20 de novembro de 2015

Capítulo 2

Damon teve que esperar algumas horas por outra oportunidade para alimentar-se, havia muitas jovens em sono profundo, e ele estava furioso. A fome que a criatura manipuladora despertara nele era real, mesmo não conseguindo fazê-lo de fantoche. Precisava de sangue, e precisava logo.
Só então pensaria nas implicações do estranho hóspede no espelho de Caroline: que tipo de demônio entregara a sua amante para ser morta por Damon, mesmo que só estivesse fingindo fazer um acordo com ela.
Às nove da manhã, dirigiu pela rua principal da cidade, passando por um antiquário e uma loja de cartões.
Espere. Lá estava. A nova loja que vendia óculos. Estacionou e saiu do carro com uma elegância vinda de séculos de movimentos planejados que gastaram mais um pouco de sua energia. Mais uma vez, Damon abriu um sorriso instantâneo, e logo fechou a cara, admirando-se no escuro vidro da janela. Sim, não importa como você olha, era maravilhoso, pensou.
A porta tinha um sino que soou quando ele entrou. Dentro havia uma menina muito bonita, com cabelo castanho amarrado para trás e grandes olhos azuis.
Tinha visto Damon e sorria timidamente.
 Olá. — E embora ele não tivesse perguntado, ela acrescentou, em uma voz que brilhava: — Eu sou Page.
Damon deu-lhe um olhar longo e sem pressa que terminou em um sorriso, lento brilhante e cúmplice.
 Olá, Page — respondeu, chamando-a para perto.
Page engoliu.
 Posso ajudar?
 Oh, sim, — concordou Damon, segurando-a com os olhos. — Acho que sim — ele a olhou gravemente. — Sabia que você realmente parece uma princesa de um castelo da Idade Média?
Page ficou branca, então corou furiosamente e olhou melhor para ele.
 Eu... Eu sempre quis ter nascido naquela época. Mas como você poderia saber?
Damon apenas sorriu.


Elena olhou para Stefan com os grandes olhos que eram de um azul escuro de lápis-lazúli com um brilho dourado. Ele tinha acabado de dizer-lhe teria visitas! Em todos os sete dias da sua vida, desde que retornada, nunca, nunca tinha tido uma visita.
A primeira coisa, de imediato, foi tentar descobrir o que era uma visita.


Quinze minutos após a entrada na loja de óculos, Damon andava pela calçada, usando um novo par de Ray-Ban e assobiando.
Page estava tirando um cochilo no chão. Mais tarde, seu patrão iria ameaçá-la para lhe fazer pagar o Ray-Ban ela mesma. Mas agora ela se sentia quente e delirantemente feliz e teria uma memória de êxtase que nunca esqueceria totalmente.
Damon ficou admirando as vitrines, apesar de não exatamente da forma como um humano faria. Uma doce velhinha atrás do balcão da loja cartões... Não.
Um cara na loja de eletrônicos... Não.
Mas... Algo o chamou de volta para a loja de eletrônicos. Tão espertos esses dispositivos inventados esses dias. Teve um forte desejo de adquirir uma minifilmadora. Damon estava acostumado a seguir suas vontades, e não se resumiam a seus doadores de emergência. Sangue era sangue, não importava de quem era.
Poucos minutos depois de que lhe foi mostrado como trabalhar com o brinquedo, ele estava andando pela calçada com ele em seu bolso.
Estava apreciando a caminhada, embora suas presas estivessem ardendo novamente. Estranho, devia ter se saciado a essa altura, mas não tinha bebido quase nada no dia anterior. Devia ser por isso que ainda sentia fome; isso, e o poder que utilizou no execrável parasita no quarto de Caroline. Entretanto, sentia o prazer pela forma que seus músculos estavam trabalhando em conjunto de forma harmoniosa e sem esforço, como uma máquina bem oleada, tornando cada movimento uma delícia.
Esticou-se uma vez, pelo puro prazer disto, e então parou novamente para examinar-se na janela da loja de antiguidades. Ligeiramente mais desgrenhado, mas de qualquer forma tão bonito como sempre. E estava certo, o Ray-Ban tinha lhe servido muito bem. A loja de antiguidades tinha, viu pela janela, uma viúva muito bonita, e sua bastante jovem sobrinha.
A luz estava fraca e o ar-condicionado ligado no interior.
 Você sabe — ele perguntou para a sobrinha, quando ela chegou perto dele — que você me lembra alguém que gostaria de ver um monte de países estrangeiros?


