20 de novembro de 2015

Capítulo 29

 Elena!
Alguma coisa a estava incomodando.
 Elena!
Por favor, sem mais dor. Ela não podia sentir isso agora, mas podia se lembrar... oh, chega de lutar por ar...
 Elena!
Não... apenas deixe-o. Mentalmente, Elena empurrou a coisa que incomodava seus ouvidos e sua cabeça.
 Elena, por favor...
Tudo que ela queria era dormir. Para sempre.
 Maldito seja, Shinichi!
Damon tinha pego o globo de neve com a floresta em miniatura onde Shinichi encontrou o brilho distorcido de Elena irradiando. Dentro, dezenas de pinheiros, nogueiras, pinhos e outras árvores – todas de uma perfeita e transparente membrana interna. Uma pessoa em miniatura – considerando que alguém podia ser miniaturalizado e colocado dentro de um globo, onde se vê árvores em frente, árvores atrás, árvores em todas as direções – e se poderia andar em uma linha reta e voltar para o início não importa o caminho que tomasse.
 Isso é divertido ― Shinichi disse mau humorado, olhando-o intensamente por baixo dos cílios. ― Um brinquedo, para crianças, normalmente. Um jogo de armadilha.
 E você acha isso engraçado?  Damon tinha batido o globo contra a mesa de café da esquisita cabana secreta onde Shinichi se escondia. Foi aí que ele descobriu por que esse era um brinquedo de crianças – o globo era inquebrável.
Depois disso Damon tomou um momento – apenas um momento – para se segurar. Elena tinha talvez segundos de vida. Ele precisava ser preciso em suas palavras.
Depois de um simples momento, uma longa corrente de palavras havia sido derramada de seus lábios, a maioria em inglês, e a maioria sem maldições e insultos desnecessários. Não se preocupou em insultar Shinichi. Tinha apenas ameaçado – não, ele jurou – fazer com Shinichi o tipo de violência que tinha visto algumas vezes em sua longa vida em humanos e vampiros com imaginações distorcidas. Assim, ele fizera Shinichi entender que falava sério, e Damon se encontrou dentro do globo junto a uma encharcada Elena em sua frente. Ela estava deitada aos seus pés, e estava pior do que nos piores pesadelos que podia ter imaginado. Ela tinha deslocado o braço direito, com múltiplas fraturas e sua tíbia esquerda estava horrivelmente despedaçada.
Horrorizado como ficou a imaginá-la batendo contra a floresta do globo, sangue correndo por seu braço direito do ombro ao cotovelo, a perna esquerda arrastando atrás de si como um animal ferido, isso era pior. Seu cabelo estava ensopado de suor e lama, espalhada por todo o seu rosto. E ela estava fora de si, literalmente, delirando, falando com pessoas que não estavam ali.
E ela estava ficando azul.
Tinha sido capaz de tirar uma trepadeira com toda a sua força. Damon agarrou mãos cheias delas, rasgando-as da terra violentamente enquanto tentavam lutar ou se enrolar em volta dos seus pulsos. Elena puxou uma respiração profunda exatamente quando a asfixia a teria matado, mas ela não recuperou a consciência.
E não era a Elena de que ele se lembrava. Quando a levantou, não sentiu nenhuma resistência, nenhuma aceitação, nada. Ela não o reconhecia.
Estava delirante e com febre, exausta, e com dor, mas em um momento de meia consciência tinha beijado a mão dele, através do seu úmido e desgrenhado cabelo, sussurrando.
 Matt... Encontre... Matt.
Ela não sabia quem ele era, mal sabia quem ela era, mas sua preocupação era com seu amigo. O beijo tinha atravessado sua mão até o seu braço como o toque de ferro em brasa, e desde então ele estava monitorando a sua mente, tentando levar a agonia que ela sentia para longe – longe em qualquer lugar – para a noite – para si mesmo.
