26 de novembro de 2015

Capítulo 29

Alguém tentava fazê-la beber de um copo. O olfato de Elena estava tão aguçado que ela já sentia o gosto — era o vinho Black Magic. E ela não queria aquilo! Não! Elena cuspiu. Eles não a obrigariam a beber.
— Minha filha, é para o seu bem. Agora beba. — Elena virou a cabeça.
Sentiu a escuridão e o furacão precipitando-se para pegá-la. Sim. Isso era melhor. Por que não a deixavam em paz?
No mais fundo fosso da comunicação, um garotinho estava com ela no escuro. Ela se lembrava dele, mas não de seu nome. Elena estendeu os braços e ele veio, e parecia que suas correntes eram mais leves do que... Quando?
Antes. Isso era tudo o que conseguia lembrar.
 Você está bem? — sussurrou para a criança. Ali embaixo, no cerne da comunhão, um sussurro era um grito.
 Não chore. Sem lágrimas, — pediu ele, mas as palavras a lembravam de algo em que Elena não suportava pensar, e ela pôs os dedos nos lábios dele, silenciando-o gentilmente.
Alto demais, uma voz exterior chegou num trovão:
— Então, minha filha, você decidiu se tornar um vampiro novamente.
 É o que está havendo? — sussurrou ela para a criança. — Estou morrendo de novo? Para me tornar vampira?
 Não sei! — exclamou a criança. — Eu não sei de nada. Ele está com raiva. Eu tenho medo.
 Sage não vai machucá-lo, — prometeu Elena. — Ele já é um vampiro e é seu amigo.
 Não é Sage...
 Então de quem você tem medo?
 Se você morrer de novo, vou ficar preso nas correntes. — A criança lhe mostrou uma imagem lamentável de si mesma coberta por várias pesadas correntes. Na boca, uma mordaça. Os braços nas laterais do corpo e as pernas presas na bola. Além disso, as correntes tinham esporões, para que o sangue escorresse onde furasse a carne macia da criança.
 Quem faria uma coisa dessas? — exclamou Elena. — Vou fazê-lo desejar jamais ter nascido. Diga quem vai fazer isso!
A criança estava triste e perplexa. — Eu farei, disse ele com tristeza. — Ele fará. Ele/eu. Damon. Porque teremos matado você.
 Mas se não é culpa dele...
 Nós teremos. Teremos. Mas talvez eu morra, o médico disse... — Houve um claro tom de esperança nesta última frase.
Isso fez Elena se decidir. Se Damon não estava pensando com clareza, talvez ela não estivesse pensando com clareza também, raciocinou lentamente.
Talvez... Talvez ela devesse fazer o Sage queria.
E o Dr. Meggar. Ela podia discernir a voz dele como se através de uma névoa densa.
— ... bem, você trabalhou a noite toda. Dê uma chance a mais alguém.
Sim... A noite toda. Elena não queria acordar de novo e tinha uma vontade poderosa.
— Talvez trocar de lado? — sugeria alguém... Uma menina... Uma jovem... De voz pequena, mas também de vontade forte. Bonnie.
— Elena... É Meredith. Pode sentir que seguro sua mão? — Uma pausa, depois muito mais alto, animada: — Ei, ela apertou minha mão! Viram? Sage, diga a Damon para vir aqui rápido.
Vagando...
— Beba um pouco mais, Elena. Eu sei, eu sei, você está enjoada disso. Mas beba um pouco, está bem?
Vagando...
— Muito bom, meu filho! Agora que tal um pouco de leite? Damon acha que você pode continuar humana se beber leite.
Elena tinha duas ideias a respeito disso. Uma era que se ela bebesse mais de qualquer coisa, iria explodir. Outra era que ela não ia fazer nenhuma promessa boba.
Ela tentou falar, mas saiu um fiapo de sussurro:
— Diga a Damon... que não vou me levantar se ele não libertar o garotinho.
— Quem? Que garotinho?
— Elena, meu bem, todos os garotinhos desta casa são livres.
Meredith:
— Por que não deixa que ela diga a ele?
Dr. Meggar:
— Elena, Damon está bem aqui no sofá. Vocês dois estiveram muito doentes, mas vão ficar bem. Veja, Elena, podemos mover a mesa de exames para que você fale com ele. Pronto, agora pode falar.
Elena tentou abrir os olhos, mas tudo era de uma luz feroz. Ela respirou e tentou de novo. Ainda brilhante demais. E ela não sabia como escurecer mais sua visão. Falou com os olhos fechados para a presença que sentia diante dela: — Não posso deixá-lo sozinho de novo. Especialmente se você vai enchê-lo de correntes e amordaçá-lo.
 Elena, — disse Damon, trémulo, — não tive uma vida boa. Mas nunca tive escravos, eu juro. Pergunte a qualquer um. E eu não faria isso com uma criança.
 Você fez e eu sei o nome dele. Sei que só o que ele tem é gentileza, bondade, caráter... e medo.
O trovão da voz de Sage:
—... deixando-a agitada...
O murmúrio mais alto da voz de Damon:
— Eu sei que ela está fora de si, mas ainda prefiro saber o nome desse garotinho a quem posso ter feito isso. Por que isso a deixa agitada?
Mais trovões, depois:
— Mas não posso só perguntar a ela? Pelo menos posso me livrar dessas acusações. — Depois, em voz alta: — Elena? Pode me dizer que criança eu supostamente torturei?
Ela estava tão cansada. Mas respondeu em voz alta, sussurrando:
— O nome dele é Damon, é claro.
E o sussurro exausto de Meredith:
— Ah, meu Deus. Ela estava disposta a morrer por uma metáfora.

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