26 de novembro de 2015

Capítulo 28

Eles passaram diretamente pelos lamentáveis guardas das portas. Mas logo descobriram que, enquanto quase todo mundo ouvia Lady Fazina, havia, em cada cômodo do palácio aberto ao público, um guia de roupa preta e luvas brancas, pronto para dar informações e vigiar atentamente as posses sua senhora.
O primeiro cómodo que lhes deu alguma esperança foi o Salão de Harpas de Lady Fazina, uma sala dedicada inteiramente à exibição dos instrumentos. Objetos antigos, em arco, de uma só corda, sem dúvida tocados por indivíduos que deviam parecer homens das cavernas, a harpas altas, douradas e orquestrais como a que Fazina tocava agora, a música audível pelo palácio.
Magia, pensou Elena novamente. Eles parecem usá-la aqui, em lugar da tecnologia.
— Cada tipo de harpa tem uma chave exclusiva para afinar as cordas — cochichou Meredith, olhando o corredor. De cada lado a fila de harpas marchava ao longe. — Uma dessas chaves pode ser a chave.
— Mas como vamos saber? — Bonnie se abanava com o leque de penas de pavão. — Qual é a diferença entre uma chave de harpa e uma chave de raposa?
— Não sei. E também nunca ouvi falar de guardar uma chave dentro de uma harpa. Deve fazer barulho dentro da caixa ressonância sempre que a harpa é tirada do lugar — admitiu Meredith.
Elena mordeu o lábio. Era uma questão simples e razoável. Ela devia ficar desanimada, devia se perguntar como encontrariam a metade pequena de uma chave neste lugar. Especialmente ao pensar que a pista que tinham — que estava no instrumento da Rouxinol de Prata — de repente parecia absurda.
— Espero — disse Bonnie, sem refletir muito — que o instrumento não seja a voz dela, e se enfiarmos a mão pela goela da mulher...
Elena se virou para olhar Meredith, que parecia olhar o céu — ou o que estivesse acima dessa dimensão horrenda.
— Eu sei — disse Meredith. — Chega de bebida para a avoada aqui. Mas acho possível eles darem pequenos apitos de prata ou algum instrumento como lembrança... Todas as grandes festas costumavam ter isso, sabe como é... Dar um brinde.
— Como — disse Damon num tom despreocupadamente inexpressivo — eles podem dar a chave de brinde semanas antes da festa, e como podem ter a esperança de recuperá-la? Misao podia muito bem ter dito a Elena "Nós jogamos a chave fora".
— Bom — começou Meredith, — não tenho certeza se eles quiseram dizer que as chaves podiam ser recuperadas, mesmo por eles. E Misao podia ter a intenção de dizer: "Você tem que vasculhar todo o lixo da noite desse baile de gala... Ou de outra festa em que Fazina se apresentasse". Imagino que ela seja convida a tocar em várias outras festas.
Elena odiava bate-boca, embora ela fosse campeã nisso. Mas esta noite era uma deusa. Nada era impossível. Se conseguisse se lembrar...
Algo parecido com um raio de luz atingiu sua cabeça. Só por um instante — um instante — ela estava de volta, lutando com Misao. Misao estava em sua forma de raposa, mordendo, arranhando e rosnando uma resposta à pergunta de Elena sobre onde estavam as duas metades da chave de raposa.
Até parece que você poderia entender as respostas que eu daria. Se eu lhe contasse que uma metade está dentro do instrumento de prato do rouxinol, isso lhe daria alguma ideia?‖
Sim. Estas foram as exatas palavras, as verdadeiras palavras que Misao dissera. Elena ouvira em sua própria voz, repetindo-as agora distintamente.
