29 de novembro de 2015

Capítulo 30

— Tire suas roupas e entre no outro lado — Damon disse.
Sua voz não estava nem irritada ou arrogante. Ele adicionou lentamente:
— Elena está morrendo.
As três últimas palavras pareciam afetar Stefan particularmente, embora Elena não pudesse entendê-las. Stefan não estava se movendo, apenas respirando com dificuldade, os olhos arregalados.
— Bonnie e eu estivemos recolhendo feno e combustível e estamos bem.
— Vocês estiveram se exercitando... Se movendo... Vestindo roupas que os mantiveram aquecidos. Ela esteve imersa em água gelada e... Pegando friagem. Eu fiz com que o outro thurg quebrasse algumas madeiras das árvores mortas deste lugar para fazer uma fogueira. Agora, entra logo aqui, Stefan, e dê a ela um pouco de calor corporal, ou eu vou transformá-la em vampira.
— Nnn — Elena tentou dizer, mas Stefan não pareceu entender.
Damon, de qualquer jeito, disse:
— Não se preocupe. Ele vai te aquecer do outro lado. Você não tem que se transformar em vampira, por enquanto. Pelo amor de Deus — Ele adicionou de repente, explosivamente —, ele é o príncipe que você escolheu!
A voz de Stefan estava quieta e tensa.
— Você tentou colocá-la em uma camada térmica?
— Claro que tentei, idiota! Nenhuma magia funciona após ultrapassarmos o Lago, exceto a telepatia.
Elena não tinha noção de que o tempo estava passando, mas de repente houve um corpo familiar sendo pressionado contra o seu, do outro lado.
E de algum lugar direto em sua mente:
Elena? Elena? Você está bem, não está, Elena? Não ligo se você estiver brincando comigo. Mas você está bem mesmo, não está? Só me diga isso, amor.
Elena não era capaz de responder nada.
Vagamente, pequenos fragmentos de som foram chegando aos seus ouvidos:
— Bonnie... No topo dela e... Fazer que nós ficássemos em ambos os lados dela.
E sentimentos maçantes agitaram seu senso de toque: um corpo pequeno, quase sem peso, parecido com um cobertor grosso, pressionado embaixo dela. Alguém chorando, as lágrimas escorrendo para seu pescoço. E calor vindo de ambos os lados.
Estou dormindo com vários filhotinhos de gato, ela pensou, cochilando. Talvez nós tenhamos um sonho agradável.

