7 de novembro de 2015

Capítulo 3 - Ela seria uma inimiga poderosa...


Recém-criado, Kalona abriu os olhos. Sua primeira visão foi de Nyx. Ele não sabia o nome dela então. Tudo o que sabia era que sua beleza o infiltrou e se alojou em algum lugar tão profundamente que isso o deixou incapaz de falar.
Ela se aproximou dele em primeiro lugar, embora ele mal tivesse conhecimento do outro ser ajoelhado ao seu lado. Ela estendeu a mão para ele e disse as primeiras palavras que ele ouviu:
— Eu sou a Deusa Nyx, e recebo-o com todo o meu coração.
Sua voz era doce, musical e calmante. Kalona pegou a mão dela cuidadosamente dentro da sua muito maior, percebendo a beleza única de suas peles contrastantes – a dele mais escura, polida, mais áspera, enquanto a dela era suave e pálida e absolutamente impecável.
Ainda assim, ele não conseguia falar. O sorriso dela aqueceu seu sangue e seu corpo, fazendo com que ele se sentisse liberto.
— E qual é o seu nome? — perguntou ela.
— Kalona — ele revelou.
— Kalona. Que belo nome! Suas asas são o prateado da lua cheia. Você deve ser o filho da lua.
— Eu sou — ele concordou, sem parar para imaginar como sabia disso. — E fui feito para você.
Ela sorriu e Kalona podia sentir sua pulsação aumentando.
— Deusa Nyx, sou Erebus, filho do sol dourado. Daí a razão de minhas asas não serem da cor do luar. Eu, também, fui feito para você — o outro ser alado se levantou. — Desculpe-me, irmão, mas não posso permitir que você mantenha a Deusa para si mesmo — brincou enquanto dava um passo em torno de Kalona, puxando suavemente a mão de Nyx da dele antes que Erebus se curvasse com um floreio das asas douradas.
Nyx virou seu sorriso luminoso para Erebus e sua risada encantada parecia brilhar no bosque ao redor deles.
— Erebus! Congratulo-me com o filho do sol com todo o meu coração também.
— Amável Deusa, tenha cuidado para o quanto do seu coração você dá de presente. Você dá tudo para Kalona – e me dá tudo também. Certamente um de nós vai acabar com menos? — Os olhos dourados de Erebus brilharam maliciosamente como seu sorriso.
Kalona franziu a testa para Erebus e encontrou-se tendo que cerrar os dentes para suprimir um rugido feroz. Ele não devia se atrever a falar com a Deusa assim! Kalona teria gostado de bater aquele sorriso arrogante para fora do rosto do ser alado!
— Não acho que você deva começar este relacionamento admoestando sua Deusa, jovem Erebus, especialmente porque posso ver que isso incita a ira de seu irmão.
Kalona nem notara o outro ser até que ela começou a falar, movendo-se para frente para se posicionar entre Nyx e eles, quase como se achasse que a Deusa precisava de proteção contra eles. Kalona estreitou os olhos para esta mulher menor, pronto para corrigi-la, para lhe dizer que Nyx nunca precisaria de proteção contra ele. Ele nunca iria – nunca poderia – machucá-la! Mas os olhos da mulher chamaram sua atenção antes que ele pudesse falar, e um aviso em suas profundezas escuras o silenciou.
— Kalona, Erebus, por favor cumprimentem minha amiga, a Mãe Terra. Vocês devem agradecer a ela, pois foi ela quem permitiu sua criação! — Nyx disse sem fôlego.
O sorriso de Erebus era encantador, sua voz profunda e suave, quando se curvou para ela dizendo:
— Grande Mãe, saúdo e agradeço-lhe, e peço que esqueça a minha primeira tentativa, enganada pelo humor. Garanto-vos que a minha intenção não foi de admoestar minha Deusa, embora eu admita encontrar graça em saber que fui capaz de incitar tão facilmente a ira do meu irmão.
— Precoce, muito precoce! — a Mãe Terra sorriu para Erebus enquanto falava, abraçando-o com cuidado e tornando-se óbvio que gostava da precocidade do filho do sol.
