20 de novembro de 2015

Capítulo 26

Linhas de Poder. Stefan havia falado delas, e com a influência do mundo espírito ainda nela, ela as tinha visto sem tentar. Agora, ainda deitada de lado, canalizando o que restava do Poder para seus olhos, ela olhou para a terra.
E foi isso que fez a sua mente escurecer de terror.
Até onde ela podia ver, aqui havia linhas que convergiam de todas as direções. Linhas grossas que brilhavam com uma fosforescência fria, linhas médias que tinham o brilho opaco de cogumelos estragados no porão, e linhas minúsculas que pareciam perfeitamente com rachaduras retas da camada superficial exterior do mundo. Elas eram como veias e artérias e nervos logo abaixo da pele da besta da clareira.
Não era de se admirar que parecesse vivo. Ela estava deitada em uma enorme convergência de Linhas de Poder. E se o cemitério fosse pior que isso – ela não conseguia imaginar com o que poderia parecer.
Se Damon tivesse de alguma forma encontrado um jeito de explorar aquele Poder... não era de se surpreender que ele tenha parecido diferente, arrogante, invencível. Desde que a libertara para beber o sangue de Matt, ela ficara balançando a cabeça, tentando se livrar da humilhação. Mas, agora, finalmente, ela havia parado, tentando calcular uma maneira de fazer uso deste Poder. Tinha que haver um jeito de fazê-lo.
A escuridão não saía da visão dela. Finalmente, Elena notou que não era porque ela estava fraca, mas porque estava ficando escuro – o crepúsculo lá fora na clareira, a verdadeira escuridão chegando.
Ela tentou novamente se erguer, e desta vez conseguiu. Quase imediatamente, uma mão foi estendida para ela, e ela a pegou automaticamente, se deixando ser puxada até ficar de pé.
Encarou – quem que quer fosse, Damon ou o que quer que estivesse usando suas feições ou seu corpo. Apesar da quase escuridão, ele ainda usava aqueles óculos de sol envolventes. Ela não conseguia distinguir nada do resto do rosto dele.
 Agora  a coisa de óculos escuros disse. ― Você vai vir comigo.
Estava se aproximando da completa escuridão, e eles estavam na clareira onde estava a besta. Este lugar... era insalubre. Ela estava com medo da clareira como nunca tivera medo de uma pessoa ou criatura. Ela ressoava com malevolência, e não conseguia fechar seus ouvidos para isso.
Ela tinha que continuar pensando, e pensando direto.
Ela estava terrivelmente assustada por Matt; assustada que Damon tivesse tirado muito sangue ou tivesse brincado muito severamente com seu brinquedo; quebrado-o.
E estava com medo desta coisa-Damon. Também estava preocupada a respeito da influencia que este lugar podia ter tido no Damon real. O bosque ao redor deles não devia ter efeito nenhum em vampiros, exceto machucá-los. O possível-Damon dentro do possuidor estava magoado? Se ele pudesse entender qualquer coisa que estivesse acontecendo, poderia distinguir esta mágoa de sua mágoa e raiva de Stefan?
Ela não sabia. Sabia que houvera um terrível olhar em seus olhos quando Stefan lhe ordenara a sair da pensão. E sabia que havia criaturas na floresta, malach, que podiam influenciar a mente de uma pessoa. Ela tinha medo, medo profundo, que os malach estivessem usando Damon agora, escurecendo seus desejos mais sombrios e transformando-o em algo terrível, algo que ele nunca tinha sido mesmo em seu pior.
Mas como ela podia ter certeza? Como podia saber se havia ou não algo mais por trás do malach, alguma coisa que os controlava? A alma dela estava lhe dizendo que este podia ser o caso, que Damon podia estar completamente inconsciente do que seu corpo estava fazendo, mas isso podia ser apenas uma ilusão.
Certamente, tudo o que ela conseguia sentir ao seu redor eram pequenas criaturas do mal. Podia senti-las cercando a clareira, estranhos seres parecidos com insetos, como o que atacara Matt. Eles estavam num furor de excitação, chicoteando seus tentáculos ao redor para fazer um barulho quase como um helicóptero em movimento.
Eles estavam influenciando Damon agora? Certamente, ele nunca antes tinha machucado algum dos outros seres humanos do jeito que fizera hoje. Ela tinha que tirar os três deste lugar. Estava doente, contaminado. Mais uma vez sentiu uma onda de saudades de Stefan, que poderia saber o que fazer nesta situação.
