26 de novembro de 2015

Capítulo 19

Damon não teria pensado que haveria um amigo para um velho tolo e sádico que era capaz de açoitar uma mulher a chicotadas por não conseguir puxar uma carroça no lugar de um cavalo. E o Velho Drohzne, na verdade, podia não ter nenhum. Mas a questão não era essa.
Nem o assassinato, o que era estranho. Assassinatos eram corriqueiros nos cortiços, e o fato de Damon começar uma briga e a vencer não era surpresa para os que transitavam por essas vielas perigosas.
A questão estava em fugir com uma escrava. Ou talvez fosse algo mais profundo. A questão era como Damon tratava as próprias escravas.
Uma multidão de homens — todos homens, nenhuma mulher, pelo que Damon notou — havia se reunido diante do prédio do médico, e de fato traziam tochas.
— Vampiro louco! Vampiro louco à solta!
— Tire-o daí para que a justiça seja feita!
— Queime o lugar se não o entregarem!
— Os anciãos disseram para o levar a eles!
Isto pareceu ter o efeito que a multidão desejava, livrando ruas de mais gente decente e deixando apenas os de mentalidade sanguinária, que se detinham aos menores problemas e adoravam uma briga. A maioria, é claro, era de vampiros. E de vampiros fortes. Mas nenhum deles, pensou Damon, abrindo um sorriso reluzente pelo círculo que se fechava nele, tinha o interesse de saber que a vida de três jovens humanas dependia — e que uma delas era a jóia da coroa da humanidade, Elena Gilbert.
Se ele, Damon, fosse despedaçado nessa luta, as três meninas teriam uma vida de inferno e degradação.
Mas mesmo este pensamento não pareceu ajudá-lo a vencer, uma vez que Damon foi chutado, mordido, cabeceado, esmurrado e perfurado com adagas de madeira — do tipo que corta a carne de um vampiro. No início ele pensou que tinha uma chance. Vários vampiros mais novos e mais fortes caíram como presas de seus golpes rápidos como botes de serpente e seus súbitos ataques de Poder. Mas a verdade era que simplesmente eles eram muitos, pensou Damon, enquanto quebrava o pescoço de um demônio cujas presas longas já haviam cortado seu braço, quase atravessando o músculo. E lá vinha um vampiro imenso, certamente em treinamento, com uma aura que fez Damon sentir a bile no fundo da garganta. Este caiu com um chute cara, mas não ficou no chão; levantou-se, agarrando-se à perna de Damon e deixando que vários vampiros menores com gás de madeira avançassem e cortassem seu tendão. Damon sentiu-se desfalecer enquanto suas pernas não mais respondiam a seu cérebro.
 Que o sol os condene — rosnou ele através de uma bolha de sangue enquanto outro demônio de presas e pele vermelha o esmurrava na boca. —Vão todos para o mais baixo dos infernos...
Isso não foi bom. Vagarosamente, ainda lutando, ainda usando derosas ondas de Poder para mutilar e matar o máximo que pudesse, Damon percebeu isso. Depois tudo foi como num sonho distinto — não como seu sonho com Elena, que ele parecia ver constantemente pelo canto do olho, chorando. Mas num sonho no sentido febril, como se fosse um pesadelo. Ele não podia usar seus músculos com eficiência. Seu corpo estava surrado e, enquanto ele curava as pernas, outro vampiro abria um grande corte em suas costas. Parecia-lhe cada vez mais que estava num pesadelo em que só conseguia se mexer em câmera lenta. Ao mesmo tempo, algo em seu cérebro sussurrava para ele descansar. Descansar... E tudo isso acabaria.
Por fim, em grande número, eles o derrubaram e alguém apareceu com uma estaca.
— A liberdade para a nova escória — dizia o portador da estaca, o hálito fedendo a sangue choco, a face maliciosa e grotesca, ao usar os dedos de leproso para abrir a camisa de Damon e não fazer um buraco na seda preta e refinada.
Damon cuspiu nele e em troca levou um tabefe no rosto.
Ele viu tudo escuro por um instante e depois, lentamente, a dor voltou.
E o barulho. A multidão animada de vampiros e demônios, bêbada de crueldade, batia os pés, ritmadamente, numa dança improvisada em volta de Damon, rindo ao lançarem estacas imaginárias, entrando em frenesi.
Foi quando Damon percebeu que realmente ia morrer.
Foi um choque, embora ele soubesse o quanto esse mundo era muito mais perigoso do que aquele que deixara; mesmo no mundo humano, ele algumas vezes só escapou da morte por um fio. Mas agora não tinha amigos poderosos, nenhum ponto fraco da multidão a explorar. Parecia-lhe que os segundos de repente se estendiam em minutos, cada um deles de extensão incalculável. O que era importante? Dizer a Elena...