Depois ela sentiu aquela luz deixar sua mente — para encontrar outra não muito distante. Em seguida, ela se deu conta de que, seus olhos se abriam de surpresa, porque Bonnie falava daquele jeito inexpressivo que sempre usava quando fazia uma profecia:
— Cada metade da chave de raposa tem a forma de uma única raposa, com duas orelhas, dois olhos e um focinho. As duas metades da chave de raposa são de ouro, cobertas de pedras preciosas... E seus olhos são verdes. A chave que procura ainda está no instrumento da Rouxinol de Prata.
— Bonnie! — disse Elena. Ela podia ver que os joelhos da amiga tremiam, e seus olhos estavam desfocados. Depois eles se abriram e Elena observou a confusão encher o vazio.
— O que está havendo? — perguntou Bonnie, olhando em volta e vendo que todo mundo olhava para ela. — O que... aconteceu?
— Você nos disse como são as chaves de raposa! — Elena não conseguiu evitar quase gritar de alegria. Agora que sabiam o que procuravam, poderiam libertar Stefan; eles libertariam Stefan. Agora nada impediria Elena. Bonnie ajudara a levar a busca a um nível inteiramente diferente.
Mas enquanto Elena tremia de alegria por dentro, por causa da profecia, Meredith, com seu jeito equilibrado, cuidava da profetisa.
— Acho que ela vai desmaiar — dizia Meredith em voz baixa. — Poderia, por favor...
Meredith não teve tempo de concluir o pedido porque os vampiros, Damon e Sage, foram rápidos e seguraram Bonnie, amparando-a de cada lado.
Damon olhava a menina baixinha com surpresa.
— Obrigada, Meredith — disse Bonnie, e soltou a respiração piscando. — Acho que não vou desmaiar — acrescentou olhando para Damon por entre as pálpebras: — Mas acho que é melhor ter certeza.
Damon assentiu e segurou melhor, com um ar sério. Sage se virou um pouco, parecendo ter algo preso na garganta.
— O que foi que eu disse? Não me lembro!
Séria, Elena repetiu as palavras de Bonnie, e Meredith perguntou:
— Agora você tem certeza, Bonnie? Isso parece certo?
— Eu tenho certeza. Absoluta — interrompeu Elena. Sua certeza era completa. A deusa Ishtar e Bonnie abriram-lhe o passado e lhe mostraram a chave.
— Muito bem. E se Bonnie, Sage e eu ficarmos nesta sala e dois de nós distrairmos o guia, enquanto o terceiro procura as chaves nas harpas? — sugeriu Meredith.
— Certo. Vamos! — disse Elena.
O plano de Meredith se mostrou mais difícil na prática do que parecia.
Mesmo com duas gloriosas meninas e um homem tremendamente musculoso na sala, o guia continuava andando em pequenos círculos e de vez em quando, flagrava um ou outro mexendo na harpa e espiando dentro dela.
Era estritamente proibido mexer em qualquer coisa. Podia desafinar as harpas e facilmente danificá-las. Mas a única maneira de ter absoluta certeza de que uma chave pequena e de ouro não estava na caixa de ressonância era sacudir o instrumento e ver se fazia barulho. E o pior era que cada uma das harpas tinha seu próprio nicho, completo, com uma iluminação teatral, na frente de uma tela ostentosa (a maioria deles mostrava Fazina tocando a harpa em questão) e uma corda de veludo vermelho na frente com as palavras "mantenha distância", tão evidente quanto numa placa.
No final, Bonnie, Meredith e Sage recorreram ao Poder de influência de Sage para deixar o guia inteiramente passivo — algo que ele só foi capaz de fazer por alguns minutos por vez, ou o guia perceberia os hiatos no programa de Lady Fazina. Eles então procuravam freneticamente nas harpas enquanto o guia ficava imóvel feito uma figura de cera.
* * *
Enquanto isso, Damon e Elena vagavam pelo palácio, procurando no resto da mansão que era proibido a visitantes. Se não achassem nada, pretendiam dar uma busca em todos os cômodos disponíveis enquanto o baile continuasse.
