20 de novembro de 2015

Capítulo 27

Quando Damon acordou, ele estava lutando com o volante da Ferrari. Estava em uma estrada estreita, indo em direção a um glorioso pôr-do-sol e a porta do passageiro balançava aberta.
Mais uma vez, somente a combinação dos reflexos quase instantâneos e o design perfeito do automóvel permitiram-lhe manter-se fora das largas valas enlameadas de ambos os lados da estrada de mão única. Mas ele manobrou e acabou por ficar com o pôr do sol às suas costas, olhando para as sombras longas na estrada e pensando o que diabos havia acontecido com ele.
Estava dormindo ao volante agora? A porta do passageiro – por que estava aberta?
E então algo aconteceu. Um longo e fino fio, levemente ondulado, quase como um único fio de teia de aranha, iluminado enquanto a luz avermelhada do sol incidia nele. Estava preso no alto da janela do passageiro, que estava fechada, com o capô abaixado.
Ele não se preocupou em levar o carro para o lado, apenas parou no meio da estrada e deu a volta para olhar de perto esse cabelo.
Em seus dedos, segurando na direção da luz, ele ficou branco. Mas virado para a escuridão da floresta, mostrou sua verdadeira cor: dourado.
Um longo e ligeiramente ondulado, fio de cabelo dourado.
Elena.
Logo que o identificou, voltou para o carro e começou a retroceder. Algo tinha arrancado Elena para fora de seu carro sem ao menos deixar um arranhão na pintura. O que poderia ter feito isso?
Como conseguiu fazer Elena dar uma volta por aí? E por que ele não se lembrava? Eles tinham sido atacados...?
Quando voltou, no entanto, as marcas na estrada do lado do passageiro contaram toda a história macabra. Por alguma razão, Elena tinha estado tão assustada a ponto de saltar para fora do carro – ou algum poder a tinha puxado. E Damon, que agora sentia como se houvesse vapor saindo de sua pele, sabia que em toda a floresta só havia duas criaturas que poderiam ter sido responsáveis.
Ele enviou uma onda de busca, um círculo simples que era para ser indetectável, e quase perdeu o controle do carro novo.
Merda! Essa explosão tinha saído como uma esfera em forma de metralhadora assassina – aves estavam caindo do céu. Ela cortou através da velha floresta, através de Fell’s Church, que a cercava, e através das áreas para além dela, antes de finalmente morrer a centenas de quilômetros de distância.
Poder? Ele não era um vampiro, era a Morte Encarnada. Damon teve um pensamento vago de puxar de volta e esperar até que o tumulto dentro de si tivesse parado. De onde esse Poder vem?
Stefan teria parado, teria hesitado ao redor, pensando. Damon apenas sorriu ferozmente, ligou o motor e enviou milhares de sondas chovendo do céu, todos sintonizados para pegar uma criatura em forma de raposa correndo ou se escondendo na antiga floresta.
Ele encontrou em um décimo de segundo.
Ali. Debaixo da erva-de-são-cristóvão, se não estava enganado – embaixo de algum arbusto inominável, de qualquer maneira. E Shinichi sabia que ele estava vindo.
Bom. Damon enviou uma onda de energia diretamente para a raposa, capturando-a em um kekkai, uma espécie de barreira invisível que ele apertou deliberada e lentamente em torno do animal lutando. Shinichi lutou de volta, com uma força assassina. Damon usou o kekkai para levantá-lo e bater violentamente o corpo da “pequena raposa” no chão. Depois de alguns destes baques, Shinichi decidiu parar de lutar e brincar de morto no lugar disso. Assim estava bom para Damon. Esse era o jeito que ele julgava que Shinichi parecia melhor, com exceção da parte da brincadeira.
Por fim teve que esconder a Ferrari entre duas árvores e correu rapidamente para o arbusto onde agora Shinichi lutava contra a barreira em torno dele para voltar para a forma humana.
Esperando de pé, olhos apertados, braços cruzados sobre o peito, Damon assistiu a luta por um tempo. Então deixou espaço suficiente no escudo kekkai para permitir a mudança.