Ela virou-se vagarosamente para olhar para Damon.
 Posso chamar alguém pra vir ajudar o Matt? Tenho medo de deixá-lo aqui; tenho medo de que eles o peguem.
Dava na mesma deixá-lo saber que ela sabia das coisas que se escondiam nas hepáticas, rododentros e azevinhos da floresta ao redor.
Damon hesitou; pareceu considerar isto. Então, sacudiu a cabeça.
 Não iríamos querer dar-lhes muitas pistas sobre onde vocês estão — ele disse alegremente. ― Será um experimento interessante observar se os malach os pegam – e como irão fazê-lo.
 Não seria uma experiência interessante para mim  a voz de Elena estava plana. ― Matt é meu amigo.
 Todavia, nós o deixaremos aqui por ora. Não confio em você – mesmo para me dar uma mensagem da Meredith ou Bonnie – para mandar do meu celular.
Elena não disse nada. Na realidade, ele estava certo em não confiar nela, já que ela e Meredith e Bonnie tinham planejado um código elaborado de frases que soavam inofensivas, logo que elas souberam que Damon estava atrás de Elena.
Fazia uma vida inteira para ela – literalmente – mas ainda podia se lembrar delas.
Silenciosamente, simplesmente seguiu Damon para a Ferrari. Ela era responsável por Matt.
 Você não está discutindo muito desta vez, e me pergunto o que está tramando.
 Estou tramando com o podemos acabar logo com isso. Se você me disser o que “isso” é — disse, mais corajosamente do que sentia.
 Bem, agora o que isso é, é com você.  Damon deu em Matt um chute nacostelas ao passar.
Ele agora marchava em círculo ao redor da clareira, que parecia menor do que nunca, um círculo que não a incluía. Ele deu alguns passos em direção a ele – e escorregou. Ela não sabia como tinha acontecido. Talvez o animal gigante tenha respirado. Talvez fossem apenas as folhas de pinheiro escorregadias debaixo de suas botas.
Mas num instante ela estava indo em direção ao Matt e no próximo seus pés tinham sumido de debaixo dele e ela estava indo em direção ao chão sem nada ao que se agarrar.
E então, suavemente e sem pressa, estava nos braços de Damon. Com séculos de educação Virginiana por trás, ela automaticamente disse:
 Obrigada.
 O prazer foi meu.
Sim, ela pensou. É tudo o que isso quer dizer. O prazer foi dele, e é tudo que importa.
Foi quando notou que estavam se dirigindo para o seu Jaguar.
 Ah, não, não vamos  ela falou.
 Ah, sim, nós vamos – se eu assim quiser  ele disse. ― A não ser que queira ver seu amigo Matt sofrer desse jeito novamente. Em algum momento seu coração irá ceder.
 Damon  ela se empurrou para longe de seus braços, ficando de pé sozinha. ― Não entendo. Isso não é do seu feitio. Pegar o que quiser e ir embora.
Ele simplesmente ficou olhando para ela.
 Eu estava fazendo exatamente isso.
 Você não precisa  nem por sua própria vida ela conseguia afastar o tremor de sua voz — levar-me para qualquer lugar especial para tirar meu sangue. E Matt não saberá. Ele está desacordado.
Por um longo instante houve silêncio na clareira. Silêncio profundo. Os pássaros noturnos e os grilos pararam de fazer sua música. De repente Elena sentiu como se estivesse em algum tipo de montanha-russa que caía, deixando seu estômago e órgãos ainda no alto. Então Damon expressou isso em palavras.
 Eu te quero. Exclusivamente.
Elena se preparou, tentando ficar com a mente limpa apesar da névoa que parecia estar invadindo-a.
 Você sabe que isso não é possível.
 Sei que foi possível para o Stefan. Quando estava com ele, você não pensava em outra coisa a não ser ele. Não conseguia ver, não conseguia ouvir, não conseguia sentir qualquer outra coisa a não ser ele.
Os arrepios de Elena agora cobriam seu corpo todo. Falando cuidadosamente pela obstrução em sua garganta, ela disse:
 Damon, você fez algo ao Stefan?
 Ora, por que eu quereria fazer algo assim?
Muito lentamente, Elena disse:
 Ambos sabemos o porquê.
 Você quer dizer  Damon começou falando casualmente, mas sua voz ficou mais intensa enquanto ele agarrava seus ombros ― para que você não visse nada a não ser eu, ouvisse nada a não ser eu, pensasse em nada a não ser eu?