Voltou-se para Shinichi e, em uma voz como um vento gelado, disse:
 É melhor você ter uma maneira de curar todas as feridas dela agora.
A cabana era encantadora, rodeada pelas mesmas plantas, nogueiras e pinhos que cresciam no globo de neve. O fogo queimava violeta e verde enquanto Shinichi atiçava.
 Esta água está quase em ponto de fervura. Faça-a tomar um chá feito com isso.  Ele deu a Damon um recipiente escurecido – que alguma vez foi uma bela prataria; agora um remanescente do que tinha sido – e um bule de chá com algumas folhas quebradas e outras coisas repugnantes de se ver no fundo. ― Certifique-se de que ela beba pelo menos três quartos de um copo, e ela dormirá e acordar quase tão boa quanto nova ― ele deu uma cotovelada nas costelas de Damon. ― Ou você pode simplesmente dar a ela alguns goles – curá-la pela metade, e então deixá-la saber que é sua decisão dar-lhe mais... ou não. Você sabe... dependendo de quanto cooperativa ela for...
Damon permaneceu em silêncio e se afastou. Se eu olhar para ele, pensou, eu vou matá-lo. E posso precisar dele novamente.
 E se você realmente quiser acelerar a cura, adicione um pouco de seu sangue. Algumas pessoas gostam de fazer isso dessa maneira  Shinichi acrescentou, sua voz se acelerando com a emoção novamente. ― Veja quanta dor um humano pode aguentar, você sabe, e então quando estão morrendo, você pode apenas dar-lhes chá e sangue e começar de novo... e se eles se lembrarem de você – o que quase nunca fazem – normalmente passam por mais dor só para ter uma chance de lutar com você... ― ele riu, e Damon pensou que não parecia muito sensato.
Mas quando ele se virou de repente para Shinichi, teve que se segurar fortemente. Shinichi havia se tornado um contorno ardente, brilhante, com chamas de luz se lançando de sua projeção, como chamas solares. Damon estava quase cego, e sabia que esse era o objetivo. Ele agarrou o frasco de prata como se estivesse segurando a sua própria sanidade.
Talvez estivesse. Ele tinha um espaço em branco na sua mente – e de repente lá havia memórias de tentar encontrar Elena... ou Shinichi. Porque Elena tinha sido tirada abruptamente da sua presença, e isso só podia ser culpa do kitsune.
 Existe um banheiro moderno aqui? ― Damon perguntou a Shinichi.
 Existe o que quiser; apenas decida antes de abrir uma porta e destrancá-la com esta chave. E agora... ― Shinichi esticou-se, seus olhos dourados semifechados. Passou a mão lânguida pelos cabelos pretos e brilhantes com pontas flamejantes. ― Agora, acho que vou dormir de baixo de um arbusto.
 Isso é tudo o que você sempre faz? ― Damon não fez nenhuma tentativa de manter o sarcasmo fora de sua voz.
 E me divertir com Misao. Lutar. Ir para os torneios. Eles... bem, você tem que ir e ver um por si mesmo.
 Não tenho interesse de ir a lugar algum ― Damon não queria saber o que esta raposa e sua irmã consideram divertido.
Shinichi esticou-se e puxou o pequeno caldeirão cheio de água fervendo para fora do fogo. Derramou a água fervente sobre a coleção de cascas de árvore, folhas, e outros detritos no bule amassado de metal.
 Por que você não vai encontrar um arbusto agora? ― Damon perguntou.
E isso não era uma sugestão. Ele tivera o suficiente da raposa, que servira ao seu propósito agora, de qualquer maneira, e não se importava nem um pouco no mal que Shinichi poderia fazer para outras pessoas. Tudo o que queria era estar sozinho – com Elena.
 Lembre-se; faça-a beber tudo se quiser mantê-la viva por um tempo. Será muito difícil salvá-la sem isso ― Shinichi derramou através de uma peneira fina a infusão de chá verde escuro. ― É melhor tentar antes que ela acorde.
 Você pode sair logo daqui?