E no instante em que Shinichi tornou-se humano, as mãos de Damon estavam em torno de sua garganta.
 Onde está Elena, kono bakayarou? — Em uma vida toda como vampiro, você aprendia um monte de palavrões. Damon preferiu usar os da língua nativa da vítima. Ele chamou Shinichi de tudo em que podia pensar, porque Shinichi estava lutando, e chamava telepaticamente por sua irmã. Damon tinha uma variedade de coisas a dizer sobre isso em italiano, onde se esconder atrás de sua irmã gêmea mais nova era... bem, bom para um monte de maldições criativas.
Ele sentiu outra forma de raposa correndo para ele – e percebeu que Misao tinha a intenção de matar. Ela estava em sua forma real como uma kitsune: exatamente como a coisa castanho-avermelhada que ele tentou atropelar enquanto dirigia com Damaris. Uma raposa, sim, mas uma raposa com duas, três... seis caudas no total. As extras geralmente eram invisíveis, concluiu, enquanto ele capturava-a metodicamente em um kekkai também. Mas ela estava pronta, pronta para usar todos os seus poderes para salvar seu irmão.
Damon contentou-se em segurá-la enquanto lutava em vão dentro da barreira, e dizia para Shinichi:
 Sua irmãzinha luta melhor do que você, bakayarou. Agora, dê-me Elena.
Shinichi mudou de forma abruptamente e pulou para a garganta de Damon, dentes brancos e afiados em evidência, em cima e abaixo. Estavam ambos preparados, cheios de testosterona – e Damon, com seu novo Poder – para deixá-lo ir.
Damon realmente sentiu o raspar dos dentes na sua garganta antes de colocar as mãos de novo em torno do pescoço da raposa. Mas desta vez Shinichi estava mostrando seu rabo, uma hélice que Damon não se preocupou em contar.
Ao invés disso, ele pisou com a bota na hélice e puxou com as duas mãos. Misao, assistindo, gritou com raiva e angústia. Shinichi, machucado e arqueado, os olhos dourados fixos nos de Damon. Em um minuto sua espinha poderia ser quebrada.
 Vou gostar disso — Damon disse-lhe docemente. — Porque aposto que Misao sabe tudo o que você sabe. Pena que você não estará aqui para vê-la morrer.
Shinichi, possesso pela fúria, parecia disposto a morrer e condenar Misao à misericórdia de Damon apenas para evitar perder a luta. Mas, então, os olhos escureceram abruptamente, seu corpo ficou mole, e as palavras apareciam vagamente na mente de Damon.
... dói... não consigo... pensar...
Damon o considerou gravemente. Stefan, neste momento, poderia achar uma boa ideia liberar a pressão sobre o kitsune, assim a pobre raposa poderia pensar. Damon, por outro lado, aumentou a pressão rapidamente, em seguida, liberou de volta ao nível anterior.
 Está melhor? — perguntou ele, solícito. — Pode a linda raposinha pensar agora?
Você... bastardo...
Zangado como estava, Damon de repente lembrou-se da razão de tudo isso.
 O que aconteceu com Elena? Sua trilha acabou contra uma árvore. Ela está lá dentro? Você tem segundos de vida, agora. Fale.
 Fale — destacou-se outra voz, e Damon mal olhou para Misao. Ele a deixou relativamente livre e ela encontrou poder e espaço para mudar para sua forma humana. Ele a agarrou instantaneamente, sem paixão.
Ela tinha ossos pequenos e delicados, parecendo como qualquer estudante japonesa, exceto por seu cabelo ser exatamente como o do seu irmão – preto com as pontas vermelhas. A única diferença era que o vermelho no seu cabelo estava mais claro e brilhante – um verdadeiro brilhante escarlate. A franja que caía em seus olhos tinha traços de chamas de fogo, e assim era o cabelo escuro sedoso caindo sobre seus ombros. Era surpreendente, mas os únicos neurônios que se iluminaram na mente de Damon em resposta estavam ligados ao fogo, perigo e decepção.
