguido sair — disse Matt apressadamente, porque devia ser constrangedor para qualquer um como o Ty admitir que precisava de ajuda. Tyrone, porém, disse com seriedade:
— Eu sei. Obrigado, Matt.
Matt se sentiu corar.
— Mas no final das contas não peguei nada demais — disse Tyrone, revoltado. — Senti um pedaço de cano velho ou coisa assim...
— Bom, vamos dar uma olhada — disse a Sra. Flowers com a expressão séria.
Ela jogou a luz forte da lanterna no objeto que Tyrone arriscara tanto para tirar da mata.
No início, Matt achou que era um enorme osso do corpo para cachorros.
Mas uma forma muito familiar o fez olhar mais de perto.
Era um fêmu, um fêmu humano. O maior osso do corpo, o osso da perna. E ainda estava branco. Fresco.
— Não parece de plástico — disse a Sra. Flowers numa voz que parecia muito distante.
Não era plástico. Matt podia ver as marcas de pequenas mordidas enroscarem-se no exterior. Também não era de couro. Era... Bom, era real.
Um osso humano.
Mas o mais apavorante não era isso; Matt girou no escuro.
O osso estava polido de tão limpo e trazia a marca de dezenas de dentinhos minúsculos.

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