26 de novembro de 2015

Capítulo 20

Elena sentiu o maior alívio de sua vida quando ouviu Damon bater na porta do Dr. Meggar.
— O que aconteceu no Ponto de Reunião? — perguntou.
— Não fui para lá. — Damon explicou sobre a emboscada enquanto as outras meninas, disfarçadamente, examinavam Sage com variados graus de aprovação, gratidão ou simplesmente desejo. Elena percebeu que havia bebido Black Magic demais, quase desmaiou em vários momentos — embora tivesse certeza de que o vinho tinha ajudado Damon a sobreviver ao ataque da multidão, que poderia tê-lo matado.
Elas, por sua vez, explicaram a história de Lady Ulma o mais breve possível. No final, a mulher estava pálida e trémula.
— Espero — disse ela timidamente a Damon — que, já que herdou os bens do Velho Drohzne — ela parou para engolir em seco, — o senhor tenha decidido ficar comigo. Sei que as escravas que trouxe são bonitas e jovens... Mas posso ser muito útil como costureira e coisas assim. Minhas costas perderam as forças, mas minha mente não...
Damon ficou imóvel por um momento. Depois andou até Elena, que por acaso era a mais próxima dele. Estendeu a mão para o pulso dela e desfez o último laço da corda que ainda estava em seu pulso e o atirou com força pelo quarto. A corda se agitou e se retorceu como uma serpente.
— Por mim, todas que estiverem usando uma dessas podem fazer o mesmo — disse ele.
Menos o arremesso — disse Meredith rapidamente, vendo as sombrancelhas do médico se unindo enquanto ele olhava os muitos bécheres de vidro junto às paredes. Mas ela e Bonnie logo se levaram de quaquer vestígio de corda que ainda restasse.
— Receio que a minha seja... permanente — disse Lady Ulma, afastando o tecido do pulso e expondo as pulseiras de ferro soldadas. Ela pareceu envergonhada por ser incapaz de obedecer à primeira ordem de seu novo senhor.
— Pode suportar um instante de frio? Tenho Poder suficientepara congelá-las, e assim elas se quebrarão — disse Damon.
Ouviu-se um murmúrio suave de Lady Ulma. Elena nunca notara tanto desespero em uma voz humana antes.
— Eu seria capaz de ficar enterrada na neve até o pescoço por um ano para me livrar dessas coisas — disse Lady Ulma.
Damon pôs as mãos sobre a pulseira e Elena sentiu a onda de Poder que emanava dele. Ouviu-se um estalo agudo. Damon afastou as mãos e ergueu dois pedaços de metal.
Depois fez o mesmo do outro lado.
O olhar de Lady Ulma provocou mais humildade do que orgulho em Elena. Ela salvou uma mulher da degradação terrível. Mas quantos ainda restavam? Jamais saberia, muito menos seria capaz de salvar todos, se os encontrasse. Não com seu Poder como estava agora.
— Acho que Lady Ulma realmente precisa descansar um pouco — disse Bonnie, esfregando a testa sob os cachos arruivados. Elena também. Você devia ter visto quantas suturas ela levou na perna, Damon. Mas o que vamos fazer, procurar um hotel?
— Podem ficar na minha casa — disse o Dr. Meggar, com uma sombrancelha erguida e outra arriada. Obviamente, ele se envolvera na história, levado por seu mero poder e beleza... e pela brutalidade. — Só peço que não destruam nada e, se virem um sapo, não o beijem, nem o matem. Tenho muitos lençóis, poltronas e sofás.
Ele não aceitou um aro que fosse da pesada corrente de ouro que Damon trouxera para usar como moeda de troca.
— Eu... agora tenho de ajudar vocês todos a se prepararem para dormir — murmurou Lady Ulma para Meredith com uma voz fraca.
— É você quem está mais machucada e deve ficar com a melhor cama — respondeu Meredith com tranquilidade. — E nós vamos ajudar você a se deitar.
— A cama mais confortável seria a do antigo quarto de minha filha. — O Dr. Meggar mexeu em um molho de chaves. — Ela se casou com um porteiro... Odiei vê-la partir. E essa jovem, a Srta. Elena, pode ficar com a antiga câmara nupcial.