Kalona se levantou e se curvou profunda e respeitosamente.
— Saúdo-vos, a Mãe Terra, e agradeço pelo papel que desempenhou na minha concepção.
— De nada, Kalona — ela abraçou-o também, mas Kalona pensou que era com muito menos calor do que abraçou seu irmão.
A Mãe Terra recuou e abordou os três.
— Então vocês reconhecem que tenho uma responsabilidade materna aqui — apontou a Mãe Terra.
— Na verdade você tem, minha amiga — respondeu prontamente Nyx. — E eu serei eternamente grata por isso.
— A eternidade é um longo, longo tempo — disse a Mãe Terra, estudando Kalona e Erebus, por sua vez. — suponho que você vai querer levá-los de volta para o Outromundo com você?
O olhar de Kalona prendeu-se ao de Nyx. Ele viu que seu rosto tinha ficado rosado, e embora seu olhar não deixasse o dele, sua voz se suavizou, parecendo quase tímida.
— Sim, eu vou.
— Hoje?
— Hoje! — respondeu Nyx, balançando a cabeça, ainda sem desviar o olhar de Kalona.
— O Outromundo — Kalona repetiu, achando sua voz. — Até mesmo o nome soa mágico.
Nyx recompensou-o com um sorriso íntimo.
— É bonito, muito parecido com este planeta, porém é preenchido com magia antiga e poderes que são, por vezes, difíceis, mesmo para mim para controlar. Esses poderes podem ser desgastantes — ela terminou, de repente parecendo mais velha e cansada.
— Minha Deusa, eu vou ajudá-la a controlar os poderes que a esgotem — Kalona disse, dando um passo em direção à ela, ansioso.
— E, no entanto, não é tarefa sua controlar a magia antiga do Outromundo de Nyx — a Mãe Terra respondeu, também dando um passo mais perto.
Kalona sentiu o calor da energia da Mãe Terra e de seu descontentamento. Seus olhares se encontraram, o dela ainda mais inflexível que o dele.
Ela seria uma inimiga poderosa... O conhecimento ecoou em sua mente.
Kalona recuou e baixou a cabeça ligeiramente em reconhecimento ao poder da Mãe Terra.
Erebus pareceu não notar o intenso descontentamento da Mãe Terra. Sua voz era tão leve quanto o seu sorriso.
— O que queremos com a magia de Nyx? Há grande quantidade de magia no Éter Divino que nos criou. Caso precisemos de energia, nós temos apenas que chamá-la. Ela deve responder-nos, como é nosso direito de sangue, como filhos do Divino. Grande Mãe, nossa matriarca, garanto-vos, meu irmão e eu não temos outro desejo senão de servir a Nyx.
— Lembre-se, Mãe Terra, os imortais alados foram criados para mim, e não contra mim — disse Nyx, concordando com o imortal alado dourado.
— Sim, eu sei. Eles foram criados por mim.
A Mãe Terra não era tão facilmente aplacada. Ela enfrentou Kalona e Erebus.
— Vocês foram criados por mim para servir Nyx; portanto, é minha responsabilidade ver se vocês são dispostos e capazes de satisfazer os seus destinos individuais como guerreiro e amante, companheiro e amigo. Nyx, você concorda que esta é a minha responsabilidade?
— A minha gratidão é tal que nunca vou debater responsabilidades com você. Em vez disso, reconheço abertamente que você é mãe e criadora de tudo isso — Nyx fez uma pausa, varrendo seu braço graciosamente em um gesto que apontava para toda a terra, bem como os dois imortais alados. — Simplesmente me diga como você se propõe a cumprir sua responsabilidade maternal. Não discordarei.
Kalona sentiu seu estômago apertar conforme Mãe Terra continuou a estudá-los com cuidado, como se procurasse falhas.
— Eu concordo com a sua palavra, Nyx. Isto é o que proponho — a Mãe Terra disse, enviando a Nyx um sorriso maternal e muito satisfeito. — Sob a minha supervisão, seus dois Imortais alados devem completar três tarefas cada um para você, provando que são poderosos, sábios e leais o suficiente para serem dignos.
