20 de novembro de 2015

Capítulo 21

 Sim, realmente faz um sentido horrível  disse Meredith. Eles estavam na sala da família de Isobel, esperando pela Dra. Alpert. Meredith estava em uma mesa bonita feita de algum tipo de madeira preta ornamentada com desenhos em dourado, trabalhando em um computador que havia sido deixado ligado. ― As meninas de Salém acusavam pessoas de feri-las – bruxas, é claro. Diziam que eram beliscadas e “picadas com alfinetes.
 Como Isobel nos culpando  diz Bonnie, balançando a cabeça.
 E elas tinham convulsões e contorciam seus corpos em “posições impossíveis”.
 Caroline parecia ter convulsões na sala de Stefan  disse Bonnie.  E se rastejar como um lagarto não significa contorcer seu corpo em uma posição impossível... aqui, vou tentar.
Ela se abaixou no chão dos Saitou e tentou colocar os cotovelos e os joelhos para fora da maneira que Caroline tinha feito. Ela não podia fazê-lo.
 Viu?
 Oh, meu Deus!  disse Jim na porta da cozinha, segurando – quase deixando cair – uma bandeja de comida. O cheiro de sopa se espalhou pelo ar, e Bonnie não tinha certeza se isso a fez sentir fome ou se ela estava tão enjoada a ponto de nunca mais sentir fome novamente.
 Tudo bem  ela falou para ele apressadamente, levantando-se. ― Eu estava só... tentando uma coisa.
Meredith se levantou também.
 Isto é para Isobel?
 Não, é para Obaasan – quero dizer, para a avó de Isa-chan... Vovó Saitou...
 Eu te disse para chamar todos da maneira que lhe pareça natural. Obaasan está ótimo, assim como Isa-chan  Meredith disse suave e firmemente para ele.
Jim relaxou.
 Eu tentei dar de comer a Isa-chan, mas ela jogou a bandeja na parede. Disse que não pode comer; que alguém a está sufocando.
Meredith olhou significativamente para Bonnie. Então se virou para Jim.
 Por que você não me deixa levar isso? Você já passou por muita coisa. Onde ela está?
 Lá em cima, segunda porta à esquerda. Se ela... se ela disser alguma coisa estranha, apenas a ignore.
 Está bem. Fique perto da Bonnie.
 Oh, não  Bonnie disse apressadamente. ― Bonnie também vai.
Ela não sabia se era para sua própria proteção ou para a proteção de Meredith, mas estava indo para ficar grudada como cola.
Lá em cima, Meredith acendeu a luz do corredor com cuidado, usando o cotovelo. Então seguiram para a segunda porta à esquerda, onde se encontrava uma senhora idosa, parecida com uma boneca. Ela estava exatamente no centro do quarto, deitada exatamente no centro de um futon. Ela se curvou e sorriu quando elas entraram. O sorriso no rosto enrugado parecia com o de uma criança feliz.
 Megumi-chan, Beniko-chan, vocês vieram me ver! ― ela exclamou, curvando-se onde estava sentada.
 Sim  Meredith respondeu cuidadosamente. Ela colocou a bandeja no chão ao lado da velha senhora. ― Viemos ver a senhora, Sra. Saitou.
 Não brinque comigo! É Inari-chan! Ou você está com raiva de mim?
 Todos esses chans. Eu pensei que “Chan” fosse um nome chinês. Isobel não é japonesa?  Bonnie sussurrou atrás de Meredith.
Uma coisa que a velha senhora parecida com uma boneca não era, era surda. Ela caiu na gargalhada, levantando as duas mãos para cobrir a boca pequena.
 Oh, não me façam rir antes que eu coma. Itadakimasu!  Ela pegou a tigela com a sopa e começou a beber.
 Eu acho que chan é algo que você coloca no final do nome de alguém quando são amigos, do jeito que Jimmy faz dizendo Isa-chan ― Meredith disse em voz alta. ― Eeta-daki-mass-u é algo que você diz quando começar a comer. É como “obrigado pela refeição”. E isso é tudo que eu sei.
