29 de novembro de 2015

Capítulo 28

Elena estava concordando bem devagar.
— Isso poderia explicar o que aconteceu comigo. Estava sozinha em minha experiência fora de corpo, mas então vi Bonnie ao meu lado.
Bonnie mordeu seu lábio.
— Bem... A primeira coisa que eu vi foi Elena e onde estávamos voando. Eu estava um pouco atrás dela. Mas, Stefan, por que acha que caí no sono e dormi a história inteira? Por que a minha versão não pode ser a verdadeira?
— Porque eu acho que a primeira coisa que você faria seria acender a luz... Se realmente estivesse deitada, acordada. Caso contrário, poderia ter pegado uma novela… Bem chata!
Por fim a testa de Bonnie se suavizou.
— Isso explicaria por que ninguém acreditou em mim quando eu contei exatamente onde a história estava! Mas por que eu não contei a Elena sobre o tesouro?
— Eu não sei. Mas, às vezes, quando você acorda… E acho mesmo que você acordou para ter a experiência fora do corpo... Você se esquece do sonho se algo interessante está acontecendo. Mas então deve se lembrar dele mais tarde, se algo faz com que pense nele.
Bonnie olhou para longe, pensativa. Stefan estava em silêncio, sabendo que só ela poderia desvendar este enigma.
Por fim, Bonnie concordou.
— Pode ser isso mesmo! Eu acordei e a primeira coisa que pensei foi na loja de doces. E depois disso nunca mais pensei no sonho sobre o tesouro até que alguém me perguntou a respeito de histórias. E ela simplesmente apareceu na minha cabeça.
Elena puxou a colcha de veludo azul esverdeado de uma maneira que o deixou apenas verde, para então transformá-lo em azul.
— Eu estava prestes a proibir Bonnie de ir nesta expedição. — Ela, a escrava que não tinha uma joia em seu corpo, exceto pelo pingente de Stefan que pendia em uma corrente fina em volta do pescoço, e era bem mais simples que o robe, disse. — Mas se isto for algo que temos de fazer, eu preferiria falar com Lady Ulma. Parece que o tempo e precioso.
— Lembre-se: o tempo que passa aqui é diferente do que passa na Terra. Mas devemos sair pela manhã — Bonnie disse.
— Então, eu definitivamente preciso falar com ela... Neste instante.
Bonnie pulou, animada.
— Eu vou ajudar.
— Espere — Stefan colocou sua mão gentilmente no braço de Bonnie. — Eu tenho que dizer isso. Acho que você é um milagre, Bonnie!
Stefan sabia que seus olhos deviam estar brilhando de um jeito que mostrasse que ele não podia conter sua animação.
Apesar do perigo... Apesar dos Guardiões... Apesar de tudo... Até mesmo da Esfera Estelar... Cheia de Poder!
Ele deu um súbito abraço impetuoso em Bonnie, tirando-a da cama e girando-a no ar antes de colocá-la no chão novamente.
— Você e suas profecias!
— Oooh... — Bonnie disse atordoada, olhando para ele. — Damon estava animado, também, quando eu disse a ele sobre o Portal dos Sete Tesouros.
— E você sabe por que, Bonnie? Porque todos já ouviram falar sobre esses sete tesouros... Mas ninguém tinha ideia de onde eles estavam... Até que você sonhou com eles. Sabe exatamente onde eles estão?
— Sim, se a profecia for verdadeira. — Bonnie estava corada de prazer. — E concorda que aquela Esfera Estelar gigante salvará Fell’s Church?
— Eu apostaria minha vida nisto!
— Uhu! — Gritou Bonnie, erguendo os punhos. — Vamos nessa!
— Entenda — Elena estava dizendo — vamos precisar do dobro de tudo. Não sei como podemos começar amanhã.
— Ei, ei, Elena. Como descobrimos onze meses atrás, quando vocês se foram, todo trabalho pode ser feito rapidamente quando convocamos mãos o suficiente. Agora eu sou a empregadora regular de todas aquelas mulheres que costumávamos chamar para fazer vestidos para os seus bailes.
Enquanto Lady Ulma falava, rápida e graciosamente tirou as medidas de Elena – por que fazer apenas uma coisa quando pode fazer duas ao mesmo tempo?
— Ainda do mesmo jeito desde a última vez em que te vi. Você deve levar uma vida bem saudável, Elena.
Elena riu.
— Lembre-se, para nós se passaram somente alguns dias.