Por um instante, o coração de Elena ficou dividido por emoções conflitantes. Ela estava com medo — sim, tinha certeza de que era medo o que sentia — de que Damon a pegasse nos braços e fosse para a suíte nupcial com ela. Por outro lado...
Neste momento, Lakshmi a olhou, insegura.
— Quer que eu vá embora? — perguntou ela.
— Você tem para onde ir? — Elena quis saber.
— As ruas, eu acho. Costumo dormir num barril.
— Fique aqui então. Venha comigo, uma cama nupcial parece grande o bastante para duas pessoas. Agora você é uma de nós.
O olhar que Lakshmi lhe deu era de uma profunda gratidão. Não por ter onde ficar, pelo que Elena entendeu. Pela declaração, 'Agora você é uma de nós'.
Elena podia sentir que Lakshmi nunca pertencera a nenhum grupo antes.
As coisas estavam tranquilas até quase o amanhecer‖ do dia‖ seguinte, como diziam os habitantes da cidade, embora a luz variasse a noite toda.
Desta vez havia uma multidão diferente na frente do prédio do médico.
Era composta principalmente de homens idosos, usavam mantos esfarrapados mas limpos — mas havia também algumas mulheres mais velhas. Eram liderados por um homem de cabelos prateados que tinha um estranho ar de dignidade.
Damon, com Sage ao seu lado, saiu do prédio do médico e falou com eles.



Elena já estava vestida, mas esperava no segundo andar, na tranquila suíte nupcial.

Querido Diário,
Ah, meu Deus, preciso de ajuda! Oh, Stefan... Preciso de você. Preciso que me perdoe. Preciso que me mantenha sã. Estou há tempo demais com Damon e completamente emotiva, pronta para matá-lo ou... ou... não sei. Eu não sei!!! Somos como madeira e sílex juntos — meu Deus! Somos como gasolina e um lança-chamas! Por favor, me ouça, me ajude e me salve... de mim mesma. Sempre que ele diz meu nome...

— Elena.
A voz atrás de Elena a fez saltar. Ela fechou o diário rapidamente e se virou.
— Sim, Damon?
— Como está se sentindo?
— Ah, ótima. Estou bem. Até a minha perna está... Quero di..., estou bem. E você?
— Eu... estou muito bem — disse ele, e sorriu, e era um sorriso verdadeiro, não um esgar que se distorcia em algo diferente no ultimo segundo, nem uma tentativa de manipulação. Era apenas um sorriso, embora preocupado e triste.
Elena só percebeu a tristeza nele quando lembrou-se daquele momento mais tarde. De repente sentiu que não tinha peso nenhum; que se não se segurasse podia voar por quilômetros antes que alguém pudesse detê-la — quilometros, talvez até as luas deste lugar louco.
Ela conseguiu abrir um sorriso trémulo para Damon.
— Que bom.
— Vim conversar com você — disse ele. — Mas... Primeiro...
De algum modo, no instante seguinte, Elena estava nos braços de Damon.
— Damon... Não podemos continuar com isso... — Ela tentou se afastar gentilmente. — Não podemos mesmo continuar assim você sabe disso.
Mas Damon não a soltou. Havia algo no modo como ele a abraçava que a deixou um tanto apavorada, e ao mesmo tempo lhe deu vontade de chorar de alegria, mas ela reprimiu as lágrimas.
— Está tudo bem — disse Damon com tranquilidade. — Pode chorar. Temos um problema e tanto nas mãos.
Algo na voz dele assustou Elena. Não do jeito meio alegre com que sentiu medo um minuto antes. Aquilo era definitivamente mais sério.
Isto porque ele tinha medo, pensou Elena subitamente, admirada. Ela vira Damon colérico, melancólico, frio, desdenhoso, sedutor — até subjugado, envergonhado — mas nunca o vira com medo de nada. Elena mal conseguia que sua mente aceitasse aquele conceito. Damon... com medo... por ela.
— É por causa do que eu fiz ontem, não é? — perguntou — Eles vão me matar? — Ela ficou surpresa com a calma com que disse isso. Não sentia nada, somente uma vaga aflição e o desejo de fazer com que Damon não tivesse mais medo.