— Cegue-o primeiro! Deixe essa estaca em brasa!
— Eu pego as orelhas! Alguém me ajude a segurar a cabeça dele!
Dizer a Elena... Alguma coisa. Algo... Desculpe...
Ele desistiu. Outro pensamento tentava romper sua consciência.
— Não se esqueça de arrancar os dentes! Prometi um colar novo a minha namorada!
Pensei que estava preparado para isso, refletiu Damon lentamente, cada palavra vindo separadamente. Mas... não tão cedo. Pensei que encontraria minha paz... mas não com a única pessoa que importava... Sim, a que mais importava.
Ele não se deu tempo de pensar mais no assunto.
Stefan, ele enviou a onda mais poderosa e clandestina de Poder que podia invocar nesse estado obscuro. Stefan, escute! Elena está indo até você... Ela vai salvá-lo! Ela tem Poderes que minha morte libertará. E eu estou... Estou...
Neste momento houve uma brecha na dança em volta dele. O silêncio caiu nos inebriados participantes daquela festa. Alguns baixaram a cabeça apressadamente ou viraram a cara.
Damon ficou imóvel, perguntando-se o que poderia ter parado a multidão frenética no meio de sua orgia.
Alguém andava em sua direção. O recém-chegado tinha cabelos cor de bronze que pendiam em mechas desordenadas, separadas pela cintura.
Também estava nu até a cintura, expondo um corpo de causar inveja ao demônio mais forte. Um peito que parecia ter sido entalhado em uma pedra de bronze cintilante. Bíceps extraordinariamente esculpidos. Abdome perfeitamente esculpido. Não havia um grama a mais de gordura em toda a sua compleição alta e leonina. Vestia calças pretas e simples, com os músculos ondulando sob o tecido a cada passo.
Em um braço despido, dava para ver nitidamente a tatuagem de um dragão negro devorando um coração.
E não estava sozinho. Não segurava uma cadeira, mas ao seu lado havia um cão preto, lindo, de expressão misteriosamente inteligente, que parecia alerta sempre que ele parava. Devia pesar perto 100 quilos, mas não havia um grama de gordura nele também.
E num ombro ele trazia um grande falcão. Não estava encapuzado, como a maioria das aves de caça nas investidas de suas cavalariças. Também não estava em nada almofadado. Segurava-se no ombro nu do jovem de bronze, cravando as três garras da frente na carne e gerando filetes de sangue que desciam por seu peito. Ele não pareceu perceber. Havia filetes semelhantes e secos ao lado dos novos, sem dúvida de jornadas anteriores. Nas costas, uma garra produzia uma trilha vermelha e solitaria.
Um silêncio absoluto caiu na multidão e sairam do caminho os últimos demônios entre o homem alto e a figura prostrada e ensanguentada no chão.
Por um momento, o homem leonino ficou imóvel. Não disse nada, não fez nada, não emanou nenhum vestígio de Poder. Depois assentiu para o cão, que avançou com as patas pesadas e farejou os braços e o rosto ensanguentados de Damon. Em seguida farejou sua boca e Damon podia ver os pêlos se eriçando em seu corpo.
— Cachorro bonzinho — disse Damon, sonhador, enquanto o focinho úmido e frio fazia cócegas em seu pescoço.
Damon conhecia este animal em particular e também sabia que ele não se encaixava no estereótipo popular do 'cachorro bonzinho'. Era uma fera acostumada a pegar vampiros pelo pescoço e sacudi-los até que suas artérias jorrassem sangue a 2 metros de altura.
Esse tipo de coisa podia manter você tão ocupado que ter uma estaca entrando pelo seu coração pareceria não importar muito, refletiu Damon, mantendo-se imóvel.
— Pare com isso! — disse o jovem de cabelos cor de bronze.
O cão recuou, obedientemente, sem desviar os olhos pretos e brilhantes dos de Damon, que também não os desviou até que estivesse a certa distância.
O jovem de cabelos cor de bronze olhou a multidão brevemente. Depois, sem nenhuma veemência, disse: — Laissez-le seul. — Claramente, não era necessária nenhuma tradução aos vampiros, e eles começaram a se afastar imediatamente. Os de menor sorte foram os que não saíram com rapidez suficiente e ainda estavam ali quando o jovem de bronze deu outra olhada lenta em volta. Para onde olhasse, encontrava olhos baixos e corpos encolhidos, paralisados no ato de se afastar, mas aparentemente transformados em pedra, numa tentativade não chamar atenção.