— Ah, sim.
Lady Ulma riu, também, e Lakshmi, que estava sentada em um banquinho, entretendo a bebê, fez o que Elena soube que era um último apelo.
— Eu poderia ir com vocês. — Ela disse sinceramente, olhando para Elena. — Posso fazer todos os tipos de coisas úteis. E sou durona...
— Lakshmi — Lady Ulma disse gentilmente, mas em uma voz que mostrava autoridade — nós já estamos dobrando o tamanho do guarda-roupa para acomodar Elena e Stefan. Você não gostaria de tomar o lugar de Elena, não é?
— Ah, não, não. — A jovem disse as pressas. — Ah, bem, eu tomarei conta da pequena Adara para que ela não te incomode enquanto você supervisiona as roupas de Elena e Stefan.
— Obrigada, Lakshmi — Elena disse de coração, notando que Adara parecia ser o nome oficial da bebê.
— Bem, não podemos fazer com que as roupas de Bonnie caibam em você, mas podemos chamar reforços e teremos uma série completa de roupas prontas para você e Stefan de manhã. São só alguns couros e peles para deixá-los aquecidos. Utilizamos as peles dos animais no norte.
— Elas não vem de filhotes de animais agradáveis e fofinhos. — Bonnie disse. — Vêm de coisas cruéis e desagradáveis que são usadas para treinamento, ou podem vir de outra dimensão e atacar todas as pessoas na periferia do norte daqui. E quando elas finalmente são mortas, os caçadores de recompensa vendem o couro e peles para Lady Ulma.
— Ah, bem... Que bom. — Elena disse, decidindo não fazer um discurso aos direitos dos animais agora.
A verdade era que ela ainda estava trêmula com suas ações – suas reações – contra Damon. Por que ela tinha que agir daquele jeito? Foi só um modo de extravasar a pressão? Ela ainda podia sentir como se pudesse machucá-lo por levar a coitada da Bonnie, deixando-a sozinha logo em seguida. E... E... Por levar a pobrezinha da Bonnie… E não ter me levado!
Damon devia odiá-la agora, ela pensou, e de repente o mundo fez um movimento doentio e fora do controle, como se ela estivesse tentando se equilibrar em uma gangorra. E Stefan... O que mais ele poderia pensar a não que ela era uma mulher desprezada, com o tipo de fúria que não havia nem no inferno? Como ele pode ser tão gentil, tão carinhoso, quando todos teriam o direito de pensar que ela só havia ficado brava por causa do ciúme? Bonnie também não entendia. Bonnie era uma menina, não uma mulher. Apesar, apesar de ela ter amadurecido, de alguma forma… Na bondade, na compreensão. Ela era deliberadamente cega, assim como Stefan. Mas... Isso não significava que a pessoa tinha maturidade?
Será que Bonnie podia ser mais mulher do que ela, Elena?
— Mandarei um jantar privado para os seus quartos. — Lady Ulma estava dizendo, enquanto rápida e habilmente usava a fita métrica em Stefan. — Vocês precisam de uma boa noite de sono; os thurgs... E os guarda-roupas... Estarão esperando amanhã de manhã.
Ela sorriu para todos eles.
— Eu poderia... Quer dizer, ha um pouco de Black Magic? — Elena tropeçou. — Que animação... Vou dormir sozinha no meu quarto. Quero ter uma boa noite de sono. Vamos em uma jornada, sabia?
Era a verdade, mas ainda assim era uma mentira.
— Claro, eu mandarei uma garrafa para... — Lady Ulma hesitou e então rapidamente recuperou-se: — Para o seu quarto, mas por que nos todos não tomamos uma bebida agora? O tempo sempre é o mesmo lá fora — Ela adicionou para Stefan, o recém-chegado — mas está bem tarde.
Elena bebeu seu primeiro copo de uma só vez. A servente teve que reenchê-lo imediatamente.
E novamente, um momento mais tarde. Depois disso, seus nervos pareciam relaxar um pouco. Mas o sentimento de estar em uma gangorra não a abandonou completamente, e embora ela tenha dormido sozinha em seu quarto, Damon não a visitou para brigar com ela, zombar dela, matá-la... E certamente nem para beijá-la.