Ainda baixo, ainda controlando seu horror, Elena continuou:
 Tire os óculos de sol, Damon.
Damon olhou para cima e ao redor como se para se reassegurar que nenhum raio do pôr-do-sol poderia penetrar o mundo verde acinzentado que os cercava. Então com uma mão, despiu-se dos óculos de sol.
Elena encontrou-se olhando em olhos que eram tão negros que parecia não haver diferença entre a íris e a pupila. Isso acendeu uma lâmpada em seu cérebro, fez algo para que todos os seus sentidos voltassem para o rosto de Damon, para sua expressão, para o Poder circulando por ele.
Seus olhos ainda estavam tão negros quanto as profundezas de uma caverna inexplorada. Nada de vermelho. Mas também, ele tivera tempo, este tempo para se preparar para ela.
Acredito no que vi antes, Elena pensou. Com meus próprios olhos.
 Damon, farei qualquer coisa, qualquer coisa que você quiser. Mas tem que me contar. Você fez algo ao Stefan?
 Stefan ainda estava embriagado com o seu sangue quando te deixou  ele a lembrou, antes que ela pudesse falar para negar isso ― e, para responder sua pergunta com precisão, não sei onde ele está. Nisso, você tem a minha palavra. Mas de qualquer maneira, é verdade, o que estava pensando mais cedo  ele acrescentou, enquanto Elena tentava se afastar, para sair do aperto que ele tinha em seus braços. ― Eu sou o único, Elena. O único que você não conquistou. O único que não pode manipular. Intrigante, não é?
De repente, apesar de seu medo, ela estava furiosa.
 Então por que machucar o Matt? Ele é apenas um amigo. O que ele tem a ver com isso?
 Apenas um amigo  e Damon começou a rir do jeito que tinha antes, assustadoramente.
 Bem, sei que ele não teve nada a ver com a partida do Stefan  Elena retrucou.
Damon virou-se para ela, mas nessa hora a clareira estava tão turva que ela não conseguia ler de jeito algum sua expressão.
 E quem disse que eu tive? Mas isso não quer dizer que não vou me aproveitar dessa oportunidade.
Ele pegou Matt facilmente e levantou algo que brilhava prateado em sua outra mão. As chaves dela. Do bolso de sua calça jeans. Pegas, sem dúvida, quando ela estivera deitada inconsciente no chão.
Ela não podia afirmar nada de sua voz, tampouco, exceto que estava amarga e sarcástica – como de costume quando ele falava de Stefan.
 Com seu sangue nele, não poderia ter matado meu irmão mesmo que tentasse, da última vez que o vi  ele acrescentou.
 Você tentou?
 Para falar a verdade, não. Você tem a minha palavra nisso também.
 E não sabe onde ele está?
 Não  ele levantou Matt.
 O que acha que está fazendo?
 Levando-o conosco. Ele é refém pelo seu bom comportamento.
 Ah, não  Elena disse categoricamente, marchando. ― Isso é entre você e eu. Você machucou Matt o bastante  ela pestanejou e novamente quase gritou ao encontrar Damon perto demais, rapidamente demais. ― Farei o que você quiser. Tudo o que quiser. Mas não aqui em público e não com o Matt por perto.
Vamos, Elena, ela pensava. Onde está o comportamento sedutor quando precisa dele? Você costumava ser capaz de seduzir qualquer cara; agora, só porque ele é um vampiro, não pode?
 Leve-me para algum lugar  ela falou suavemente, entrelaçando seu braço com o braço livre dele ― mas na Ferrari. Não quero ir no meu carro. Me leve na Ferrari.
Damon marchou de volta para o porta-malas da Ferrari, destrancou-o e olhou para dentro. Então olhou para Matt. Estava claro que o garoto alto e robusto não caberia no porta-malas... pelo menos, não com seus membros todos grudados.
 Nem mesmo pense nisso  Elena falou. ― Apenas coloque-o no Jaguar com as chaves e ele ficará seguro o bastante – tranque-o.
Elena rezou fervorosamente para que o que dizia fosse verdade.
Por um momento Damon não disse nada, então olhou para cima com um sorriso tão brilhante que ela podia vê-lo na escuridão.
 Tudo bem ― ele concordou. Jogou Matt no chão novamente. ― Mas se você tentar fugir enquanto desloco os carros, vou atropelá-lo.
