26 de novembro de 2015

Capítulo 24

Querido Diário,
É noite, véspera da noite de nossa primeira festa — ou melhor, baile de gala. Mas não me sinto nada festiva. Sinto muita saudade de Stefan.
Também estive pensando em Matt. Em como ele foi embora, com raiva de mim, sem nem mesmo olhar para trás. Ele não entendeu que eu podia... gostar... de Damon, e ainda amar tanto Stefan que parecia que meu coração estava se despedaçando.


Elena baixou a caneta e olhou o diário, entediada. A mágoa se manifestou em dores verdadeiras no peito que a teriam assustado se ela não tivesse certeza do que realmente era. Ela sentia tanto a falta de Stefan que mal conseguia comer e até dormir. Ele era como uma parte de sua mente que estava constantemente em chamas, como um membro fantasma que nunca desaparecia.
Nem mesmo escrever no diário ajudaria esta noite. Ela só conseguiria escrever sobre lembranças torturantes dos bons tempos que ela e Stefan partilharam. Como era bom quando podia virar a cabeça e saber que o veria — que privilégio Elena teve! Mas acabou, e agora havia a tortura da confusão, da culpa e da ansiedade. O que estaria acontecendo com ele, agora, quando ela não tinha mais o privilégio de virar a cabeça e vê-lo? Será que eles... o machucavam?
Ah, meu Deus, se ao menos...
Se eu o tivesse obrigado a trancar as janelas de seu quarto no pensionato... Se eu tivesse desconfiado mais de Damon... Se eu tivesse adivinhado que ele tinha alguma coisa em mente naquela noite...
Se... Se...
Tornou-se um refrão que martelava no compasso do seu coração. Ela se viu respirando aos soluços, de olhos bem fechados, agarrada ao ritmo da respiração e com os punhos cerrados.
Se eu continuar me sentindo assim — se deixar que isso me esmague —, vou me tornar um ponto infinitesimal no espaço. Serei esmagada até o nada e mesmo isso será melhor do que precisar tanto dele.
Elena levantou a cabeça... E viu sua cabeça pousada no diário.
Ela ofegou.
Mais uma vez sua primeira reação foi imaginar que tivesse morrido.
Depois, aos poucos, confusa de tantas lágrimas, percebeu que tinha conseguido de novo. Estava fora do corpo.
Desta vez nem tomou conhecimento de uma decisão consciente sobre aonde ir. De repente estava voando tão rápido não sabia que rumo tomava.
Era como se estivesse sendo puxada, como se ela fosse a cauda de um cometa que disparava rapidamente para baixo.
Em um determinado momento, Elena percebeu, com um pavor familiar, que atravessava as coisas, depois se desviava, como se estivesse na ponta de um chicote que se agitava no ar, lançada para a cela de Stefan.
Ela ainda soluçava quando pousou na cela, sem saber se tinha forma sólida ou gravidade e sem se importar com isso. A coisa que teve tempo de ver foi Stefan, muito magro, dormindo, mas com um sorriso no rosto, depois Elena caiu em cima dele chorando enquanto se balançava, leve como uma pluma. Stefan acordou.
— Ah, não pode me deixar dormir em paz por alguns minutos? — perguntou Stefan, acrescentando algumas palavras em italiano que Elena não queria nem tentar entender.
De imediato Elena teve um dos ataques de Bonnie, soluçando tanto que mal conseguia ouvir — não conseguia escutar — nenhum conforto que lhe oferecessem. Eles faziam coisas horríveis com Stefan e estavam usando a imagem dela, de Elena, para torturá-lo. Era cruel demais. Eles condicionavam Stefan a odiá-la. Ela se odiava. Todos em todo o mundo a odiavam...
— Elena! Elena, não chore, meu amor!
Num torpor, Elena se levantou, conseguindo uma breve visão anatômica do peito de Stefan antes de cair em prantos de novo, tentando enxugar o nariz no uniforme da prisão de Stefan, que dava a impressão de que só melhoraria se ela fizesse alguma coisa com ele.
É claro que não podia; assim como não conseguia sentir o braço que tentava envolvê-la com delicadeza. Ela não havia levado o corpo.
Mas de algum modo conseguiu segurar suas lágrimas, e uma voz fria e dura feito arame dentro dela disse: Não as desperdice, diota! Use-as. Se vai chorar, chore sobre o rosto ou as mãos dele. E, aliás, todo mundo odeia você. Até Matt odeia você, e olha que Matt gosta de todo mundo, a vozinha cruel e criativa continuava e Elena cedeu a uma nova onda de choro, percebendo, distraída, o efeito de cada lágrima. Cada gota transformava a pele sob ela em rosa, e a cor se espalhava em ondas, como se Stefan fosse um lago e ela descansasse nele, água na água.
Só que suas lágrimas caíam com tamanha rapidez que pareciam uma tempestade num lago tranquilo. E isso só a fez pensar na vez em que Matt se atirou no lago para resgatar uma garotinha que havia escorregado pelo gelo, e que Matt agora a odiava.
