26 de novembro de 2015

Capítulo 21

Pandemônio. Elena levantou rapidamente a cabeça, confusa, sem saber se ainda devia agir como a escrava arrependida.
Os líderes da comunidade tagarelavam entre si, apontando dedos, lançando as mãos para cima. Damon restringira fisicamente o Chefão, que parecia considerar concluída sua parte na cerimônia.
A multidão uivava e gritava. Parecia que haveria outra briga; desta vez entre Damon e os homens do Chefão, em especial aquele que se chamava Clewd.
A cabeça de Elena girava. Ela só conseguia pegar algumas frases desconexas.
―... só seis chibatadas e que eu aplique...  Damon gritava.
―... acha realmente que esses caluniadores dizem a verdade?  gritava outra pessoa, provavelmente Clewd.
Mas o Chefão não era exatamente isso também? Apenas um caluniador maior, mais assustador e, sem dúvida, mais eficiente que se reportava a algum superior e não toldava a mente com fumaça tóxica?, pensou Elena; depois abaixou a cabeça apressadamente quando o gordo olhou para ela.
Ela podia ouvir Damon novamente, desta vez acima da algazarra. Ele estava junto do Chefão.
 Eu achava que mesmo aqui haveria algum respeito depois de firmado um acordo. — Sua voz deixava evidente que já não seria mais possível negociar e que ele estava prestes a partir para o ataque. Elena estava apavorada. Nunca ouvira tão abertamente uma ameaça de Damon, em voz alta.
— Espere. — O tom do Chefão estava relaxado, mas fez da balbúrdia um silêncio. O gordo, tendo retirado a mão de Damon de seu braço, virou a cabeça para Elena.
— Abro mão da participação de meu sobrinho Clewd. Diarmund, ou quem quer que seja, está livre para castigar sua escrava, com os próprios instrumentos.
De súbito, surpreendentemente, o velho espanava pedaços de ouro da barba e falava diretamente com Elena. Seus olhos eram experientes, cansados e surpreendentemente sagazes.
— Clewd é um mestre nas chibatadas, como deve saber. Tem sua própria invençãozinha. Chama-se bigodes de gato e um golpe é capaz de esfolar a pele do pescoço aos quadris. A maioria dos homens morre com dez chibatadas.  Mas receio que ele fica decepcionado hoje. — Depois, expondo dentes surpreendentemente brancos e regulares, o Chefao sorriu. Estendeu para ela a tigela de doces dourados que estivera comendo. — Pode prova um antes de sua Disciplina. Pegue.
Com medo de experimentar e, ao mesmo tempo, receosa de não provar, Elena pegou um dos pedaços irregulares e coloco na boca. Seus dentes mastigaram o doce de sabor agradável. A metade de uma noz! Era esse o misterioso doce. Uma meia noz deliciosa, mergulhada em uma espécie de xarope doce de limão com pedaços de pimenta ou algo dourado que se grudava nela com aquela coisa comestível que parecia ouro. Ambrósia!
O Chefao dizia a Damon:
— Aplique sua própria disciplina, rapaz. Mas não deixe de ensinar a menina a encobrir seus pensamentos. Ela é inteligente demais para ser desperdiçada num bordel de cortiço. Mas então por que não acho que ela quer se tornar uma cortesã famosa?
Antes que Damon pudesse responder ou Elena conseguisse levantar a cabeça, ainda de joelhos, ele se foi, levado pelos carregadores de palanquim para a única carruagem puxada por cavalos que Elena vira nos cortiços.
Agora os líderes civis que discutiam e gesticulavam, incitados pelo Jovem Drohzne, com muito custo, chegaram a um acordo.
— Dez chibatadas, ela não precisa se despir e você mesmo pode aplicá-las — disseram. — Mas nossa última palavra é esta: dez. O homem que negociou com você já não pode mais discutir.