Ela pode ter caído em uma armadilha, Shinichi apontou.
Uma armadilha? Damon franziu as sobrancelhas. Que tipo de armadilha?
Eu vou te levar aonde você possa vê-las, Shinichi disse evasivamente.
 E de repente a raposa pode pensar novamente. Mas você sabe de uma coisa? Não acho que você seja bonito afinal — Damon sussurrou, em seguida derrubou o kitsune no chão.
Shinichi-em-forma-de-homem se levantou, e Damon deixou cair a barreira apenas por tempo suficiente para deixar a raposa em forma humana tentar arrancar-lhe a cabeça com um soco. Ele esquivou-se para longe com facilidade, e devolveu com um golpe que empurrou Shinichi contra a árvore com força suficiente para quicar. Então, enquanto o kitsune ainda estava atordoado e com os olhos vidrados, ele o pegou, o pendurou sobre um ombro, e começou a voltar para o carro.
E quanto a mim? Misao estava tentando travar sons furiosos e patéticos, mas ela realmente não era muito boa nisso.
 Você não é bonita, tampouco — Damon respondeu de forma imprudente. Ele poderia começar a gostar dessa coisa de super-Poder. — Mas se quis perguntar quando vai sair, será quando eu tiver Elena de volta. Viva e saudável, com todos os seus pedaços anexados.
Ele a deixou xingando. Queria levar Shinichi para onde tivessem que ir enquanto a raposa ainda estivesse atordoada e com dores.


Elena estava contando. Ir em frente um, ir em frente dois – desembaraçar muleta da trepadeira, três, quatro, ir em frente cinco – estava definitivamente ficando mais escuro agora – ir em frente seis, presa por algo no cabelo, arrancar, sete, oito, ir em frente – droga! Uma árvore caída. Muito alta para passar por cima.
Ela teve que dar a volta. Tudo bem, à direita, um, dois, três – uma longa árvore – sete passos. Sete passos de volta – agora, curva acentuada à direita e continue andando. Por mais que você gostaria, não pode contar qualquer um desses passos. Então você está em nove. Endireitar-se porque a árvore era perpendicular – oh céus, está escuro como breu agora. Contar onze e... ela estava voando. O que fez a sua muleta para escapar, ela não sabia, não podia dizer. Estava escuro demais para ficar revistando ao redor, talvez se encontrando sobre uma planta venenosa. O que tinha que fazer era pensar sobre coisas, pensar se de algum modo esta dor infernal que permeava toda a perna esquerda podia se aquietar. Isso não tinha ajudado seu braço direito tamouco – esse instintivo moinho de vento, tentando pegar alguma coisa e salvar-se. Deus, essa queda tinha machucado. Todo o lado do seu corpo doía tanto...
Mas ela tinha que ir até a civilização por que achava que só a civilização poderia ajudar Matt.
Você tem que começar de novo, Elena.
Eu estou fazendo isso!
Agora – ela não conseguia ver nada, mas tinha uma boa ideia de para onde havia sido apontada quando tinha caído. E se estivesse errada, ela poderia pegar a estrada e seria capaz de voltar atrás.
Doze, treze – ela continuou contando, continuou falando consigo mesma.
Quando chegou a vinte, sentiu alívio e alegria. A qualquer momento, ela atingiria a calçada.
A qualquer momento, cairia sobre ela.
Estava escuro como breu, mas ela teve o cuidado de raspar o chão para que ela soubesse o instante em que batesse.
A qualquer... minuto... agora...
Quando Elena chegou a quarenta, ela sabia que estava em apuros.
Mas onde poderia ter errado tanto? Toda vez que algum pequeno obstáculo a tinha feito virar à direita, ela virava à esquerda com cuidado em seguida. E lá estava toda a linha de marcos em seu caminho, a casa, o celeiro, o pequeno milharal. Como ela poderia ter se perdido? Como? Tinha estado apenas meio minuto na floresta... apenas alguns passos na floresta.
