29 de novembro de 2015

Capítulo 19

Bonnie decidiu, em preciosos segundos que pareceram se esticar por horas, que o que quer que fosse acontecer, aconteceria, não importasse o que ela fizesse. Havia também a questão do seu orgulho. Ela sabia que havia pessoas que iriam rir disso, mas era verdade. Tirando os Poderes de Elena, Bonnie era a única que estava bem acostumada a confrontar as trevas. Ela, de alguma forma, sobrevivera a tudo isso. E em breve, não sobreviveria. Mas do jeito que as coisas iam, seu orgulho era a única coisa que lhe restara.
Ela ouviu gritos bem sonoros e então os ouviu parar.
Bem, isso foi tudo que pôde fazer no momento: parar de gritar.
A escolha havia sido feita. Iria cair, intacta, desafiadora... E em silêncio.
No momento em que parou de gritar, Shinichi fez um gesto e o ogro que a carregava parou de levá-la até a janela.
Ela devia sabia. Ele era um valentão. Valentões querem ouvir dor ou pessoas em estágios miseráveis. O ogro levantou seu rosto ao nível do de Shinichi.
— Animada com sua viagem só de ida?
— Empolgada. — Ela disse sem demonstrar expressão.
Hey, pensou, eu não sou tão ruim neste lance de ser corajosa.
Mas tudo dentro dela tremia duplamente, o que compensava o seu rosto de pedra.
Shinichi abriu a janela.
— Continua empolgada?
Agora que isso havia sido feito, a janela ter sido aberta, ela não teria que bater seu rosto no vidro até que ele se quebrasse e ela saísse voando pelo céu. Não haveria dor até que ela alcançasse o chão e ninguém notaria nada, nem mesmo ela.
Continue firme e conforme-se, Bonnie pensou.
A brisa fresca da janela a havia dito que esse... Lugar... Esse depósito de escravos... Era onde os clientes tinham permissão para vasculhar os escravos até que encontrassem algo de errado... Estava bem ventilado por ali.
Eu estarei fresquinha, mesmo que por um segundo ou mais, ela pensou.
Quando uma porta próxima a eles fora aberta, Bonnie quase saiu das garras do ogro, e quando a sua própria porta fora aberta, ela quase saiu de sua própria pele.
Será possível? Algo loucamente disparou sobre ela. Estou salva! Só tive que bancar um pouco a valente e agora...
Mas era a irmã de Shinichi, Misao. Misao aparentava estar gravemente doente, com sua pele acinzentada, segurando-se na porta para manter-se de pé. A única coisa que não estava acinzentada nela eram seus brilhantes cabelos pretos, com pontas vermelhas nas extremidades, iguais às de Shinichi.
— Espere! — Ela disse a Shinichi. — Você nem ao menos perguntou...
— Você acha que uma cabeça de vento como ela saberia? Mas façamos do seu jeito. — Shinichi sentou Misao no sofá, massageando seus ombros para deixá-la confortável. — Eu perguntarei.
Então era ela que estava no quarto do espelho de duas vias, Bonnie pensou. Ela parece estar bem mau. Tipo, prestes a morrer.
— O que aconteceu com a Esfera Estelar de minha irmã? — Shinichi exigiu e então Bonnie viu como tudo se transformava em um círculo, com um começo e um fim; e ao entender isso, ela sabia morreria com um pouco de dignidade.
— A culpa é minha. — Ela disse com um sorrisinho, enquanto se lembrava. — Ou tenho metade da culpa. Sage usou-a para abrir o Portal lá na Terra. E então...
Ela lhes contou a história, como nunca havia feito antes, colocando ênfase em como ela havia dado a Damon as pistas para encontrar a Esfera Estelar de Misao, e que havia sido Damon quem havia usado-a para abrir um Portal ao topo da Dimensão das Trevas.
— Isso tudo é um círculo. — Ela explicou. — Que volta para vocês.
E então, apesar da situação, ela começou a rir.
Em dois passos, Shinichi havia atravessado a sala e começado a bater nela.
Ela não soube quantas vezes ele fez isso. A primeira vez foi o suficiente para fazê-la arfar e parar com os risos. Depois de sentir suas bochechas inchadas, como se estivesse com um caso muito doloroso de caxumba, seu nariz começou a sangrar.
Ela tentou limpá-lo no ombro, mas não parava.
Por fim, Misao disse:
— Eca. Solte as mãos dela e lhe dê uma toalha ou algo assim.
O ogro se moveu enquanto Shinichi ainda lhe dava a ordem.
Shinichi, agora, estava sentado ao lado de Misao, falando com ela delicadamente, como se estivesse falando com um bebê ou com um adorado animal de estimação. Mas os olhos de Misao, com suas pequenas chamas dentro deles, eram claros e adultos enquanto olhava para Bonnie.
— Onde minha Esfera Estelar está neste momento? — Ela perguntou com um terrível olhar acinzentado e intenso.
Bonnie, que estava limpando o nariz, sentindo-se feliz por não estar algemada pelas costas, se perguntou por que não estava tentando pensar em uma mentira. Tipo, me liberte e eu os levarei até ela. Então, lembrou que Shinichi tinha sua maldita telepatia kitsune.
— Como eu poderia saber? — Ela disse logicamente. — Eu estava tentando afastar Damon do Portal quando ambos caímos. Ela não veio conosco. Pelo o que sei, a poeira pode tê-la derrubado e seu líquido todo se derramou.
Shinichi levantou-se para machucá-la novamente, mas ela estava simplesmente dizendo a verdade.
Misao já estava falando:
— Sabemos que isso não aconteceu por que eu ainda estou... — Ela parou para respirar: — Viva.
Ela virou seu rosto chupado e acinzentado para Shinichi e disse:
— Você está certo. Ela é inútil, e não possui as informações no qual precisamos. Jogue-a fora.
Um ogro a pegou, com toalha e tudo. Shinichi chegou pelo outro lado.
— Você entende o que fez com minha irmã? Entende?
Não há mais tempo. Só um segundo para pensar se ela iria bancar a durona ou não. Mas o que poderia dizer para demonstrar que era corajosa? Ela abriu sua boca, sem ao menos saber se o que estava prestes a sair por ali era um grito ou palavras.
— Ela vai estar com uma aparência bem pior quando meus amigos acabarem com ela. — Ela disse, e então viu nos olhos de Misao que ela havia acertado na mosca.
— Jogue-a fora ! — Shinichi gritou, lívido em fúria.
E então, o ogro a arremessou pela janela.