Uma parte da mente de Bonnie notou que os – amigos de Vovó Saitou tinham nomes que começavam com M ou B. A outra parte estava calculando qual era a relação entre este quarto e o quarto do andar de baixo – o quarto de Isobel, para ser mais exata.
Este estava diretamente acima.
A pequena mulher de idade parou de comer e as olhou atentamente.
 Não, não, vocês não são Beniko-chan e Megumi-chan. Eu sei disso. Mas elas me visitam de vez em quando, assim como meu querido Nobuhiro. Fazem outras coisas também, coisas desagradáveis, mas eu nasci em um templo para donzelas – sei me defender deles.  Um breve olhar de satisfação passou pela sua inocente velha face. ― Esta casa está possuída, você sabe  ela adicionou. ― Kore ni wa kitsune ga karande isou da ne.
 Eu sinto muito, Sra. Saitou... o que significa isso?  perguntou Meredith.
 Eu disse, há um kitsune envolvido de alguma forma.
 Um kit-su-nay?  Meredith repetiu, perguntando.
 Uma raposa, garota boba  a velha mulher disse alegremente. ― Eles podem se transformar em qualquer coisa que gostem, não sabia? Até mesmo seres humanos. Ora, um poderia se transformar em você e o seu melhor amigo não saberia a diferença.
 Então... um tipo de mutante de raposa?  Meredith perguntou, mas Vovó Saitou estava balançando para frente e para trás agora, seu olhar na parede atrás de Bonnie.
 Costumávamos brincar do jogo do círculo  ela disse. ― Todos em um círculo e um no centro, de olhos vendados. E cantávamos uma canção. Ushiro no shounen daare? Quem está atrás de você? Eu ensinei para os meus filhos, mas fiz uma pequena canção em Inglês para cantar com eles.
E ela cantou, na voz dos mais velhos ou dos muito jovens, com os olhos inocentes fixos em Bonnie o tempo todo.

“Raposa e tartaruga
Fizeram uma corrida.
Quem está lá longe atrás de você?

Quem ficou em
Segundo lugar
Quem está perto atrás de você?

Seria uma refeição agradável
Para o vencedor.
Quem está pertinho atrás de você?

Adorável sopa de tartaruga
Para o jantar!
Quem está exatamente atrás de você?”

Bonnie sentiu uma respiração quente em seu pescoço. Ofegante, ela deu meia volta – e gritou. E gritou.
Isobel estava lá, pingando sangue nos tapetes que cobriam o chão. Ela tinha de alguma forma passado por Jim e se esgueirado até o quarto no andar de cima, sem que ninguém a visse ou ouvisse. Agora estava parada ali, como uma deusa dos piercings distorcida, ou a materialização de um pesadelo horrível. Estava vestindo apenas uma parte debaixo de biquíni muito pequena. Caso contrário estaria nua, exceto pelo sangue e pelos diferentes tipos de aros, pregos e agulhas que ela havia posto nos furos. Ela tinha perfurado partes do corpo que Bonnie nunca tinha ouvido falar que se podia perfurar, e algumas que Bonnie nunca tinha sonhado. E cada buraco estava torto e sangrando.
Sua respiração estava quente, fétida e nauseante – como ovos podres.
Isobel apontou sua língua rosada. Ela não estava perfurada. Estava pior. Com algum tipo de instrumento ela tinha cortado o longo músculo em dois, de modo que ficasse bifurcada como a de uma cobra.
A coisa bifurcada rosa lambeu a testa de Bonnie.
Bonnie desmaiou.


Matt dirigia lentamente na pista quase invisível. Não havia nenhuma placa de estrada para identificá-la, ele notou. Subiram uma pequena colina e então desceram acentuadamente para uma pequena clareira.
 Mantenha-se afastado dos círculos mágicos  disse Elena suavemente, como se estivesse citando alguém. ― E dos velhos carvalhos...
 Do que você está falando?
 Pare o carro  quando ele parou, Elena ficou no meio da clareira. ― Você não acha que há um tipo de sensação mágica aqui?
 Eu não sei. Onde a coisa vermelha foi?
