26 de novembro de 2015

Capítulo 30

Matt olhava a Sra. Flowers revirar o distintivo do xerife Mossberg, segurando-o levemente em uma das mãos e passando os dedos nele com a outra.
O distintivo vinha de Rebecca, a sobrinha do xerife Mossberg. Parecia uma grande coincidência Matt esbarrar nela mais cedo. Ele logo percebeu que ela estava usando uma camisa de homem como vestido. A camisa era familiar — uma camisa do xerife de Ridgemont.
Depois ele viu o distintivo ainda preso nela. Havia várias coisas a falar sobre o xerife Mossberg, mas era impossível imaginar que ele perderia o distintivo. Matt se esquecera de toda educação e arrebanhou o pequeno escudo de metal antes que Rebecca pudesse impedi-lo. Sentia um incômodo na boca do estômago, que só piorou desde então. A expressão da Sra. Flowers não ajudava em nada para reconfortá-lo.
— Não esteve em contato direto com a pele dele — disse ela suavemente— então as imagens são meio nebulosas. Mas ah, meu querido Matt — ela ergueu os olhos escurecidos para ele, — estou com medo. — Ela tremeu, sentando-se na cadeira da mesa da cozinha, onde duas canecas de leite quente estavam intocadas.
Matt deu um pigarro e tocou o leite escaldante com os lábios.
— Acha que precisamos sair para dar uma olhada?
— Devemos — disse a Sra. Flowers. Ela balançou a cabeça, com seus cachos macios e finos, tristemente. — A querida mama está insistindo muito, e posso sentir isso também; uma grande perturbação neste artefato.
Matt sentiu a mais leve sombra de orgulho tingindo seu medo por ter garantido esse "artefato", depois pensou, ah, tá, roubar distintivos de camisas de meninas de 12 anos é mesmo motivo de orgulho.
A voz da Sra. Flowers veio da cozinha:
— É melhor vestir algumas camisas e suéteres e um par disto aqui. — Ela entrou de lado pela porta da cozinha, segurando vários casacos compridos, aparentemente vindos do armário frente da porta da cozinha, e vários pares de luvas de jardinagem.
Matt levantou para ajudá-la com a braçada de casacos e teve uma crise de tosse com o cheiro de naftalina e de... mais alguma coisa, algo picante — que o cercava.
— Por que... parece... Natal? — disse ele, obrigado a tossir entre uma palavra e outra.
— Ah, ora, esta seria a receita de conservação da tia-avó Morwen — respondeu a Sra. Flowers. — Alguns desses são do tempo da minha mãe.
Matt acreditou nela.
— Mas ainda está quente lá fora. Por que temos que tantos casacos?
— Para proteção, querido Matt, para proteção! Estas roupas têm feitiços que vão nos proteger do mal.
— Até as luvas de jardinagem? — perguntou Matt, perdido.
— Até as luvas — disse a Sra. Flowers com firmeza. Ela parou e disse numa voz baixa: — E é melhor pegarmos algumas lanternas, Matt querido, porque isto é algo que vamos ter que fazer no escuro.
— Está brincando!
— Não, infelizmente não estou. E precisamos levar uma corda para nos amarrarmos. Em hipótese nenhuma devemos entrar no bosque à noite.
Uma hora depois, Matt ainda refletia. Não estava com fome na hora do jantar. A Sra. Flowers preparara beringela grelhada com queijo da Sra. Flowers, e as engrenagens de seu cérebro não pararam de girar.
Será que é assim que Elena se sente, pensou ele, quando está bolando seus Planos A, B e C? Será que se acha uma idiota quando faz isso?
Ele sentiu um aperto no coração e, pela milésima vez desde que deixou Elena e Damon, perguntou-se se agiu corretamente.
Tem de ser, disse ele a si mesmo. Doía muito, e esta era a prova disso. As coisas que realmente doíam eram as atitudes certas.
Mas eu queria ter me despedido dela...
Mas se você tivesse se despedido, nunca teria ido embora. Encare a realidade, imbecil. Para Elena, você é o maior mané do mundo. Desde que ela encontrou um namorado de quem gosta mais, você anda agindo como se fosse Meredith e Bonnie, ajudando-a a ficar com ele e se afastar do Cara Mau.
Talvez vocês todos devessem usar camisetas com os dizeres "Sou um cachorrinho. Minha dona é a princesa Ele..."
