20 de novembro de 2015

Capítulo 23

Um frisson gelado desceu pelas costas de Elena, o mais delicado dos arrepios. Damon não pedia beijos. Isso não estava certo.
 Não  ela sussurrou.
 Só um.
 Não vou te beijar, Damon.
 Não eu. Ele  Damon denotou “ele” com uma inclinação de sua cabeça na direção de Matt. ― Um beijo entre você e o seu antigo cavalheiro.
 Você quer o quê?  Os olhos de Matt se abriram de supetão e ele deixou as palavras saírem explosivamente antes que Elena pudesse abrir sua boca.
 Você gostaria  a voz de Damon caiu para seu tom mais suave e insinuante. ― Você gostaria de beijá-la. E não há ninguém para impedi-lo.
 Damon  Matt desvencilhou-se dos braços de Elena. Ele parecia estar, senão totalmente recuperado, talvez 80% a caminho de estar, mas Elena conseguiu ouvir seu coração fatigado. Se perguntou quanto tempo ele tinha ficado ali fingindo estar inconsciente para recuperar suas forças. ― Da última vez que me dei conta, você estava tentando me matar. Isso não te põe exatamente nas minhas boas graças. Depois, as pessoas simplesmente não saem por aí beijando garotas porque são bonitas ou porque seus namorados tiveram um dia de folga.
 Não?  Damon levantou uma sobrancelha em surpresa. ― Eu saio.
Matt simplesmente balançou sua cabeça, estupefato. Ele parecia estar tentando manter uma ideia fixa em sua mente.
 Pode deslocar seu carro daqui para que possamos ir embora?  ele disse.
Elena sentiu como se estivesse observando Matt de muito longe; e como se ele estivesse preso em algum lugar com um tigre e não soubesse disso. A clareira tinha se tornado um lugar muito lindo, selvagem, e perigoso, e Matt tampouco sabia disso. Além do mais, ela pensou com preocupação, ele estava se forçando a levantar.
Nós precisamos ir embora – e rápido, a antes que Damon faça qualquer outra coisa a ele.
Mas qual era a verdadeira saída? Qual era a real intenção de Damon?
 Vocês podem ir  Damon falou. ― Assim que ela te beijar. Ou você a beijar, ― ele acrescentou, como se fazendo uma concessão.
Lentamente, como se percebendo o que significaria, Matt olhou para Elena e então de volta para Damon. Elena tentou se comunicar silenciosamente com ele, mas Matt não estava no clima. Ele olhou Damon no rosto e disse:
 De jeito nenhum.
Dando de ombros, como se para dizer, eu fiz tudo que pude, Damon levantou a vareta áspera de pinheiro...
 Não  gritou Elena. ― Damon, eu o farei.  Damon sorriu e o segurou por um momento, até que Elena desviasse o olhar e fosse até Matt. Seu rosto ainda estava pálido, frio. Elena inclinou sua bochecha contra a dele e disse quase inaudivelmente em sua orelha: ― Matt, eu já lidei com Damon antes. E você não pode simplesmente desafiá-lo. Vamos na dele – por ora. Então talvez possamos escapar.  E então ela se forçou a dizer: ― Por mim? Por favor?
A verdade era que ela conhecia garotos teimosos bem demais. Demais sobre como manipulá-los. Era um traço que ela viera a odiar, mas agora estava ocupada demais tentando pensar em maneiras de salvar a vida de Matt para debater a ética de pressioná-lo.
Ela desejou que fosse Meredith ou a Bonnie ao invés de Matt. Não que fosse desejar tanta dor a alguém, mas a Meredith iria bolar planos C e D enquanto Elena bolava A e B. E Bonnie já teria levantado olhos castanhos cheios de lágrimas e derreteria o coração de Damon...
De repente Elena pensou no relampejo único de vermelho que vira sob os Ray-Bans, e mudou de ideia. Ela não tinha certeza se queria a Bonnie perto do Damon agora.