 Em algum lugar aqui. Eu vi!
 Eu também – e você viu como ela era maior do que uma raposa.
 Sim, mas não tão grande quanto um lobo.
Matt soltou um suspiro de alívio.
 Bonnie simplesmente não vai acreditar em mim. E você viu como se moveu rapidamente...
 Rápido demais para ser algo natural.
 Você está dizendo que não vimos nada na verdade?  Matt perguntou quase ferozmente.
 Estou dizendo que vimos alguma coisa sobrenatural. Como o inseto que atacou você. Como as árvores, por falar nisso. Algo que não segue as leis deste mundo.
Por mais que eles tivessem procurado, não conseguiram encontrar o animal.
Os galhos e os arbustos entre as árvores cresciam em um círculo denso. Mas não havia nenhuma evidência de um buraco ou esconderijo ou um espaço vazio no mato denso.
E o sol estava deslizando no céu. A clareira era bonita, mas não havia nada de interesse para eles.
Matt tinha acabado de dizer isso a Elena quando a viu levantar-se rapidamente, em alarme.
 O quê...?  Ele seguiu seu olhar e parou.
Uma Ferrari amarela bloqueava o caminho de volta para a estrada.
Eles não tinham passado por uma Ferrari amarela na vinda. Só havia espaço para um carro na estrada de pista única.
No entanto, lá estava a Ferrari, parada.
Galhos estalaram atrás de Matt. Ele virou-se.
 Damon!
 Quem você esperava? ― os Ray-Bans oblíquos escondiam completamente os olhos de Damon.
 Nós não estávamos esperando ninguém ― disse Matt agressivamente. ― Nós apenas paramos aqui.
A última vez que tinha visto Damon foi quando Damon tinha sido expulso como um cão do quarto de Stefan, quando ele queria muito dar um soco na boca de Damon, Elena sabia. Ela podia sentir que ele queria isso de novo agora.
Mas Damon não era o mesmo que tinha sido quando deixou o quarto.
Elena podia ver o perigo crescendo fora dele como ondas de calor.
 Oh, eu vejo. Esta é a... sua área privada – para explorações privadas ― Damon traduziu, e havia uma nota de cumplicidade em sua voz que Elena não gostou.
 Não! ― Matt rosnou. Elena percebeu que teria que mantê-lo sob controle. Era perigoso enfrentar Damon neste estado. ― Como você pode dizer isso? ― Matt continuou. ― Elena pertence a Stefan.
 Bem, pertencemos um ao outro  Elena acrescentou.
 Claro que sim  disse Damon.  Um corpo, um coração, uma alma.
Por um momento havia algo lá – uma expressão dentro do Ray-Ban, ela pensou, que era assassina.
Imediatamente, porém, o tom de Damon passou para um murmúrio inexpressivo.
 Mas então, por que vocês dois estão aqui? ― Sua cabeça, virando-se para acompanhar o movimento de Matt, se movia como um predador monitorando a presa. Havia algo mais inquietante do que o habitual em sua atitude.
 Nós vimos algo vermelho  Matt disse antes que Elena pudesse detê-lo. ― Algo como o que vi quando tive o acidente.
Formigamentos agora corriam para cima e para baixo nos braços Elena. De alguma forma ela desejava que Matt não tivesse dito nada. Nesta clareira escurecida e tranquila no bosque verde, de repente, ela estava com muito medo.
Esticando seus novos sentidos ao máximo – até  que ela pudesse senti-los esticados como um fino vestido cobrindo tudo ao seu redor, ela pôde sentir o erro lá, também, e sentiu que isso passava além do alcance de sua mente. Ao mesmo tempo, sentiu os pássaros ficando quietos ao longo de todo o caminho.
O que foi mais perturbador foi virar bem agora, assim que os sons dos pássaros pararam, e encontrar Damon se virando para olhar para ela. Os óculos de sol impediam-na de saber o que ele estava pensando. O resto do seu rosto era uma máscara.
Stefan, pensou ela, impotente, saudosamente.