* * *

— Gostaria de poder saber como eles estão — Meredith disse, dando uma pausa para ter um daqueles surtos estimulantes.
— Gostaria de poder saber o que nós estamos fazendo — Matt disse cansadamente enquanto colocava outro amuleto em forma de cartão em uma janela. E mais outro.
— Sabem, meus queridos, eu fiquei ouvindo uma criança chorar na noite passada, em meus sonhos. — A Sra. Flowers disse lentamente.
Meredith se virou, assustada.
— Eu também! Lá na varanda da frente, é o que parecia. Mas eu estava cansada demais para levantar.
— Não deve ser... Nada de mais. — A Sra. Flowers fez uma careta.
Ela estava fervendo a água da torneira para o chá. A eletricidade era esporádica. Matt e Sabber tinham voltado à pensão, mais cedo naquele dia, para que Matt pudesse reunir os instrumentos mais importantes para Sra. Flowers: suas ervas para chás, compressas e cataplasmas. Ele não teve coragem de contar a ela sobre o estado da pensão, ou o que aquelas larvas malach haviam feito a ela. Ele teve de encontrar uma tábua solta na garagem para poder entrar no corredor da casa, indo até a cozinha. Não havia mais o terceiro andar, tão pouco o segundo.
Pelo menos ele não teve de fugir de Shinichi.
— O que eu estava dizendo é que, talvez, há uma criança de verdade lá fora. — Meredith disse.
— Sozinha na noite? Parece mais com um zumbi do Shinichi. — Matt disse.
— Talvez. Mas talvez não seja. Sra. Flowers, você tem alguma ideia de quando ouviu o choro? Cedo ou tarde da noite?
— Deixe-me pensar, amada. Acho que eu ouvia sempre que eu acordava... E pessoas velhas acordam com grande frequência.
— Eu ouvi próximo à manhã… Mas dormi sem sonhar durante as primeiras horas e acordei cedo.
A Sra. Flowers virou-se para Matt.
— E quanto a você, Matt querido? Ouviu algum som parecido com um choro?
Matt, que deliberadamente se sobrecarregou nestes últimos dias tentando ter um sono decente, disse:
— Eu ouvi gemidos e choros ao vento próximo à meia-noite, eu acho.
— Parece que um fantasma nos visitou a noite toda, meus queridos — A Sra. Flowers disse calmamente, servindo-lhes um pouco de chá.
Matt viu a olhadela inquieta que Meredith deu para ele... Mas Meredith não conhecia a Sra. Flowers tão bem quanto ele.
— Você não acha que seja um fantasma. — Ele disse.
— Não, não acho. Mama não se pronunciou a respeito, e aqui é sua casa, Matt querido. Não deve haver assassinatos hediondos ou segredos em seu passado, eu penso. Vamos ver...
Ela fechou seus olhos e deixou Matt e Meredith bebendo seus chás. Então os abriu e deu-lhe um sorriso intrigante.
— Mama disse: “Procurem pela casa o seu fantasma.” Então, ouçam bem o que ele tem a dizer.
— Ok — Matt disse sem demonstrar expressão. — Já que é minha casa, acho que é melhor eu ir procurá-lo. Mas onde? Deve fazer algum código?
— Acho que o melhor jeito de nos arrumarmos, é por meio de turnos. — A Sra. Flowers disse.
— Ok — Meredith concordou prontamente. — Eu pego o turno do meio, da meia-noite até às quarto; Matt fica com o primeiro; e Sra. Flowers, você pode pegar o da manhã, e tirar um cochilo essa tarde se quiser.
Matt se sentiu desconfortável.
— Por que não fazemos só dois turnos e vocês duas dividem um? Eu fico com o outro.
— Porque, querido Matt — Meredith disse —, não queremos ser tratadas como “mulherzinhas”. E não discuta — Ela ergueu a estaca de combate —, porque sou eu quem está com a artilharia pesada.
Algo estava fazendo o quarto tremer. Fazendo Matt tremer junto. Ainda meio adormecido, ele colocou sua mão embaixo de seu travesseiro e tirou de lá um revólver. Uma mão pegou a sua e ele ouviu uma voz.
— Matt! Sou eu, a Meredith! Acorde, ok?
Sonolento, Matt estendeu a mão para o interruptor de luz. Mais uma vez, dedos fortes e magros o impediram de fazer o que queria.
— Nada de luz — Meredith sussurrou. — Está bem fraquinho, mas se você vier comigo silenciosamente, poderá ouvir. O choro.
Isso fez com que Matt acordasse por completo.
— Agora?
— Agora.
Fazendo seu melhor para andar silenciosamente pelo corredor escuro, Matt seguiu Meredith para a sala de estar do andar de baixo.
— Shh! — Meredith avisou. — Ouça.
Matt escutou. Ele pôde ouvir alguns soluços perfeitamente, e talvez algumas palavras, mas não parecia ser um fantasma. Ele encostou o ouvido na parede e ouviu. O choro estava mais alto.
— Você tem uma lanterna? — Matt perguntou.
— Eu tenho duas, meus queridos. Mas esta é uma hora da noite muito perigosa. — A Sra. Flowers era uma sombra contra a escuridão.
— Por favor, dê as lanternas para nós. — Disse Matt. — Não acho que nosso fantasma seja muito sobrenatural. Que horas são, afinal?
— Quase meia-noite e quarenta — Meredith respondeu. — Mas por que você acha que não seja sobrenatural?
— Porque isto está vivendo em nosso porão — Matt disse. — Acho que é o Cole Reece. A criança que comeu seu porquinho-da-índia.
Dez minutos depois, com a estaca, duas lanternas e Sabber, eles havia capturado o fantasma.
— Eu não quis fazer nenhum mal. — Cole soluçou, quando eles o atraíram para cima com promessas de doces e chás “mágicos” que fariam com que ele dormisse.