Algum tempo após, Stefan explicou a Elena que os visitantes eram seus amigos, seus bons amigos, e que ele queria que ela se vestisse. Elena não entendeu o porquê. Estava quente. Ela tinha usado uma camisola (pelo menos pela maior parte da noite), mas de dia era ainda mais quente, e ela não tinha um vestido.
Além disso, as roupas que ele estava lhe oferecendo, um par de jeans e uma camisa polo que ficaria demasiado grande... Eram errados, de alguma maneira. Quando tocou a camisa, viu centenas de imagens de mulheres em pequenas salas, todas na frente de máquinas de costura sob uma luz fraca, trabalhando freneticamente.
 Vem de trabalho escravo? — Stefan perguntou assustado, quando ela lhe mostrou o retrato em sua mente. — Essas? — Ele derrubou no chão as roupas do armário apressadamente. — E esta aqui? — Stefan entregou-lhe uma camisa diferente.
Elena a estudou sobriamente, encostou-a na bochecha. Não vinha de serviço escravo, mas definitivamente foi feita por mulheres trabalhando freneticamente.
 Tudo bem? — Stefan perguntou.
Mas Elena tinha congelado. Foi à janela e olhou pra fora.
 O que há de errado?
Desta vez, ela lhe enviou apenas uma imagem. Ele reconheceu-a imediatamente.
Damon.
Stefan sentiu um aperto no peito. Seu irmão mais velho tinha tornado a vida de Stefan a mais miserável possível durante quase meio milênio. Cada vez que Stefan tinha conseguido fugir dele, Damon o rastreara e o encontrara novamente, procurando... o quê? Vingança? Alguma satisfação final? Eles tinham matado um ao outro de volta à Itália renascentista. Suas espadas perfuraram os corações um do outro quase simultaneamente em um duelo por uma menina vampira. As coisas só tinham piorado a partir daí.
Mas ele salvou sua vida algumas vezes, também, Stefan pensou, de repente desconfiado. E você prometeu que um observaria o outro, cuidariam um do outro...
Stefan olhou abruptamente pra Elena. Ela fizera os dois jurarem quando estava morrendo. Elena olhou de volta a ele com os olhos azuis profundos que eram límpidos como uma piscina de inocência.
De qualquer modo, tinha que lidar com Damon, que estava agora estacionando sua Ferrari ao lado do Porsche de Stefan na frente da pensão.
 Fique aqui e se mantenha longe da janela. Por favor — pediu Stefan apressadamente a Elena.
Ele saiu do quarto, fechou a porta e quase correu ao descer as escadas.
Encontrou Damon escorado na Ferrari, examinando o exterior dilapidado da pensão primeiro com os óculos, então sem eles. A expressão de Damon dizia que não fazia uma grande diferença a maneira como olhasse para ele.
Mas essa não foi a primeira preocupação de Stefan. Foi a aura de Damon e a variedade de diferentes aromas existentes as quais o olfato humano nunca seriam capazes de detectar, e muito menos desvendar.
 O que esteve fazendo? — Stefan perguntou, muito chocado até mesmo para pensar numa saudação negligente.
Damon deu-lhe um sorriso fraco.
 Fui a um antiquário — disse, e suspirou. — Ah, e fiz algumas compras — ele passou os dedos em um novo cinto de couro, tocou o bolso com a câmera de vídeo e balançou para trás e para frente seu Ray-Ban. — Pode acreditar, esse pequeno grão de poeira dessa cidade tem lojas bem decentes. Gosto de fazer compras.
 Você gosta de roubar, quer dizer. E isso sem contar a metade dos cheiros que sinto em você. Está morrendo ou só está louco?
Às vezes, quando um vampiro era envenenado ou sucumbia a uma das poucas misteriosas maldições ou doenças que afligiam sua espécie, tinham que se alimentar febrilmente, era incontrolável, seja de quem estivesse por perto.
 Só fome — Damon respondeu normalmente, ainda avaliando a pensão. — E o que aconteceu com a educação básica, por falar nisso? Dirigi todo o caminho até aqui e nem recebo um “Olá, Damon”, ou “Prazer em vê-lo, Damon?” não. Em vez ouço “O que esteve fazendo, Damon?” — Ele fez uma imitação de choramingar em escárnio. — Me pergunto o que o Signore Marino pensaria disso, irmãozinho.
 O Signore Marino  repetiu Stefan através de seus dentes, se perguntando como Damon conseguia se infiltrar sob a sua pele todas as vezes – hoje, com uma referência ao seu antigo professor de etiqueta e dança — é poeira faz centenas de anos agora, como deveríamos ser. E ele nada tem a ver com esta conversa, irmão. Perguntei-lhe o que estava fazendo, e você sabe o que quero dizer. Imagino que deve ter se alimentado de metade das meninas da cidade.