Era um trabalho perigoso, entrar e sair furtivamente de ambientes escuros, cercados por cordas — em geral trancados — e vazios: perigoso e estranhamente emocionante para Elena. De certo modo, parecia que o medo e a paixão eram mais próximos do que ela realmente percebera. Ou pelo menos parecia que era assim com ela e Damon.
Elena não pôde deixar de perceber e admirar alguns detalhes de Damon.
Ele parecia capaz de abrir qualquer tranca com um pequeno instrumento que tirava da jaqueta preta, como se estivesse pegando uma caneta-tinteiro, e, de um jeito rápido e elegante, ele arrombava a tranca e a devolvia a seu estado original. Economia de movimentos, ela sabia, conquistada em cinco séculos de experiência.
Além disso, ninguém podia questionar: Damon parecia manter a cabeça fria em qualquer situação, o que fazia dele um bom companheiro agora, quando ela estava andando como uma deusa e ninguém podia obrigá-la a seguir as regras dos mortais. Isto era realçado pelos sustos que Elena tomava: formas que pareciam guarda sentinelas assomando para ela se mostravam na realidade um urso empalhado, um pequeno armário e algo que Damon não permitiu que ela olhasse por mais de um segundo, mas que parecia um homem mumificado. Damon não se intimidava com nada disso.
Se eu pudesse canalizar algum Poder para os olhos, pensou Elena... e as coisas imediatamente se iluminaram. Seu Poder obecia!
Meu Deus! Terei que usar esse vestido pelo resto da vida faz com que eu me sinta tão... poderosa. Tão... desinibida. Vou usar na faculdade, se entrar para uma faculdade, para impressionar meus professores; e para Stefan e no meu casamento — só para que as pessoas entendam que não sou uma qualquer; e na praia, para os homens terem pelo que babar...
Ela reprimiu uma risada e ficou surpresa ao ver Damon olhar com uma reprovação fingida. É claro que ele estava estreitamente focalizado nela, como Elena estava nele. Mas era um caso um tanto diferente, é claro, porque, aos olhos de Damon, ela usava uma placa que dizia GELEIA DE MORANGO amarrada no pescoço. E ele estava ficando com fome de novo. Com muita fome.
Da próxima vez vou cuidar para que se alimente direito antes de sair de casa, pensou ela para ele.
Vamos nos concentrar no sucesso desta missão antes de planejarmos a próxima, retorquiu, com um leve sorriso se insinuando.
Mas estava tudo misturado com um pouco da satisfação sarcástica que Damon sempre exibia. Elena jurou a si mesma que por mais que ele pudesse rir para ela, pedir, ameaçar ou bajular, esta noite ela não daria a Damon a satisfação nem mesmo de um beliscão. Ele que encontrasse outro pote de geleia, pensou ela.
Por fim, a doce música do concerto parou, e Elena e Damon correram para encontrar Bonnie, Meredith e Sage no Salão das Harpas. Elena era capaz de deduzir as notícias pela postura de Bonnie, mesmo que já não soubesse pelo silêncio de Sage. Mas as notícias eram piores do que Elena podia imaginar: não só os três não acharam nada no Salão das Harpas, como finalmente recorreram a um interrogatório do guia, que podia falar, mas não se mexer, sob a influência de Sage.
— E adivinhe só o que ele nos contou — disse Bonnie, logo completando antes que outro se arriscasse a falar. — Essas harpas são limpas e afinadas, cada uma delas, todo santo dia. Fazina tem tipo um exército de criados para fazer isso. E qualquer coisa, qualquer coisa mesmo que não pertença à harpa é informada imediatamente. E não havia nada! Não tem nada ali!
Elena sentiu que encolhia da deusa onisciente para a humana desnorteada.
Imaginei que isso pudesse acontecer — admitiu Elena, suspirando. — Teria sido fácil demais de outra maneira. Tudo bem, plano B. Vocês se misturam com os convidados do baile e tentam dar uma olhada em cada cômodo que esteja aberto ao público. Procurem impressionar o companheiro de Fazina e arrancar informações dele. Tentem descobrir se Misao e Shinichi estiveram aqui recentemente. Damon e eu vamos continuar olhando as salas que deviam estar fechadas.