Thurgs, Elena descobriu, eram algo parecido com dois elefantes costurados juntos. Cada um tinha dois troncos que ficavam lado a lado e presas com a aparência perversa. Cada um também tinha uma alta, grande e longa cauda enrugada, como um réptil. Seus pequenos olhos amarelos foram colocados ao redor de suas cabeças abobadadas para que pudessem ver 360 graus ao seu redor, olhando para os predadores. Predadores que poderiam derrubar um thurg!
Elena imaginou uma espécie imensa de gato com dentes de sabre, branco como o leite e grande o suficiente para carregar as varias roupas dela e de Stefan. Ela ficou satisfeita com suas novas roupas. Cada conjunto era essencialmente uma túnica e calça, maleáveis e macios, com couro do lado de fora; e peles acolhedoras e luxuosas por dentro.
Mas não seriam criações genuínas de Lady Ulma se fossem feitas só daquilo. O macacão interior de pele branca era reversível e removível para que você pudesse mudar, dependendo do clima. Havia o triplo da espessura na área do colarinho, que era preso por trás ou poderiam ser transformado em uma scarf que tamparia o rosto ate a área dos olhos. As peles brancas soltavam couro pelos pulsos para fazer luvas para que você não as perdesse.
Os garotos tinham túnicas retas de couro que acabavam onde ficavam as calças, e que se fechavam com botões. As túnicas das garotas eram mais longas e dilatavam-se um pouco. Elas eram perfeitamente franjadas, sem manchas ou tingimento, exceto pela de Damon, que, é claro, era preta com pele de zibelina.
Um thurg carregaria os viajantes e suas bagagens. O segundo, maior e com aparência mais selvagem, carregaria pedras pré-aquecidas para ajudar a cozinhar a comida dos humanos e toda a comida (que parecia feno vermelho) que dois thurgs comeriam até chegarem ao Mundo Inferior.
Pelat mostrou a eles como mover as gigantes criaturas, com o mais leve dos toques de uma vara muito longa, que poderia arranhar um thurg por trás das orelhas que pareciam a de um hipopótamo, ou dar um toque feroz em um ponto sensível, assinalando que era para se apressar.
— É seguro, sendo que Biratz esta carregando toda a comida de thurg? Pensei ter ouvido você dizer que ela era imprevisível.
— Bonnie perguntou a Pelat.
— Ora, senhorita, eu não a daria para você se ela não fosse segura. Ela estará amarrada a Dazer, então, tudo o que ela tem de fazer e segui-lo. — Pelat respondeu.
— Vamos andar nisto? — Stefan disse, esticando o pescoço para dar uma olhada na pequena e fechada liteira em cima do animal muito grande.
— É preciso. — Damon disse sem rodeios. — Dificilmente poderíamos andar o caminho todo. Não temos permissão de usar magia como aquela Chave Mestra chique que vocês usaram para chegar aqui. Nenhuma magia, a não ser telepatia, funciona no topo da Dimensão das Trevas. Essas dimensões são planas como pratos e, de acordo com Bonnie, há uma ruptura, no extremo norte... Não tão longe daqui, em outras palavras. A rachadura e pequena para os padrões dimensionais, mas grande o bastante para nos passarmos. Se quisermos alcançar a Casa de Portais dos Sete Tesouros Kitsune, começaremos pelos thurgs.
Stefan deu de ombros.
— Certo. Faremos do seu jeito.
Pelat estava colocando uma escada. Lady Ulma, Bonnie e Elena, juntas, estavam chorando e rindo em cima da bebê.
Elas ainda estavam rindo quando eles partiram.

* * *

A primeira semana foi entediante. Eles sentaram na liteira de costas para o thurg chamado Dazar, com a bússola da mochila de Elena pendurada no telhado. Eles geralmente mantinham todos os lados das cortinas da liteira enroladas, exceto a de frente para o oeste, onde o sol vermelho-sangue e envaidecido — brilhante demais para se olhar de uma grande altura — limpava os arredores da cidade... Constantemente parado no horizonte. A visão em volta deles era terrivelmente monótona — com poucas arvores e muitos quilômetros de secas colinas marrons relvados. Nada de interessante para um não-caçador apareceu. A única coisa que mudou foi que, enquanto eles viajavam para o norte, ficava mais frio.
Foi difícil para todos eles, viver tão próximo. Damon e Elena acharam um equilíbrio — ou pelo menos a pretensão — de se ignorarem, algo que Elena jamais pensou ser possível. Damon tornou as coisas mais fáceis ao fazer um ciclo de sono diferente dos demais — o que os protegeu enquanto os thurgs marchavam dia e noite. Se ele estivesse acordado quando Elena estava, ele viajaria do lado de fora da liteira, no enorme pescoço do thurg.