Damon, Damon, você nunca vai entender? Humanos não fazem isso com seus amigos, Elena pensou enquanto ele retirava a Ferrari para que pudesse mover o Jaguar e jogar Matt nele.
 Tudo bem  ela disse baixinho. Tinha medo de olhar para Damon. ― Agora... o que você quer?
Damon inclinou-se numa saudação muito graciosa, indicando a Ferrari. Ela se perguntou o que aconteceria uma vez que entrasse. Se ele fosse algum agressor normal – se não houvesse Matt em quem pensar – se ela não temesse a floresta ainda mais do que temia a ele...
Ela hesitou e então entrou no carro de Damon.
Dentro, puxou sua camisola para fora da calça jeans para esconder o fato de não estar usando cinto de segurança. Ela duvidava que Damon usasse cinto de segurança ou trancasse suas portas ou qualquer coisa do tipo. Precauções não eram o seu negócio. E agora ela rezava que ele tivesse outras preocupações na cabeça.
 Sério, Damon, aonde estamos indo? ― perguntou enquanto ele entrava na Ferrari.
 Primeiro, que tal uma saideira?  Damon sugeriu, sua voz falsamente jocosa.
Elena esperava algo assim. Ela sentou passivamente enquanto Damon tomava seu queixo em seus dedos que tremiam ligeiramente, e o inclinou para cima. Ela fechou seus olhos enquanto sentiu a dupla picada de cobra de presas afiadas como uma navalha rasgando sua pele. Manteve seus olhos fechados enquanto seu agressor fixava sua boca na carne sangrando e começava a beber profundamente. A ideia de Damon de saideira” era exatamente o que ela esperava: o bastante para deixar ambos em perigo. Mas não foi até ela realmente começar a sentir que desmaiaria a qualquer minuto que empurrou o ombro dele.
Ele se manteve por mais alguns segundos muito dolorosos simplesmente para mostrar quem mandava aqui. Então a soltou, lambendo seus lábios entusiasticamente, seus olhos realmente brilhando para ela através de seu Ray-Ban.
 Refinada  ele disse. ― Inacreditável. Por que você é...
É, me diga que sou uma garrafa de uísque, ela pensou. Esse é o caminho para me conquistar.
 Podemos ir agora?  ela perguntou incisivamente. E então, enquanto de repente se lembrava das habilidades de motorista do Damon, ela acrescentou deliberadamente: ― Tenha cuidado; essa estrada tem muitas retorcidas e curvas.
Teve o efeito que ela esperava. Damon pisou no acelerador e eles saíram da clareira em alta velocidade.
Então estavam dando viradas bruscas pela Estrada Old Creek mais rápido que Elena já dirigira por aqui antes; mais rápido do que alguém já ousara ir com ela como passageira antes.
Mas ainda assim, era a estrada dela. Desde a infância ela brincara aqui. Havia apenas uma família que vivia bem no perímetro da floresta, mas sua entrada ficava do lado direito da estrada – o lado dela – e ela se preparou para isso.
Ele faria a curva repentina para a esquerda logo antes da segunda curva que era a entrada dos Dunstans – e na segunda curva ela pularia.
Não havia calçada cercando a Estrada Old Creek, é claro, mas naquela altura havia bastantes rododentros e outros arbustos. Tudo que ela podia fazer era rezar. Rezar para que não quebrasse seu pescoço no impacto. Rezar para que não quebrasse um braço ou perna antes de mancar pelos poucos metros de bosque até a entrada. Rezar para que os Dunstans estivessem em casa quando ela golpeasse sua porta e rezar para que eles escutassem quando ela dissesse para não deixar o vampiro atrás dela entrar.
Ela viu a curva. Não sabia por que o troço-Damon não conseguia ler sua mente, mas aparentemente ele não conseguia. Ele não falava e sua única precaução contra ela tentar fugir parecia ser a velocidade. Ela se machucaria, e sabia disso. Mas a pior parte de qualquer machucado era o medo, e ela não tinha medo.
Enquanto ele contornava a curva, ela puxou a maçaneta e abriu a porta o máximo que pôde com suas mãos enquanto chutava-a o mais duramente que conseguia com seus pés. A porta se abriu, rapidamente sendo pega por uma força centrífuga, assim como as pernas da Elena. Assim como Elena.