Mesmo as árvores estavam mudando. Onde ela tinha estado, perto da estrada, a maioria das árvores eram nogueiras ou tulipas. Agora ela estava em um bosque de carvalhos brancos e carvalhos vermelhos... e coníferas.
Velhos carvalhos... e no chão, agulhas e folhas que abafaram seus pulos sem ruídos.
Sem ruídos... mas ela precisava de ajuda!
 Sra. Dunstan! Sr. Dunstan! Kristin! Jake! — ela lançou os nomes para um mundo que estava fazendo o seu melhor para abafar a sua voz. Na verdade, na escuridão ela podia vislumbrar uma nuvem acinzentada que parecia ser – sim – era neblina.
 Sra. Dunstaa-a-aan! Sr. Dunstaa-an! Kriiiissstiiiinnn! Jaaa-aaake!
Ela precisava de abrigo; precisava de ajuda. Tudo doía, a maior parte de sua perna esquerda e ombro direito. Ela podia até imaginar que tipo de visão ela parecia: coberta de lama e folhas das quedas em todos os poucos passos, os cabelos em uma juba selvagem por ser apanhado pelas árvores, sangue por toda parte...
Uma coisa boa: ela certamente não se parecia com Elena Gilbert. Elena Gilbert tinha cabelos longos e sedosos que estavam sempre perfeitamente limpos ou charmosamente penteados. Elena Gilbert ditava a moda em Fell’s Church e nunca seria vista vestindo uma camisola rasgada e jeans coberto com lama. Quem quer que eles pensem que essa estranha desamparada fosse, não pensariam que ela era Elena.
Mas a estranha abandonada estava sentindo um enjoo repentino. Ela caminhou em meio à mata toda a sua vida e nunca teve o cabelo apanhado uma só vez. Ah, claro que ela tinha sido capaz de vê-los, mas não se lembrava de ter que sair de seu caminho para evitá-los.
Agora, era como se as árvores estivessem deliberadamente descendo para capturar e prender seus cabelos. Ela teve que segurar o seu corpo ainda desajeitado e tentar mover rapidamente a cabeça para longe no pior dos casos – não conseguia ficar em pé e arrancar os cipós também.
Por mais doloroso que o rasgo em seu cabelo fosse, nada a assustava mais do que agarrar as suas pernas.
Elena tinha crescido brincando nessa floresta, e sempre houve espaço suficiente para caminhar sem machucar a si mesma. Mas agora... as coisas estavam se fechando, cipós fibrosos estavam agarrando seu tornozelo bem onde estava a maioria dos ferimentos. E agora era agonizante tentar rasgar com os dedos essas raízes espinhentas grossas e revestidas de seiva.
Estou assustada, pensou, colocando em palavras enfim todos os sentimentos que ela havia tido desde que entrou na escuridão da antiga floresta.
Ela estava molhada de orvalho e suor, o cabelo tão úmido como se tivesse parada na chuva. Estava tão escuro! E agora sua imaginação começou a trabalhar, e ao contrário da imaginação da maioria das pessoas, ela tinha sólidas e genuínas informações para trabalhar. A mão de um vampiro parecia emaranhada em seus cabelos. Depois de um tempo interminável de agonia em seu tornozelo e em seu ombro, ela torceu a mão para fora de seu cabelo para encontrar outro galho enroscado.
Tudo bem. Ela podia ignorar a dor e se orientar aqui, aqui onde havia uma árvore notável, um enorme pinheiro branco que tinha um enorme buraco em seu centro, grande o suficiente para Bonnie entrar. Ela teria que das as costas a esse lugar e depois andar em linha reta para oeste – ela não podia ver as estrelas por causa da cobertura de nuvens, mas sentiu que o oeste estava a sua esquerda. Se estivesse correta, isso iria trazê-la de volta para a estrada. Se estivesse errada e aquele fosse o norte, isso poderia levá-la para os Dunstans. Se fosse o sul, isso acabaria por levá-la para outra curva na estrada. Se fosse leste... bem, seria uma longa caminhada, mas acabaria por levá-la para o riacho.