Ambos tinham cabeça-dura, Elena pensou. Nenhum deles queria ser o primeiro a ceder.
Enquanto isso, aqueles que estavam dentro da liteira começaram a jogar pequenos joguinhos, como escolher ervas longas e secas ao lado da estrada e tentando tecê-las em bonecas, fazer com que voassem vassouras, chapéus e chicotes. Stefan provou ser aquele que tecia melhor, e ganhou no quesito de ventiladores e vassouras voadoras.
Eles também jogaram vários tipos de jogos de carta, usando cartões feitos para reservar lugares em eventos (será que Lady Ulma pensou que eles poderiam dar uma festa no caminho?) como cartas de baralho, depois de cuidadosamente marcá-los com os quatro naipes. E, e claro, os vampiros caçaram.
As vezes parecia que demorava tempo demais, pois os jogos eram escassos. O Black Magic que Lady Ulma havia abastecido ajudou a esticar o tempo entre as caçadas.
Quando Damon visitou a liteira, parecia que ele estava invadindo uma festa privada e encarando de frente os anfitriões. Finalmente, Elena não pode mais aguentar, e teve Stefan flutuando-a ao lado do thurg (olhar para baixo ou ficar subindo e descendo não eram opções) enquanto a magia de voar ainda funcionava. Ela sentou na sela ao lado do Damon e reuniu sua coragem.
— Damon, eu sei que você tem o direito de estar bravo comigo. Mas não desconte nos outros. Especialmente em Bonnie.
— Outro sermão? — Damon perguntou, dando a ela um olhar que congelaria uma chama.
— Não, e só um... Um pedido. — Ela não teve coragem de dizer “um apelo”.
Quando ele não respondeu e o silencio tornou-se insuportável, ela disse:
— Damon... Nos não estamos indo em busca de um tesouro por ganancia, aventura ou qualquer razão normal. Estamos indo por que precisamos salvar a nossa cidade.
— Da Meia-Noite. — Uma voz bem atrás deles disse. — Da Ultima Meia-Noite.
Elena se virou para olhar. Ela esperava ver Stefan segurando Bonnie fortemente. Mas era apenas Bonnie, sua cabeça somente visível, pendurada na escada do thurg.
Elena esqueceu que ela tinha medo de altura. Ela se levantou sobre o thurg balançante, preparada para descer pelo lado do Sol, caso não houvesse espaço o suficiente para Bonnie sentar-se rapidamente na sela do motorista. Mas Bonnie tinhas os quadris mais finos da cidade e havia espaço para três deles.
— A Ultima Meia-Noite esta chegando. — Bonnie repetiu.
Elena conhecia aquela voz monótona, conhecia aquelas bochechas braco-giz, os olhos embranquecidos. Bonnie estava em transe — e estava se movendo. Devia ser urgente.
— Damon — Elena sussurrou. — Se eu falar com ela, ela sairá do transe. Você pode perguntar telepaticamente para ela o que ela quer dizer?
Um momento mais tarde ela ouviu a projeção de Damon:
O que é a Última Meia-Noite? O que vai acontecer?
— E quando tudo começa. E tudo acabara em menos de uma hora. Então, não haverá mais meias-noites.
Como é? Não haverá mais meias-noites?
— Não em Fell’s Church. Não sobrara ninguém para vê-los.
E quando isso vai acontecer?
— Hoje a noite. As crianças já estão prontas.
As crianças?
Bonnie simplesmente concordou, seu olhar estava distante.
Algo vai acontecer com todas as crianças?
As pálpebras de Bonnie meio que se fecharam. Ela parecia não ter ouvido a pergunta.
Elena precisava se segurar em alguma coisa. E de repente ela se segurou. Damon havia passado por cima do colo de Bonnie e pego sua mão.
Bonnie, as crianças farão alguma coisa à meia-noite? Ele perguntou.
Os olhos de Bonnie se fecharam e ela abaixou a cabeça.
— Temos que voltar. Temos que ir a Fell’s Church. — Elena disse, mal sabendo o que ela estava fazendo, soltou a mão de Damon e desceu a escada. O Sol vermelho envaidecido parecia diferente... Menor. Ela puxou a cortina e quase colidiu de
frente com Stefan enquanto ele dava espaço para ela entrar.