— Isso soa agradável, não é? — concordou Nyx.
— Absolutamente — disse Erebus.
— Estou ansioso para provar o meu valor para você — confirmou Kalona.
— Adorável! — Nyx repetiu, encontrando o olhar de Kalona.
— Então começamos imediatamente — disse a Mãe Terra, resfriando o calor que o olhar de Nyx provocara no sangue de Kalona.
— Imediatamente? — perguntou Nyx, obviamente menos satisfeita do que a Mãe Terra.
— Oh, filha — Mãe Terra colocou o braço em volta da Deusa. — Saboreie esses primeiros passos maravilhosos. A magia da descoberta é sempre mais doce se tiver sido conquistada.
Nyx se iluminou.
— Estava certa até agora. Eu confio em você! — a Deusa se voltou para Kalona e Erebus. — Peço que vocês sigam os éditos da Mãe Terra como se fossem meus. Ela é a minha mais querida amiga. — Nyx olhou deles para a Mãe Terra. — O que você gostaria que fizessem?
— Haverão três tarefas. Para cada uma delas, eu gostaria que Kalona e Erebus escolhessem um elemento – três dos cinco mágicos: Ar, Fogo, Água, Terra e Espírito. Junto com o elemento de sua escolha, eu os presenteio com um fio de energia da criação. Misture o meu presente com o poder do divino que Erebus tão recentemente reivindicou como seu direito de nascimento — ela fez uma pausa e inclinou a cabeça ligeiramente para Erebus em reconhecimento. —E cada um deles deve cada criar algo aqui — sua mão apontou em volta em um gesto que espelhava o de Nyx — que vai encantá-la lá — a Mãe Terra levantou o braço, apontando para cima no azul brilhante do céu da manhã.
— Que ideia maravilhosa! — disse Nyx, batendo palmas feliz.
Kalona franziu a testa.
— Criação através de elementos? Feito aqui e aproveitado no Outromundo? Eu não pretendo ser impertinente, Mãe Terra, mas como vamos concluir essas tarefas sem saber nada sobre a Terra ou o Outromundo?
A Mãe Terra agitou as mãos com desdém.
— Você carrega a imortalidade da Energia Divina, que nos criou. Olhe para dentro de si. Você já conhece o Outromundo. O resto é simples, se tomar tempo para aprender sobre a minha terra e os meus elementos.
— E nós conhecemos a nossa Deusa — disse Erebus, sorrindo carinhosamente para Nyx. — Fomos criados conhecendo a nossa Deusa. Satisfazê-la é o nosso prazer!
Kalona rosnou novamente.
A Mãe Terra estreitou os olhos escuros para ele, dando-lhe um olhar duro, como se ela fosse realmente uma mãe e ele seu filho errante.
— Qual elemento vocês vão escolher primeiro? — perguntou Nyx, aparentemente alheia à tensão entre Kalona e a Mãe Terra.
Kalona estava certo de que a Deusa tinha falado com ele, mas foi seu irmão que respondeu:
— Ar, é claro. Foi a partir de ar que fomos formados para você. É justo que o Ar continue a encantá-la.
— Uma excelente escolha, Erebus — concordou a Mãe Terra. — Até que vocês chamem para apresentar a sua criação, eu lhes conceder domínio sobre o Ar! Então, tenho dito; que assim seja! — uma lufada de vento caiu sobre eles, pontuando suas palavras. Então ela pegou a mão de Nyx e envolveu-a em seu braço. — Venha Nyx, vamos deixar os seus imortais com o primeiro de seus testes, enquanto bebemos mais néctar e você me apresenta a algumas de seus interessantes deidades.
— Mas o que exatamente devemos criar? — perguntou Kalona, odiando o desespero que ele ouviu em sua voz.
A Mãe Terra olhou por cima de seu ombro para ele.
— Se você for inteligente o suficiente para reivindicar um lugar ao lado desta adorável, Deusa fiel, será inteligente o suficiente para descobrir isso por conta própria, a menos que falhe no teste, Kalona.