— Não! — Ele a manteve à distância de um braço, olhando para ela. — Pelo menos não sem matar a mim e Sage... Além de todas as pessoas nesta casa, se bem os conheço. — Ele parou, aparentemente sem fôlego, o que era impossível, lembrou Elena. Ele está ganhando tempo, pensou ela.
— Mas é o que querem fazer — disse ela. Elena não sabia por que tinha tanta certeza. Talvez estivesse captando alguma coisa telepaticamente.
— Eles fizeram... ameaças — disse Damon devagar. — Não por causa do Velho Drohzne; acho que sempre há assassinos por aqui e o vencedor leva tudo. Mas ao que parece, a notícia do que você fez se espalhou da noite para o dia. Os escravos das propriedades próximas estão se recusando a obedecer a seus senhores. Todo este quarteirão de cortiços está em polvorosa... E eles temem o que possa acontecer se outros setores souberem disso. Algo precisa ser feito assim que possível ou toda a Dimensão das Trevas pode explodir como uma bomba.
Enquanto Damon falava, Elena podia ouvir os ecos do que ele lhe contara pela multidão lá fora. Eles também tinham medo.
Talvez aquilo pudesse ser o começo de algo importante, pensou Elena, a mente se afastando de seus próprios problemas. Nem a morte era um preço tão alto para libertar esses miseráveis de seus senhores demoníacos.
— Mas não é o que vai acontecer! — disse Damon, e Elena percebeu que devia estar projetando seus pensamentos. Havia uma angústia genuína na voz de Damon. — Se tivéssemos planejado as coisas, se houvesse líderes que pudessem ficar aqui para controlar a revolução... Se pudéssemos encontrar líderes fortes o bastante para fazer isso... Então haveria uma chance. Mas todos os escravos estão sendo castigados, em todos os lugares onde a notícia se espalhou. Estão sendo torturados e mortos pela mera suspeita de simpatia por você. Seus senhores estão fazendo deles exemplos para toda a cidade. E as coisas só vão piorar.
O coração de Elena, que decolara num sonho de realmente fazer a diferença, espatifou-se no chão e ela olhou, apavorada, nos olhos negros de Damon.
— Mas precisamos impedir isso. Mesmo que eu tenha que morrer...
Damon a puxou de volta para ele.
— Você... Bonnie e Meredith. — Sua voz era rouca. — Muita gente viu as três juntas. Muita gente agora vê as três como desordeiras.
O coração de Elena parou. Talvez o pior fosse que ela podia entender, do ponto de vista da economia escravagista, que se um incidente de tal insolência passasse sem punição e a história se espalhasse... E quem conta um conto aumenta um ponto...
— Ficamos famosos da noite para o dia. Seremos lendas amanhã — murmurou ela, olhando, mentalmente, um dominó cair em outro, atingindo o seguinte até que uma longa fila tombava, formando a palavra "heroína".
Mas ela não queria ser uma heroína. Só viera aqui para resgatar Stefan. E embora pudesse dar a própria vida para impedir que os escravos fossem torturados ou mortos, ela mesma mataria qualquer um que tentasse encostar um dedo em Bonnie ou Meredith.
— Elas sentem o mesmo — disse Damon. — Ouviram o que a congregação tinha a dizer. — Ele segurou os braços dela com força, como se tentasse escorá-la. — Uma jovem chamada Helena foi espancada e enforcada esta manhã porque tinha um nome parecido com o seu. E ela tinha 15 anos.
As pernas de Elena cederam, como frequentemente acontecia quando estava nos braços de Damon... Mas nunca antes por este motivo. Ele arriou junto com ela. Esta era uma conversa que precisavam ter sentados.
— Não foi culpa sua, Elena! Você é o que é, as pessoas a amam assim!
A pulsação de Elena acelerou. A situação já era bem ruim e ela conseguira piorar. Por não ter pensado antes. Por imaginar que apenas a sua vida estava em risco. Por agir antes de avaliar as consequências.