— Isso é tão perigoso — disse Meredith, franzindo a testa. —Tenho medo do que pode acontecer se vocês forem apanhados.
— Tenho medo do que pode acontecer com Stefan se não acharmos a chave esta noite — retorquiu Elena rispidamente e deu meia-volta para sair.
Damon a seguiu. Procuraram por intermináveis cômodos escuros, agora sem nem saber se estavam procurando uma harpa ou outra coisa. Primeiro Damon verificava se havia um corpo respirando dentro do cômodo (é claro que podia haver um guarda vampiro, mas não havia muito a fazer a respeito disso), depois arrombava a fechadura. As coisas estavam correndo tranquilamente até que chegaram a uma sala no final de um longo corredor que dava para o oeste — Elena havia muito se perdera no palácio, mas sabia que era o oeste porque era onde se punha aquele sol enorme.
Damon arrombou a fechadura da sala e Elena imediatamente avançou, ansiosa. Procurou pela sala que continha, o que foi frustrante, a pintura emoldurada em prata de uma harpa, mas sem nada volumoso como a metade de uma chave de raposa em seu interior, mesmo quando ela usou cuidadosamente a ferramenta de Damon para desatarraxar o fundo.
Foi quando devolvia o quadro à parede que os dois ouviram uma pancada. Elena estremeceu, rezando para que nenhum dos "criados da segurança" vestidos de preto tivesse ouvido o barulho ao perambular pelo palácio.
Damon rapidamente pôs a mão na boca de Elena e reduziu a luz do lampião, escurecendo a sala.
Mas os dois ouviram passos se aproximando pelo corredor. Alguém escutara a pancada. Os passos pararam na porta e eles ouviram o som distinto de uma tosse discreta de um criado superior.
Elena girou, sentindo nesse momento que as Asas da Redenção estavam ao seu alcance. Exigiria apenas o mais leve aumento da adrenalina, e ela teria o segurança ajoelhado, chorando, penitenciando-se por uma vida inteira de trabalho para o mal. Elena e Damon estariam longe antes...
Mas Damon tinha outra ideia, e Elena ficou assustada ao concordar com ela.
Quando a porta se abriu, sem fazer barulho, um segundo depois, o funcionário achou um casal preso num abraço tão apertado que parecia nem ter percebido a intrusão. Elena praticamente sentia a indignação dele. Era compreensível o desejo de um casal de convidados se abraçar discretamente na privacidade dos muitos ambientes públicos de Lady Fazina, mas esta parte da casa era privativa. Enquanto ele acendia as luzes, Elena espiou pelo canto do olho. Seus sentidos paranormais estavam abertos o bastante para ler os pensamentos dele. Ele repassava os objetos de valor na sala com um olhar experiente mas entediado. O delicado vaso em miniatura com as rosas da borda presas em folhagem cravejada de rubis e esmeraldas; a lira suméria de madeira de 5 mil anos, magicamente preservada; o par idêntico de candelabros de ouro maciço na forma de dragões erguidos; a máscara funerária egípcia com as órbitas escuras e alongadas, parecendo fitar de suas feições muito bem pintadas... Estava tudo ali. A senhora nem mesmo guardava nada de grande valor naquela sala, mas ainda assim:
— Esta sala não faz parte da exibição pública — disse ele a Damon, que se limitou a apertar Elena ainda mais.
Sim, Damon parecia muito decidido a dar um bom show ao funcionário... Ou coisa parecida. Mas eles já não... haviam terminado? Os pensamentos de Elena perdiam a coerência. A última a... A última coisa que podiam fazer... era... perder a oportunidade de... encontrar a chave de raposa. Elena começou a se afastar e percebeu que não devia.