— Não, ah, não; não, meu lindo amor — pedia Stefan com tanta sinceridade que qualquer um teria acreditado nele. Mas como ele podia? Elena sabia como devia estar, o rosto inchado e deformado pelas lágrimas: não havia "lindo amor" aqui! E ele tinha de estar louco para querer que ela parasse de chorar: as lágrimas lhe davam uma nova vida sempre que tocavam sua pele — e talvez a tempestade tenha dado resultados em seu íntimo, porque sua voz telepática era forte e segura.
 Elena, me perdoe — ah, Deus, só me dê um momento com ela! Posso suportar qualquer coisa depois, até a verdadeira morte. Só quero um momento para tocá-la!
E talvez Deus tenha olhado para baixo por um instante, apiedado. Os lábios de Elena pairavam acima dos de Stefan, tremendo, como se de algum modo, ela pudesse, roubar um beijo, como costumava fazer quando ele ainda dormia. Mas só por um instante pareceu a Elena ter sentido a carne quente abaixo da dela e o bater das pálpebras de Stefan contra seus cílios enquanto os olhos dele se abriam de surpresa.
De imediato ficaram paralisados, de olhos arregalados nenhum dos dois ousou se mexer um milímetro que fosse. Mas Elena não conseguiu evitar, enquanto o calor dos lábios de Stefan provocava um fluxo de calor por todo seu corpo, ela derreteu, mantendo o corpo cuidadosamente na mesma posição e sentindo o olhar ficar desfocado e as pálpebras se fecharem.
Quando seus cílios roçaram em alguma coisa com substância o momento terminou silenciosamente. Elena tinha duas opções: podia gritar e brigar telepaticamente com Deus por lhes dar apenas o que Stefan pedira, ou podia criar coragem e sorrir, e talvez reconfortar Stefan.
Sua melhor natureza venceu e quando Stefan abriu os olhos, ela pairava sobre ele, fingindo estar pousada nos cotovelos e no peito de Stefan, sorrindo enquanto tentava ajeitar o cabelo.
Aliviado, Stefan sorriu para ela também. Era como se ele pudesse suportar tudo, desde que ela não estivesse sofrendo.
— Agora, Damon teria sido prático — provocou ela. — Ele teria me mantido chorando, porque, no fim, a saúde dele seria a coisa mais importante. E ele teria rezado para... — Ela parou e finalmente começou a rir, o que fez Stefan sorrir. — Não faço ideia — disse Elena por fim. — Acho que Damon não reza.
— Provavelmente não — disse Stefan. — Quando éramos jovens... e humanos... o padre da cidade andava com uma bengala que ele gostava de usar em jovens delinquentes mais do que como instrumento de apoio.
Elena pensou na criança delicada acorrentada ao imenso e pesado rochedo de segredos. Será que a religião é uma das coisas que estão trancadas, colocada atrás de várias portas fechadas e em segredo ali, como um náutilo com sua concha, até que quase tudo de que ele gostasse estivesse lá dentro?
Ela não perguntou isso a Stefan. Elena disse, baixando a voz ao menor sussurro telepático, mal perturbando os neurônios do cérebro receptivo de Stefan: Que outras coisas práticas pode pensar que Damon teria pensado? Coisas relacionadas a uma prisão?
— Bom... A uma prisão? A primeira coisa em que posso pensar é você saber andar pela cidade. Fui trazido aqui vendado, mas como eles não têm o poder de tirar a maldição dos vampiros e torná-los humanos, ainda tenho todos os meus sentidos. Eu diria que é uma cidade do tamanho de Nova York e Los Angeles juntas.
— Uma cidade grande — observou Elena, tomando nota nentalmente.
— Mas felizmente as únicas partes que nos interessariam aqui estão no sudoeste. A cidade devia ser governada pelos Guardiões... Mas eles são do Outro Lado e os demônios e vampiros daqui há muito tempo perceberam que as pessoas tinham mais medo deles do que dos Guardiões. Agora é organizada com uns 12 a 15 castelos feudais ou propriedades rurais, e cada uma dessas propriedades controla uma parte considerável das terras nos arredores da cidade. Cultivam seus produtos exclusivos e os vendem em negócios feitos por aqui. Por exemplo, são os vampiros que cultivam o Clarion Loess Black Magic.
— Sei — disse Elena, que não fazia ideia do que ele falava, mas conhecia o vinho Black Magic. — Mas tudo o que realmente precismos saber é como chegar à Shi no Shi... À sua prisão.
— É verdade. Bom, o jeito mais fácil seria achar o setor kitsune. A Shi no Shi é um grupo de prédios, com o maior... Aquele sem o topo, mas na verdade é curvo e não dá para saber pelo chão...
— Aquele que parece um coliseu? — interrompeu Elena, ansiosa. — Tive uma vista de cima da cidade quando cheguei aqui.
— Bom, a coisa que parece um coliseu é realmente um coliseu. — Stefan sorriu. Ele sorria verdadeiramente; agora se sentia bem o bastante para sorrir, e Elena alegrou-se, mas em silêncio.