SMACK!
Matt se colocou de pé num salto e caiu agachado, o que era mais doloroso do que parecia nos filmes.
Tec-tec-tec!
Era a persiana frouxa do outro lado da sala. Mas o primeiro barulho foi uma pancada. O exterior do pensionato estava em péssimo estado, e às vezes as persianas de madeira se soltavam de repente de seus pregos.
Mas seria apenas uma coincidência?, pensou Matt, assim que seu coração se acalmou. Neste pensionato onde Stefan passou tempo? Talvez de algum modo ainda houvesse resquícios de seu espírito por aqui, captando o que as pessoas pensavam dentro dessas salas. Se fosse assim, Matt tinha acabado de levar um murro no plexo solar, a julgar pelo que sentia.
Desculpe, amigo, pensou ele, quase dizendo isso em voz alta. Eu não pretendia criticar sua garota. Ela está sob muita pressão.
Criticar a garota dele?
Criticar Elena?
Mas que inferno, ele era a primeira pessoa a bater em qualquer um que criticasse Elena. Desde que Stefan não usasse truques de vampiro para entrar na briga primeiro!
E o que Elena sempre dizia mesmo? Nunca se está realmente preparado. Nenhum plano reserva é demais, porque, assim como Deus fez uma casca irritante em volta de um amendoim, seu plano principal sempre terá algumas falhas.
Era por isso que Elena também trabalhava com o maior número de pessoas possível. Mesmo que os trabalhadores extras jamais precisassem se envolver, eles estavam ali para o caso de serem necessários.
Pensando nisso, e com a cabeça funcionando muito melhor desde que vendeu o Prius e deu o dinheiro de Stefan a Bonnie e Meredith para as passagens de avião, Matt se entregou ao trabalho.
***
— E depois demos um passeio pela propriedade e vimos o pomar de maçãs, o laranjal e as cerejeiras — Bonnie contou Elena, que estava deitada, parecendo pequena e indefesa em sua cama de baldaquino, coberta por cortinas douradas escuras que agora estavam abertas e presas por cordões de seda em vários tons de dourado.
Bonnie estava sentada confortavelmente em uma poltrona dourada que tinha sido arrastada até a cama. Tinha os pezinhos descalços nos lençóis.
Elena não era uma boa paciente. Queria se levantar e não parava de insistir. Queria poder andar. Sabia que isso faria mais bem a ela do que toda a aveia, carne, leite e cinco visitas por dia de Dr. Meggar, que passou a morar na propriedade.
Mas ela sabia o que todos temiam. Bonnie tinha soltado tudo em um gemido soluçante e tristonho numa noite, quando a ruivinha estava de serviço ao lado de Elena.
— V-você gritou e todos os v-vampiros ouviram, e Sage pegou Meredith e eu como duas gatinhas, uma em cada braço, e correu até os gritos. Mas n-na hora praticamente todos tinham chegado a você primeiro! Você estava inconsciente, e Damon também, e alguém disse: "Eles foram at-atacados e eu ach-cho que estão mortos!"‖ e todo m-mundo d-dizia: "Chamem os Guar-diões!" E eu desmaiei.
— Shhhh — dissera Elena com gentileza... e astúcia. — Beba um pouco de Black Magic e vai se sentir melhor.
Bonnie obedeceu. E bebeu um pouco mais. Depois continuou com a história:
— Mas Sage devia saber de alguma coisa, porque disse: "Esperem, eu sou médico e vou examiná-los". E todos acreditaram nele, pelo modo como falou! Depois ele olhou os dois, e acho que soube o que tinha acontecido, porque disse: "Preparem uma carruagem! Preciso levá-los ao Dr. Meggar, meu colega". E Lady Fazina em pessoa apareceu e disse que podíamos usar uma das carruagens dela, mandando de volta quando qu-quisessem. Ela é tããão rica! E aí, levamos vocês pelos fundos porque... tinha umas cretinas que disseram: "eles que morram". Elas eram demônios de verdade, brancas pra caramba, conhecidas como Mulheres de Neve. E aí, estávamos na carruagem e, ai, meu Deus! Elena! Elena, você morreu! Você parou de respirar duas vezes! E Sage e Meredith tentaram animá-la. E eu... Eu rezei t-t-tanto.‖
A essa altura Elena estava totalmente imersa na história e anihara a amiga, mas as lágrimas de Bonnie continuaram vindo.