 Meninas e mulheres — Damon o censurou, levantando um dedo. — Temos de ser politicamente corretos, afinal de contas. E talvez você devesse dar um olhar mais atenção à sua própria dieta. Se beber mais, pode começar a transbordar. Sabe?
 Se eu beber mais... — havia uma série de maneiras para terminar essa frase, mas não boas. — Que pena — disse ele, em vez disso pra resumir, e responder a Damon — que nunca vai crescer nem mais um milímetro mais não importa o tempo que você viver. E agora, por que não me diz o que está fazendo aqui, depois de ter deixado tanta bagunça na cidade para eu limpar, se o conheço bem.
 Estou aqui porque quero de volta a minha jaqueta de couro — disse Damon sem enrolar.
 Por que não roubar outra...? — Stefan interrompeu-se e então subitamente encontrou-se voando para trás e, em seguida, ouviu os gemidos de tábuas da parede da pensão, com Damon segurando-o contra elas.
 Não roubei estas coisas, rapaz. Paguei por elas, na minha própria moeda. Sonhos, fantasias e prazer de fora deste mundo — Damon disse as últimas palavras com ênfase, pois sabia que enfureceriam Stefan ainda mais.
Stefan estava furioso e, em um dilema. Sabia que Damon estava curioso sobre Elena. Isso era ruim o suficiente. Mas agora ele também podia ver um estranho brilho nos olhos de Damon. Como se suas pupilas tivessem por um momento refletido uma chama. E tudo o que Damon fizera hoje foi anormal.
Stefan não sabia o que estava acontecendo, mas sabia o exatamente como Damon terminaria isso.
 Mas um verdadeiro vampiro não tem que pagar — Damon estava dizendo em um tom de insulto. — Afinal, somos tão perversos que deveríamos ser poeira. Não é verdade, irmãozinho?
Ele mostrou a mão com o dedo em que usava o anel de lápis-lazúli que evitava que virasse poeira naquela tarde de sol. E então, quando Stefan fez um movimento, Damon utilizou aquela mão para prender o punho de Stefan à parede.
Stefan se remexia da esquerda pra direita, tentando quebrar o aperto de Damon sobre ele. Mas Damon era rápido como uma serpente, não, mais rápido que uma.
Muito mais rápido que o normal. Rápido e forte, com toda a energia da força vital que ele tinha absorvido.
 Damon, você... — Stefan estava tão irritado que perdeu brevemente o pensamento racional e tentou chutar as pernas de Damon pra longe.
 Sim, este sou eu, Damon — disse venenosamente eufórico. — E não pago, se não tiver vontade, simplesmente pego. Pego o que eu quiser, sem dar nada em troca.
Stefan encarou aqueles olhos pretos incandescentes e viu novamente a pequena tremulação da chama. Tentou pensar. Damon sempre foi rápido em atacar, ao se sentir ofendido. Mas não assim. Stefan o conhecia o suficiente para saber que algo estava fora do normal, algo estava errado. Damon parecia quase febril. Stefan enviou uma pequena onda de energia em direção ao seu irmão, como um radar, tentando encontrar o que havia de diferente.
 Sim, vejo que você tem uma ideia, mas nunca vai chegar a qualquer lugar dessa forma — Damon falou furiosamente e subitamente o interior de Stefan estava em chamas, estava em agonia, como se Damon o tivesse amarrado em cabos violentos em seu próprio poder.
E agora, mesmo com a dor insuportável, Stefan teve de ser friamente racional, teve que se manter pensando, e não apenas reagir. Fez um pequeno movimento de torcer o pescoço para o lado, olhando em direção à porta da pensão.
Se apenas Elena permanecesse lá dentro...
Mas era difícil pensar com Damon ainda o mantendo naquela queimação.
Ele estava respirando rápido e dificilmente.
 Está certo — disse Damon. — Você precisa aprender uma lição sobre esse jogo de vampiros.
 Damon, devemos supostamente nos cuidar mutuamente, nós prometemos...
 Sim, e vou cuidar de você agora.
Então Damon bateu nele e o mordeu.
Foi ainda mais doloroso do que os cabos de poder, e Stefan manteve-se cuidadosamente parado, recusando-se a lutar. Os dentes afiados como navalhas não deviam ter doído tanto ao perfurarem sua carótida, mas Damon estava segurando-o num ângulo – agora pelo cabelo – deliberadamente para machucar.