Não devia. Não podia. Ela era uma propriedade, uma propriedade cara, é verdade, luxuosamente vestida como estava esta noite, mas de Damon, para que ele fizesse dela o que bem entendesse. Enquanto outra pessoa estivesse olhando, ela não devia mostrar-se desobediente aos desejos de seu senhor.
Ainda assim, Damon levava isso longe demais... Ele já havia tomado muita liberdade com ela, embora, pensou Elena com ironia, ele não soubesse disso. Ele acariciava a pele dela, desprotegida pelo vestido marfim de deusa, os braços de Elena, suas costa até seu cabelo. Ele sabia que ela gostava disso, que podia sentir quando seu cabelo era segurado e as pontas acariciadas suavemente, ou gentilmente esmagadas em seu punho.
Damon! Ela agora apelava ao último recurso: implorar. Damon, se eles nos detiverem, ou se fizerem qualquer coisa que impeça de encontrar a chave esta noite — quando é que teremos outra chance?... Ela deixou que ele sentisse seu desespero, sua culpa, até o desejo traiçoeiro que Elena tinha de esquecer tudo e deixar que cada minuto a levasse mais nessa onda de ardor que ele criara. Damon, eu vou... dizer, se quiser. Eu... estou implorando a você. Elena podia sentir os olhos ardendo enquanto as lágrimas os inundavam.
Nada de lágrimas. Elena ouvira a voz telepática de Damon com gratidão.
Mas havia algo estranho ali. Não podia ser fome, bebera seu sangue havia pouco mais de duas horas. E não era paixão, pelo que ela podia ouvir — e sentir — com clareza de demais. Entretanto, a voz telepática de Damon era tão tensa de controle que era quase assustadora. Mais do que isso, ela sabia que podia sentir que a assustava e que ele preferira não fazer nada a respeito disso. Nenhuma explicação. Nenhuma exploração também, percebeu enquanto descobria que, por trás de todo aquele controle, a mente de Damon se fechava inteiramente a ela.
A única coisa que ela podia comparar com a sensação que recebia do controle de aço de Damon era dor. Dor que estava próxima do insuportável.
Mas por quê?, perguntou-se Elena, impotente. O que lhe provocaria uma dor dessas?
Elena não podia perder tempo perguntando-se o que havia de errado com Damon. Canalizou seu Poder na audição e começou a ouvir as portas abrindo antes de os dois entrarem.
Enquanto ouvia, uma nova ideia subitamente se solidificou na mente de Elena e ela parou Damon no corredor escuro, tentando lhe explicar que tipo de sala procuravam. O que, nos tempos modernos, seria chamado de escritório.
Damon, familiarizado com a arquitetura de grandes mansões, levou-a, depois de alguns falsos começos, ao que era claramente o escritório da dona da casa. Os olhos de Elena agora estavam tão afiados quanto os dele no escuro, e ambos procuravam sob a luz de uma única vela.
Elena ficou frustrada depois de dar uma busca em uma mesa extraordinária com escaninhos para gavetas secretas, sem achar nada, e Damon olhava o corredor.
— Ouvi alguém lá fora — disse ele. — Acho que está na hora de sairmos.
Mas Elena ainda procurava. E — seus olhos disparavam pela sala — ela viu uma pequena escrivaninha com uma cadeira antiquada e um sortimento de canetas, de antigas a modernas, exibindo-se em suportes elaborados.
— Vamos enquanto não há ninguém — cochichou Damon, impaciente.
— Sim — disse Elena, distraída. — Tudo bem...
E então ela viu.
Sem hesitar nem por um segundo, ela andou pela sala até a escrivaninha e pegou uma pena, uma pluma prateada e brilhante. Não era uma pena autêntica, é claro; era uma caneta-tinteiro feita para parecer elegante e antiga — com uma pluma. A caneta em si era curvada para se encaixar na mão e a madeira parecia quente.
— Elena, eu não acho muito...