Quando Shinichi atravessou a fresta dimensional, tendo o cuidado de se virar para o caminho correto, a fim de alcançar o mundo real, e não algum outro mundo, ele estava fervendo. Queria voltar e deixar Damon sem uma polegada de vida. Queria ativar o malach dentro de Damon e levá-lo a... bem, é claro, não era o bastante matar a doce Elena. Ela era uma flor com néctar não degustado, e Shinichi não tinha pressa em vê-la enterrada no subsolo.
Mas, o resto da ideia... sim, ele decidiu. Agora ele sabia o que faria.
Seria simplesmente delicioso ver Damon e Elena fazerem as pazes, e depois, durante a noite do Festival Moonspire, trazer o monstro de volta. Ele poderia deixar Damon continuar acreditando que eles eram “aliados” e em seguida, no meio da sua pequena farra – deixar o Damon possuído solto. Mostrar que ele, Shinichi, tinha estado no controle o tempo todo.
Ele puniria Elena de maneiras que nunca tinha sonhado e ela morreria em uma agonia deliciosa... nas mãos de Damon. As caudas de Shinichi estremeceram um pouco, extasiadas com a ideia. Mas, por agora, deixe-os rir e brincar juntos. Vingança só amadurece com o tempo, e Damon era realmente muito difícil de controlar quando estava furioso.
Era difícil admitir isso, assim como sua cauda – a verdadeira no centro, machucada pela crueldade abominável de Damon contra os animais. Quando Damon estava apaixonado, custava cada pedaço da concentração de Shinichi controlá-lo.
Mas no Moonspire Damon estaria calmo, tranquilo. Estaria satisfeito consigo mesmo, como se ele e Elena tivessem sido, sem dúvida, lançados em algum plano absurdo para tentar parar Shinichi.
Aí seria quando a diversão começaria. Elena seria uma bela escrava, enquanto durasse.
Quando o kitsune partiu, Damon sentiu que poderia se comportar com mais naturalidade. Mantendo um laço firme sobre a mente de Elena, ele pegou o copo. Tentou tomar um gole da mistura antes de dar a ela e achou que aquilo tinha um sabor enjoativo, apenas ligeiramente inferior ao que cheirava. No entanto, Elena realmente não tinha escolha, não podia fazer nada por sua própria vontade e, pouco a pouco, a mistura foi descendo.
E então uma dose de seu sangue. Novamente, Elena estava inconsciente e não tinha nenhuma escolha afinal.
E então ela dormiu por conta própria.
Damon andava agitado. Tinha uma lembrança que era mais como um sonho flutuante em torno de sua cabeça. Era de Elena tentando se atirar de uma Ferrari andando a cerca de 100 quilômetros por hora, para ficar longe de... de quê?
Dele?
Por quê?
Não era, de qualquer forma, o melhor dos começos.
Mas isso era tudo de que podia se lembrar! Maldito seja! O que quer fosse vinha justamente antes de um branco total. Talvez ele tivesse ferido Stefan? Não, Stefan tinha ido embora. Se tivesse sido o outro garoto com ela, Mula. O que tinha acontecido?
Maldição do inferno! Ele tinha que descobrir o que havia acontecido, assim poderia explicar tudo para Elena quando ela acordasse. Ele queria que ela acreditasse nele, confiasse nele. Não queria Elena como um parasita da noite. Queria que ela o escolhesse. Queria que ela visse o quanto era mais adequada para ele do que para seu entediante irmão maricas.
Sua princesa das trevas. Era isso que ela estava destinada a ser. Com ele como rei, companheiro, o que ela desejasse. Quando visse as coisas mais claramente, entenderia que isso não importava. Que nada importava, exceto eles estarem juntos.
Ele viu seu corpo, velado sob o lençol, com desapego – não, com uma culpa boa. Dio mio – e se não a tivesse encontrado? Ele não podia tirar a imagem de sua mente, a forma como ela estava, caída assim... deitada sem fôlego... beijando sua mão...