Mas primeiro ela reuniria todo o seu Poder, todo o Poder que tinha inconscientemente usando para aliviar a dor e dar-lhe força – ela iria reuni-lo e iluminar este lugar para que pudesse ver se a estrada estava visível – ou melhor, uma casa – de onde ela estava. Era apenas poder humano, mas novamente, o conhecimento de como usá-lo fez toda a diferença, pensou. Ela reuniu o Poder em uma pequena bola branca e depois soltou, virando-se para olhar ao redor antes de se dissipar.
Árvores. Árvores. Árvores.
Carvalhos e nogueiras, pinheiros brancos e faia. Nenhum terreno alto para ir. Em todas as direções, nada além de árvores, como se ela estivesse perdida em alguma sombria floresta encantada e poderia nunca mais sair.
Mas ela sairia. Qualquer uma destas direções a levaria eventualmente às pessoas – até mesmo o leste. Mesmo o leste, poderia simplesmente seguir o curso até que ele a levasse às pessoas.
Ela desejou ter uma bússola. Desejou que pudesse ver as estrelas. Tremia, e não era apenas por causa do frio. Ela estava ferida; estava apavorada. Mas tinha que esquecer isso. Meredith não iria chorar. Meredith não estaria apavorada. Meredith encontraria uma forma sensata de sair.
Ela tinha que pedir ajuda para Matt.
Rangendo os dentes para ignorar a dor, Elena começou a andar. Se qualquer uma das suas feridas lhe tivesse acontecido de forma isolada, ela teria feito um grande alvoroço a respeito, chorando e se contorcendo sobre o machucado. Mas com tantas dores diferentes, tudo tinha derretido em uma agonia terrível.
Tenha cuidado agora. Verifique se você está indo em linha reta e não saia do caminho. Escolha o seu próximo alvo na sua linha reta de visão.
O problema era que agora estava escuro demais para ver alguma coisa. Ela podia decifrar apenas a profunda casca sulcada em sua frente. Um carvalho vermelho, provavelmente. Tudo bem, vá até ele. Pulo – oh, isso dói – pulo – as lágrimas lavando seu rosto – pulo – um pouco mais longe – pulo – você pode fazer isso – pulo. Ela colocou a mão na casca áspera. Tudo bem. Agora, olhe bem na sua frente. Ah. Algo cinzento e áspero e maciço à frente - talvez um carvalho branco.
Pulo naquela direção – agonia – pulo – alguém me ajude – pulo – quanto tempo vai demorar? – pulo – não tão longe agora – pulo. Aqui.
Ela colocou a mão na ampla casca áspera.
E então ela fez de novo. E mais uma vez. E mais uma vez. E mais uma vez. E mais uma vez.


 O que é isso? — Damon exigiu. Ele tinha sido forçado a deixar Shinichi conduzi-lo uma vez que estavam fora do carro novamente, mas ainda manteve o kekkai frouxamente em torno dele e ainda observava cada movimento que a raposa fazia. Ele não confiava nele desde... bem, o fato é que não confiava nele.
 O que está por trás da barreira? — perguntou de novo, mais rudemente, apertando a corda em volta do pescoço do kitsune.
 Nossa pequena cabana – minha e de Misao.
 E possivelmente não seria uma armadilha, não é?
 Se você pensa assim, ótimo! Eu vou sozinho... — Shinichi tinha finalmente se transformado em uma forma meio-raposa, meio-humana: cabelos pretos até a cintura, com chamas de cor rubi lambendo a partir das pontas, uma cauda sedosa com a mesma coloração balançando atrás dele, e duas suaves orelhas carmesim que se contraíam no topo da cabeça.
Damon aprovou esteticamente, mas o mais importante, ele agora tinha um ponto melhor onde segurar. Pegou Shinichi pelo rabo e torceu.
 Pare com isso!
 Vou parar quando eu pegar Elena – a menos que o seu caminho até ela seja intencional. Se ela estiver ferida, vou pegar quem quer que a machucou e cortá-lo em pedaços. Sua vida estará perdida.
 Não importa quem ele seja?
 Não importa quem.