De todos os casos que ela conhecera, Damon fora o único que Elena não conseguira fazer ceder.
Ah, Matt era teimoso, e Stefan podia ser impossível às vezes – mas ambos tinham botões claramente coloridos em algum local dentro deles, etiquetados ME APERTE, e você só tinha que mexer com o mecanismo um pouquinho – está bem, às vezes mais que um pouquinho – e eventualmente até o macho mais desafiador podia ser dominado.
Exceto um...
 Certo, criancinhas, tempo esgotado.
Elena sentiu Matt ser puxado dos seus braços e levantado – ela não sabia pelo que, mas ele estava de pé. Algo o segurava no lugar, ereto, e ela sabia que não eram os músculos dele.
 Então, onde estávamos?  Damon andava para frente e para trás, com o galho de pinheiro da Virgínia em sua mão direita, batendo-o na sua palma esquerda. ― Ah, é mesmo ― como se fazendo uma grande descoberta ― a garota e o destemido cavaleiro vão se beijar.


No quarto de Stefan, Bonnie falou:
 Pela última vez, Meredith, você achou um arquivo de backup do bilhete do Stefan ou não?
 Não  Meredith disse numa voz plana. Mas bem quando Bonnie estava prestes a ter um colapso novamente, Meredith disse: ― Eu achei um bilhete completamente diferente. Uma carta, na verdade.
 Um bilhete diferente? O que diz?
 Você consegue ficar de pé? Porque acho que é melhor dar uma olhada nisso.
Bonnie, que tinha acabado de recuperar seu fôlego, conseguiu mancar até o computador.
Ela leu o documento na tela – completamente, exceto pelo que parecia ser suas palavras finais, e arfou.
 Damon fez algo ao Stefan! ― Disse, e sentiu seu coração cair e todos os seus órgãos internos o seguirem.
Então Elena estivera enganada. Damon era malvado, por completo. Agora Stefan até poderia estar...
 Morto  Meredith completou, sua mente obviamente seguindo o mesmo caminho que o da Bonnie tinha tomado. Ela levantou olhos escuros para Bonnie.
Bonnie sabia que seus próprios olhos estavam molhados.
 Quanto tempo  Meredith perguntou ― faz desde que você ligou para a Elena ou o Matt?
 Eu não sei; não sei que horas são. Mas liguei duas vezes depois de sairmos da casa da Caroline e uma vez na da Isobel; e quando tentei depois disso, ou caía em suas caixas postais lotadas ou nem conectava.
 É exatamente o que consegui. Se eles chegaram próximos à floresta – bem, você sabe o que isso faz com a recepção dos telefones.
 E agora, mesmo que eles saiam do bosque, não podemos lhes deixar uma mensagem porque enchemos seu correio de voz...
 E-mail  Meredith disse. ― O bom e velho e-mail; podemos usá-lo para mandar uma mensagem para Elena.
 Sim!  Bonnie socou o ar. Então ela desinflou. Hesitou por um instante e então quase sussurrou: ― Não.  Palavras do bilhete verdadeiro de Stefan ficavam ecoando em sua mente: Confio no instinto protetor de Matt por você, no julgamento de Meredith e na intuição da Bonnie. Diga-lhes para lembrarem-se disso.”
 Não pode contar a ela o que Damon fez  ela falou, mesmo enquanto Meredith começava a digitar de forma ocupada. ― Ela provavelmente já sabe – e se não sabe, simplesmente criará mais problemas. Ela está com Damon.
 Matt te disse isso?
 Não. Mas Matt esta fora de controle de tanta dor.
 Não pode ter sido por causa desses – insetos?  Meredith olhou para seu tornozelo onde diversos vergões vermelhos ainda apareciam na macia pele de oliva.