Damon sentou-se e apertou a ponte de seu nariz. Porque ela estava na Ferrari com ele? Tinha ficado com raiva – não, não com raiva. Furiosa estava mais correto, mas com tanto medo... dele. Ele podia visualizar isso claramente agora, o momento em que ela se atirou para fora do carro em alta velocidade, mas não conseguia lembrar-se de nada antes disso.
Ele esteve fora de si?
O que tinha sido feito com ela? Não... Damon forçou seus pensamentos para longe da questão mais fácil e se forçou a fazer a pergunta verdadeira. O que ele tinha feito a ela? Os olhos de Elena, azuis com manchas de ouro, como lápis-lazúli, eram fáceis de ler mesmo sem telepatia. O que ele... tinha... feito a ela que era tão assustador que a faria saltar de um carro em alta velocidade para fugir dele?
Ele tinha provocado o garoto de cabelos louros. Mula... Jet... que seja. Os três estavam juntos, e ele e Elena estavam... droga! De lá até o seu despertar ao volante da Ferrari, tudo era um branco cintilante. Ele podia se lembrar de salvar Bonnie na casa de Caroline; podia se lembrar de estar atrasado para seu encontro às 04:44 da madrugada com Stefan; mas depois disso, as coisas começaram a se fragmentar. Shinichi, maledicalo! Aquela raposa! Ele sabia mais sobre isso do que estava contando a Damon.
Eu sempre... fui mais forte... que meus inimigos, pensou. Eu sempre... permaneci... sob... controle.
Ele ouviu um leve som e foi para Elena em um instante. Seus olhos azuis estavam fechados, mas os cílios tremiam. Ela estava acordando?
Deslizou o lençol de seu ombro. Shinichi tinha razão. Havia um monte de sangue seco, mas ele podia sentir que o fluxo de sangue estava mais normal.
Mas havia algo terrivelmente errado... não, ele não podia acreditar nisso. Damon mal se conteve de gritar de tamanha frustração. A maldita raposa a tinha deixado com um ombro deslocado.
As coisas definitivamente não andavam bem para ele hoje.
E agora? Chamaria Shinichi?
Nunca. Ele sentiu que não podia olhar para a raposa novamente esta noite sem querer matá-lo.
Teria que colocar o ombro no lugar sozinho. Esse era um procedimento feito normalmente por duas pessoas, mas o que ele podia fazer?
Ainda mantendo a mente de Elena sobre seu controle de ferro, certificando-se de que ela não acordaria, segurou-a pelo braço e começou a dolorosa missão de deslocar o úmero ainda mais, puxando o osso fora para que ele pudesse finalmente diminuir a pressão e ouvir o suave pop que significava que o osso do braço tinha escorregado de volta para o lugar. Então ele soltou. A cabeça de Elena estava balançando de um lado para o outro, os lábios ressequidos. Ele derramou um pouco mais de chá mágico de Shinichi no copo amassado, e em seguida ergueu a cabeça dela suavemente pelo lado esquerdo para colocar o copo em seus lábios. Ele deu à sua mente certa liberdade, então, e ela começou a levantar sua mão direita e depois deixou cair.
Ele suspirou e inclinou a cabeça, inclinando a jarra de prata para que o chá escorresse para sua boca. Ela engoliu obediente. Isso tudo o lembrava de Bonnie... mas Bonnie mas não tinha sido tão terrivelmente ferida. Damon sabia que ele não podia levar Elena a seus amigos nesta condição; não com a sua camisa e jeans rasgados, e sangue seco em toda parte.
Talvez ele pudesse fazer algo a respeito. Foi para a segunda porta fora do quarto, pensando, banheiro – banheiro moderno, então desbloqueou e abriu a porta. Foi exatamente o que ele tinha imaginado: um lugar puro, branco e higiênico com uma enorme pilha de toalhas, prontas para visitas na banheira.