— Eu não machuquei ninguém, juro — Ele engasgou, devorando uma barra de chocolate atrás de outra da Hershey como sua primeira reação. — Tenho medo que ele esteja atrás de mim. Porque depois que você me atingiu com aquele papelzinho, não fui mais capaz de ouvi-lo em minha cabeça. E então vi vocês chegando aqui — Ele gesticulou ao redor da casa de Matt — e vocês tinham amuletos e deduzi que seria melhor ficar aqui dentro. Ou seria a minha Última Meia-Noite também.
Ele estava balbuciando. Mas algo sobre as últimas palavras fizeram Matt dizer:
— O que você quer dizer com “sua Última Meia-Noite também”?
Cole olhou para ele com medo. Havia um pouco de chocolate derretido em torno de seus lábios, fazendo com que Matt se lembrasse da última vez em que tinha visto o garoto.
— Você não sabe? — Cole vaciolou. — Sobre as meias-noites? A contagem regressiva? Vinte dias antes da Última Meia- Noite? Onze dias antes da Última Meia-Noite? E agora... Hoje é o último dia até a Última Meia-Noite.
Ele começou a soluçar novamente, mesmo com chocolates em sua boca. Estava claro que ele estava faminto.
— Mas o que acontece na Última Meia-Noite? — Meredith perguntou.
— Você não sabe? É quando... Você sabe.
Irritantemente, Cole parecia pensar que eles o estavam testando.
Matt colocou suas mãos sobre os ombros de Cole e, para seu horror, sentir os ossos sob seus dedos.
O garoto estava com muita fome mesmo, pensou, perdoando-lhe por todas aquelas barras de chocolate.
Seus olhos encontraram os da Sra. Flowers e ela imediatamente foi para a cozinha.
Mas Cole não estava respondendo; ele estava murmurando incoerentemente. Matt forçou-se a pressionar mais força naqueles ombros ossudos.
— Cole, fale mais alto! O que é essa Última Meia-Noite?
— Você sabe. É quando... Todas as crianças… Você sabe, eles esperam até a meia-noite... Pegam facas ou armas. Você sabe. E nós vamos até o quarto de nossos pais enquanto eles estão dormindo e...
Cole calou-se novamente, mas Matt notou que ele sem querer disse “nós” e “nossos” no final.
Meredith falou em sua voz calma e firme:
— As crianças vão matar seus próprios pais, não é?
— Ele nos mostrou onde golpear ou esfaquear. Ou, se houver uma arma...
Matt havia ouvido o bastante.
— Você pode ficar... No porão. — Ele disse. — E aqui está alguns amuletos. Coloque-os em você se você sentir que está em perigo.
Ele deu a Cole um pacote inteiro de Post-It.
— Não tenha medo. — Meredith adicionou, enquanto a Sra. Flowers vinha com um prato de salsichas e batatas fritas para Cole.
A qualquer outro momento, o cheiro teria feito com que Matt ficasse com fome.
— É igual àquela ilha no Japão — Ele disse. — Shinichi e Misao fizeram aquilo acontecer, e vão fazer isso novamente.
— O tempo está correndo. Na verdade, já é o dia da Última Meia-Noite... Já é quase uma e meia da manhã. — Meredith disse. — Temos menos de vinte e quatro horas. Devemos dar o fora de Fell’s Church ou fazer algo para organizar um confronto.
— Um confronto? Sem Elena, Damon ou Stefan? — Matt disse. — Seremos mortos. Esqueceu-se do xerife Mossberg?
— Ele não tinha isso — Meredith jogou sua estaca de combate no ar, pegou-a perfeitamente, colocando-a de lado.
Matt sacudiu sua cabeça.
— Ainda assim, Shinichi vai te matar. Ou uma das crianças irá, com uma semi-automática do armário de seus pais.
— Temos que fazer alguma coisa.
Matt pensou. Sua cabeça latejava. Finalmente disse, com a cabeça baixa:
— Quando eu fui pegar as ervas, eu peguei a Esfera Estelar de Misao, também.
— Você tá de brincadeira. Shinichi ainda não a tinha encontrado?
— Não. E talvez nós possamos fazer algo com ela.
Matt olhou para Meredith, que olhava para a Sra. Flowers.
A Sra. Flowers disse:
— Que tal se jogássemos o líquido em diferentes lugares em Fell’s Church? Só uma gotinha aqui e ali? Podíamos pedir para o Poder dentro dela que protegesse a cidade. Talvez ele ouça.
Meredith disse:
— Esse era o principal motivo de queremos as Esferas Estelares de Shinichi e Misao. As Esferas Estelares controlam seus donos, de acordo com a lenda.
Matt disse:
— Pode ser um jeito ultrapassado de se pensar, mas concordo.
Meredith disse:
— Então vamos fazer isso neste instante.
Quanto às outras duas esperavam, Matt foi pegar a Esfera Estelar de Misao. Havia muito, muito pouco líquido dentro do globo.
— Depois da Última Meia-Noite, ela planeja preenchê-la até o topo com a energia das novas vidas tiradas — Meredith disse.
— Bem, ela não terá a chance de fazer isso — Matt disse sem rodeios. — Quando terminarmos, nós a destruiremos.
— Mas devíamos nos apressar. — Meredith adicionou. — Vamos juntar algumas armas: algo de prata, algo longo e pesado, como um atiçador. Os zumbis de Shinichi não ficarão felizes... E quem sabe quem mais estará do lado dele?

Um comentário:

  1. Os destemidos "protetores de Fell's Church" vs O exército de crianças diabólicas! No que será que isso vai dar?

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