— E batemos na casa do Dr. Meggar como se fôssemos derrubar a porta... E... alguém falou com ele... Ele examinou você e disse: "Ela precisa de uma transfusão". E eu disse: "Use o meu sangue". Porque lembra na escola, quando apenas nós duas podíamos doar sangue a Jody Wright porque tínhamos o mesmo tipo? E depois o Dr. Meggar preparou duas mesas assim — Bonnie estalou os dedos — e eu estava com tanto medo que mal consegui ficar parada para a agulha, mas acabei conseguindo. Eu consegui, de algum jeito! E eles deram um pouco do meu sangue a você. E, enquanto isso, sabe o que Meredith fez? Ela deixou Damon mordê-la. Deixou mesmo. E o Dr. Meggar mandou a carruagem de volta à casa para pedir criados que "quisessem uma bonificação", porque é assim que se chama aqui... E a carru-agem voltou cheia. Não sei quantos Damon mordeu, mas foram muitos! O Dr. Meggar disse que era o melhor remédio. E Meredith, Damon e todos convencemos o Dr. Meggar a vir para cá, quero dizer, para morar aqui, e Lady Ulma vai transformar todo o prédio em que ele morava num hospital para os pobres. E desde então estamos tentando fazer você melhorar. Damon me-lhorou logo na manhã seguinte. E Lady Ulma, Lucen e ele... Quero dizer, foi ideia deles, mas ele fez, mandou uma pérola a Lady Fazina... Era do pai dela, que nunca achou uma cliente rica o bastante para comprar, porque é grande demais, do tamanho de um punho, mas irregular, com umas voltas, e tem um brilho de prata. Eles a colocaram numa corrente grossa e mandaram para ela.
Os olhos de Bonnie estavam cheios de novo.
— Porque ela salvou você e Damon. A carruagem dela salvou a vida de vocês. — Bonnie tinha se inclinado para a frente para sussurrar: — E Meredith me disse... É um segredo, mas não para você... Ser mordida não é tão ruim assim. Pronto! — E Bonnie, como a gatinha que era, bocejou e se espreguiçou. — Eu teria sido mordida depois — disse, quase com tristeza, e logo acrescentou: — Mas você precisava do meu sangue. Sangue humano, mas o meu especialmente. Acho que eles sabem tudo sobre tipos sanguíneos por aqui, porque conseguem identificá-los pelo gosto e pelo cheiro. — Depois ela deu um pulinho e disse: — Quer olhar a metade da chave de raposa? Tínhamos tanta certeza de que estava tudo acabado e que jamais acharíamos, quando Meredith foi ao quarto para ser mordida... E eu garanto que foi só isso que eles fizeram... Damon deu a chave a ela e pediu que ela guardasse. Então ela guardou e toma conta dela direitinho, e está numa pequena caixa que Lucen fez de alguma coisa que parece plástico mas não é.
Elena tinha admirado o pequeno crescente, mas a não ser por isso, não havia nada a fazer na cama a não ser conversar e ler uns clássicos ou algumas enciclopédias da Terra. Eles nem a deixaram descansar no mesmo quarto de Damon.
Elena sabia o motivo. Tinham medo de que ela não se limitasse a conversar com Damon. Tinham medo de que ela ficasse perto dele e sentisse seu cheiro exótico e familiar, composto de bergamota italiana, tangerina e cardamomo, e que se ela olhasse em seus olhos negros capazes de comportar universos em suas pupilas, seus joelhos podiam fraquejar e ela despertaria como vampira.
Eles não sabiam de nada! Ela e Damon trocaram sangue com segurança durante semanas antes da crise. Se não houvesse nada que o trouxesse de volta à sanidade, como a dor fizera antes, ele se comportaria como um perfeito cavalheiro.
— Hmmmm — disse Bonnie, depois de ouvir os protestos de Elena, empurrando um travesseirinho com os dedos dos pés, as unhas pitadas de prata. — Talvez eu não deva contar a eles que você andou trocando sangue com Damon recentemente. Pode ser que eles digam "Arrá!" ou coisa parecida. Sabe como é, podem interpretar isso errado.
— Não há nada para interpretar. Estou aqui para resgatar meu amado Damon e Stefan está me ajudando.
Bonnie a olhou com as sobrancelhas unidas e a boca num bico, mas não se arriscou a dizer nada.
— Bonnie?