Mas se pudesse voltar no tempo, faria tudo de novo. Ou... com vergonha, pensou ela, faria algo parecido. Se eu soubesse que colocaria em perigo todos a quem amo, teria implorado a Damon para negociar com aquele verme senhor de escravos. Comprar a mulher por um preço exorbitante... Se tivéssemos o dinheiro. Se ele tivesse ouvido... Se outro golpe do chicote não matasse Lady Ulma...
De repente seu cérebro parou também.
Isto era passado. E este é o presente. Trate de lidar com isso.
— O que faremos? — Ela tentou se soltar e sacudiu Damon: estava furiosa. — Deve haver alguma coisa que possamos fazer! Eles podem matar Bonnie e Meredith... E Stefan morrerá se não o encontrarmos!
Damon a apertou com mais força. Mantinha a mente protegida dela, percebeu Elena. Isso podia ser bom ou ruim, ela não sabia. Podia haver uma solução que ele relutava em lhe apresentar. Ou podia significar que a morte das três escravas rebeldes‖era a única coisa que os líderes da cidade aceitariam.
— Damon. — Ele a segurava com força demais, que a impedia de se libertar, então ela não pôde olhá-lo. Mas podia imaginá-lo e tentava se dirigir a ele diretamente, através de sua mente.
Danon, se houver alguma coisa, um jeito de salvarmos Bonnie e Meredith, você precisa me dizer. Tem que me contar. Eu ordeno que me conte!
Nenhum deles estava disposto a ver graça nesta última frase ou notar que a escrava‖ dava ordens a seu senhor. Mas por fim Elena ouviu a voz telepática de Damon.
Eles dizem que se eu a levar de volta ao Jovem Drohzne e você pedir desculpas, pode se livrar disso com apenas seis golpes. De algum lugar Damon tirou uma vara flexível, feita de uma madeira clara. Provavelmente freixo, pensou Elena, surpresa com a sua própria calma. Era um material que funcionava com todos: com vampiros, até nos Antigos, que sem dúvida existiam por aqui.
Mas deve ser feito em público para que possam dar início a boatos diferentes. Acham que o tumulto vai parar se você, que começou isso tudo, admitir seu status de escrava.
Os pensamentos de Damon pareciam sufocados, assim como o coração de Elena. Quantos de seus princípios ela estaria traindo se fizesse isso? Quantos escravos estaria condenando a uma vida de servidão?
De repente a voz mental de Damon era colérica. Não viemos aqui para reformar a Dimensão das Trevas, lembrou-lhe ele, num tom que fez Elena estremecer. Damon a sacudiu de leve. Viemos resgatar Stefan, lembra? Não preciso dizer que nunca mais teremos outra chance de fazer isso se tentarmos bancar o Spartacus... se começarmos uma guerra que sabemos que não podemos vencer. Nem os Guardiões podem vencer essa guerra.
Uma luz surgiu na mente de Elena.
— É claro — disse ela. — Porque não pensei nisso antes?
— Pensou no quê? — disse Damon, desesperado.
— Não faremos a guerra... pelo menos por enquanto. Nem mesmo dominei meus Poderes básicos ainda, e muito menos o Poder das Asas. Assim, eles nem imaginam que elas existem.
— Elena?
— Vamos voltar — explicou Elena a ele, animada. — Quando eu puder controlar meus Poderes. E traremos aliados... Aliados fortes que recrutaremos no mundo humano. Isso pode levar muitos anos, mas um dia vamos voltar e terminar o começamos.
Damon a olhava como se ela tivesse enlouquecido, mas não importava. Elena podia sentir o Poder correndo pelo seu corpo. Era uma promessa, pensou, que ela cumpriria, mesmo que lhe custasse a vida.
Damon engoliu em seco.
— Agora podemos falar... do presente? — perguntou ele.
Era como se ele tivesse acertado na mosca.
O presente. Agora.
— Sim. Sim, é claro. — Elena olhou a vara de freixo com desdém. — É claro, vou fazer isso, Damon. Não quero que mais ninguém se machuque por minha causa antes de eu estar preparada para lutar. O Dr. Meggar é um bom curandeiro. Se me permitirem voltar a ele.
