26 de novembro de 2015

Capítulo 27

Elena estava confiante e um tanto zonza quando partiram para o baile de gala da Rouxinol de Prata. Mas quando os quatro chegaram à casa palaciana da ilustre Lady Fazina em liteiras — Damon com Elena, Meredith com Bonnie (Lady Ulma foi proibida pelo médico de ir a qualquer festividade enquanto estivesse grávida) — Elena foi tomada por certo terror.
A casa era verdadeiramente um palácio, na melhor tradição dos contos de fadas, pensou ela. Minaretes e torres subiam ao céu, provavelmente pintados de azul, com uma generosa camada dourada, mas aparecendo na cor lavanda ao sol, e quase pareciam mais leves do que o ar. Para complementar a luz do sol, havia tochas acesas dos dois lados do caminho das liteiras, na subida da colina, e parecia que havia alguma substância nelas, ou magia, pois as luzes brilhavam em variadas cores, e assim iam do ouro ao vermelho, ao roxo, ao azul, ao verde, ao prata, e as cores pareciam reais. Isso deixou Elena sem fôlego como as únicas coisas que não eram tingidas de vermelho em todo o mundo à sua vista. Damon trouxera uma garrafa de Black Magic e tinha o espírito quase elevado demais — sem trocadilho, pensou Elena.
Quando as liteiras pararam no alto da colina, Damon e Elena receberam ajuda para descer e andaram por um corredor que interrompia grande parte da luz do sol. Acima deles pendiam, acesas, delicadas lanternas de papel — algumas maiores que a liteira em que estiveram minutos antes — fortemente iluminadas e com formas elegantes, conferindo um ar festivo e jovial a um palácio tão magnífico que chegava a intimidar um pouco.
Eles passaram por fontes iluminadas, algumas guardando surpresas — como a fila de sapos mágicos que constantemente saltavam dos lírios: plop, plop, plop, como o som de chuva no telhado, ou uma imensa serpente dourada que deslizava entre as árvores e por cima da cabeça dos visitantes, descendo sinuosa ao chão e, em seguida, subindo nas árvores novamente.
Era como se o chão se tornasse transparente, com toda sorte de cardumes mágicos de peixes, tubarões, enguias e golfinhos dando cambalhotas, enquanto assomava a figura de uma baleia gigante nas profundezas azuis.
Elena e Bonnie andaram apressadamente por essa parte do caminho.
Estava claro que a dona desta propriedade podia pagar por qualquer diversão que seu coração desejasse e que, amava principalmente a música, porque tocando em cada área havia orquestras vestidas de modo esplêndido — e às vezes bizarro — ou então apenas um solista famoso, cantando em uma gaiola de ouro no alto, a quase 10 metros do chão.
Música... Música e luzes em toda parte...
A própria Elena, embora emocionada com as visões, sons e aromas gloriosos que vinham de imensos canteiros de flores e dos convidados, homens e mulheres, sentiu um leve temor, como um frio na barriga. Quando saiu da casa de Lady Ulma, pensou em seu vestido e nos diamantes tão bem trabalhados. Mas agora que estava no palácio de Lady Fazina... Bem, havia cômodos demais, gente demais, tão elegante e lindamente vestida quanto a própria Elena e suas irmãs, ou "assistentes". Elena tinha medo de que... Bem, de que aquela mulher ali, jorrando pedras preciosas de sua tiara delicada de diamantes e esmeraldas até os finos sapatos debruados de diamantes, fizesse seu próprio cabelo sem enfeites parecer desalinhado ou ridículo.
Sabe quantos anos ela tem? Elena quase deu um pulo ao ouvir a voz de Damon em sua mente.
Quem? respondeu Elena, tentando ao menos esconder a inveja — a preocupação — de sua voz telepática. Estou projetando alto demais? acrescentou, alarmada.
Não tão alto assim, mas é melhor abaixara volume. E você sabe muito bem quem: aquela girafa que estava olhando, respondeu Damon. Para sua informação, ela tem uns duzentos anos a mais que eu e está tentando aparentar 30, isto é, dez anos mais nova que quando se transformou em vampira.
Elena pestanejou. O que está querendo dizer com isso?
Envie algum Poder a seus ouvidos, sugeriu Damon. E pare de se preocupar!
Obedientemente, Elena aumentou um pouco o Poder para o que ela ainda achava ser o ponto certo em seus ouvidos, e as conversas de repente ficaram audíveis.
—... ah, a deusa de branco. Ela é apenas uma criança, mas figura...
—... sim, aquela de cabelo dourado. Magnífica, não é?
—... Oh, por Hades, olhe aquela menina...
—... Vê o príncipe e a princesa ali? Será que concordariam com um ménage... ou... ou um quarteto, querido?
Mais parecia o que Elena estava acostumada a ouvir em festas. Isso lhe deu mais confiança. E também, enquanto seus olhos variam mais ousadamente a multidão vestida de forma opulenta, aflorou-lhe uma onda súbita de amor e respeito por Lady Ulma, que desenhara e supervisionara a feitura de três gloriosos vestidos em apenas uma semana.
