29 de novembro de 2015

Capítulo 18

Depois do café da manhã, Matt entrou online para encontrar duas lojas, nenhuma em Fell’s Church, que vendiam a quantidade de barro que a Sra. Flowers precisava e que havia dito que faziam entregas.
Mas depois disso, havia o lance deles se afastarem da pensão e passarem pelos últimos restos solitários que haviam sido Old Wood. Ele já dirigira por aquele pequeno matagal, onde Shinichi aparecera como o Flautista Demoníaco de Hamelin com as crianças possuídas em seu encalço — o mesmo local onde o xerife Mossberg sumira depois de segui-los e nunca mais saiu. Onde, mais tarde, estava protegido por Post-It mágicos, e no qual ele e Tyrone Alpert haviam tirado um fêmur mastigado e exposto.
Hoje, descobriu que a única forma de passar pelo matagal era dirigindo bem devagar com o seu carro velho, e já tinha mais de sessenta anos quando ele o atravessou completamente. Nenhuma árvore caiu sobre ele, nem ao menos enxames de insetos imensos.
Ele sussurrou um “Ufa”, com o alívio de ter chegado em casa. Estava com medo — só o fato de dirigir por Fell's Church já era horrível, fazendo-o colocar sua língua no céu da boca. Parecia... A cidade bonita e inocente no qual ele havia crescido — como se fosse uma daquelas vizinhanças em que você vê na TV ou na Internet que foram bombardeadas ou sofreram por causa de um incêndio desastroso, ou algo assim. E aqui, bem que parecia que ocorrera isso, pois uma em cada quatro casas eram simplesmente ruínas. Algumas eram meio-ruínas, com fitas de policiais cercando-as, o que significava que o que quer que tivesse acontecido mais cedo com elas fora o suficiente para a polícia se importar ou ao menos, tentar.
Ao redor da área queimada, a vegetação florescia estranhamente: um arbusto decorativo de uma casa cresceu de modo que seus galhos encontravam-se na casa ao lado. Videiras juntavam uma árvore à outra, e à outra, como se fosse uma selva antiga.
Sua casa estava bem ao meio de um grande quarteirão de casas cheias de crianças — e no verão, quando, inevitavelmente, os netos vinham fazer uma visita, havia ainda mais crianças.
Matt esperava que essa parte das férias de verão houvesse acabado... Mas Shinichi e Misao deixariam as crianças irem para casa? Matt não tinha ideia. E, se fossem para casa, continuariam espalhando a doença em suas próprias cidades? Quando isso ia acabar?
Mas, ao dirigir em seu quarteirão, Matt não viu nada hediondo. Havia crianças brincando nos gramados da frente, ou nas calçadas, agachados sobre o mármore ou subindo em árvores. Não havia nenhuma evidência no qual ele pudesse apontar com o dedo como estranho.
Ele ainda estava inquieto. Mas já havia alcançado sua casa agora, aquela com o grande e velho carvalho sombreando a varanda, então ele poderia sair do carro. Parou bem embaixo da árvore e estacionou próximo à calçada. Pegou uma grande quantidade de roupa suja do banco de trás. Esteve acumulando-as durante as semanas na pensão e não parecia justo pedir à Sra. Flowers para lavá-las.
Assim que saiu do carro, trazendo as roupas consigo, ele só conseguiu ouvir o canto dos pássaros parar.
Um momento depois, ele se perguntou o que havia acontecido. Sabia que algo estava errado, algo havia sido interrompido. Isso fez com que o ar ficasse mais pesado. Parecia que até o cheiro da grama havia mudado. Então, ele percebeu. Cada pássaro, incluindo os corvos barulhentos que viviam nos carvalhos, haviam se silenciado.
Todos de uma vez.
Matt sentiu uma torção em sua barriga ao olhar para cima à sua volta. Havia duas crianças embaixo do carvalho, bem ao lado do seu carro. Sua mente teimosamente tentava se prender em: Crianças. Brincando. Tudo bem. Seu corpo foi mais esperto. Sua mão já estava em seu bolso, tirando alguns Post-It: aqueles papeizinhos que geralmente paravam a magia negra.
Matt esperava que Meredith tivesse se lembrado de pedir à mãe de Isobel mais amuletos.
Seus pensamentos eram lentos, e...
... E havia duas crianças brincando sob o carvalho. Só que elas não estavam. Estavam o encarando. Um menino estava de cabeça para baixo e o outro estava comendo alguma coisa... Que estava dentro de um saco de lixo.
O menino de cabeça para baixo estava dando-lhe um olhar estranhamente aguçado.
— Alguma vez você já se perguntou como é estar morto? — Ele perguntou.
E agora que a cabeça do outro saiu do saco e apareceu, mostrava um leve brilho vermelho ao redor de seus lábios. Brilho vermelho...
 … Sangue. E… O que quer que estivesse dentro daquele saco, estava se mexendo. Chutando. Debatendo-se fracamente. Tentando sair.
Uma onda de náusea tomou conta de Matt. Ácido atingiu sua garganta. Ele estava prestes a vomitar.
O garoto do saco estava olhando para ele com olhos pretos-como-pedra. O garoto de cabeça para baixo estava sorrindo.
E então, como se o vento tivesse assoprado um hálito quente, Matt sentiu os finos pelos de sua nuca se eriçarem. Não eram somente os pássaros que haviam ficado quietos. Tudo havia ficado. Nenhuma voz de criança havia aumentado para demonstrar briga, canto ou falatório.
Virou-se e descobriu por que. Eles estavam olhando para ele.