Como ele poderia tê-la deixado... assim? Sem nenhum aviso, nenhuma ideia do seu destino, nenhuma maneira de contatá-lo de novo... Isto talvez fizesse sentido para ele, com seu desejo desesperado de não transformá-la em algo que ele odiava em si mesmo. Mas, deixá-la com Damon neste estado, e quando todos os seus poderes anteriores tinham desaparecido...
É sua própria culpa, ela pensou, encurtando a inundação de autopiedade. Foi você quem acreditou na fraternidade deles. Foi você quem o convenceu de que Damon era confiável. Agora lide com as consequências.
 Damon  ela falou Eu estava procurando por você. Queria perguntar-lhe... sobre Stefan. Você sabe que ele me deixou.
 Claro. Acredito que as palavras foram para seu próprio bem. Ele me deixou para ser seu guarda-costas.
 Então você o viu duas noites atrás?
 Claro.
E – logicamente – você não tentou impedi-lo. As coisas não podiam ter ocorrido melhor para você, Elena pensou. Ela nunca quis as habilidades que tivera como um espírito, nem mesmo quando percebeu que Stefan tinha ido e que estava fora do alcance todo-e-simplismente-humano.
 Bem, eu não vou deixá-lo me abandonar  afirmou categoricamente  para o meu próprio bem, ou por qualquer outro motivo. Eu vou segui-lo – mas primeiro preciso saber aonde ele poderia ter ido.
 Você está perguntando para mim?
 Sim. Por favor. Damon, tenho que encontrá-lo. Preciso dele. Eu...
Ela estava começando se engasgar, e teve que ser severa consigo mesma. Mas só então percebeu que Matt estava murmurando baixinho com ela.
 Elena, pare. Acho que estamos apenas deixando-o louco. Olhe para o céu.
Elena sentiu isso por si própria. O círculo de árvores parecia estar se fechando ao seu redor, mais escuro do que antes, ameaçador. Elena inclinou o queixo lentamente, olhando para cima. Diretamente acima deles, nuvens cinzentas se agruparam, acumulando-se em si mesmas, cirrus comprimidas por cumulus, formando uma tempestade – exatamente em cima do local onde eles estavam parados.
No chão, pequenos redemoinhos começaram a se formar, levantando mãos cheias de folhas de pinheiro e folhas frescas de verão para fora de suas mudas. Ela nunca tinha visto nada parecido antes, e isso encheu a clareira com um cheiro doce, mas sensual, com cheiro forte de óleos exóticos e de longas noites escuras de inverno.
Olhando para Damon, então, ela viu turbilhões levantando mais alto e o cheiro doce cercando-a, resinoso e aromático, fechando-se até ela perceber que isso estava encharcando as suas roupas e depois se impregnando em sua própria carne, ela sabia que tinha se excedido.
Não podia proteger Matt.
Stefan me disse para confiar em Damon em seu bilhete no meu diário. Ele o conhece melhor do que eu, ela pensou desesperadamente. Mas ambos sabemos o que Damon quer, ultimamente. O que ele sempre quis. Eu. Meu sangue...
 Damon  ela começou baixinho, e se interrompeu. Sem olhar para ela, ele estendeu a mão com a palma em sua direção.
Espere.
 Há algo que tenho que fazer  ele murmurou.
Abaixou-se, cada movimento era inconsciente e gracioso como uma pantera, e pegou um galho quebrado do que parecia ser um pinho da Virgínia. Balançou-o ligeiramente, analisando, erguendo-o na mão como se estivesse sentindo o peso e equilíbrio.
Parecia mais um leque do que um graveto.
Elena estava olhando agora para Matt, tentado dizer-lhe com seus olhos tudo o que estava sentindo, principalmente dizendo o que ela lamentava: lamentava por ter trazido ele para isso; lamentava por ter se importado com ele; lamentava por tê-lo trazido para um grupo de amigos que estava tão intimamente ligado com o sobrenatural.
Agora eu sei um pouco do que Bonnie deve ter sentido no ano passado, ela pensou, sendo capaz de ver e prever coisas sem ter o mínimo de poder para detê-las.
Matt, sacudindo a cabeça, já estava se movendo furtivamente em direção às árvores.