Então veio a verdadeira dor. A agonia de ter seu sangue tirado para fora de seu corpo contra a sua vontade, contra a sua resistência. Essa era uma tortura que, em comparação com os seres humanos, seria como ter suas almas arrancadas de seus corpos com vida. Eles fariam qualquer coisa para evitá-lo. Tudo o que Stefan sabia era que esta era uma das maiores agonias físicas que ele jamais teve que suportar, até que, finalmente, formaram-se lágrimas nos seus olhos e desceram por suas têmporas.
Pior, para um vampiro, era a humilhação de ter outro vampiro tratando-o como um ser humano, tratando-o como carne. O coração de Stefan batia em seus ouvidos como se estivesse sendo estilhaçado pela a dupla pontada dos caninos de Damon, tentando suportar a humilhação de ser usado desta maneira.
Pelo menos, graças a Deus Elena o havia escutado e permanecera no quarto.
Ele estava começando a se perguntar se Damon tinha realmente ficado louco e pretendia matá-lo quando, finalmente, com um empurrão lhe fora devolvido o equilíbrio, Damon o libertara. Stefan tropeçou e caiu, olhou para cima, só para encontrar Damon em cima dele novamente. Pressionou seus dedos na carne rasgada em seu pescoço.
 E agora — Damon disse friamente — suba e pegue o meu casaco.
Stefan levantou-se lentamente. Sabia que Damon estava saboreando isso: a humilhação de Stefan, a roupa rasgada, amassada e coberta com pedaços de capim e barro do jardim da Sra. Flowers. Ele fez o seu melhor para limpá-los com uma mão, enquanto a outra ainda segurava o seu pescoço.
 Você está quieto — comentou Damon, indo até sua Ferrari, passando a língua em seus lábios e gengivas, os olhos estreitos com prazer. — Nenhuma reação, nem mesmo uma palavra? Penso que esta é uma lição que devo ensinar-lhe mais vezes.
Stefan estava tendo problemas para fazer suas pernas se moverem. Bem, isso correu tão bem quanto eu seria capaz de esperar, ele pensou, e deu as costas, voltando pra dentro da pensão. Então parou.
Elena estava inclinada para fora da janela aberta de seu quarto, segurando a jaqueta de Damon. Sua expressão era muito série, sugerindo que tinha assistido tudo.
Foi um choque para Stefan, mas ele suspeitava que tivesse sido um choque ainda maior para Damon.
E, em seguida, Elena amassou a jaqueta e com um só movimento atirou-a, fazendo aterrissar diretamente aos pés de Damon.
Para o espanto de Stefan, Damon ficou pálido. Pegou o casaco, como se realmente não quisesse tocar nele. Seus olhos estavam em Elena o tempo todo.
Ele entrou em seu carro.
 Adeus, Damon. Não posso dizer que foi um prazer.
Sem uma palavra, parecendo uma criança que fora pega fazendo travessuras, Damon ligou a ignição.
 Apenas me deixe em paz — disse ele em voz baixa.
Dirigiu para longe, deixando uma nuvem de poeira e cascalho.
Os olhos de Elena não estavam serenos quando Stefan fechou a porta do quarto atrás dele. Estavam brilhando com uma luz que quase o fez parar no portal.
 Ele machucou você.
 Ele machuca a todos. Não parece ser capaz de evitar isso. Mas havia algo estranho com ele hoje. Não sei o quê. Nesse momento não me importo. Mas olhe para você, formando frases!
Ele está... Elena pausou, e pela primeira vez desde que tinha aberto os olhos novamente na clareira onde havia sido ressuscitada, formaram-se rugas em sua testa. Não conseguia produzir uma imagem. Não sabia as palavras certas. Algo dentro dele. Crescendo dentro dele. Como... Fogo gelado, luz escura, pensou finalmente. Mas escondido. Fogo que arde de dentro para fora.
Stefan tentou entender, fazer algum sentido com tudo isto, ele a tinha ouvido pensar, mas não conseguiu. Ainda estava humilhado, Elena vira o que acontecera.
 Tudo o que sei que está dentro dele é o meu sangue. Juntamente com o sangue da metade das garotas da cidade.
Elena fechou os olhos e balançou a cabeça lentamente. Então, como se decidisse que não queria mais pensar sobre isso, deu tapinhas na cama ao lado dela.
Venha, ordenou confiante, olhando para cima. O ouro nos olhos dela parecia especialmente brilhante. Permita-me... desfazer sua dor.
Quando Stefan não veio de imediato, ela ergueu seus braços. Stefan sabia que não deveria ir até ela, mas estava ferido, em especial no seu orgulho. Ele foi até ela e curvou-se para beijar seu cabelo.

2 comentários:

  1. Só eu que não estou entendendo bulhufas desse livro? O.o

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    Respostas
    1. Leia o livro Reunião sombria e vc entenderá tudinho.tudo se situa no capitulo 16

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