— Damon, shhhh — disse Elena, ignorando-o, absorta demais no que fazia para realmente escutar. Ela tentou escrever. Nada. Algo bloqueava o cartucho. Depois, desatarraxar a caneta-tinteiro com cuidado, como se fosse recarregar o cartucho, e, o tempo todo, seu coração batia apressado e as mãos tremiam. Continue devagar... Não perca nada... Pelo amor de Deus, não deixe que nada caia nesse escuro. As duas partes da caneta se separaram em sua mão...
...e sobre o tampo almofadado verde-escuro da mesa caiu um pequeno pedaço de metal curvo e pesado. Cabia perfeitamente na parte mais larga da caneta. Elena o tinha na mão e notou que era semelhante à caneta, antes que pudesse dar uma boa olhada nele. Mas então... Elena precisava abrir a mão e ver.
O pequeno objeto em formato de lua crescente ofuscou seus olhos na luz, mas era como a descrição que Bonnie dera a Elena e Meredith. Uma representação minúscula de uma raposa com um corpo animal e cabeça cravejados de jóias, exibindo orelhas achatadas. Os olhos eram de pedras verdes e cintilantes. Esmeraldas?
— Alexandrita — disse Damon, num sussurro. — Segundo o folclore, eles mudam de cor à luz de velas ou da lareira. Eles refetem a chama.
Elena, que estivera recostada nele, lembrou-se, com um leve arrepio, que os olhos de Damon refletiram a chama quando ele esteve possuído: a chama vermelho-sangue do malach, da crueldade de Shinichi.
— Então — perguntou Damon, — como fez isso?
— Esta é mesmo uma das duas partes da chave de raposa?
— Bom, não é algo que pertença a uma caneta-tintero. Um brinde? Mas você foi direto a ela no momento em que entramos na sala. Até os vampiros precisam de tempo para pensar, minha preciosa princesa.
Elena deu de ombros.
— Na verdade foi bem fácil. Quando percebi que todas aquelas chaves de harpa não serviam, perguntei a mim mesma que outro instrumento se achava na casa de alguém. Uma caneta é um instrumento de escrita. Então só tive de descobrir se Lady Fazína tinha um estúdio ou escritório.
Damon soltou a respiração.
— Mas que diabos, espertinha. Sabe o que estive procurando? Alçapões. Entradas secretas para masmorras. O único outro instrumento em que eu pude pensar foi um "instrumento de tortura", e você se surpreenderia ao ver quantos deles acharia nesta bela cidade.
— Mas não na casa dela...! — A voz de Elena se elevou perigosamente e os dois ficaram em silêncio por um segundo para pensar, escutando, em suspenso, se havia algum ruído no corredor.
Não havia nenhum.
Elena soltou a respiração.
— Rápido! Onde ficará em segurança? — Ela descobriu uma falha no vestido de deusa: não havia lugar nenhum onde esconder nada. Teria de falar com Lady Ulma sobre isso da próxima vez.
— No fundo do bolso do meu jeans — disse Damon, parecendo estar tão trémulo e apressado quanto Elena. Quando meteu a chave no fundo do bolso do jeans Armani preto, Damon pegou as mãos de Elena. — Elena! Você percebe? Conseguimos. Finalmente conseguimos!
— Eu sei! — Lágrimas escorriam dos olhos de Elena e toda a música de Lady Fazina parecia crescer em um acorde único e perfeito. — Conseguimos juntos!
E, de algum modo como todos os outros "alguns modos" que estavam se tornando um hábito entre eles, Elena estava nos braços de Damon, passando os próprios braços sob a jaqueta dele para sentir seu calor, sua solidez. Ela tampouco se surpreendeu ao sentir uma dupla pontada no pescoço quando tombou a cabeça para trás: sua linda pantera realmente era pouco domesticada e precisava aprender algumas lições básicas de etiqueta em encontros; por exemplo, beijar antes de morder.
Ele já tinha dito que estava com fome, lembrou-se Elena, e ela o ignorou, enfeitiçada demais com a caneta de prata para assimilar as palavras. Mas agora as assimilou, e compreendeu — a não ser o motivo de ele parecer tão excepcionalmente faminto esta noite.