— Stefan, Bonnie esta em transe e ela disse...
— Eu sei. Eu estava escutando. Eu nem pude segura-la enquanto ela se levantava. Ela saltou em direção a escada e subiu como um esquilo. O que você acha que ela quis dizer?
— Você se lembra da experiência fora do corpo que ela eu tivemos? Dando uma espiadinha em Alaric? E isso que vai acontecer a Fell’s Church. Todas as crianças, de uma vez só, a meia-noite… E por isso que temos que voltar.
— Calma. Calma, amor. Lembra do que a Lady Ulma disse? Quase um ano se passou por aqui, enquanto no nosso mundo foram somente alguns dias.
Elena hesitou. Era verdade, ela não podia negar. Ainda assim, ela sentia-se tão fria. Fisicamente fria, ela percebeu de repente, enquanto um sopro de ar gelado girava ao seu redor, cortando seu couro como um facão.
— Precisamos de nossas peles. — Elena arfou. — Devemos estar perto da rachadura.
Eles abaixaram as cortinas da liteira, mantendo-os seguros, e, em seguida, as pressas, vasculharam o armário elegante que estava na garupa do thurg.
As peles eram tão macias que Elena pode colocar duas com facilidade.
Eles ficaram aturdidos com Damon entrando com Bonnie em seus braços.
— Ela parou de falar. — Ele disse, e adicionou: — Quando vocês estiverem aquecidos o bastante, sugiro que vocês vão lá fora.
Elena colocou Bonnie embaixo de dois bancos no interior da liteira e empilhou vários cobertores sobre ela, prendendo-os em torno dela. Em seguida, Elena subiu novamente.
Por um instante ela se sentiu cega. Não pelo Sol ríspido e avermelhado — eles o deixaram para trás depois de algumas montanhas, no qual se transformou em uma safira cor rosa —, mas sim pelo mundo branco.
Aparentemente interminável, uma brancura plana e inexpressiva se estendeu diante dela ate que um nevoeiro obscureceu o que quer que estivesse por detrás daquilo.
— De acordo com a lenda, devemos seguir para o Lago Prateado da Morte.
A voz de Damon disse atrás de Elena. E, ao longo de todo esse frio, sua voz era quente — quase amigável.
— Também conhecido como Lago do Espelho. Mas eu não posso me transformar em um corvo para explorar mais adiante.
Algo esta me impedindo. E essa nevoa diante de nos e impenetrável a sondagem psíquica.
Elena instintivamente olhou ao seu redor. Stefan ainda estava dentro da liteira, obviamente ainda cuidando de Bonnie.
— Você está procurando por um lago? Como ele se parece? Quer dizer, eu deduzo o porque de ele ser chamado de Prateado e Lago do Espelho. — Ela disse. — Mas e quanto a parte da “Morte”?
— Dragões aquáticos. Pelo menos, e o que as pessoas dizem... Mas quem já esteve lá para contar a historia?
Damon olhou para ela.
Ele tomou conta de Bonnie enquanto ela estava em transe, Elena pensou. E finalmente ele está falando comigo.
— Dragões... Aquáticos? — Ela perguntou para ele e fez com que sua voz ficasse amigável, também.
Como se eles tivessem acabado de se conhecer. Eles estavam recomeçando.
— Eu mesmo sempre acreditei no kronosauro. — Damon disse.
Ele estava bem atrás dela agora; ela pode senti-lo bloqueando o vento gélido... Não, mais que isso. Ele estava criando uma camada de calor para que ela ficasse dentro. A tremedeira de Elena parou. Pela primeira vez, ela sentiu ser capaz de descruzar os bracos.
E então ela sentiu um par de braços fortes fechando-se ao seu redor, e o calor abruptamente ficou intenso. Damon estava parado atrás dela, abraçando-a, e de repente ela estava muito quente mesmo.
— Damon — Ela começou, sem muita firmeza —, nós não podemos...
— Ha uma rocha aparecendo ali na frente. Ninguém poderia nos ver. — O vampiro atrás dela ofereceu, para a surpresa absoluta de Elena.
Uma semana inteira sem nem conversar... E agora isso.
— Damon, o cara dentro da leiteira, bem atrás de nos, e meu...
— Príncipe? Você, então, não precisa de um cavaleiro? — Damon respirou isso diretamente em seu ouvido.
Elena congelou como uma estatua. Mas o que ele disse em seguida sacudiu seu universo inteiro.