— Eu não vou falhar — Kalona disse entre dentes.
— Mas, se falhar — Mãe Terra falou — não será permitido a você acessar o Outromundo, não até passar em todos os três testes. De acordo?
— Concordo de boa vontade — disse Erebus.
— Concordo — Kalona respondeu, embora com relutância.
— Mas tenho certeza de que você não vai falhar — disse Nyx. Suas palavras eram um bálsamo para ele até que ela mudou o olhar para seu irmão. — Nenhum de vocês vai me deixar. E não posso esperar para ver suas criações!
— Oh, uma última coisa — acrescentou a Mãe Terra.
— Meu mundo é povoado por seres humanos, mortais feitos por mim à imagem dos imortais. Eles são amados por mim. Tomem cuidado com eles. Sem dúvida, eles vão confundi-los com Deuses. Se tiverem que interagir com eles, estejam certos de que eles saibam que isso é um erro. Vocês são guerreiros e amantes, companheiros e amigos – não são Deuses. Me entenderam?
Os imortais alados murmuraram garantias confirmando que eles, de fato, compreenderam a Mãe Terra.
— Bom! Quando tiverem ganhado conhecimento o bastante e estiverem prontos, usem o Ar para me convocar. Nyx vai me acompanhar. Como sua Deusa, ela tem o direito de julgar as suas criações. Desejo a ambos boa sorte em seus empreendimentos — disse a Mãe Terra.
— E estou ansiosa para receber ambos no Outromundo, quando os testes forem concluídos — falou Nyx, sorrindo para Kalona e Erebus, por sua vez.
Então, mudando rapidamente de divino para garotas, as duas mulheres uniram suas cabeças, uma tão luminosa quanto a lua cheia, a outra tão escura e misteriosa quanto o terreno em que eles estavam. Rindo e cochichando, elas desapareceram no bosque verdejante.
Kalona olhou para onde sua Deusa esteve, desejando nada mais do que poder correr para Nyx e puxá-la da Mãe Terra – puxá-la para longe de qualquer coisa e qualquer um que tentasse ficar entre eles.
— Ela é requintada, não é, meu irmão?
Kalona mudou o olhar do bosque para encarar Erebus. Recusando-se a falar com ele da Deusa, ele disse:
— Ar? Por que você escolheria um elemento tão intangível para usar?
Erebus deu de ombros. Kalona notou que seu cabelo brilhava com o mesmo fogo dourado que suas asas.
— Minha única resposta é a que já dei à nossa Grande Mãe: foi à partir do ar que nascemos. Parecia lógico que ele desse ser o primeiro elemento que comandássemos.
— Ela não é minha mãe — disse Kalona, surpreendendo a si mesmo.
As sobrancelhas douradas de Erebus se levantaram.
— Penso que a nossa Deusa pode discordar de você.
Nossa Deusa. Kalona odiava o som dessas palavras.
— Gaste seu tempo pensando no que irá criar — Kalona respondeu a seu irmão bruscamente — pois eu lhe asseguro, o que eu criar será digno dela.
— Eu não acredito que estes testes são feitos para servir como uma competição — disse Erebus.
— Bem, irmão, penso que a nossa Deusa pode discordar de você.
Com essas palavras, Kalona deu vários passos largos em direção ao litoral. Ele levantou voo bem próximo à borda, batendo suas poderosas asas e usando correntes invisíveis da energia para levantar-se.
Ele podia sentir o olhar de Nyx sobre si e, pouco antes de desaparecer no horizonte, Kalona olhou para trás. Ela estava de pé na borda do bosque, olhando para ele e sorrindo com um calor que ele podia sentir contra sua pele. Kalona encontrou os olhos dela e tocou os lábios com a mão. Quase como se fossem seres espelhados, Nyx ergueu a própria mão para tocar seus lábios.
Ela me ama mais! As palavras em sua mente combinavam com a batida de suas asas poderosas conforme Kalona subia para o céu, com a intenção de criar algo que o provaria digno do favor de sua Deusa.

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