Shinichi tremia um pouco.
 Você está com frio?
— ... apenas... admirando a sua determinação.
Mais tremores não intencionais. Quase sacudindo todo o seu corpo. Ele está rindo?
 A critério de Elena, gostaria de mantê-los vivos. Mas, em agonia — Damon torceu o rabo mais forte. — Mexa-se!
Shinichi deu mais um passo e uma cabana de campo apareceu à vista, com um caminho de cascalho que conduzia entre trepadeiras selvagens que cresciam pela varanda e pendiam como pingentes.
Era primoroso.


Mesmo com a dor aumentando, Elena começou a ter esperança. Não importava para que lado estava indo, teria que sair da floresta em algum momento. Tinha que fazer isso. O chão era sólido – nenhum sinal de terra macia ou inclinação para baixo. Não estava indo para o riacho. Estava indo para a estrada. Ela podia dizer isso.
Ela fixou sua visão em uma distante árvore de casca lisa. Então pulou até ela, a dor quase esquecida em sua nova sensação de segurança.
Caiu contra a maciça árvore de casca cinza. Ela estava descansando encostada contra a árvore enquanto algo a incomodava. Sua perna balançando. Por que ela não bateu dolorosamente contra o tronco? Ele tinha batido constantemente contra todas as outras árvores quando se virava para descansar. Ela se afastou da árvore, e, como se soubesse que era importante, reuniu todo seu Poder e o deixou sair em uma explosão de luz branca.
A árvore com o enorme buraco, a árvore de onde ela tinha começado, estava na frente dela. Por um momento Elena ficou completamente imóvel, desperdiçando Poder, mantendo a luz. Talvez fosse alguma diferente... Não. Ela estava do outro lado da árvore, mas era a mesma. Aquele era seu cabelo preso à casca cinza. O sangue seco com a marca de sua mão. Abaixo era onde a perna sangrenta deixou uma marca – fresca.
Ela andou em linha reta e voltou direto para esta árvore.
 Nãoooooooooooooo!
Esse foi o primeiro som vocalizado que tinha feito desde que tinha caído para fora da Ferrari. Ela suportou toda a dor em silêncio, com pequenos sussurros ou respirações afiadas, mas não tinha amaldiçoado e gritado. Agora, ela queria fazer as duas coisas.
Talvez não fosse a mesma árvore... Nãooooooo, nãooooooo, nãoooooooooooo!
Talvez o seu Poder pudesse voltar e ela veria que era apenas uma alucinação...
Não, não, não, não, não, não!
Isso apenas não era possível...
Nãooooooo!
Sua muleta deslizou de debaixo do braço. Ela estava cravada em sua axila tão profundamente que a dor ali rivalizava com as outras. Tudo doía. Mas o pior era a sua mente. Ela tinha uma imagem em sua mente de uma esfera, como os globos de vidro de Natal que você balança para fazer neve ou glitter cair pelo líquido. Mas essa esfera tinha árvores em todo o interior. De cima a baixo, lado a lado, todas as árvores, todas apontando para o meio. E ela, vagando dentro dessa esfera solitária... não importa onde fosse, encontraria mais árvores, porque isso era tudo o que havia no mundo em que caiu.
Era um pesadelo, mas algo parecia como se fosse real.
As árvores eram inteligentes, também, percebeu. As pequenas vinhas rasteiras, a vegetação; agora mesmo estavam puxando sua muleta para longe dela.
A muleta estava se movendo como se estivesse sendo passada de mão em mão por pessoas muito pequenas. Ela estendeu a mão e pegou apenas o final dela.
Não se lembrava de ter caído ao chão, mas lá estava. E havia um cheiro, um doce e terroso aroma resinoso. E aqui estavam as trepadeiras, testando-a, provando-a. Com pequenos toques delicados, se enrolaram em seus cabelos para que ela não pudesse levantar a cabeça. Então ela podia senti-los provando o sabor do seu corpo, seu ombro, seu joelho sangrento. Nada disso importava.
