15 de novembro de 2015

Capítulo 1

— As coisas podem ser como eram antes — disse Caroline com fervor, estendendo o braço para apertar a mão de Bonnie.
Mas não estava certo. Nada poderia ser como era antes que Elena morresse. Nada. E Bonnie tinha sérias dúvidas sobre aquela festa que Caroline tentava organizar. Uma vaga sensação incômoda na boca do estômago lhe indicava que por algum motivo, aquela era uma ideia muito, mas muito ruim.
— O aniversário de Meredith já passou — falou — foi no sábado passado.
— Mas não teve uma festa, não uma festa de verdade como esta. Temos a noite toda; meus pais não voltarão até o domingo pela manhã. Vamos, Bonnie. Pense só na surpresa que ela vai ter.
Ah, sim, tenho certeza de que ela se surpreenderá, pensou Bonnie. A surpresa será tanta que ela provavelmente me matará depois.
— Olha, Caroline, o motivo pelo qual Meredith não deu uma festa é que ela ainda não tem tanta vontade de fazer festas. Parece… de certo modo uma falta de respeito…
— Mas isso é um equivoco. Elena queria que nos divertíssemos, sei que sim. Ela adorava festas. E odiaria nos ver aqui sentadas e chorando por ela seis meses depois que nos deixou.
Caroline se inclinou para frente, com seus olhos verdes normalmente felinos veementes e persuasivos. Não havia nenhum artifício neles agora, nenhuma das costumeiras manipulações asquerosas de Caroline. Bonnie se dava conta de que o que ela dizia era sério. 
— Quero que voltemos a ser amigas como éramos antes — continuou Caroline. — Sempre comemoramos nossos aniversários juntas, só nós quatro, lembra? E lembra que os garotos sempre tentavam entrar nas nossas festas? Me pergunto se tentarão esse ano.
Bonnie sentiu que perdera o controle da situação. Isso é uma má ideia, isso é uma má ideia, pensou. Mas Caroline continuava falando, mostrando-se sonhadora e quase romântica enquanto falava dos felizes velhos tempos, e Bonnie não tinha coragem de dizer que os felizes velhos tempos estavam tão mortos quanto música de discoteca.
— Mas agora nem sequer somos quatro. Três não dão uma grande festa — protestou debilmente quando teve oportunidade de dizer algo.
— Vou convidar Sue Carson também. Meredith vai gostar, não é?
Bonnie teve que admitir que sim. Todos gostavam de Sue. Mas ainda assim, Caroline tinha que compreender que as coisas não podiam ser como eram antes. Alguém não podia simplesmente substituir Elena por Sue Carson e dizer: “Agora sim, está tudo resolvido.”
Mas, como explico isso para Caroline?, pensou Bonnie, e de improviso acrescentou:
— Vamos convidar Vickie Bennet — sugeriu.
Caroline a olhou atônita.
— Vickie Bennett? Deve estar brincando. Convidar aquela louca que tirou a roupa na frente de metade da escola? Depois de tudo que aconteceu?
— Exatamente devido a tudo que aconteceu — disse Bonnie com firmeza. — Olhe, sei que ela nunca esteve em nosso grupo, mas ela está com o grupo dos pirados; eles não a querem, e ela está assustada com as mortes. Precisa de amigos. Nós precisamos de pessoas. Vamos convidá-la.
Por um momento, Caroline pareceu impotentemente frustrada. Bonnie levantou o queixo, pôs as mãos na cintura e esperou. Finalmente, Caroline suspirou.
— Tudo bem. Vou convidá-la. Mas você tem que levar Meredith à minha casa no sábado à noite. E Bonnie… assegure-se de que ela não tenha ideia do que está acontecendo. Realmente quero que seja uma surpresa.
— Ah, vai ser — disse ela, sombria.
Não estava preparada para a repentina luz que apareceu no rosto de Caroline nem para o calor de seu abraço.
— Fico muito feliz que esteja vendo as coisas como eu — disse ela. — E será magnífico para todas nós voltar a estar juntas.
Você não entende nada, Bonnie disse consigo mesma, atordoada enquanto Caroline se afastava. Como faço para explicar? Dou um soco nela?
E então pensou: Céus, agora tenho que contar a Meredith.
Mas ao chegar ao final do dia, decidiu que talvez Meredith não precisasse que lhe contassem. Caroline queria Meredith surpresa; bom, talvez Bonnie devesse entregar uma Meredith surpresa. Desse modo, ao menos Meredith não teria que se preocupar antecipadamente. Sim, concluiu Bonnie, provavelmente o mais certo seria não contar nada a Meredith.
E quem sabe, escreveu em seu diário a sexta à noite. Talvez esteja sendo muito dura com Caroline. Talvez ela lamente de verdade todas as coisas que nos fez, como querer humilhar Elena na frente de toda a cidade e tentar que acusassem Stefan por assassinato. Talvez Caroline amadureceu desde então e aprendeu a pensar em alguém que não seja ela mesma. Talvez nós realmente nos divertiremos na festa.
E talvez os extraterrestres me sequestrem antes de amanhã à tarde, pensou enquanto fechava o diário. Só lhe restava a esperança.
O diário era um caderno branco e barato da loja local com um desenho de pequenas flores na capa. Não tinha começado a escrevê-lo até que Elena morrera, mas já estava ligeiramente viciada nele. Era o único lugar onde podia dizer qualquer coisa que quisesse sem que as pessoas se mostrassem escandalizadas e exclamassem: Bonnie McCullough! ou Céus, Bonnie! 
Ainda pensava em Elena quando apagou a luz e se pôs embaixo dos lençóis. 