— Você e como a historia de Camelot, sabia? Só que aqui você e a rainha, princesa. Você se casou com seu príncipe não tão parecido com os dos contos de fadas, mas seguiu seu cavaleiro, que sabia mais sobre seus segredos, ele te chamou...
— Ele me forcou. — Elena disse, virando-se para encontrar diretamente os olhos escuros de Damon, mesmo quando seu cérebro gritava para deixa-lo ir. — Ele não esperou que eu ouvisse sua proposta. Ele simplesmente... Pegou o que ele queria. Como traficantes de escravos fazem. Eu não sabia como lutar contra isso.
— Oh, não. Você lutou e lutou. Nunca vi uma humana lutar tanto. Mas mesmo enquanto você lutava, sentia meu coração chamando o seu. Tente negar isso.
— Damon... Por que agora… tão de repente?
Damon fez um movimento como se fosse se afastar, então voltou.
— Porque amanha podemos estar mortos. — Ele disse sem rodeios. — Eu queria que você soubesse o que eu sinto por você antes de eu morrer... Ou antes de morrer.
— Mas você não me disse uma palavra sobre como você se sente sobre mim. Só sobre o que pensa que eu sinto sobre você. E desculpe por eu ter batido em você no primeiro dia em que eu estive aqui, mas...
— Você foi magnifica. — Damon disse escandalosamente. — Esqueça isso agora. Sobre como eu me sinto... Talvez eu tenha a chance de mostrar-lhe algum dia.
Algo despertou dentro de Elena: eles estavam evitando palavras, assim como eles fizeram na primeira vez em que se conheceram.
— Algum dia? Parece conveniente. E por que não agora?
— O que quer dizer?
— Eu tenho o habito de dizer coisas sem sentido?
Ela estava esperando por algum tipo de pedido de desculpas, algumas palavras ditas de forma simples e sincera iguais as que ela havia falado para ele. Ao invés disso, com uma delicadeza extrema e sem olhar em volta para ver se alguém estava olhando para eles, Damon segurou a scarf de Elena, puxou com os polegares o lenço longo por debaixo dos lábios dela, e a beijou suavemente.
Suavemente — mas não de forma breve — e algo dentro de Elena continuava sussurrando para ela que era óbvio que ela havia ouvido seu coração lhe chamando, desde a primeira vez em que ela o viu, desde a primeira vez que a aura dele chamou por ela. Ela não sabia o que era aura naquela época; ela não acreditava em auras. Ela não acreditava em vampiros. Ela havia sido uma idiotia a ignorante...
Stefan! Uma voz parecida com cristal soou duas notas abaixo, em seu cérebro, e de repente ela foi capaz de sair dos braços de Damon e olhar para a liteira novamente.
Nenhum sinal de movimento por ali.
— Eu tenho que voltar. — Ela disse a Damon bruscamente. — Eu tenho que saber o que esta acontecendo com Bonnie.
— Você quer dizer o que esta acontecendo com Stefan. — Ele disse. — Não e preciso se preocupar. Ele dormiu rapidamente, assim como nossa garotinha.
Elena ficou tensa.
— Você os Influenciou? Sem vê-los?
Era um palpite, mas um lado da boca de Damon se entortou, como se a estivesse parabenizando.
— Como você se atreve? — Ela disse.
— Para falar a verdade, eu não sei bem como pude ser tão ousado.
Damon inclinou-se novamente, mas Elena se esquivou, pensando:
Stefan!
Ele não pode te ouvir. Ele está sonhando com você.
Elena ficou surpresa com sua reação em relação a isso. Damon havia atraído e prendido os olhos dela novamente. Algo dentro dela derreteu na intensidade de seu firme olhar negro.
— Não estou te Influenciando. Dou minha palavra. — Disse em um sussurro. — Mas você não pode negar o que aconteceu entre nos da ultima vez em que estivemos nesta dimensão.
A respiração dele estava sobre seus lábios agora... E Elena não desviou. Ela tremia.
— Por favor, Damon. Demonstre um pouco de respeito. Estou... Ai, Deus! Meu Deus!
— Elena? Elena! Elena! O que foi?
Dói
Isso foi tudo que Elena pode pensar. Uma terrível agonia passou através de seu peito, do lado esquerdo. Como se tivesse sido apunhalada no coração. Ela sufocou um grito.
Elena, fale comigo! Se você não consegue enviar seus pensamentos, fale!