 Podia ter sido, mas não. Não pareciam com árvores, tampouco. Era simplesmente... uma dor pura. E não sei, não com certeza, como sei que era o Damon fazendo isso. Eu simplesmente... sei.
Ela viu os olhos de Meredith desfocarem e sabia que ela estava pensando nas palavras de Stefan também.
 Bem, meu bom senso diz para confiar em você ― ela disse. ― A propósito, Stefan soletra “julgamento”, enquanto Damon soletra “jugamento”. Stefan diria “julgamento do jeito preferido pelos americanos”. Pode ter sido isso o que incomodou o Matt.
 Como se o Stefan fosse realmente deixar Elena sozinha com tudo que tem acontecido  Bonnie disse indignadamente.
 Bom, Damon enganou todos nós e nos fez pensar que sim  Meredith apontou. Ela tinha a inclinação de apontar coisas assim.
Bonnie começou repentinamente.
 Pergunto-me se ele roubou o dinheiro?
 Duvido, mas vamos ver  Meredith afastou a cadeira de balanço dizendo: ― Me dê um cabide.
Bonnie agarrou um do armário e pegou para si mesma uma das regatas da Elena para vestir ao mesmo tempo. Era grande demais, já que era a regata que Meredith dera a Elena, mas que pelo menos era quente.
Meredith usava o final do gancho do cabide de arame em todos os lados do assoalho que parecia mais promissor. Bem quando conseguiu abrir a força, houve uma batida na porta aberta. Ambas pularam.
 Sou só eu  disse a voz da Sra. Flowers atrás de um grande saco de pano grosso e de uma bandeja de bandagens, canecas, sanduíches e sacos de talagarça de cheiro forte como aqueles que ela usava no braço do Matt.
Bonnie e Meredith trocaram um olhar e então Meredith disse:
 Entre e deixe-nos ajudá-la.
Bonnie já estava pegando a bandeja, e a Sra. Flowers depositava o saco de pano grosso no chão. Meredith continuou abrindo a tábua à força.
 Comida!  Bonnie disse gratamente.
 Sim, sanduíches de peru e tomate. Sirvam-se. Sinto muito ter ficado longe por tanto tempo, mas você não pode apressar um emplastro para inchaços  a SraFlowers falou. ― Eu me lembro, há muito tempo, meu irmão caçula sempre dizia... ai minha nossa!  Ela encarava o lugar onde a tábua estivera. Um buraco de bom tamanho estava cheio de notas de cem dólares, amarradas organizadamente em pacotes com tiras de banco ainda ao redor delas.
 Uau  Bonnie disse. ― Nunca vi tanto dinheiro!
 Sim  a Sra. Flowers virou-se e começou a distribuir xícaras de chocolate e sanduíches. Bonnie mordeu um sanduíche famintamente. ― As pessoas costumavam simplesmente colocar coisas atrás de um tijolo solto na parede. Mas posso ver que o jovem precisava de mais espaço.
 Obrigada pelo chocolate e pelos sanduíches  Meredith falou após alguns minutos passados devorando-os com um apetite exacerbado enquanto trabalhava no computador ao mesmo tempo. ― Mas se quiser tratar todos nossos ferimentos e essas coisas... bom, receio que simplesmente não podemos esperar.
 Ah, venham  a Sra. Flowers pegou uma pequena compressa que cheirava, para Bonnie, a chá e a pressionou no nariz de Meredith. ― Isso fará o inchaço sumir em alguns minutos. E você, Bonnie, cheire aquele que é para aquele galo na sua testa.
Novamente os olhos de Meredith e Bonnie se encontraram. Bonnie disse:
 Bem, se é só por alguns minutos... não sei o que vamos fazer depois, de qualquer jeito  ela olhou os emplastros e pegou um redondo que cheirava a flores e almíscar para colocar em sua testa.
 Exatamente certo ― a Sra. Flowers disse sem se virar para olhar. ― E é claro, o fino e comprido é para o tornozelo da Meredith.