— Sinceramente, não sei — disse Damon, sustentando seu olhar. — Mas de uma coisa eu tenho certeza. Você não sentirá um único golpe, eu lhe prometo — disse ele rápida e sinceramente, os olhos negros crescendo. — Vou cuidar disso; tudo será canalizado para fora. E você nem mesmo verá um vestígio de marca no dia seguinte. Mas — concluiu mais lentamente — terá de me pedir desculpas de joelho, a mim, seu senhor, e àquele velho sujo, abominável e degenerado... — As imprecações de Damon o distraíram por um momento e ele resvalou no italiano.
— A quem?
— Ao líder dos cortiços, e talvez também ao irmão do Velho Drohzne, o Jovem Drohzne.
— Tudo bem. Diga a eles que me desculparei com quantos os Drohzne quiserem. Mas diga logo, para não corrermos o risco de perdermos nossa chance.
Elena podia ver o olhar que ele lhe lançava, mas sua mente estava voltada para dentro. Será que ela deixaria Meredith e Bonnie fazerem isso? Não. Será que permitiria que acontecesse com Caroline, se tivesse algum meio de impedir? De novo, não. Não, não e não. Os sentimentos de Elena em relação a brutalidade com meninas e mulheres sempre foram extraordinariamente fortes. Seus sentimentos para com a condição secundária das mulheres em todo o mundo se tornaram muito claros desde que voltou do além. Se ela voltara ao mundo com algum propósito, decidira Elena, era ajudar a libertar as meninas e mulheres da escravidão que muitas nem mesmo conseguiam perceber.
Mas este caso não era de um ciclo vicioso de mulheres e homens anônimos oprimidos e escravizados. Tratava-se de Lady Ulma, e de manter a mulher e o bebê em segurança... E tratava-se de Stefan. Se ela cedesse, seria apenas uma escrava insolente que provocara um pequeno tumulto pelo caminho, mas fora colocada em seu lugar com firmeza pelas autoridades.
Caso contrário, se seu grupo passasse por uma inspeção minuciosa... Se alguém percebesse que estavam aqui para libertar Stefan... Se Elena desafiasse as autoridades: ― Passe-o para a segurança mais severa — livrem-se daquela coisa idiota de chave kitsune...‖
Sua mente ardia de imagens dos variados castigos que Stefan poderia sofrer, de como podia ser levado, ou perdido se este incidente nos cortiços ganhasse proporções indevidas.
Não. Ela não abandonaria Stefan agora para travar uma guerra que não podia ser vencida. Mas também não se esqueceria dela.
Vou voltar por todos vocês, prometeu Elena. E depois a história terá um final diferente.
Ela percebeu que Damon ainda não a soltara. Olhava-a nos olhos, penetrante como um falcão.
— Eles me mandaram levar você — disse Damon em voz baixa. — Não aceitam um não como resposta... — Elena podia sentir brevemente a ferocidade de sua fúria com eles e pegou a mão de Damon, apertando-a.
— Voltarei com você no futuro, pelos escravos — disse ele. — Você sabe que pode contar comigo, não é?
— Claro que sei — disse Elena, e seu beijo rápido tornou-se um beijo mais demorado. Ela não absorvera realmente o que Damon disse sobre canalizar a dor para fora. Sentia que devia apenas um beijo pelo que estava prestes a suportar; Damon afagou seu cabelo e o tempo nada significou até Meredith bater na porta.
O amanhecer vermelho-sangue assumira um caráter bizarro, quase onírico, quando Elena foi levada à estrutura ao ar livre onde os chefes dos cortiços que mandavam naquela área estavam sentados em pilhas de almofadas que há muito eram elegantes, mas agora estavam surradas. Eles passavam de um lado a outro garrafas e frascos incrustados de jóias, cheios de Black Magic, o vinho que os vampiros realmente desfrutavam, fumando narguilés e de vez em quando cuspindo nas sombras mais escuras. Isto sem levar em consideração o povaréu atraído pela novidade da punição pública de uma humana jovem e bonita.
Elena havia ensaiado sua fala. Foi obrigada a andar, amordaçada e algemada diante das autoridades que soltavam pigarros e cuspiam. O Jovem Drohzne estava sentado em certa glória desconfortável num sofá dourado, e Damon estava de pé entre ele e as autoridades, parecendo estar tenso. Elena nunca ficara tão tentada a improvisar um papel desde sua atuação na peça que participou quando estava no ginásio, quando atirou um vaso de flores em Petrúquio e derrubou a casa na última cena de A megera domada.