Ela é um gênio, Elena informou a Damon solenemente sabendo que através do elo mental ele saberia de quem ela falava. Olha, Meredith já tem uma multidão em volta dela. E... E...
E ela não está agindo como a Meredith, concluiu Damon, demonstrando certa inquietação.
Meredith não parecia nem um pouco preocupada. Tinha o rosto virado deliberadamente para mostrar o perfil clássico a seus admiradores, mas não era o perfil da Meredith Sulez equilibrada e serena. Era uma menina sensual e exótica, que parecia plenamente capaz de cantar a Habanera de Carmen. Tinha o leque aberto e se abanava graciosa e languidamente. A suave mas calorosa luz interior fazia seus ombros e braços nus brilharem como pérolas acima do vestido de veludo preto, que parecia ainda mais misterioso e impressionante do que em casa. Na realidade, parecia ter conquistado um devoto sincero; ele estava ajoelhado diante dela com uma rosa vermelha na mão, tão apressadamente colhida de um dos arranjos que um espinho o furara e o sangue surgia no polegar. Meredith pareceu não perceber. Elena e Damon lamentavam pelo jovem, que era louro e extremamente bonito. Elena sentiu pena... E Damon, fome.
Ela parece ter saído da concha, arriscou-se Damon.
Oh, Meredith jamais sai de concha nenhuma, respondeu Elena. Só está atuando. Mas esta noite acho que é obra dos vestidos. Meredith está vestida como uma sereia, e por isso está com essa atitude tão sensual. O vestido de Bonnie foi feito com penas de pavão e... Veja só.
Ela assentiu para o longo corredor que levava a um salão imenso diante deles. Bonnie, vestida por plumas, tinha sua própria multidão de seguidores — e era só isso que eles faziam: seguiam-na. Cada movimento de Bonnie era leve, como o de passarinho, e suas pulseiras de jade tilintavam nos pequenos braços macios, os brincos tiniam a cada vez que balançava a cabeça e os pés pareciam brilhar nas sandálias douradas diante da cauda de pavão.
— Sabe de uma coisa, é estranho — murmurou Elena, enquanto chegavam ao salão e por fim o som emudeceu para que ela conseguisse ouvir a voz de Damon. — Eu não tinha percebido, mas Lady Ulma desenhou nossos vestidos em diferentes níveis do reino animal.
— Hmmm? — Damon estava olhando o pescoço dela novamente. Mas felizmente naquele momento um homem bonito, com roupas formais da Terra, smoking, faixa e tudo que tinha direito, aproximou-se com Black Magic em grandes taças de prata. Damon secou a dele num só gole e pegou outra do garçom que se curvava com elegância. Depois ele e Elena se sentaram — na fila de trás, do lado de fora, mesmo sabendo que isso era uma grosseria com  a anfitriã. Eles precisavam de espaço de manobra.
— Bom, Meredith é uma sereia, que é da mais alta ordem, e está agindo como uma sereia. Bonnie é um passarinho, que faz parte da ordem seguinte, e está agindo como uma ave: vendo todos os homens se exibirem enquanto ela ri. E eu sou uma borboleta... Então acho que esta noite devo agir como uma borboleta social. Com você ao meu lado, espero.
— Que... lindo — disse Damon coma voz embargada.  O que exatamente a faz pensar que é uma borboleta?
— Ora, os vestidos, seu bobo — disse Elena, e levantou leque de madrepérola, ouro e diamantes, dando-lhe um tapinha na testa com ele.
Depois o abriu, mostrando um desenho primoroso, semelhante ao de seu colar, decorado com pontos mínimos de diamantes, ouro e madrepérola onde havia dobras. — Está vendo? Uma borboleta — disse, satisfeita com a imagem.
Damon acompanhou o contorno com um dedo longo e afilado do que a lembrou tanto de Stefan que sua garganta doeu, e parou nas seis linhas estilizadas acima da cabeça.
— Desde quando borboletas têm cabelo? — O dedo de Damon passou em duas linhas horizontais entre as asas. — Ou braços?
— São pernas — disse-lhe Elena, divertindo-se.
— Que tipo de coisa com braços e pernas e uma cabeça tem seis pelos e asas?
— Um vampiro embriagado — sugeriu uma voz acima deles, fazendo Elena levantar a cabeça, supresa ao ver Sage. — Permitem que me sente com vocês? — perguntou. — Não consegui uma camisa, mas minha avó fada conjurou um colete.
Elena, rindo, puxou uma cadeira para que Sage pudesse se acomodar ao lado de Damon. Ele estava muito mais limpo do que quando ela o vira trabalhando em casa, embora o cabelo ainda estivesse comprido, com seus cachos rebeldes. Ela, porém, notou que sua avó fada o perfumara com cedro e sândalo, e lhe dera jeans Dolce & Gabbana e colete. Ele estava... magnífico. Não havia sinal de seus animais.