Damon se viu relaxando. Seu Poder estava voltando, permitindo que se curasse. Percebeu que o cachorro ia de um indivíduo a outro e farejava cada um deles com interesse.
Quando conseguiu levantar a cabeça de novo, Damon deu um sorriso fraco para o recém-chegado.
— Sage. E por falar no diabo...
O breve sorriso do homem de bronze foi macabro.
— Elogia-me, minha querida. Não vê? Estou corando.
— Eu devia saber que você estaria aqui.
 O espaço é infinito para os andarilhos. Mesmo que eu deva fazer isso sozinho.
— Ah, que lástima. Agora os violinos, por favor... — De repente Damon não conseguia mais. Simplesmente não podia. Talvez fosse por ter estado com Elena ou porque esse mundo horrendo o deprimia indizivelmente. Mas quando voltou a falar, sua voz era completamente diferente: — Nunca pensei que me sentiria tão grato. Você salvou cinco vidas, embora não saiba disso. Mas como nos encontrou...
Sage se agachou, olhando-o preocupado. — O que aconteceu? — disse num tom sério. — Você bateu a cabeça? Sabe como são as coisas: as notícias correm por aqui. Soube que chegou com um harém...
 É isso mesmo! — Chegou sim, os ouvidos de Damon pegaram um sussurro na margem da rua onde sofreu a emboscada.
 Se pegarmos as meninas como reféns... Se as torturarmos...
Os olhos de Sage encontraram os de Damon brevemente, demonstrando que ele também tinha ouvido o sussurro.
— Sabber — disse ele ao cão. — Apenas o que falou. — Ele apontou com a cabeça para a direção do sussurro.
De imediato, o cachorro preto saltou para a frente e, mais rápido do que Damon podia imaginar, cravou os dentes no pescoço daquele que sussurrou, virou-o uma vez provocando um estalo distinto e saltou de volta, arrastando o corpo entre as pernas.
As palavras: Eu informá-lo sobre esta! explodiram numa onda de Poder que fez Damon estremecer. E Damon pensou, sim, ele já avisara — mas não falou quais seriam as consequências.
 Deixe ele e seus amigos em paz! — Enquanto isso, Damon se levantou devagar, feliz em aceitar a proteção de Sage para si e as amigas.
— Bem, isto sem dúvida deu resultado — disse ele. — Por que não volta para um drinque amistoso comigo?
Sage olhou para Damon como se ele fosse louco.
— Sabe que a resposta é não.
— E por que não?
— Já lhe disse: não.
— Isso não é motivo.
— O motivo para eu não voltar para um drinque amistoso... meu anjo... é que não somos amigos.
— Já estivemos em algumas trapaças juntos.
— Há muito tempo atrás. — Abruptamente, Sage pegou mão de Damon. Tinha um arranhão profundo e sangrento, que Damon ainda não havia curado. Sob o olhar de Sage, o corte se fechou, a carne ficou rosada e se curou.
Damon deixou que Sage continuasse segurando sua mão por um momento, e depois, sem urgência, a retirou.
— Não faz tanto tempo assim — disse ele.
— Longe de você? — Um sorriso sarcástico se formou nos lábios de Sage. — Contamos o tempo de formas muito diferentes.
Damon estava cheio de uma alegria estonteante.
— E aquele drinque?
— Junto com seu harém?
Damon tentou imaginar Meredith e Sage juntos. Sua mente hesitou.
— Mas agora você é responsável por elas, de alguma fora — disse ele. — E a verdade é que nenhuma delas é minha. Dou minha palavra. — Ele sentiu uma pontada quando pensou em Elena, mas o que dizia era a verdade.
— Responsável por elas? — Sage pareceu pensar em voz alta. — Você jurou salvá-las. Mas eu só herdo seu juramento se você morrer. Mas se morrer... — O homem alto fez um gesto de impotência.
— Você precisaria viver, salvar Stefan, Elena e as outras.
— Minha resposta seria não, mas isso deixaria você infeliz, Então direi sim...
— E se não conseguir, juro que vou voltar para caçá-lo. — Sage o olhou por um momento.
— Não acho que já fui acusado de ser incapaz de conseguir alguma coisa, minha intimidação — disse ele. — Mas é claro que isso foi antes de eu me tornar un vampiro.
Sim, pensou Damon, o encontro entre o 'harém' e Sage podia ser interessante. Pelo menos seria, se as meninas descobrissem quem Sage realmente era.
Mas talvez ninguém contasse a elas.

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