Mas este assunto era mortalmente sério. A liberdade de Stefan e as vidas de Bonnie e Meredith dependiam disso. Elena passou a língua pelo interior da boca, que estava seca como osso.
E, estranhamente, encontrou os olhos de Damon, o homem com o bastão, animando-a. Ele parecia dizer a ela, coragem e indiferença, sem usar a telepatia. Elena se perguntou se ele mesmo já estivera em situação parecida.
Ela levou um chute de alguém de sua escolta e se lembrou de onde estava.
Pegara emprestado um traje adequado do guarda-roupa que a filha casada do Dr. Meggar deixara para trás. O que tom que entre quatro paredes, parecia perolado, ficava malva sob o eterno sol carmim do lugar. Mais importante, sem a combinação de seda por baixo, descia até abaixo da linha da cintura de Elena, deixando suas costas completamente nuas. Agora, segundo os costumes, ela se ajoelhou diante dos anciãos e se curvou até que a testa tocasse um tapete decorado e muito sujo aos pés deles, mas vários degraus abaixo.
Um dos homens cuspiu nela.
Houve uma gritaria animada, e murmúrios, e a multidão começou a atirar coisas em Elena. Aqui, as frutas eram preciosas demais para desperdiçá-las.
Mas excremento seco não era, e Elena descobriu as primeiras lágrimas vindo a seus olhos ao perceber o que estavam lhe atirando.
Coragem e indiferença, disse Elena a si mesma, sem se atrever a olhar para Damon.
Agora, quando a multidão sentira que já tivera diversão suficiente, um dos anciãos civis que fumavam narguilé levantou-se. Elena não conseguiu entender o que ele lia em um pergaminho amassado. Pareceu durar uma eternidade.
Elena, de joelhos, com a testa encostada no tapete sujo, achou que ia sufocar.
Por fim o pergaminho foi colocado de lado e o Jovem Drohzne saltou, descrevendo numa voz aguda e quase histérica, e numa linguagem ostentosa, a história de uma escrava que desafiou seu próprio senhor (Damon, notou Elena mentalmente) para se libertar de sua supervisão, depois atacou o chefe de sua família (o Velho Drohzne, pensou Elena) e seu pobre meio de vida, sua carroça, e sua escrava inútil, insolente e preguiçosa, e como tudo isso resultou na morte de seu irmão. Aos ouvidos de Elena, no inicio, ele parecia estar culpando Lady Ulma por todo o incidente, porque ela desabara sob a carga que levava.
— Todos vocês conhecem o tipo de escrava a que me refiro... Ela não se incomodaria em afugentar uma mosca que estive em seu olho — gritou ele, apelando à multidão, que reagiu com novos insultos e uma artilharia renovada sobre Elena, uma que Lady Ulma não estava ali para ser castigada.
Por fim, o Jovem Drohzne terminou contando desta atrevida vil (Elena) que, vestida como homem, pegara a imprestável escrava de seu irmão (Ulma), carregara essa propriedade valiosa (tudo isso sozinha?, perguntou-se Elena ironicamente) e a levara para a casa de um curandeiro altamente suspeito (Dr. Meggar), que agora se recusava a devolver a escrava original.
— Quando soube disso, entendi que jamais veria meu irmão ou sua escrava de novo — gritou, no gemido estridente que ele, de algum modo, conseguira sustentar por toda a narrativa.
— Se a escrava era tão preguiçosa, devia ficar feliz com isso — gritou um piadista na multidão.
— Entretanto — disse um homem muito gordo cuja voz fazia Elena se lembrar de Alfred Hitchcock: a dicção lúgubre e as mesmas pausas antes de pronunciar palavras importantes, acentuando o estado de espírito mais macabro e dando a história um caráter mais sério do que qualquer um tivesse pensado até então. Este era um homem poderoso, percebeu Elena. As obscenidades, o bombardeio, até os pigarros e cusparadas tinham parado. O grandalhão sem dúvida era o equivalente local de um "chefão" para esses pobres moradores dos cortiços. Seria sua palavra que determinaria o destino de Elena.