Quase despreocupadamente, alguém ergueu, por um tufo de cabelo, uma cabeça sem corpo. O absurdo era estar coroada de folhas poeirentas, na expectativa do banquete depois da cerimônia.
Os olhos de Damon lampejaram de uma fúria genuína, fazendo com que todos os objetos em volta vibrassem. Elena podia ver o Poder dele como uma pantera recuando contra uma trela. Ela sentiu como se estivesse falando a um furacão, que devolvia cada palavra que dizia para dentro de sua garganta.
— Concordo com isso.
— O quê?
— Acabou, Da... Amo Damon. Chega de gritaria. Eu concordo.
Agora, enquanto se prostrava no tapete diante de Drohzne, ouviu repentinas lamentações de mulheres e crianças e uma fuzilaria de projéteis que miravam — às vezes mal — o senhor da escrava, com seu sorriso desdenhoso.
A cauda da roupa se espalhava atrás de Elena como de um vestido de noiva, a saia perolada deixando a anágua borgonha reluzente na eterna luz vermelha. O cabelo tinha se soltado do alto, caindo como uma nuvem por seus ombros, Damon teve de separa-los com as mãos. Ele tremia, de fúria.
Elena não se atreveu a encará-lo, pois sabia que as mentes dos dois se conectariam. Então lembrou de fazer seu discurso formal diante dele e do jovem Drohzne como parte da farsa.
Fale com sentimento, a professora de teatro, a Srta. Courtland, sempre dizia para a turma. Se não houver sentimento em você, não poderá haver na plateia.
— Amo! — gritou Elena, numa voz alta o bastante para ser ouvida por sobre as lamentações das mulheres. — Amo, não passo de uma escrava, não sou apta a me dirigir ao senhor. Mas cometi um erro grave e aceito minha punição avidamente... Sim, avidamente, se isto restaurar no senhor um fio da respeitabilidade de que desfrutava antes de minha transgressão indesejada. Imploro que castigue esta escrava em desgraça, que se prostra como tripas jogadas em seu piedoso caminho.
O discurso, que ela gritara num tom invariável e vítreo de alguém que decorou cada vírgula, não precisava passar de quatro palavras, ― Amo, imploro seu perdão.  Mas ninguém pareceu ter reconhecido a ironia que Meredith havia colocado nele, muito menos o achou engraçado. O Chefão o aceitara; o Jovem Drohzne o ouvira, e agora era a vez de Damon.
Mas o Jovem Drohzne ainda não havia terminado. Sorrindo maliciosamente para Elena, ele disse: — É o que terá, mocinha. Mas quero ver essa vara de freixo primeiro! — dirigindo-se a Damon. Deu alguns golpes nas almofadas em volta deles (que encheram o ar de uma poeira cor de rubi) e ficou satisfeito, mostrando que aquela vara era tudo o que ele podia querer.
Com a boca visivelmente salivando, ele se acomodou no sofá dourado, olhando Elena da cabeça aos pés.
Finalmente chegou a hora. Damon não suportava mais. Lentamente, como se cada passo estivesse no roteiro de uma peça que ele não ensaiou direito, ele postou-se ao lado de Elena para acertar o ângulo. E, enfim, enquanto a multidão reunida ficava cada vez mais impaciente e as mulheres mostravam sinais de que iriam se perder na embriaguez, em vez de lamentar aquilo, ele escolheu local.
— Eu peço seu perdão, amo — disse Elena numa voz inexpressiva. Se deixasse por conta dele, pensou ela, Damon nem teria se lembrado dessas exigências.
Agora era a hora. Elena sabia o que Damon lhe prometera. Ela também tinha consciência que muitas promessas já tinham sido quebradas naquele dia. Primeiro, dez eram quase o dobro de seis.
Ela não estava ansiando por isso.
Mas quando veio o primeiro golpe, ela sabia que Damon não quebraria sua promessa. Sentiu um baque surdo, um torpor, e curiosamente uma umidade que a fez olhar as nuvens através da grade de ripas acima deles. Era desconcertante perceber que a umidade era seu próprio sangue, derramado sem dor, escorrendo pela lateral do corpo.