— Hein?
— Eu acabei de dizer o que acho que disse?
— Arrã.
Elena, em um só movimento, pegou alguns travesseiros e os colocou sobre a cabeça.
— Pode, por favor, dizer ao cozinheiro que quero outro bife e um copo de leite grande? — pediu ela numa voz abafada pelos travesseiros. — Não me sinto bem.
***
Matt tinha uma nova lata-velha. Sempre acabava com um carro desses quando realmente precisava. E agora estava dirigindo, aos trancos e barrancos, para a casa de Obaasan.
A casa da Sra. Saitou, corrigiu-se ele apressadamente. Não queria se intrometer em costumes culturais desconhecidos, não quando ia pedir um favor.
A porta da casa dos Saitou foi aberta por uma mulher que Matt nunca vira na vida. Era atraente, estava vestida muito dramaticamente com uma saia escarlate larga — ou talvez com calças escarlates muito largas — e se postava com os pés tão separados que era difícil ter certeza. Estava com uma blusa branca. As feições eram impressionantes: dois feixes de cabelo preto e liso emolduraram o rosto e um feixe menor e mais elegante de mechas que chegavam às sobrancelhas.
Mas o mais impressionante era que ela segurava uma espada longa e curvada, apontada diretamente para Matt.
— O-oi — disse Matt, quando a porta se abriu e revelou esta aparição.
— Esta é uma casa do bem — respondeu a mulher. — Não é uma casa de espíritos maus.
— Nunca pensei que fosse — disse Matt, afastando-se enquanto a mulher avançava. — Sinceramente.
A mulher fechou os olhos, parecendo procurar algo em sua mente.
Depois, de repente, baixou a espada.
— Você fala a verdade. Não tem intenção de fazer o mal. Entre, por favor.
— Obrigado — disse Matt. Ele nunca ficou tão feliz com a aceitação de uma mulher mais velha.
— Orime — veio uma voz fina e fraca do segundo andar. — É uma das crianças?
— Sim, Hahawe — disse a mulher que Matt não coseguia deixar de pensar como "a mulher da espada".
— Mande-o subir, sim?
— Claro, Hahawe.
— Ha ha... quer dizer, "Hahawe"? — disse Matt, transformando um riso nervoso numa frase desesperada enquanto a espada era embainhada na cintura da mulher. — Não é Obaasan?
A mulher-espada sorriu pela primeira vez.
— Obaasan significa avó. Hahawe é uma das maneiras de se dizer mãe. Mas ela não se importará se você a chamar de Obaasan; é uma saudação simpática para uma mulher da idade dela.
— Tudo bem — disse Matt, se esforçando para parecer amistoso.
A Sra. Saitou fez sinal para ele subir a escada, e Matt espiou em vários quartos antes de entrar em um com um grande futon bem no meio de um piso completamente nu, e nele uma mulher tão pequena como uma boneca, que não parecia real.
Seu cabelo era macio e preto como o da mulher da espada. Estava arrumado de modo que caía como um halo em volta da idosa deitada na cama. Mas os cílios escuros no rosto pálido estavam fechados, e Matt se perguntou se ela caíra num daqueles sonos repentinos, típico de senhoras de idade avançada.
Mas, abruptamente, a idosa-boneca abriu os olhos e sorriu.
— Ora, é Masato-chan! — disse ela, olhando para Matt. Um mau começo. Se ela estava confundindo um jovem louro com um amigo japonês de uns sessenta anos atrás...
Mas depois ela riu, cobrindo a boca com as mãozinhas.
— Eu sei, eu sei — disse ela. — Você não é Masato. Ele agora é um banqueiro muito rico. Tem muita abundância. Especialmente na cabeça e na barriga.
Ela sorriu novamente para Matt.
— Sente-se, por favor. Pode me chamar de Obaasan, se quiser, ou de Orime. Minha filha tem o meu nome. A vida tem sido dura para ela, assim como foi para mim. Ser uma donzela do santuário... e uma samurai... requer disciplina e muito trabalho. E minha Orime estava se saindo muito bem... Até virmos para cá. Procurávamos uma cidade pacífica e tranquila, mas aí, Isobel conheceu... Jim. E Jim foi... infiel.
Matt teve o impulso de defender o amigo, mas o que ele poderia dizer? Jim passou uma noite com Caroline — por pressão dela, é claro. E ele ficou possuído e levou a possessão para a namorada Isobel, que perfurou o corpo de modo bizarro, entre outras coisas.