Só o seu chute levou metade de seu corpo para fora do carro. Damon a agarrou e conseguiu só um punhado de cabelo. Por um instante ela pensou que ele a manteria dentro, mesmo sem segurá-la. Ela caiu repetidamente no ar, flutuando, ficando cerca de sessenta centímetros do chão, esticando-se para agarrar folhas, galhos de arbustos, qualquer coisa que pudesse usar para diminuir sua velocidade. E nesse local onde magia e a física se encontravam; ela era capaz de fazê-lo, de retardar enquanto ainda fluía no poder de Damon, apesar de tê-la levado muito mais para longe da casa dos Dunstans do que desejara.
Então ela realmente atingiu o chão, quicou, e fez seu melhor para girar no ar, para levar o impacto em seu bumbum ou nas costas de um ombro, mas algo deu errado e seu calcanhar esquerdo atingiu primeiro – Deus! – e enrolou-se, retorcendo-a completamente, batendo seu joelho no concreto – Deus, Deus! – revirando-a no ar e derrubando-a em seu braço direito tão duramente que parecia estar tentando enfiá-lo em seu ombro.
Ela ficou sem ar com o primeiro golpe e foi forçada a sugar o ar no segundo e terceiro golpes.
Apesar das reviravoltas, voando pelo universo, havia um sinal que ela não podia perder – um abeto incomum crescendo na estrada que ela notara há três metros quando explodiu para fora do carro. Lágrimas rolavam descontroladas por suas bochechas enquanto ela puxava os rebentos do arbusto que tinham retorcido ao redor de seu calcanhar – uma coisa boa, também. Algumas lágrimas podiam ter borrado sua visão, deixado-a com medo – como ela estivera nas últimas duas explosões de dor – de que poderia desmaiar. Mas ela estava na estrada, seus olhos foram lavados, ela conseguia ver o abeto e o pôr-do-sol ambos diretamente acima, e estava completamente consciente. E isso queria dizer que se fosse em direção ao pôr-do-sol, mas num ângulo de quarenta e cinco graus à sua direita, ela não poderia perder os Dunstans; a entrada, a casa, o celeiro, o milharal estavam todos ali para guiá-la após talvez vinte e cinco passos no bosque.
Ela mal tinha parado de rolar quando começou a se desembaraçar do arbusto que a tinha puxado e segurado seu pé e puxou os últimos caules embaraçantes de seu cabelo. O cálculo sobre a casa dos Dunstans aconteceu instantaneamente em sua cabeça, mesmo enquanto se virava e via a gavela esmagada que tinha cortado pelos vegetais e o sangue na estrada.
De primeira ela olhou para suas mãos magras em estupefatamente; elas não poderiam ter deixado uma trilha tão sangrenta. E não tinham. Um joelho tinha sido esfolado, na verdade – através de sua calça jeans – e uma perna seriamente danificada, menos sangrenta, mas causando-lhe ondas de dor como raios brancos enquanto ela tentava não movê-la. Dois braços com bastante pele removida.
Sem tempo de descobrir quanto ou pensar no que tinha feito ao seu ombro.
Um som estridente de freios acionados à frente.
Senhor, ele é devagar. Não, eu sou rápida, instigada pela dor e pelo terror. Use isso!
Ela ordenou que suas pernas corressem para a floresta. Sua perna direita obedeceu, mas quando ela girou a esquerda e atingiu o chão, fogos de artifício dispararam perante seus olhos. Ela estava num estado hiper-alerta; viu o galho mesmo enquanto caía. Rolou sobre ela uma ou duas vezes, o que fez com que labaredas vermelhas sombrias de dor disparassem em sua cabeça, e então foi capaz de pegá-lo. Podia ter sido desenhado especialmente para ser uma bengala, na altura mais ou menos das axilas e firme em uma ponta, mas afiada na outra. Ela a enfiou debaixo de seu braço esquerdo e de algum jeito se levantou de seu lugar na lama: empurrando-se com sua perna direita e agarrando-se na bengala para que mal tivesse que tocar seu pé esquerdo no chão.
Ela rolou novamente na queda e teve que girar para se ajeitar novamente – mas ela vira as últimas porções do pôr-do-sol e a estrada atrás dela.
Dirija-se a quarenta e cinco graus à direita daquele brilho, pensou. Graças a Deus, era seu braço direito que estava danificado; desse jeito ela podia se apoiar com seu ombro esquerdo na bengala. Ainda sem hesitar por um momento, sem dar a Damon um milissegundo extra para segui-la, ela precipitou-se na direção escolhida para a floresta.
Para a antiga floresta.

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