— Comece a contagem — rosnou o Jovem Drohzne com a voz arrastada e Elena automaticamente disse Um,  antes que Damon pudesse discutir.
Elena continuou contando na mesma voz clara e inabalável. Em sua mente ela não estava ali, naquela sarjeta horrível e fedida. Estava deitada sobre os cotovelos para apoiar o rosto, e fitava os olhos de Stefan — aqueles olhos verdes e vivos como a primavera, olhos que jamais envelheceriam, por mais que ele vivesse por séculos e séculos. Ela contava sonhadoramente para ele, e no dez os dois pulariam para disputar uma corrida. Caía uma chuva suave, mas Stefan lhe dava uma vantagem, e muito em breve ela se separaria dele e correria pela relva luxuriante. Faria uma corrida justa e realmente se esforçaria, mas Stefan, é claro, a alcançaria. Depois eles se deitariam na relva juntos, rindo sem parar, como se estivessem tendo um ataque histérico.
Até os ruídos vagos e distantes de expressões rapaces e rosnados embriagados gradualmente mudavam. Tudo tinha a ver com algum sonho bobo sobre Damon e uma vara de freixo. No sonho, Damon açoitava com força suficiente para satisfazer o mais exigente dos espectadores, e os golpes, que Elena podia ouvir no silêncio crescente, pareciam fortes, deixando-a meio nauseada quando refletiu que aquele era o som da sua pele se rasgando, mas ela não sentiu mais do que leves tapas nas costas. E Stefan lhe mandava um beijo!
 Serei sempre seu,  dizia Stefan. ― Somos um do outro sempre que você sonha.‖
Eu sempre serei sua, disse-lhe Elena em silêncio, sabendo que receberia a mensagem. Posso não conseguir sonhar com você o tempo todo, mas sempre estarei com você.
Sempre, meu anjo. Estou esperando por você, disse Stefan.
Elena ouviu a própria voz dizer ― dez,  e Stefan lhe mandou outro beijo e se foi. Piscando, desnorteada e confusa com o súbito fluxo de ruídos, ela se sentou cautelosamente, olhando em volta.
O jovem Drohzne estava agachado, cego de fúria, decepção e mais bebida do que podia suportar. As mulheres que gemiam há muito haviam se silenciado, pasmas. As crianças eram as únicas que ainda faziam barulho, subindo e descendo as ripas, cochichando com as outras e correndo se Elena por acaso olhasse na direção delas.
Em seguida, sem qualquer cerimônia, tudo havia acabado.
Quando Elena se levantou, o mundo deu duas voltas em torno dela e suas pernas se dobraram. Damon a segurou e chamou os poucos jovens ainda conscientes, que se inclinaram para ele.
— Dê-me uma capa. — Não era um pedido, e o mais bem-vestido dos homens, que parecia fazer turismo nos cortiços, atirou-lhe uma capa pesada e preta, forrada de azul esverdeado, e disse:
— Fique com ela. O espetáculo foi maravilhoso. É um ato de hipnose?
— Não foi um espetáculo — rosnou Damon, numa voz que deteve os outros visitantes no ato de estender cartões de visita.
— Pegue-os — sussurrou Elena.
Damon pegou os cartões de uma das mãos, sem a menor elegância. Mas Elena se obrigou a tirar o cabelo do rosto e sorrir lentamente, com as pálpebras pesadas, para os jovens. Eles sorriram timidamente para ela.
— Quando vocês... Se apresentarem de novo...
— Vocês saberão — disse-lhes Elena. Damon já a carregava de volta ao Dr. Meggar, cercado pela inevitável comitiva de crianças que puxavam os mantos. Foi só então que ocorreu a Elena perguntar-se por que Damon pedira uma capa a um estranho,quando ele, na verdade, estava vestindo uma.