Damon correu água quente sobre uma das toalhas. Ele sabia que o melhor agora era despir Elena e colocá-la na água morna. Era o que ela precisava, mas se alguém descobrisse, os amigos dela poderiam arrancar o coração dele ainda batendo no peito e cravar em uma lança. Ele nem sequer precisava pensar nisso, simplesmente sabia.
Voltou para Elena e começou a suavemente a remover o sangue seco de seu ombro. Ela murmurou, sacudindo a cabeça, mas ele continuou até que o ombro parecesse normal, exposto como estava pelas roupas rasgadas.
Então pegou outra toalha e começou a trabalhar em seu tornozelo. Este ainda estava inchado – ela não sairia correndo por aí por um longo tempo. Sua tíbia, o primeiro dos dois ossos da perna, tinha voltado adequadamente para o lugar. Essa era mais uma prova de Shinichi e o Shi no Shi não precisavam de dinheiro, ou eles podiam simplesmente colocar este chá no mercado e fazer uma fortuna.
“Nós olhamos para essas coisas... de maneira diferente”, Shinichi dissera, olhando fixamente para Damon com os estranhos olhos dourados. “O dinheiro não significa muito para nós.” O que significa? “As agonias no leito de morte de um patife que teme ir para o inferno. Observá-lo suando, tentando lembrar-se de encontros já há muito esquecidos. A primeira lágrima consciente de solidão de um bebê. As emoções de uma esposa infiel quando o marido a pega com o amante. Uma donzela... bem, seu primeiro beijo e sua primeira noite da descoberta. Um irmão disposto a morrer por seu irmão. Coisas como essas.”
E muitas outras coisas que não poderiam ser mencionados de forma educada, Damon pensou. Um monte delas era sobre a dor. Eram sanguessugas emocionais, absorvendo os sentimentos dos mortais para compensar o vazio de suas próprias almas.
Ele podia sentir-se doente novamente quando tentou imaginar – calcular – a dor que Elena deve ter sentido, pulando de seu carro. Ela deve ter esperado uma morte agonizante – mas isso ainda era melhor do que estar com ele.
Desta vez, antes de entrar na porta que tinha sido um banheiro de ladrilhos brancos, ele pensou, cozinha moderna, com blocos de gelo em abundância no congelador.
Tampouco decepcionou-se. Ele encontrou-se em uma forte cozinha masculina, com aparelhos cromados e azulejos em preto-e-branco. No congelador: seis sacos de gelo. Ele levou três de volta para Elena e colocou um sobre seu ombro, um no cotovelo, e outro torno de seu tornozelo. Então voltou para a bela e imaculada cozinha para buscar um copo de água gelada.


Cansada. Tão cansada.
Elena sentiu como se seu corpo fosse pesado como chumbo.
Cada membro... cada pensamento... pesados como chumbo.
Por exemplo, havia algo que ela devia estar fazendo – ou não fazendo agora. Mas ela não conseguia fazer o pensamento vir à superfície de sua mente. Era muito pesado. Tudo era muito pesado. Ela não conseguia nem abrir os olhos.
Um som de algo arrastando. Alguém estava perto, em uma cadeira. Então havia um líquido fresco em seus lábios, apenas algumas gotas, mas isso a estimulou a tentar segurar o copo e beber. Oh, água deliciosa. Isso tinha o gosto melhor do que qualquer coisa que ela tenha provado antes. Seu ombro doía muito, mas valia à pena a dor para beber e beber – não! O copo estava sendo puxado para longe. Ela tentou, debilmente, agarrá-lo, mas foi puxado para fora de seu alcance.
Então ela tentou tocar o ombro, mas suaves e invisíveis mãos não a deixariam não até que tivessem lavado suas mãos com água morna. Depois disso, elas colocaram as bolsas de gelo em torno delas e envolveu-as como uma múmia em um lençol. O frio entorpeceu seus sentimentos de dor imediata, embora houvesse outras dores, lá no fundo...