— E desde então — dizia ele lentamente, mastigando, a cada poucas palavras um doce de formato irregular e dourado, que tirava de uma tigela reservada para ele, — o jovem vampiro Damien fez a reparação... e mais generosamente também... pelos danos à propriedade. — Aqui houve uma longa pausa enquanto ele fitava o Jovem Drohzne. — Portanto, sua escrava, Aliana, que começou toda essa confusão, não será presa ou colocada em leilão público, mas fará sua reverência e rendição humilde aqui e, pela própria vontade, receberá a punição que sabe merecer.
Elena se viu muito confusa. Não sabia se era por causa de toda aquela fumaça que flutuava para seu nível antes de subir em espirais, mas as palavras "colocada em leilão público" provocaram um choque que quase a fez desmaiar. Ela não sabia que isso podia acontecer — e as imagens que lhe vinham à mente eram extremamente desagradáveis. Ela também percebeu seu novo apelido, e o de Damon. Aquilo na verdade era ótimo, pensou ela, uma vez que Shinichi e Misao jamais saberiam dessa pequena aventura.
— Traga-nos a escrava — concluiu o gordo, sentando-se numa grande pilha de almofadas.
Elena foi colocada de pé e levada rispidamente para cima até as sandálias douradas do homem, e os pés incrivelmente limpos, enquanto mantinha os olhos baixos como uma escrava obediente.
— Ouviu todo o protocolo? — O Chefão ainda mastigava suas iguarias e uma lufada de brisa trouxe um cheiro forte ao nariz de Elena; de repente, toda a saliva que podia reunir inundou seus lábios secos.
— Sim, senhor — disse ela, sem saber que título dar a ele.
— Dirija-se a mim como Sua Excelência. Você tem algo a acrescentar em sua defesa? — perguntou o homem, para espanto de Elena. Sua resposta automática era: "Por que pergunta, já que tudo foi arranjado de antemão?" ficou presa nos lábios. Este homem era algo — mais — do que qualquer um dos outros que havia conhecido na Dimensão das Trevas — ou melhor, em toda a sua vida. Ele ouvia as pessoas. Ouviria a mim se eu lhe contasse sobre Stefan, pensou Elena de repente. Mas, pensou, recuperando seu equilíbrio mental, o que ele faria a respeito disso? Nada, a não ser que lhe desse algo em troca e ele lucrasse alguma coisa com isso ou aumentasse poder, ou derrubasse um inimigo.
Ainda assim, ele podia ser um aliado quando ela voltasse este lugar para libertar os escravos.
— Não, Sua Excelência. Nada a acrescentar — disse ela.
— E está disposta a se prostrar e implorar meu perdão e o do amo Drohzne?
Esta era a primeira fala do roteiro de Elena.
— Sim — disse ela, e conseguiu pronunciar suas desculpas pré-fabricadas com clareza e com o engolir em seco no momento certo no final. No alto, Elena podia ver pontos dourados no rosto do gordo, em seu colo, na barba.
— Muito bem. Determino uma pena de dez chibatadas de vara de freixo nesta escrava, como exemplo a outros baderneiros. A pena será aplicada por meu sobrinho Clewd.

6 comentários:

  1. Encontrem logo Stefan, essa história tá ficando mórbida...

    ResponderExcluir
  2. Sinceramente? Calem a boca vcs duas. Não suporto comentários idiotas assim! Se não estão gostando então parem de ler... Mas vcs não sabem o q estão perdendo! Ainda mais com os próximos livros.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Anna seu comentário foi muito mais idiota do que o delas, então já que vc gosta de usar esses termos super educado... Cale a boca vc
      Os livros são ótimos, confesso que to gostando mais do que a série, mas tem hora que enrolam muito em um assunto e isso é um fato, e se ñ gostou do meu comentário tbm, DANE-SE

      Excluir
  3. eba confusao entre leitoras kkkkkkkkkkk mds kkkkkkkkkkk

    ResponderExcluir
  4. ESTOU AMANDO ESTE LIVRO, AMO DAMON E ELENA. GOSTO DA EXPLOSÃO SE SENTIMENTOS/QUÍMICA ENTRE ELES.

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!