Não, Matt. Não. Não!
Ele não entendeu. Nem ela, exceto pela sensação de que as árvores estavam se mantendo longe apenas por causa da presença de Damon. Se ela e Matt se aventurassem pela floresta; se eles deixassem a clareira, ou mesmo se permanecessem aqui por muito tempo... Matt pôde ver o medo na face dela, e seu próprio rosto refletia a desagradável descoberta. Eles estavam presos.
A menos...
 Tarde demais  disse Damon drasticamente.  Eu lhe disse, há algo que tenho que fazer.
Ele tinha aparentemente encontrado o galho que estava procurando. Agora se levantou, flexionou-o ligeiramente, e trouxe-o para baixo em um movimento único; cortando lateralmente enquanto o fazia.
E Matt convulsionou em agonia.
Era um tipo de dor que ele nunca tinha sequer sonhado antes: uma dor que parecia brotar de dentro dele mesmo, mas de todos os lugares, todos os órgãos do seu corpo, cada músculo, cada nervo, cada osso, liberando um tipo diferente de dor.
Seus músculos doíam e se contraíam, como se ele estivesse sendo forçado a fazer uma ultima flexão, mas eram forçados a se flexionar mais longe ainda. Dentro, seus órgãos estavam em chamas. Facas estavam talhavam sua barriga. Seus ossos pareciam como da vez em que tinha quebrado o braço, quando tinha nove anos de idade e um carro tinha batido no carro do seu pai. E seus nervos – se houvesse um controle nos nervos que respondiam à mudança do “prazer” para “dor” – esse tinha sido mudado para “aflição.” O toque das suas roupas em sua pele era insuportável.
As correntes de ar que passavam eram agonizantes. Ele suportou quinze segundos e então desmaiou.
 Matt!
Em seu caso, Elena tinha congelado, os músculos bloqueados, incapazes de se mover pelo que pareceu ser uma eternidade. Quando foi libertada, ela correu para Matt, puxou-o para o seu colo, olhou para o rosto dele. Então olhou para cima.
 Damon, por quê? Por quê? ― De repente ela percebeu que, apesar de Matt não estar consciente, ele ainda estava se contorcendo de dor. Ela teve que controlar as palavras para não gritar, para falar firmemente apenas. ― Por que você está fazendo isso? Damon! Pare com isso.
Ela olhou para o rapaz todo vestido de preto: calça preta com um cinto preto, botas pretas, casaco de couro preto, cabelos negros e aqueles malditos Ray-Ban.
 Eu disse a você,  disse Damon casualmente.  É algo que preciso fazer. Preciso assistir. Uma morte dolorosa.
 Morte!  Elena olhava Damon em descrédito. E então ela começou a reunir todo o seu Poder, de uma forma que tinha sido tão fácil e instintivo há poucos dias, enquanto ela estava muda e não sujeita à gravidade, e que era tão difícil e tão estranho agora. Com determinação, ela falou: ― Se você não deixá-lo ir – agora – vou te acertar com tudo o que eu tenho.
Ele gargalhou. Ela nunca tinha visto Damon rir realmente antes, não como agora.
 E você espera que eu vá mesmo sentir o seu minúsculo Poder?
 Não tão minúsculo ― Elena pesou assustadoramente. Não era mais do que o Poder intrínseco de qualquer ser humano – o Poder que os vampiros tomam dos humanos junto com o sangue que eles bebem – mas desde que se tornara um espírito, ela sabia como usá-lo. Como atacar com ele. ― Acho que você vai sentir, Damon. Deixe-o ir AGORA!
 Por que as pessoas sempre acham que ao gritar vão conseguir sucesso onde a lógica não conseguiu? ― Damon murmurou.
Elena lhe daria tudo o que tinha.
Ou pelo menos ela se preparou. Tomou o fôlego necessário, segurou-o por um tempo, e imaginou-se segurando uma bola de fogo branco, e então...
Matt estava de pé. Ele parecia ser arrastado para ficar de pé e depois sendo mantido assim como um fantoche, e seus olhos estavam lacrimejando involuntariamente, mas era melhor do que Matt se contorcendo no chão.