Era tudo muito difícil de pensar a respeito. Quando as mãos removeram as bolsas de gelo novamente – ela estava tremendo de frio –, deixou-se voltar ao sono.


Damon cuidou de Elena e cochilou, cuidou e cochilou. No banheiro perfeitamente equipado, encontrou uma escova e um pente de casco de tartaruga. Eles pareciam ser úteis. E uma coisa ele sabia ao certo: o cabelo de Elena nunca tinha sido assim em toda sua vida – ou não-vida. Ele tentou passar a escova suavemente através de seu cabelo e descobriu que os emaranhados eram muito mais difíceis de sair do que ele imaginava. Quando puxou mais forte com a escova, ela se moveu e murmurou naquele estranho idioma de seus sonhos.
E, finalmente, esse era o cabelo que deveria ser. Elena, sem abrir os olhos, estendeu a mão e pegou a escova da mão dele e depois, quando atingiu um grande emaranhado, franziu a testa, chegou até agarrar um punhado e tentar passar a escova por ele. Damon simpatizou-se. Ele teve cabelos longos algumas vezes durante os séculos de sua existência – quando não poderia ser ajudado, e apesar de seu cabelo ser tão naturalmente fino como o de Elena, ele conhecia a sensação frustrante de se estar arrancando seus cabelos pelas raízes. Damon estava prestes a tomar a escova dela novamente, quando ela abriu os olhos.
 O que...? ― ela perguntou, e então piscou.
Damon tinha ficado tenso, pronto para empurrá-la para um apagão mental se fosse necessário. Mas ela nem sequer tentou acertá-lo com a escova.
 O que... aconteceu?
O que Elena estava sentindo era claro: ela não gostava disso. Estava descontente com outro despertar com apenas uma vaga ideia do que estava acontecendo enquanto dormia.
Com Damon, pronto para lutar ou fugir, olhando o seu rosto, ela lentamente começou a reunir as informações do que havia acontecido.
 Damon? ― Ela deu-lhe um daqueles olhares de lápis-lazúli que não se podia sustentar.
O olhar dizia: estou sendo torturada, ou cuidada, ou você é apenas um espectador interessado, apreciando a dor de alguém enquanto bebia um copo de conhaque?
 Eles cozinham com conhaque, princesa. Bebem Armagnac. E eu não bebo... nenhum desses ― disse Damon. Ele estragou todo o efeito acrescentando rapidamente: ― Isso não é uma ameaça. Juro para você, Stefan me deixou como seu guarda-costas.
Isso era tecnicamente verdade se você considerar os fatos: Stefan tinha gritado: É melhor você ter certeza de que nada aconteça com Elena, seu bastardo duas-caras, ou vou achar um jeito de voltar e arrancar o seu...” O resto foi abafado na luta, mas Damon tinha captado a essência. E agora ele assumiu a tarefa seriamente.
 Nada mais vai te machucar, se você me permitir cuidar de você ― ele acrescentou, agora entrando na área da ficção, já que, quem quer que a tenha assustado ou puxado para fora do carro obviamente tinha estado perto quando ele também estava. Mas nada iria pegá-la no futuro, ele jurou a si mesmo. Mesmo se tiver errado da última vez, de agora em diante não haveria mais ataques furtivos contra Elena Gilbert – ou alguém iria morrer.
Ele não estava tentando espionar seus pensamentos, mas quando ela olhou em seus olhos por um longo momento, eles se projetaram com claridade – e mistério total – as palavras: eu sabia que estava certa. Era outra pessoa o tempo todo. Ele sabia que, sob a sua dor, Elena sentiu uma enorme satisfação.
 Eu machuquei meu ombro. ― Ela aproximou a sua mão direita para tocar, mas Damon a parou.
 Você o deslocou  disse.  Isso vai doer por um tempo.