* * *

— Eles farão cerimônias em algum lugar, agora que são tantos — disse a Sra. Flowers com certa agonia. Ela e Matt estavam sentados, bebendo chá de ervas na sala de estar do pensionato. Era hora do jantar, mas ainda estava muito claro lá fora.
— Cerimónias para fazer o quê? — perguntou Matt. Ele não fora à casa dos pais desde que deixou Damon e Elena, havia mais de uma semana, para voltar a Fell's Church. Passou na casa de Meredith, que ficava na periferia da cidade, e ela o convenceu a procurar a Sra. Flowers primeiro. Depois da conversa que os três tiveram com Bonnie, Matt decidiu que era melhor ficar escondido. Sua família ficaria mais segura se ninguém soubesse que ele estava em Fell's Church. Ele moraria no pensionato, mas nenhuma daquelas crianças possuídas perceberia isso. Depois, com Bonnie e Meredith partindo em segurança para encontrar Damon e Elena, Matt podia ser uma espécie de agente secreto.
Agora ele desejava ter ido com as meninas. Tentar ser agente secreto num lugar onde todos os inimigos pareciam capazes de ouvir e ver melhor do que você, e se movimentar muito mais rápido, não se mostrou tão útil quanto parecia. Ele passava a maior parte do tempo lendo blogs na internet, que Meredith havia indicado, procurando dicas que pudessem ajudar-lhes de alguma maneira.
Mas não leu sobre a necessidade de nenhuma cerimônia. Ele se virou para a Sra. Flowers enquanto ela bebericava o chá pensativa.
— Cerimónias para quê? — repetiu Matt.
Com o cabelo branco e macio, o rosto gentil e os olhos azuis bondosos e vagos, a Sra. Flowers parecia a velhinha mais inofensiva do mundo. Mas não era. Bruxa de nascença e jardineira por vocação, ela sabia tanto sobre toxinas vegetais de magia negra quanto de cataplasmas curativas de magia branca.
— Ah, para fazer coisas desagradáveis — respondeu com tristeza, olhando as folhas de chá na xícara. — Eles são em parte como um encontro de torcidas, sabe?, para animar a todos. Provavelmente também fazem alguma magia negra lá. Talvez com alguma chantagem e lavagem cerebral... Podem dizer a qualquer novo convertido que ele é culpado por simplesmente comparecer às reuniões. Eles podem também se render e se tornar plenamente iniciados... Esse tipo de coisa. Muito desagradável.
— Mas desagradável como? — insistiu Matt.
— Na verdade eu não sei, querido. Nunca fui a uma dessas cerimônias.
Matt refletiu. Eram quase 19h, hora do toque de recolher para menores de 18 anos. Jovens até 18 anos corriam o risco de ficar possuídos.
É claro que não era um toque de recolher oficial. A policial parecia não fazer ideia de como lidar com aquela curiosa doença, que atingia os jovens de Fell‘s Church. Dar-lhes um susto, talvez? Mas era a polícia que estava assustada. Um jovem xerife saiu correndo da casa de Ryan para vomitar depois de ver Karen Ryan arrancar a dentadas a cabeça de seu camundongo de estimação e dar um fim no que restou dele.
Trancafiá-las? Mas isso os pais não queriam, por pior que fosse o comportamento de seus filhos, por mais evidente que fosse sua necessidade de ajuda. Algumas crianças eram levadas à cidade vizinha para uma sessão com o psiquiatra. Elas se comportavam normalmente, falavam com calma e de maneira racional... Durante os 50 minutos de consulta. Depois, ao voltar para casa, vingavam-se dos pais, repetindo tudo o que diziam numa imitação perfeita, fazendo ruídos assustadores que pareciam sons de animais, travando conversas consigo mesmas em línguas que pareciam asiáticas ou falando de trás para a frente.
Nenhuma ciência comum ou médica parecia ter uma resposta para o problema das crianças.