— Então, para conseguir entrar e sair, basta ir da base do coliseu ao portão atrás do nosso mundo — disse Elena. — Mas para libertar você há... umas coisas que precisamos pegar... e talvez estejam em partes diferentes da cidade. — Ela tentou se lembrar se havia contado sobre as chaves gêmeas de raposa a Stefan. Talvez fosse melhor não voltar ao assunto, se ela já tivesse comentado.
— Depois eu contrataria um guia nativo — disse Stefan de imediato. —Não sei realmente nada sobre a cidade, só o que os guardas me contam... E não sei se devo confiar neles. Mas as pessoas mais simples... o povo... deve saber o que você quer.
— É uma boa ideia — disse Elena. Ela traçou desenhos invisíveis com um dedo transparente no peito de Stefan. — Acho que Damon realmente planeja fazer tudo o que puder para nos ajudar.
— Eu o respeito por vir — disse Stefan, como se estivesse pensando em voz alta. — Ele está cumprindo sua promessa, não está?
Elena assentiu. No fundo, bem no fundo de sua consciência flutuavam os pensamentos: A palavra dele a mim de que ele cuidaria de você, e a palavra dele a você de que cuidaria de mim. Damon sempre cumpria sua palavra.
— Stefan — disse ela, comunicando-se de novo com o que havia de mais íntimo na mente dele, onde podiam partilhar informações, assim esperava, em segredo, — você devia tê-lo visto. Quando abri as Asas da Redenção e acabei com cada coisa ruim que havia endurecido ou tornado cruel. E quando usei as Asas da Purificação e toda a pedra que cobria sua alma se desfez em pedaços... Não acho que possa imaginar como ele estava. Ele era tão perfeito... E tão novo. E mais tarde, quando ele chorou...
Elena podia sentir dentro de Stefan três camadas de emoção, sobrepondo-se uma à outra instantaneamente. Incredulidade por Damon chorar, apesar de tudo o que Elena lhe contara. Depois, crença e assombro enquanto ele absorvia as histórias e as lembranças que Elena contava. E por fim a necessidade de consolá-la por Elena ver Damon aprisionado para sempre. Um Damon que jamais existiria de novo.
— Ele salvou você — sussurrou Elena —, mas não salvou a si mesmo. Ele jamais negociaria com Shinichi e Misao. Simplesmente os deixou pegar todas as suas lembranças daquela época.
— Talvez sejam dolorosas demais.
— Sim — disse Elena, deliberadamente baixando as barreiras para que Stefan pudesse sentir a dor que o ser novo e perfeito que ela criara suportara ao saber que cometera atos de crueldade e traição que... Bom, que fariam até a alma mais forte se encolher. — Stefan? Acho que ele deve se sentir muito sozinho.
— Sim, meu anjo. Acho que tem razão.
Desta vez Elena pensou muito mais antes de arriscar:
— Stefan? Não sei se ele entende como é ser amado. — E enquanto ele pensava na resposta, ela ansiosamente esperou. Quando respondeu, foi com brandura e muito lentamente:
— Sim, meu anjo. Acho que tem razão.
Ah, ela o amava. Ele sempre compreende. E ele sempre era corajoso, elegante e confíável ao máximo quando ela precisava que fosse.
— Stefan? Posso ficar de novo à noite?
— É hora de dormir, meu lindo amor? Você pode ficar... A não ser que venham me buscar para me levar a algum lugar. — De repente Stefan ficou muito sério, sustentando o olhar de Elena. — Mas se vierem... Você me promete que vai embora?
Elena olhou bem nos olhos verdes dele e disse:
— Se é o que você quer, eu prometo.
— Elena? Você... mantém suas promessas ou não? — De repente ele pareceu muito sonolento, não por estar esgotado, mas por estar se sentindo renovado, por estar sendo ninado num sono perfeito.
— Eu as mantenho perto de mim — sussurrou Elena. Mas mantenho você mais perto, pensou ela. Se alguém viesse feri-lo, descobriria o que uma adversária sem corpo podia fazer. Por exemplo, e se ela estendesse a mão para dentro do corpo deles e conseguisse contato por um instante? Por tempo suficiente para espremer um coração entre os lindos dedos brancos? Isso já seria alguma coisa.
— Eu te amo, Elena. Estou tão feliz... Por nos beijarmos...
— Não foi a última vez! Você vai ver! Eu juro! — Ela deixou cair novas lágrimas nele.
Stefan apenas sorriu gentilmente. Depois adormeceu.
Pela manhã, Elena acordou em seu quarto grandioso na casa de Lady Ulma, sozinha. Mas tinha outra lembrança, como rosa prensada, guardada num lugar especial dentro dela.
E em algum lugar, no fundo do coração, ela sabia que um dia essas lembranças podiam ser tudo o que teria de Stefan. Elena sabia que esses momentos frágeis e doces seriam algo a guardar com carinho — se Stefan jamais voltasse para ela.

Um comentário:

  1. Você continua, mesmo sabendo que pode não encontrar nada...

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