Talvez até... faminto em excesso.
Damon, pensou ela com gentileza, você está bebendo muito. Ela não sentia resposta, apenas a fome rude da pantera. Damon, isso pode ser perigoso... Para mim. Desta vez Elena pôs o máximo de Poder que pôde nas palavras que enviara.
Ainda nenhuma resposta, e ela agora flutuava, imersa na escuridão. E isso lhe deu uma vaga ideia.
Cadê você? Está aí?, chamou, procurando pelo garotinho. E então ela o viu, acorrentado ao rochedo, enroscado cor uma bola, com os punhos cobrindo os olhos.
O que foi?, perguntou Elena de pronto, flutuando para perto dele, preocupada.
Ele está machucando! Está machucando!
Você está ferido? Mostre-me. ― Disse Elena.
Não. Ele está machucando você! Pode te matar!
Calma. Calma. Ela tentou aninhá-lo.
Temos que obrigá-lo a nos ouvir!
Tudo bem, ― disse Elena. Ela realmente se sentia estranha e fraca. Mas se virou, junto com a criança, e gritou sem voz: ― Damon! Por favor! ― Elena disse para parar! E aconteceu um milagre.
Ela e a criança sentiram. As presas começaram a se afastar. A interrupção do fluxo de energia de Elena para Damon.
E, ironicamente, o milagre começou a afastá-la da criança, com quem ela queria muito falar.
Não! Espere! ― Elena tentou dizer a Damon, agarrando-se às mãos da criança com a maior força que pôde, mas estava sendo catapultada para a consciência, como se levada por um furacão. A escuridão desapareceu. Em seu lugar havia uma sala, iluminada demais, sua única vela ardendo com um holofote apontado para ela. Elena fechou os olhos e sentiu o calor e o peso de um Damon corpóreo em seus braços.
— Desculpe! Elena, consegue falar? Não percebi o quanto... — Havia algo de errado na voz de Damon. Depois ela entendeu. As presas dele não tinham se retraído.
O quê...? Estava tudo errado. Eles estavam tão felizes, mas... Mas agora o braço direito de Elena parecia molhado.
Elena se afastou completamente de Damon, olhando os braços, vermelhos de algo que não era tinta.
Ela ainda estava emocionada demais para fazer as perguntas certas.
Deslizou para trás de Damon e tirou sua jaqueta de couro preta. Na luz brilhante, ela pôde ver sua camisa de seda preta arruinada por várias linhas de sangue seco, parcialmente seco, ou ainda úmido.
— Damon! — A primeira reação de Elena foi de pavor, sem culpa ou compreensão. — O que houve? Você se meteu numa riga? Damon, me diga!
E algo em sua mente se apresentou a ela com um número. Ela aprendera a contar bem cedo. Na realidade, antes de seu primeiro aniversário ela aprendeu a contar até dez. Assim, Elena tinha 17 anos cheios de aprendizado para contar o número de cortes irregulares, fundos, que ainda sangravam nas costas de Damon. Dez.
Elena olhou os próprios braços ensanguentados e o vestido da deusa, que agora era aterrorizante, porque sua brancura pura de leite estava marcada de vermelho vivo.
Um vermelho que devia ser o sangue dela. Um vermelho do que deviam parecer golpes de espada nas costas de Damon enquanto ele canalizava a dor e as marcas da Noite da Disciplina de Elena para ele.
E ele me carregou para casa. A ideia apareceu flutuando, do nada. Sem dizer uma palavra. Eu nunca saberia...
E ainda não tinha se curado. Será que um dia se curaria?
Foi quando ela começou a gritar em todas as frequências possíveis.

2 comentários:

  1. Quer dizer que ele literalmente tomou as dores dela?... Quer dizer, ela não sofreu golpe algum, mas foi Damon que sentiu as chicotadas??

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