Mas o que mais assustava os pais era quando seus filhos desapareciam.
No início, supunha-se que as crianças fossem para o cemitério, mas quando os adultos tentaram segui-las a uma das reuniões secretas, encontraram o cemitério vazio — inclusive a cripta secreta de Honoria Fell. As crianças pareciam ter simplesmente... sumido.
Matt pensou que sabia a resposta para este mistério. Aquela mata no antigo bosque ainda ficava perto do cemitério. Ou os poderes de purificação de Elena não chegaram tão longe, ou o lugar era tão maligno que conseguiu resistir à limpeza que ela fizera. E ele sabia muito bem que os antigos bosques agora estavam sob domínio dos kitsune. Se você desse dois passos para a mata corria o risco de passar o resto da vida tentando sair de lá.
— Mas talvez eu seja jovem o suficiente para segui-los — disse ele agora à Sra. Flowers. — Sei que Tom Pierler vai com elas e ele tem a minha idade. E tem aqueles que começaram tudo: Caroline passou a Jim Bryce, que passou a Isobel Saitou.
A Sra. Flowers parecia distraída.
— Precisamos pedir à avó de Isobel mais daquelas proteções xintoístas que ela abençoou — disse. — Acha que pode dar um pulinho lá qualquer dia desses, Matt? Pelo que sei, logo teremos de nos preparar para uma emboscada.
— É o que dizem as folhas de chá?
— Sim, querido, e é o mesmo que minha pobre cabeça diz. Avise à Dra. Alpert para ela tirar a filha e os netos da cidade antes que seja tarde demais.
— Vou dar o recado a ela, mas acho que vai ser muito difícil separar Tyrone de Deborah Koll. Ele realmente gosta dela... Mas talvez a Dra. Alpert possa convencer os Koll a partir também.
— Boa ideia. Isso significaria menos crianças para nos preocuparmos — disse a Sra. Flowers, pegando a xícara de Matt para dar uma olhada.
— Eu farei isso. — Era estranho, pensou Matt. Naquele momento, ele tinha três aliados em Fells Church e todos eram mulheres de mais de 60 anos.
A Sra. Flowers, ainda forte o bastante para acordar toda manhã para dar uma caminhada e cuidar de suas plantas; Obaasan — confinada ao leito, pequenina como uma boneca, com o cabelo preto preso num coque —, que sempre estava pronta com ótimos conselhos, devido à experiência adquirida nos anos que passou como donzela do santuário; e a Dra. Alpert, a médica de Fell‘s Church, que tinha cabelos grisalhos, pele morena lustrosa e uma atitude absolutamente pragmática com relação a tudo, inclusive a magia. Ao contrário da polícia, ela se recusava a negar o que acontecia diante de seus olhos e fazia o máximo que podia para aliviar os temores das crianças e aconselhar os pais apavorados.
Uma bruxa, uma sacerdotisa e uma médica. Matt imaginou que estava pisando em terreno firme, especialmente porque também conhecia Caroline, menina que havia começado tudo aquilo — quer fosse por possessão de raposas, lobos ou as duas coisas — ou mais.
— Vou à reunião esta noite — disse ele com firmeza. — O pessoal esteve cochichando e se falando o dia todo. Vou me esconder em algum lugar à tarde, onde possa vê-los entrando na mata. Depois vou segui-los... Desde que Caroline ou... Deus nos livre, Shinichi ou Misao... não esteja com eles.
A Sra. Flowers lhe serviu outra xícara de chá.
— Estou muito preocupada com você, Matt, querido. Parece-me ser um dia de mau agouro. Não é um dia para se correr riscos.
— Sua mãe tem algo a dizer sobre isso? — perguntou genuinamente interessado. A mãe da Sra. Flowers morreu algum momento por volta do início dos anos 1900, mas isso não a impedia de se comunicar com a filha.