— Temos que encontrá-los — Matt se viu dizendo com sinceridade. — Foram os kitsune que começaram tudo... com Caroline. Shinichi e sua irmã, Misao.
— Kitsune. — Obaasan assentiu. — Sim, desde o início eu disse que provavelmente haveria um envolvido. Deixe-me ver; abençoei alguns talismãs e amuletos para suas amigas...
— E algumas balas. Estou meio com os bolsos cheios dela  disse Matt, constrangido, enquanto colocava um monte de balas de diferentes calibres na beira da coberta do futon. — Até umas orações na internet para me proteger deles.
— Sim, vejo que não perdeu tempo. Que bom. — Obaasan olhou as orações que ele imprimira. Matt se encolheu, sabendo que tinha apenas seguido a lista de afazeres de Meredith e que o crédito na realidade era dela.
— Vou abençoar primeiro as balas e depois escreverei amuletos — disse. — Coloque-os onde precisar de mais protecão. E, bem, imagino que saiba o que fazer com as balas.
— Sim, senhora! — Matt procurou as últimas nos bolsos, colocando-as nas mãos estendidas de Obaasan. Depois ela entoou uma longa e complicada oração, colocando as mãos minúsculas sobre as balas. Matt não achou o encantamento assustador, mas ele tinha consciência de que era uma negação como paranormal e que Bonnie provavelmente veria e ouviria coisas que ele não podia ver e ouvir.
— Devo me concentrar em alguma parte específica deles? — perguntou Matt, olhando a velha e tentando acompanhar em sua cópia das orações.
— Não, qualquer parte do corpo ou da cabeça serve. Se tirar uma cauda, vai torná-los mais fracos, mas vai enfurecê-los também. — Obaasan parou e tossiu, uma tosse rápida e seca. Antes que Matt pudesse se oferecer para descer e pegar-lhe algo para beber, a Sra. Saitou entrou no quarto segurando uma bandeja com três pequenas xícaras de chá.
— Obrigada por esperar — disse ela, educada ao se ajoelhar tranquilamente para servi-los. Ao primeiro gole, Matt descobriu que o chá verde e fumegante era muito melhor do que esperava, considerando suas poucas experiências em restaurantes.
E fez-se silêncio. A Sra. Saitou estava sentada, olhando a xícara de chá, Obaasan deitava-se branca e murcha sob a coberta do futon, e Matt sentiu uma tempestade de palavras formando-se em sua garganta.
Por fim, embora o bom-senso o aconselhasse a não falar, ele não resistiu e soltou.
— Meu Deus, eu sinto tanto por Isobel, Sra. Saitou! Ela não merecia nada disso! Eu só queria que a senhora soubesse que eu... Eu sinto muito, e vou pegar os kitsune que fizeram isso. Eu lhe prometo, eu vou pegá-los!
 Kitsune? — disse a Sra. Saitou incisivamente, olhando-o como se ele tivesse enlouquecido. Obaasan olhou apiedada de seu travesseiro. Depois, sem esperar para recolher as coisas do chá, a Sra. Saitou se colocou de pé num salto e saiu às presas do quarto.
Matt ficou sem palavras.
— Eu... Eu...
Obaasan falou do travesseiro.
— Não fique tão aflito, meu jovem. Minha filha, embora seja sarcedotisa, tem uma perspectiva muito moderna. Ela provavelmente lhe diria que os kitsune não existem.
— Mesmo depois... Quero dizer, como ela acha que Isobel...?
— Ela acredita que há influências malignas nesta cidade, mas tipo "comum humano". Ela acha que Isobel fez o que fez devido ao estresse que suportava, tentando ser uma boa aluna, uma boa sacerdotisa, uma boa samurai.
— Quer dizer que a Sra. Saitou se sente culpada?
— Ela culpa o pai de Isobel por grande parte disso. Ele trabalha no Japão. — Obaasan se interrompeu. — Não sei por que estou lhe contando tudo isso.
— Desculpe — disse Matt apressadamente. — Não era minha intenção ser intrometido.
— Não, mas você se importa com os outros. Queria que Isobel tivesse dado a luz a um menino como você, em vez da filha dela.
Matt pensou na figura deplorável que vira no hospital. A maioria das cicatrizes de Isobel acabaria invisível sob as roupas. Supondo-se que ela aprendesse a falar de novo. Reunindo coragem, ele disse:
— Bom, estou preparado para pegar os dois.