* * *

Meredith estava sentada com seus pais, tentando entender o que estava acontecendo. Ela havia terminado sua incumbência em tempo recorde: dando zoom nas escritas dos jarros feitos; ligando para a família Saitou e descobrir que elas não estariam em casa antes do meio-dia. Então, ela havia examinado e numerado individualmente cada caractere que havia nas fotos que Alaric havia mandado.
As Saitou estavam... Tensas. Meredith não ficara surpresa, uma vez que Isobel havia sido uma das primeiras inocentes a transportarem aqueles terríveis malach dos kitsune. Uma das piores vítimas havia sido seu namorado, Jim Bryce, que havia adquirido o malach de Caroline e passado para Isobel sem saber o que estava fazendo. Ele mesmo havia sido possuído pelos malach de Shinichi e havia demonstrado ter todos os hediondos sintomas da Síndrome de Lesch-Nyhan, comendo seus próprios lábios e dedos, enquanto a pobre Isobel usou agulhas enferrujadas — às vezes, algumas tachinhas — em várias partes de seu corpo, sem falar que ela havia cortado sua língua com uma tesoura.
Isobel estava fora do hospital e estava se recuperando. Ainda assim, Meredith estava confusa. Ela obteve êxito com o zoom nos caracteres dos jarros por causa das Saitou mais velhas: Obaasan (avô de Isobel) e a Sra. Saitou (mãe de Isobel) — mas elas discutiam, tentando entrar em um acordo, sobre cada caractere em japonês. Ela estava prestes a entrar no carro quando Isobel correu de sua casa com um pacote de Post-It em suas mãos.
— Mamãe os fez... No caso de vocês precisarem. — Ela arfou em sua nova voz enrolada e suave.
Meredith pegou o pacote dela agradecida, murmurando algo estranho sobre fazer algo por elas em troca.
— Não, mas... Mas posso dar uma olhadinha nos seus Post-It? — Isobel ofegou.
Por que ela estava ofegando tanto? Meredith se perguntou.
Mesmo se ela tivesse corrido do último andar até o carro de Meredith isso não teria acontecido.
E então, Meredith se lembrou: Bonnie havia dito que Isobel tinha o coração “acelerado”.
— Veja bem — Isobel disse com o que parecia ser vergonha e um pedido de compreensão. — Obaasan está quase cega... E faz um bom tempo desde que Mamãe esteve na escola... Mas estou fazendo aulas de japonês.
Meredith estava tocada. Obviamente, Isobel sentia-se mal-educada por contrariar um adulto, quando estava próximo. Mas aqui, sentada no carro, Isobel havia pegado cada Post-It e escrito atrás uma caractere similar, mas bem diferente.
Demorou vinte minutos.
Meredith se sentiu admirada.
— Mas como você se lembra de todos eles? Como não escreve outro, por engano? — Ela deixou escapar, depois de ver os símbolos complicados que só se diferenciavam por causa de algumas linhas.
— Com ajuda de dicionários. — Isobel havia dito, e, pela primeira vez, deu uma risada. — Não, estou falando sério... Para escrever uma carta muito boa, você não usa um Dicionário de Sinônimos, um Corretor Autográfico ou...?
— Eu uso isso tudo para qualquer coisa ! — Meredith riu.
Foi um momento bem legal, ambas sorrindo, relaxadas. Sem problemas. O coração de Isobel estava bem.
E então, Isobel havia corrido para dentro, e quando ela se foi, Meredith ficou olhando para um círculo redondo e úmido que estava no banco do passageiro. Uma lágrima. Mas por que Isobel estava chorando?
Porque ela havia se lembrado do malach? Ou por causa de Jim?
Porque levaria muitas cirurgias plásticas antes que suas orelhas voltassem a ser o que eram antes?
Nenhuma das respostas que Meredith pensou fazia sentindo. E ela teve que correr para chegar em sua própria casa e estava atrasada.
Foi só então que Meredith foi atingida por um fato. A família Saitou sabia que Meredith, Matt e Bonnie eram amigos. Mas nenhuma delas havia perguntado sobre Bonnie ou Matt.
Que estranho.
Se ela ao menos soubesse o quão estranho a visita à sua família seria...

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