— O problema é justamente este. Não ouvi uma palavra dela o dia todo. Vou tentar mais uma vez. — A Sra. Flowers fechou os olhos e Matt pôde ver as pálpebras enrugadas se mexendo enquanto ela presumivelmente procurava pela mãe, tentando entrar em transe ou coisa assim. Matt tomou seu chá e, cansado de esperar, começou a jogar no celular.
Por fim a Sra. Flowers abriu os olhos de novo e suspirou.
— Hoje a querida mama  ela sempre falava assim, com a tônica na segunda sílaba ― está sendo rebelde. Ela não quer me dar uma resposta clara. Diz que a reunião será muito turbulenta, e depois muito silenciosa. E está claro que ela acha que será muito perigosa também. Acho melhor eu ir com você, meu querido.
— Não, não! Se sua mãe acha que é perigoso, nem eu vou — disse Matt.
As meninas o esfolariam vivo se acontecesse alguma coisa com a Sra. Flowers, pensou ele. Melhor agir com cautela.
A Sra. Flowers se recostou na cadeira, parecendo aliviada.
— Bem — disse por fim —, acho melhor cuidar das minhas plantas. Também tenho que colher e secar artemísia. E os mirtilos devem estar maduros. Como o tempo voa.
— Bom, a senhora está cozinhando para mim e tudo — disse Matt. — Gostaria de pagar pela hospedagem.
— Eu jamais me perdoaria! Você é meu hóspede, Matt. E também meu amigo, assim espero.
— Mas é claro que sim. Sem a senhora, eu estaria perdido. Vou dar uma caminhada, preciso queimar calorias. Eu queria... — Ele se interrompeu. Ia dizer que queria poder bater uma bola com Jim Bryce. Mas Jim não bateria bola de novo, nunca mais. Não com as mãos mutiladas.
— Só vou dar uma caminhada — disse ele.
— Sim — disse a Sra. Flowers. — Por favor, Matt querido, tenha cuidado. Lembre-se de levar um agasalho.
— Sim, senhora. — Era início de agosto, estava quente e úmido o bastante para se andar de sunga de natação. Mas Matt era educado o suficiente para respeitar os mais velhos, mesmo que fossem bruxas e, em muitos aspectos, tão perigosas como a faca que ele colocou no bolso ao sair do pensionato.
Ele pegou uma estrada que dava no cemitério.
Agora, se fosse para lá, onde o chão descia abaixo da mata, ele teria uma ótima visão de quem estivesse entrando no que restava do antigo bosque, ao passo que ninguém no caminho abaixo conseguiria vê-lo.
Ele correu para o esconderijo escolhido sem fazer barulho, abaixando-se atrás das lápides, mantendo-se atento a qualquer mudança no canto dos passarinhos, que indicaria que as crianças estavam chegando. Mas o único canto era o guincho rouco de corvos na mata e ele não viu ninguém...
... até entrar de mansinho em seu esconderijo.
E de repente ele se viu cara a cara com uma arma e, atrás dela, a face do xerife Rich Mossberg.
As primeiras palavras que saíram da boca do xerife pareciam ser parte de um discurso decorado, como se alguém tivesse puxado uma cordinha num boneco falante do século XX.
— Matthew Jeffrey Honeycutt, o senhor está preso por atacar e espancar Caroline Beula Forbes. Tem o direito de permanecer calado...
— E o senhor também — sibilou Matt. — Mas não por muito tempo!Ouve os corvos voando ao mesmo tempo? Eles estão chegando no antigo bosque! Já estão perto!
O xerife Mossberg era uma daquelas pessoas que nunca paravam de falar até que realmente tivessem terminado, então agora ele dizia:
— Entendeu seus direitos?
— Não, senhor! Mi ne komprenas balela!
Uma ruga apareceu entre as sobrancelhas do xerife.
— Está tentando me enrolar com italiano?
— É esperanto... Não temos tempo! Lá vêm elas... E, ah, meu Deus, Shinichi está com elas! — A última frase foi dita no mais leve dos sussurros enquanto Matt abaixava a cabeça, espiando pelo mato alto à beira do cemitério sem se mexer.