Através de seus lábios dormentes, Elena disse:
— Dor... Ataque cardíaco...
— Você é jovem e saudável demais para isso. Deixe-me checar.
Damon foi tirando sua blusa. Elena deixou. Ela não podia fazer nada por si mesma, exceto arfar:
— Ai, meu DeusIsso dói!
As mãos quentes de Damon estavam dentro do couro das peles. A mão dele descansou em um ponto a esquerda, com somente a camisola dela ficando entre as mãos dele e sua carne.
Elena, eu vou tirar sua dor. Confie em mim.
Enquanto falava, a angústia do esfaqueamento foi drenada. Os olhos de Damon se estreitaram, e Elena sabia que ele tinha tomado a dor para si mesmo, para analisá-la.
— Não é um ataque cardíaco — Ele disse um momento mais tarde. — Estou certo disto. Esta mais para... Bem, como se você tivesse levado uma estaca no coração. Mas isso e bobagem. Humm... Foi embora.
Para Elena, a dor havia ido embora no momento que ele havia tirado dela, protegendo-a.
— Obrigada. — Ela respirou, de repente percebendo que ela havia se agarrado a ele, em terror absoluto de que estivesse morrendo. Ou de que ele estava.
Ele deu a ela um sorriso raro, completo e genuíno.
— Ambos estamos bem. Deve ter sido uma câimbra. — Seu olhar caiu para seus lábios. — Eu mereço um beijo?
— Eu...
Ele havia lhe dado conforto; havia tirado sua dor terrível. Como ela poderia dizer não?
— Só um. — Ela sussurrou.
Uma mão sobre seu queixo. Suas pálpebras queriam se fechar, mas ela arregalou os olhos e não se deixou levar.
Enquanto os lábios dele tocavam os dela, o braço dele ficou ao seu redor... De uma forma diferente. Ele não estava mais tentando contê-la. Parecia estar querendo confortá-la. E quando sua outra mão acariciou seus cabelos, suavemente nas pontas, apertando as ondas gentilmente e delicadamente alisando-as, Elena sentiu uma onda de tremor.
Damon não estava tentando abate-la deliberadamente com sua aura, que no momento estava preenchida com seus sentimentos por ela. O simples fato, porem, era que ele era um vampiro recém-criado, era excepcionalmente forte e sabia todos os truques de um experiente. Elena sentiu como se estivesse pisando em aguas calmas e claras, só para então encontrar-se presa em uma correnteza violenta, sem haver nenhuma resistência, sem negociação e, sem duvida alguma, sem possibilidade de se chegar a razão. Ela não teve escolha a não ser se render a isto e esperar que isso a levasse, eventualmente, a um lugar onde ela pudesse respirar e viver. Caso contrário, ela iria se afogar... Mas ate mesmo essa possibilidade não parecia ser tão terrível, agora que ela podia ver que a mare era feita de uma corrente brilhante igual a perolas. Em cada uma delas havia um pequeno brilho de admiração que Damon tinha por ela: perolas de sua coragem, pela sua inteligência, pela sua beleza. Parecia que não houvera nenhum movimento que ela fizera, nenhuma breve palavra que ela dissera, que ele não houvesse notado e trancado em seu coração como um tesouro.
Mas estivemos brigando desde então, Elena pensou para ele, vendo na correnteza um momento brilhante de quando ela havia discutido com ele.
Sim... Eu disse que você estava magnífica quando ficou nervosa. Como uma deusa ao vir colocar o mundo nos eixos.
Eu quero mesmo colocar o mundo nos eixos. Não, os dois mundos: a Dimensão das Trevas e o meu mundo. Mas eu não sou uma deusa.
De repente, ela percebeu aquilo sutilmente. Ela era uma garota que não havia sequer concluído o ensino médio — e, em parte, por causa da pessoa que ela estava beijando loucamente agora.
Oh, pense no que você está aprendendo nesta viagem! Coisas que ninguém no universo sabe, Damon disse em sua mente. Agora, preste atenção no que você está fazendo!
Elena prestou atenção, não porque Damon queria, mas porque ela não pode evitar. Seus olhos se fecharam. Ela percebeu que a maneira de acalmar aquele turbilhão de ondas havia se tornado parte dela, sem ceder ou forcar Damon a fazer isso, mas fazendo com que ela fosse de encontro a paixão que estava na mare que estava dentro de seu próprio coração.