Obaasan deu um sorriso para ele, depois colocou a cabeça no travesseiro novamente. — não, era um apoio de madeira, percebeu Matt. Não parecia muito confortável.
— É uma pena haver uma rixa entre uma família humana e os kitsune — disse ela. — Porque há boatos de que um de nossos ancestrais foi casado com uma kitsune.
— O quê?
Obaasan riu, novamente escondendo a boca nas mãos.
— Mukashi-mukashi, ou, como vocês dizem, há muito tempo. Diz a lendas que um grande Shogun ficou furioso com todos os kitsune de suas terras pelo mal que faziam. Durante muitos anos, pregavam todo tipo de peça, mas quando o Shogun suspeitou que eram eles que estragavam as lavouras nos campos, fartou-se. Reuniu cada homem e mulher em sua casa e lhes disse que se armassem de estacas, flechas, pedras, enxadas e vassouras, e eliminassem todas as raposas que tinham toca em sua propriedade, até aquelas entre o sótão e o telhado. Ia matar cada uma delas sem piedade. Mas na véspera em que faria isso, ele teve um sonho em que apareceu uma linda mulher e disse que ela era responsável por todas as raposas daquelas terras. "E", disse ela, "embora seja verdade que fazemos maldades, nós compensamos comendo os ratos, camundongos e insetos que realmente estragam a lavoura. Você concordaria em jogar sua ira em mim e me executar, só a mim, em vez de todas as raposas? Estarei aqui ao amanhecer para saber sua resposta". E ela cumpriu com sua palavra, esta kitsune belíssima, chegando ao amanhecer com 12 lindas donzelas como acompanhantes. Mas ela brilhava mais do que todas, como a lua brilha mais que uma estrela. O Shogun não conseguiu matá-la, e acabou pedindo sua mão em casamento, e casou suas 12 acompanhantes com seus 12 mais leais criados. E dizem que ela sempre foi uma esposa fiel, deu-lhe muitos filhos fortes como Amaterasu, a deusa-sol, e lindos como a lua, e que foram felizes até um dia em que o Shogun matou uma raposa em uma viagem por acidente. Ele correu para casa para explicar à esposa que não foi intencional, mas quando chegou encontrou seu lar aos prantos. Sua esposa já o havia deixado e partira com os filhos dele.‖
— Ah, que pena — murmurou Matt, tentando ser educado, quando seu cérebro lhe deu uma cotovelada nas costelas. — Espere aí. Mas se todos foram embora...
— Vejo que é um rapaz atento. — A idosa delicada riu. — Todos os filhos e filhas foram embora... Menos a mais nova, uma menina muito bonita, embora fosse só uma criança. Ela disse: "Eu o amo demais para deixá-lo, meu querido pai, ficarei mesmo que eu tenha que usar a forma humana a minha vida toda". E foi assim que soubemos descender de uma kitsune.
— Bom, esses kitsune não estão só fazendo maldades e estragando lavouras — disse Matt. — Estão aqui para matar. E temos que detê-los.
— Claro, claro. Eu não pretendia aborrecê-lo com minha historinha. — disse Obaasan. — Vou escrever esses amuletos para você agora.
Foi enquanto Matt saía que a Sra. Saitou apareceu na porta e pôs alguma coisa na mão dele. Ele olhou e viu a mesma caligrafia que Obaasan lhe dera.
Só que era muito menor e escrita em...
— Um Post-it? — perguntou Matt, pasmo.
A Sra. Saitou assentiu.
— Muito útil para colar na cara dos demônios ou em galhos de árvores. — E, enquanto ele a olhava num completo assombro: — Minha mãe não sabe tudo sobre tudo.
Ela também lhe deu uma boa adaga, menor do que a espada que ainda portava, mas muito útil — Matt de imediato se cortou nela.
— Confie em suas amigas e em seus instintos — disse ela.
Meio perplexo, mas se sentindo encorajado, Matt pegou o carro e foi até a casa da Dra. Alpert.

2 comentários:

  1. Será que essa história sobre kitsunes aconteceu mesmo e os Saitou descendem de uma delas?

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  2. — Não há nada para interpretar. Estou aqui para resgatar meu amado Damon e Stefan está me ajudando.

    melhor parte EVER

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