Estava sentada em um exuberante gramado muito cuidado que se estendia até onde alcançava sua vista em todas direções. O céu era de um azul impecável, o ar cálido e perfumado. Os pássaros cantavam.
— Fico muito feliz por ter vindo — disse Elena.
— Ah, sim — disse Bonnie. — Bom, naturalmente, eu também. Claro — voltou a olhar a seu redor e então rapidamente para Elena de novo.
— Mais chá?
Havia uma xícara de chá na mão de Bonnie, fina e frágil como porcelana.
— Sim… claro. Obrigada.
Elena estava com um vestido do século XVIII de musselina branca transparente que colava nela, mostrando quão magra era. Tomou o chá com precisão, sem derramar uma gota.
— Quer um rato?
— Um quê?
— Digo, se você quer sanduíches com o seu chá.
— Ah. Um sanduíche. Sim. Fantástico.
Era de pepino finamente cortado com maionese sobre um delicioso quadrado pão branco. Sem a casca.
Toda a cena era tão cintilante e linda como uma pintura de Seurat. Warm Springs, era onde estávamos. O velho lugar de piquenique, pensou Bonnie. Mas sem dúvida teremos coisas muito mais importantes que discutir que o chá.
— Quem penteia seus cabelos estes dias? — perguntou, pois Elena nunca tinha sido capaz de fazer por si mesma.
— Você gosta?
Elena aproximou a mão da sedosa massa dourado-pálida que levava recolhida no pescoço.
— Está perfeito — disse Bonnie, falando como sua mãe em um jantar de As Filhas da Revolução Americana.
— Bom, o cabelo é importante, você sabe — disse Elena. 
Os olhos brilhavam com um azul mais profundo que o do céu, um azul lápis-lazúli. Bonnie tocou nos próprios cabelos ondulados avermelhados, inconscientemente.
— E é claro, o sangue também é importante — disse Elena.
— Sangue? Ah… Sim, claro — disse Bonnie, atordoada. Não tinha nem ideia do que Elena falava, e se sentia como se tivesse sobre uma corda frouxa por cima de jacarés.
— Sim, o sangue é importante, eu sei — consentiu com a voz débil.
— Outro sanduíche?
— Obrigada.
Era de queijo com tomate. Elena escolheu um para ela e o mordeu com delicadeza. Bonnie a observou sentindo que a inquietude aumentava em seu interior por momentos, e então…
E então viu o barro que derramava das bordas do sanduíche
— O que… que é isso?
O horror tornou aguda sua voz. Pela primeira vez, o sonho parecia um sonho, e descobriu que não podia se mover, que só podia falar entrecortadamente e fitar com os olhos arregalados. Uma grossa gota marrom caiu do sanduíche de Elena sobre a toalha xadrez. Era barro, sem dúvida alguma.
— Elena… Elena, o que…?
— Ah, todos comemos isto aqui embaixo.
Elena sorriu com dentes manchados de marrom. Só que a voz não era a de Elena; era feia e distorcida e era a voz de um homem.
— Você também irá.
O ar já não era cálido e perfumado; era quente e tinha o odor doce e doentio de lixo em decomposição. Havia fossas escuras na grama verde que na verdade não estava bem cuidada, mas selvagem e cheia de buracos. Aquilo não era Warm Springs. Estava no velho cemitério. Como podia não ter notado? Só que as tumbas eram recentes.
— Outro sanduíche? — ofereceu Elena e lançou uma risada obscena.
Bonnie abaixou o olhar para o sanduíche meio comido que segurava e gritou. Pendurado de um lado havia um fibroso rabo castanho. Lançou-o com todas as suas forças contra uma lápide, onde chocou com um ruído abafado. Então pôs-se de pé, a ponto de vomitar, limpou os dedos freneticamente contra o jeans.
— Ainda não pode ir. Os outros logo chegarão — Elena falou.
O rosto de Elena mudava; já tinha perdido os cabelos e a pele se tornava cinza e seca. Coisas se moviam na bandeja de sanduíches e nas fossas recém-abertas. Bonnie não queria ver nenhuma delas; pensou que ficaria louca se olhasse.
— Você não é Elena — gritou e correu.
O vento lançava os cabelos contra seus olhos e não podia ver se sua perseguidora estava atrás dela; mas podia senti-la bem perto. Alcance a ponte, pensou e então se chocou contra algo.
— Tenho esperado por você — disse a coisa que usava o vestido de Elena, a coisa cinzenta e esquelética com longos dentes retorcidos. — Me escute, Bonnie — ela a segurava com terrível força.
— Você não é Elena! Você não é Elena!
— Me escute, Bonnie!
Era a voz de Elena. A voz verdadeira de Elena, não obscenamente divertida, nem grossa, nem feia, mas sim urgente. Vinha de algum lugar ao fundo e Bonnie varreu o sonho como um vento frio e puro.
— Bonnie, me escute, rápido…
As coisas se fundiam. As mãos ossudas nos braços de Bonnie, o cemitério rastejante, o ar rançoso e quente. Por um momento, a voz de Elena soou nítida, mas intermitentemente como uma chamada de longa distância com uma conexão defeituosa.
— … ele está distorcendo as coisas, as mudando. Não sou tão forte quanto ele… — Bonnie perdeu algumas palavras. — …Mas isto é importante. Você tem que encontrar… agora mesmo — a voz se desvanecia.
— Elena, não estou te escutando! Elena!
— … um feitiço fácil, só dois ingredientes, os que eu já disse…
— Elena!
Bonnie continuava gritando quando despertou de uma vez, muito tensa, na cama.

2 comentários:

  1. Apenas uma palavra sobre esse capítulo...UAU!!!!!!! WTF?

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  2. A Elena tinha dito que cabelo era importante e depois que o sangue também era, esses são os dois ingredientes aos quais ela se refere ao dizer que já contou antes, certo?

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