 E o meu tornozelo... mas alguém... me lembro de estar na floresta e olhando para cima e lá estava você. Eu não conseguia respirar, mas você rasgou as trepadeiras de cima de mim e me pegou em seus braços... ― ela olhou para Damon, confusa. ― Você me salvou?
A afirmação tinha o som de uma pergunta, mas não era. Ela estava pensando em algo que parecia impossível. Então começou a chorar.
“A primeira lágrima consciente de solidão de um bebê. As emoções de uma esposa infiel quando o marido a pega com o amante...”
E talvez uma garota chorando quando acredita que seu inimigo a salvou da morte.
Damon rangeu os dentes de frustração. O pensamento de que Shinichi poderia estar assistindo a isso, sentindo as emoções de Elena, saboreando-as... era impossível de suportar. Shinichi daria a Elena sua memória de volta, ele estava certo disso. Mas na hora e no lugar mais divertido para ele.
 Esse era o meu trabalho ― disse ele firmemente. ― Eu jurei fazê-lo.
 Obrigad Elena suspirou entre soluços. ― Não, por favor – não se afaste. Eu realmente quero dizer isso. Ohhh – há uma caixa de lenços... ou algo seco? ― Seu corpo estava tendo soluços novamente.
O banheiro perfeito tinha uma caixa de lenços. Damon trouxe para Elena.
Ele desviou o olhar enquanto ela os usava, assoando o nariz de novo e de novo enquanto soluçava. Aqui não havia encanto ou espírito encantador, nenhum desagradável e sofisticado caçador de demônios, nenhum coquete perigoso. Havia apenas uma menina partida pela dor, ofegando como uma corça ferida, soluçando como uma criança.
E sem dúvida seu irmão saberia o que dizer a ela. Ele, Damon, não tinha ideia do que fazer – exceto que sabia que mataria por isso. Shinichi iria aprender o que significava confusão quando Damon e Elena estavam envolvidos.
 Como você se sente? ― perguntou bruscamente.
Ninguém seria capaz de dizer que ele se aproveitou disso – ninguém poderia dizer que ele iria magoá-la só para... para usá-la.
 Você me deu o seu sangue ― Elena falou com admiração, e quando ele olhou rapidamente para baixo, para sua manga enrolada, ela acrescentou: ― Não... é apenas uma sensação que eu tive. Quando voltei pela primeira vez... à Terra, depois da vida em forma de espírito. Stefan me dava o seu sangue e, eventualmente, eu me sentia... dessa maneira. Muito quente. Um pouco desconfortável.
Ele virou e olhou para ela.
 Desconfortável?
 Muito cheia – aqui ― ela tocou o pescoço. ― Pensávamos que era uma coisa... simbiótica para os vampiros e os seres humanos que vivem juntos.
 Para um vampiro transformando um humano em vampiro, quer dizer  ele falou bruscamente.
 Exceto que eu não mudei quando ainda era um meio-espírito. Mas então... voltei a ser humana  ela soluçou, tentou um sorriso patético, e usou a escova novamente. ― Eu pediria para você olhar para mim e ver que não mudei, mas... ― ela fez um pequeno movimento de desimportância.
Damon sentou e imaginou como teria sido cuidar do espírito-criança Elena. Era uma ideia tentadora.
Ele disse sem rodeios:
 Quando você disse que estava um pouco desconfortável antes, quis dizer que eu devo tomar um pouco do seu sangue?
Ela desviou de leve o olhar, então olhou para trás.
 Eu disse que estava grata. Disse a você que me senti... muito cheia. Não sei outra forma de lhe agradecer.
Damon tinha séculos de treinamento em disciplina ou ele teria atirado algo do outro lado da sala. Era uma situação para fazer você rir... ou chorar. Ela estava se oferecendo para ele como agradecimento por lhe salvar do sofrimento que ele deveria tê-la salvado, e falhou.
Mas ele não era herói. Não era como São Stefan, para recusar esse prêmio dos prêmios; qualquer condição, ela estava dentro.
Ele a queria.

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