 Você me deve  disse Damon a Elena casualmente.  Eu vou cobrar depois.  Para Matt, ele falou em um tom de um tio amável, com um daqueles sorrisos instantâneos que você nunca tinha certeza de que viu ou não. ― Sorte a minha de que você é um do tipo durão, não é?
 Damon  Elena tinha visto o humor de vamos-brincar-com-essa-criatura de Damon, e era o que ela menos gostava. Mas havia algo estranho hoje, algo que ela não conseguia entender. ― Coloque-o no chão  pediu, enquanto os pelos em seus braços e da parte de trás do pescoço se arrepiavam. ― O que você quer realmente?
Mas ele não deu a resposta que ela esperava.
 Eu fui oficialmente nomeado como seu guardião. Estou oficialmente cuidando de você. E para isso, não acho que você deva ficar por aí sem a minha proteção e o meu companheirismo, enquanto meu irmãozinho está desaparecido.
 Eu posso me cuidar  Elena respondeu categoricamente, acenando com a mão para que eles pudessem chegar até a verdadeira questão.
 Você é uma menina muito bonita. Coisas perigosas e  um rápido sorriso ― desagradáveis poderiam acontecer com você. Insisto para que tenha um guarda-costas.
 Damon, agora a coisa de quem eu mais preciso ser protegida é você. Você sabe disso. Sobre o que é isso tudo, afinal?
A clareira estava... pulsante. Quase como se fosse algo orgânico, respirando. Elena tinha a sensação de que sob seus pés – debaixo das velhas botas de caminhada de Meredith – o chão estava se movendo rapidamente, como um grande animal adormecido, e as árvores eram como um coração batendo.
Para quê? Para a floresta? Havia mais madeira morta do que viva aqui. E ela podia jurar que conhecia Damon bem o suficiente para saber que ele não gostava de árvores ou bosques.
Era em momentos como esse que Elena desejava ainda ter asas. Asas e o conhecimento – os movimentos de mão, as Palavras de Poder Branco, o fogo branco dentro dela que lhe permitiria saber a verdade, sem tentar compreendê-la, ou simplesmente explodir os aborrecimentos de volta para Stonehenge.
Parecia que tudo o que tinha lhe sobrado era ser uma atração ainda mais irresistível para os vampiros, e a sua inteligência.
Inteligência tinha funcionado até agora. Talvez se ela não deixasse Damom perceber como ela estava com medo, poderia ganhar uma nova tentativa com ele.
 Damon, eu te agradeço por estar preocupado comigo. Agora, você se importaria de deixar Matt e eu a sós por um momento para que eu possa dizer se ele ainda está respirando?
De dentro do Ray-Ban, ela pensou que poderia discernir um único lampejo de vermelho.
 De alguma maneira, achei que você poderia dizer isso  Damon falou.  E, claro, é seu direito ter algum consolo depois de ser tão traiçoeiramente abandonada. Respiração boca-a-boca, por exemplo.
Elena queria xingar. Cuidadosamente, ela respondeu:
 Damon, se Stefan designou-o como meu guarda-costas, então ele dificilmente teria ”traiçoeiramente me abandonado”, não é? Você não pode ter as duas coisas...
 Apenas permita-me uma coisa, tudo bem?  disse Damon na voz de alguém cujas próximas palavras vão ser “Tenha cuidado ou “Não faça nada que eu não faria”.
Houve um silêncio. Os redemoinhos de poeira tinham parado de girar. O cheiro de folhas de pinhos aquecidas pelo sol e de resina de pinheiro neste lugar escuro estava deixando-a lânguida, tonta. O chão estava quente, também, e as folhas de pinheiro foram todas alinhadas, como se o animal adormecido tivesse folhas de pinheiro como pele. Elena assistiu os grãos de poeira girando e brilhando como pedaços de ouro na luz do sol. Ela sabia que não estava no seu melhor agora; não na sua melhor forma. Finalmente, quando ela tinha certeza de que sua voz seria constante, ela perguntou:
 O que você quer?
 Um beijo.

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