Ela apertou os olhos fechados, seu corpo arfante com soluços. As trepadeiras estavam puxando a perna ferida agora, e instintivamente ela puxou de volta. Por um momento a dor a acordou e ela pensou, tenho que conseguir por Matt, mas no momento seguinte aquele pensamento foi entorpecido, também. O cheiro doce e resinoso permaneceu. As trepadeiras fizeram seu caminho através de seu peito agitado. Elas cercaram seu estômago.
E então começaram a apertar.
Nesse momento Elena percebeu o perigo, elas estavam limitando a sua respiração. Ela não podia expandir seu peito. Quando soltou o ar, elas apenas apertaram mais uma vez, trabalhando juntas: todas as pequenas trepadeiras como uma anaconda gigante.
Ela não conseguia rasgá-las. Eram resistentes e elásticas e suas unhas não podiam cortá-las. Trabalhando seus dedos sob um punhado, ela puxou tão forte quanto podia, raspando com as unhas e torcendo. Finalmente uma fibra pareceu se soltar com o som de uma corda de harpa se quebrando e uma selvagem chicotada no ar.
O restante das trepadeiras apertou mais.
Ela estava tendo que lutar para conseguir ar agora, lutando para não contrair o peito. Trepadeiras tocavam delicadamente seus lábios, balançando sobre o seu rosto como muitas cobras finas, de repente batendo e esticando em torno de seu rosto e cabeça.
Eu vou morrer.
Ela sentiu um profundo pesar. Tinha recebido a chance de uma segunda vida – uma terceira, se você contar a sua vida como uma vampira – e não fizera nada com ela. Nada além de perseguir seu próprio prazer. E agora Fell’s Church estava em perigo e Matt estava em perigo imediato, e não só não iria ajudá-lo, como desistiria e morreria aqui.
Qual seria a coisa certa a fazer? A coisa espiritual? Cooperar com o mal agora, e esperar que ela tivesse a chance de destruí-lo mais tarde? Talvez. Talvez tudo o que ela precisasse fazer fosse pedir ajuda.
A sensação de falta de ar estava deixando-a tonta. Ela nunca teria esperado isso de Damon, que ele pudesse colocá-la no meio de tudo isso, que permitisse que ela fosse morta. Poucos dias atrás ela estava defendendo-o para Stefan.
Damon e o malach. Talvez ela fosse a sua oferta para eles. Eles certamente exigiam muito.
Ou talvez fosse apenas o que ele queria, que ela implorasse por ajuda. Ele poderia estar esperando na escuridão bem próximo, a sua mente centrada na dela, esperando por um “por favor” sussurrado.
Ela tentou acender o restante de seu Poder. Estava quase esgotado, mas como um fósforo, com repetidas tentativas ela conseguiu uma pequena chama branca.
Agora, visualizou a chama entrando em sua testa. Em sua cabeça. Dentro. Lá.
Agora.
Através da agonia ardente de não ser capaz de puxar o ar, ela pensou: Bonnie. Bonnie. Ouça-me.
Sem resposta – mas ela podia não ouvir de primeira.
Bonnie, Matt está em uma clareira em uma estrada secundária da antiga floresta. Ele pode precisar de sangue ou algum outro tipo de ajuda. Procure-o. No meu carro. Não se preocupe comigo. É tarde demais para mim. Encontre Matt.
E isso é tudo o que posso dizer, pensou Elena ,cansada. Ela tinha uma vaga e triste intuição de que não tinha alcançado Bonnie. Seus pulmões estavam explodindo. Esta era uma terrível forma de morrer. Seria capaz de exalar mais uma vez, e então não haveria mais ar...
Maldito seja, Damon, pensou, e então concentrou todos os seus pensamentos, todo o alcance da sua mente em lembranças de Stefan. Na sensação de estar na posse de Stefan, no sorriso de súbito de Stefan, no toque de Stefan.
Olhos verdes, folhas verdes, a cor como a de uma folha segura ao sol...

A decência que de alguma forma ele conseguiu manter, imaculada... Stefan... eu te amo... Eu sempre vou te amar... Eu amei você... Eu amo...

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