— Pensei que você não viesse — disse-lhe Elena.
— E me diz isso? Trajada como está, de branco e ouro celestiais? Você falou no baile; tomei seu desejo como uma ordem.
Elena riu. É claro que todo mundo a tratava de um jeito diferente nesta noite. Era o vestido.
Sage, murmurando algo sobre sua heterossexualidade latente, jurou que a imagem no colar e no leque eram de uma fénix. O demônio educado à direita dela, que tinha a pele malva escura e chifres pequenos, brancos e curvos, sugeriu com deferência que lhe parecia a deusa Ishtar, que aparentemente o mandara à Dimensão das Trevas, um milénio antes, por tentar as pessoas à preguiça. Mentalmente, Elena registrou aquela informação para perguntar a Meredith se isso significava tentá-los a comer bichos-preguiça, que ela sabia ser um animal selvagem que não se mexia muito ou coisa parecida.
E depois Elena pensou que Lady Ulma tinha chamado o traje de "vestido da deusa", não foi? Certamente era um vestido que só podia ser usado se seu corpo fosse muito jovem e muito próximo da perfeição, porque não havia como colocar um espartilho nele ou drapeá-lo para atenuar um corpo que não ajudasse. As únicas coisas por baixo do vestido era o próprio corpo firme de Elena e uma calcinha de renda leve, cor da pele. Ah, e um borrifo de perfume de jasmim.
Então pareço uma deusa, pensou ela, agradecendo ao demônio (que se levantou e fez uma mesura). As pessoas tomavam lugar para a primeira apresentação da Rouxinol de Prata. Elena tinha de admitir que estava ansiosa para ver Lady Fazina e, além disso, era cedo demais para uma ida ao toalete — Elena já percebera que havia guardas postados em todas as portas. Havia duas harpas em uma plataforma no meio de um grande círculo de cadeiras. E de repente todos estavam de pé, aplaudindo. Elena não teria visto nada se Lady Fazina não tivesse decidido andar pelo mesmo corredor que ela e Damon tomaram. Ela parou bem ao lado de Sage para agradecer pela aclamação e Elena teve uma visão perfeita dela.
Era uma linda jovem, mas para surpresa de Elena parecia ter bem mais de 20 anos, e era quase tão baixa quanto Bonnie. Esta criatura diminuta obviamente levava seu apelido muito a sério: trajava um vestido de malha prateado. O cabelo também era prata metalizado, alto na frente e muito curto atrás. A cauda mal estava presa a ela, dois fechos simples a seguravam nos ombros. Flutuava horizontalmente as suas costas, constantemente em movimento, mais como um raio de luar ou uma nuvem do que o verdadeiro tecido até que ela chegou ao palco central e subiu, depois contornou a harpa alta e descoberta, e a essa altura a parte suspensa da capa caiu suave e graciosamente no chão em um semicírculo a sua volta.
E então veio a magia da voz da Rouxinol de Prata. Começou tocando a harpa alta, que parecia ainda mais alta em comparação com seu corpo pequeno. Era como se ela fizesse a harpa cantar sob seus dedos, levava-a a gemer como o vento ou produzir uma música que parecia descer do paraíso em glissandos. Elena chorou durante a primeira música, embora fosse cantada numa língua que desconhecia. Era de uma doçura tão penetrante que a lembrava de Stefan, de seus momentos juntos, comunicando-se somente pelas palavras e toques mais doces...
Mas o instrumento mais impressionante de Lady Fazina era sua voz. Seu corpo mínimo podia gerar um volume extraordinário quando queria. E enquanto ela cantava uma canção pungente em tom menor depois de outra, Elena podia sentir seus pelos arrepiarem, e suas pernas tremerem. Achava que a qualquer momento podia cair de joelhos com as melodias que enchiam seu coração.
Quando alguém lhe tocou nas costas, Elena tomou um violento susto.
Fora arrancada rápido demais do mundo fantástico que a música tecera em torno dela. Mas era apenas Meredith que, apesar de seu amor pela música, tinha uma sugestão muito prática ao grupo.
— Não seria melhor começarmos agora, enquanto todos os outros estão ouvindo? — sussurrou. — Até os guardas estão desligados. Vamos em duplas, está bem?
Elena assentiu.
— Vamos ter que dar uma olhada na casa. Talvez a gente ache alguma coisa enquanto todo mundo ainda está aqui, ouvindo a música, por mais uma hora. Sage, talvez você possa estabelecer uma espécie de ligação telepática entre os dois grupos.
— Será um privilégio, Madame.
Os cinco entraram na mansão da Rouxinol de Prata.

Um comentário:

  1. Será que Lady Fazina usa magia pra tocar e cantar?? Porque pareceu hipnotizante demais até pra mim que nem ouvi! Pensando bem, talvez não, já que Meredith pareceu não sr afetada...

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