Meredith bebeu o resto de seu chocolate, então esticou sua mão para tocar cuidadosamente uma das marcas vermelhas.
 Não tem...  ela começou, quando a Sra. Flowers interrompeu.
 Você vai precisar desse tornozelo em plena capacidade quando nós sairmos.
 Quando nós sairmos?  Meredith a encarou.
 Para a floresta  a Sra. Flowers esclareceu. ― Achar seus amigos.
Meredith pareceu horrorizada.
 Se Elena e Matt estão na floresta, então eu concordo: temos que procurá-los. Mas você não pode ir, Sra. Flowers, e não sabemos onde eles estão, de qualquer jeito.
A Sra. Flowers bebeu da xícara de chocolate em sua mão, olhando pensativamente para a única janela que não estava fechada. Por um momento, Meredith pensou que ela não tinha ouvido ou não pretendia responder. Então ela disse, lentamente:
 Ouso dizer que vocês acham que sou apenas uma velha maluca que nunca está por perto quando há problemas.
 Nunca pensaríamos isso  Bonnie disse solidamente, mas pensando que tinham descoberto mais sobre a Sra. Flowers nos últimos dois dias do que nos nove meses desde que Stefan se mudara para cá. Antes disso, tudo que ouvira foram histórias de fantasmas ou rumores sobre a velha senhora maluca na pensão. Ela os ouvira desde que conseguira se lembrar.
A Sra. Flowers sorriu.
 Não é fácil ter o Poder e nunca ser capaz de acreditar quando o usa. E então, eu vivi por tanto tempo – e as pessoas não gostam disso. Isso as preocupa. Elas começam a inventar histórias de fantasmas ou rumores...
Bonnie sentiu seus olhos se arregalarem. A Sra. Flowers simplesmente sorriu novamente e assentiu gentilmente.
 Tem sido um verdadeiro prazer ter um jovem educado na casa  ela continuou, pegando o longo emplastro da badeja e o amarrando ao redor do tornozelo de Meredith. ― É claro, tive que superar meus preconceitos. A querida Mama sempre disse que se eu mantivesse esse lugar, eu talvez tivesse que receber pensionistas, e ter certeza de nunca receber estrangeiros. E então, é claro, o jovem também é um vampiro...
Bonnie quase espalhou chocolate pelo quarto. Ela engasgou, então entrou num espasmo de tosse. Meredith estava com sua expressão vazia.
― Mas após um tempo, comecei a entendê-lo melhor e a simpatizar com seus problemas,  a Sra. Flowers continuou, ignorando o ataque de tosse de Bonnie. ― E agora, a loira está envolvida também... pobrezinha. Eu sempre falo com a Mama ― ainda com o sotaque na segunda sílaba ― sobre isso.
 Qual a idade da sua mãe?  Meredith perguntou.
Seu tom era um de inquisição educada, mas para os olhos experientes de Bonnie, sua expressão era de fascinação ligeiramente mórbida.
 Ah, ela morreu na virada do século.
Houve uma pausa, e então Meredith refez-se.
 Sinto muito,  ela disse. ― Ela deve ter vivido uma longa...
 Eu deveria ter dito, a virada do século anterior. Lá em 1901.
Dessa vez foi Meredith que teve um ataque de tosse. Mas ela foi mais silenciosa quanto a isso.
O gentil olhar da Sra. Flowers fluiu de volta até elas.
 Eu era uma médium nos meus tempos. Em vaudeville, sabem. É tão difícil atingir um transe em frente de uma sala cheia de pessoas. Mas, sim, sou realmente uma Bruxa Branca. Eu tenho Poder. E agora, se terminaram seu chocolate, acho que é hora de irmos para o Bosque Antigo procurarmos seus amigos. Mesmo sendo verão, minhas queridas, é melhor vocês duas se vestirem com roupas quentes ― ela acrescentou. ― Eu me vesti.

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