Assim como ela, a mare se ficou selvagem, e ela estava voando e não se afogando. Não, era melhor que voar, melhor que dançar; era o que o seu coração sempre desejou. Um lugar alto onde nada poderia prejudica-los ou perturba-los.
E então, quando ela estava mais vulnerável, a dor veio novamente, perfurando seu peito, um pouco para a esquerda. Desta vez, Damon estava tão ligado a Elena que ele sentiu desde o começo. E ela pode ouvir claramente a frase na mente de Damon: estaqueamento é tão eficaz em humano quanto em vampiros, e então o seu medo súbito de que isso pudesse ser uma premonição.
Na sala balançante, Stefan estava dormindo, segurando Bonnie ao seu lado, com um grande Poder engolfando os dois. Elena, que teve um bom controle na subida da escada da liteira, entrou. Ela colocou uma mão no ombro de Stefan e ele acordou.
— O que foi? Ha algo de errado com ela? — Ela perguntou, com uma terceira pergunta: — Você sabe?
Houve um zumbido dentro de sua cabeça.
Mas quando Stefan levantou seus olhos verdes para ela, eles estavam simplesmente preocupados. Era evidente que ele não estava invadindo sua mente. Ele estava inteiramente focado em Boniek.
Graças a Deus que ele era um cavalheiro, Elena pensou pela milésima vez.
— Estou tentando deixá-la aquecida — Stefan disse. — Depois que ela saiu do transe, ela estava tremendo. então ela parou de tremer, mas quando eu peguei sua mão, estava muito fria. Agora eu a cobri com uma camada de calor ao seu redor. Acho que cochilei um pouco depois disso. — Ele adicionou. — Vocês acharam alguma coisa?
Eu encontrei os lábios de Damon, Elena pensou selvagemente, mas ela se forcou a esquecer a lembrança.
— Estamos procurando pelo Lago Prateado da Morte. — Ela disse. — Mas tudo que eu pude ver foi uma brancura. A neve e a nevoa seguem eternamente.
Stefan assentiu.
Em seguida, ele cuidadosamente atravessou a distancia de ar e abaixou a mão para tocar a bochecha de Bonnie.
— Ela esta ficando mais quente. — Ele disse, e sorriu.
Demorou um tempo antes que Stefan estivesse convencido de que Bonnie estava aquecida. Quando ele se convenceu, ele gentilmente a desembrulhou do ar quente que havia formado um “envelope” e a colocou em um banco, vindo sentar-se com Elena, no outro. Eventualmente Bonnie suspirou, piscou e abriu os olhos.
— Eu cochilei. — Ela disse, obviamente ciente de que ela havia perdido a noção do tempo. — não exatamente. — Elena disse, mantendo sua voz gentil e reconfortante.
Vamos ver, como Meredith faria isso?
— Você entrou em transe, Bonnie. Você se lembra de algo sobre isso?
Bonnie disse:
— Sobre o tesouro?
— Para que o tesouro serve — Stefan disse quietamente.
— Não... Não...
— Você disse que essa era a Ultima Meia-Noite. — Elena disse.
O tanto que ela pode se lembrar era que Meredith seria bem direta.
— Mas acho que você estava falando em voltarmos para casa — Ela adicionou apressadamente, vendo medo nos olhos de Bonnie.
— A Ultima Meia-Noite... Sem uma manha no dia seguinte. — Bonnie disse. — Eu acho... Que já ouvi alguém dizendo essas palavras. Mas não lembro quem.
Ela estava tão arisca quanto um potro selvagem. Elena lembrou-se sobre como o tempo passava de forma diferente entre os dois mundos, mas não parecia consola-la. Finalmente, Elena apenas sentou-se ao lado dela e a abraçou. Sua cabeça girava com pensamentos sobre Damon. Ele a tinha perdoado. Isso era bom, embora ele tivesse levado um tempo para fazer isso. Mas a verdadeira mensagem era que ele estava disposto a compartilhar isso com ela. Ou, pelo menos, disposto a dizer que ele faria de tudo para que ela o visse com bons olhos. Se ela o conhecesse por completo, se ela tivesse concordado. Ai, Deus, ele poderia ter matado Stefan. De novo. Afinal, foi isso que ele fez quando Katherine havia tido o mesmo sentimento.
Ela nunca poderia pensar nele sem sentir saudade. Ela nunca poderia pensar nele sem pensar em Stefan. Ela não tinha ideia do que fazer.
Ela estava em apuros.

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