Sim, era Shinichi, de mãos dadas com uma garotinha 12 anos. Matt a reconhecia vagamente, sabia que ela morava perto de Ridgemont. Qual era mesmo o nome dela? Betsy, Becca...?
Matt ouviu um ruído fraco e angustiado do xerife Mossberg.
— Minha sobrinha — sussurrou ele, surpreendendo Matt por falar com tanta suavidade. — É minha sobrinha, Rebecca!
— Muito bem, agora fique quieto — cochichou Matt. Havia uma fila de crianças seguindo Shinichi como se ele fosse uma espécie de Flautista de Hamelin satânico, com o cabelo preto de pontas vermelhas brilhando e os olhos dourados risonhos sob o sol do fim de tarde. As crianças riam e cantavam, algumas tinham vozes doces de jardim de infância, uma versão muito distorcida de uma cantiga popular. Matt sentiu a boca seca. Era uma agonia ver as crianças marcharem para a mata; era como ver cordeiros subindo uma rampa para um matadouro.
Ele teve que pedir ao xerife para não atirar em Shinichi. Isso provocaria um inferno na terra. Mas assim que Matt viu a última criança entrar na mata, ele levantou a cabeça.
O xerife Mossberg se preparava para se levantar.
— Não! — Matt segurou o pulso dele. O xerife o afastou.
— Tenho de entrar lá! Ele pegou minha sobrinha!
— Ele não vai matá-la. Eles não matam as crianças. Não sei por que, mas não matam.
— Você ouviu as obscenidades que ele estava ensinando a elas. Ele vai cantar uma música diferente quando vir uma Glock semiautomática apontada para cabeça dele.
— Escute — disse Matt, — o senhor tem que me prender, não é? Eu exijo que me prenda. Mas não entre naquele bosque!
— Não vejo nenhum bosque — disse o xerife com desdém. — Mal tem espaço entre aquele grupo de três carvalhos para todas as crianças se sentarem. Se quiser ser de alguma ajuda, pode pegar uma ou duas das pequenas quando elas saírem correndo.
— Saírem correndo?
— Quando me virem, elas vão correr. Provavelmente vão se espalhar, mas algumas pegarão o caminho pelo qual vieram. Você vai ajudar ou não?
 Não, senhor — disse Matt com lentidão e firmeza. — E... e escute... Olha, estou implorando para que o senhor não entre lá! Acredite, eu sei o que estou falando!
— Não sei que tipo de droga tomou, rapaz, mas de fato não tenho tempo para essa conversa. E se tentar me impedir de novo... — ele girou a Glock para Matt — ...vou indiciá-lo por outra acusação, de obstrução à justiça. Entendeu?
— Tá, entendi — disse Matt, desistindo. Ele arriou em seu esconderijo enquanto o policial, praticamente sem fazer barulho, foi para a mata. Depois o xerife Rich Mossberg andou entre as árvores e saiu do campo de visão de Matt.
Matt ficou sentado no esconderijo, preocupado, por uma hora. Estava quase cochilando quando ouviu um barulho na mata e Shinichi saiu, liderando as crianças risonhas que cantavam.
O xerife Mossberg não saiu com eles.

3 comentários:

  1. Esse xerife devia prestar mais atenção no que os outros falam.

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  2. Pensando por outro lado, Elena foi até o inferno, literalmente, atrás de Stefan, ela merece ter Damon bajulando ela e dando beijos nela, porque depois do que essa coitada passou, quem é Stefan para culpá-la de alguma coisa?!

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    1. E quem colocou o Stefan nesse lugar? Hummm? Ele n teve culpa de nada, mas mesmo assim merece ser traido? Depois de tudo q ele fez por ela? Pura sacanagem o que a Elena ta fazendo com ele. Belo amor o dela por ele mesmo -.-'

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