Cada criança no quarteirão silenciosamente o encarava. Então, com uma precisão assustadora, ele virou para olhar os garotos da árvore, o resto estava começando a se aproximar dele.
Só que eles não estavam andando.
Estavam rastejando. Ao estilo de um lagarto. É por isso que alguns pareciam estar brincando com bolinha de gude na calçada. Todos estavam se movendo da mesma forma, barrigas próximas ao chão, queixos erguidos, mãos sendo usadas como patas dianteiras e joelhos abertos para os lados.
Agora ele podia sentir o gosto de sua bile. Olhou para o outro lado da rua e encontrou outro grupo rastejando. Dando sorrisos artificiais. Parecia que alguém havia puxado suas bochechas, puxado-as bastante, assim, seus sorrisos quase quebravam seus rostos ao meio.
Matt percebeu algo a mais. De repente, eles haviam parado, e enquanto ele os observava, ficaram parados. Perfeitamente imóveis, encarando-o de volta. Mas quando ele olhou para longe, viu mais figuras rastejantes na esquina.
Ele não teria Post-It para todos eles.
Você não pode fugir disto tudo. Parecia que uma voz exterior gritara em sua cabeça.
Telepatia. Mas talvez fosse porque a cabeça de Matt havia se transformado em uma nuvem turva e vermelha, flutuando pelo céu.
Felizmente, seu corpo percebeu isso e, de repente, ele estava dentro do carro novamente, e pegou o menino que estava de cabeça para baixo. Por um momento, teve o impulso de soltá-lo. O garoto ainda olhou para ele, com olhos misteriosos que estavam invertidos, por causa de sua posição. Em vez de soltá-lo, Matt colocou um Post-It na testa do garoto, ao mesmo tempo em que o colocava na parte de trás do carro.
Uma pausa e, em seguida, um lamento. O garoto devia ter no mínimo quatorze anos, mas cerca de trinta segundos depois após Banir Todo o Mal (em versão compacta), tudo sumiu. Estava chorando, chorando de verdade.
Depois, todas as crianças que rastejavam soltaram um silvo. Parecia um motor a vapor gigante.
Hsssssssssssssssssssssssss.
Eles começaram a inspirar e expirar rapidamente, como se funcionassem de outra forma.
Depois de rastejar, começaram a engatinhar. Mas estavam respirando tão rápido que Matt pôde ver seus troncos subirem e descerem.
Quando Matt virava-se para olhar um grupo deles, eles congelavam, exceto pela respiração incomum. Mas ele pôde sentir que os outros atrás dele continuavam a se aproximar.
Neste instante, o coração de Matt estava batendo em seus ouvidos. Ele poderia lutar com um grupo deles... Mas não com outro grupo em suas costas. Alguns deles pareciam ter somente dez ou onze anos. Matt lembrou o que as meninas possuídas haviam feito na última vez que ele as encontrara, e sentiu uma repulsão violenta.
Mas ele sabia que ficar olhando para aquele menino do saco o deixaria doente. Ele podia ouvir as lambidas, os sons de mastigação... E pôde ouvir o assovio fino de dor que vinha daquela coisinha fraca dentro do saco.
Ele girou novamente, para manter afastado as crianças do outro lado, e em seguida olhou para cima. Com um estalo tranquilo, o saco de lixo caiu quando ele o agarrou, mas o garoto continuava a segurar o que havia em seu conteúdo...
Ai, meu Deus. Ele está comendo um bebê! Um bebê! Um...
Ele pegou o garoto embaixo da árvore e suas mãos automaticamente colocaram um Post-It nas costas do garoto. E então... Então, graças a Deus, ele viu a pele. Não era um bebê. Era pequeno demais para ser um, até mesmo para um recém-nascido. Mas estava comido.
O garoto ergueu seu rosto ensanguentado e Matt viu que era Cole Reece, que só tinha treze anos e vivia na casa ao lado. Matt não o havia reconhecido antes.
A boca de Cole estava bem aberta e com medo, seus olhos estavam saltados de terror e tristeza, e lágrimas e catarro corriam por sua face.
— Ele fez com que eu comesse Toby. — Ele começou como um sussurro que se transformou em um grito. — Ele fez com que eu comesse meu porquinho da índia! Ele fez... Por que, por que, por que fez isso? EU COMI O TOBY!
Ele vomitou em cima dos sapatos de Matt. Vômito vermelho-sangue.
Uma morte misericordiosa para o animal. Rápida, Matt pensou.
Mas isso seria a coisa mais difícil que ele teria de fazer. Como poderia pisar na cabeça de um animal? Ele não podia. Tinha que tentar outra coisa, primeiro.
Matt tirou um Post-It e colocou no animal, tentando não olhar para sua pele. E assim, tudo estava acabado. O porquinho da índia se foi. O feitiço que o mantinha vivo até esse ponto havia se desfeito.
Havia sangue e vômito nas mãos de Matt, mas ele fez com que se virasse para Cole.
Matt se tocou de uma coisa.
— Vocês querem um pouco disso ? — Ele gritou, segurando os Post-It como se fosse revólver que ele havia deixado com a Sra. Flowers.
Ele virou-se novamente e gritou:
— Querem um pouco? E quanto a você, Josh? — Ele estava começando a reconhecer os rostos agora. — Você, Madison? E você, Bryn? Venham! Venham todos! VENHAM TO...
Algo tocou seu ombro. Ele girou, com Post-It já preparado.
Então ele parou, o alívio brotando nele como brotava na água Evian, presente em algum restaurante chique. Ele estava olhando diretamente para o rosto da Dr.ª Alpert, a médica da cidade. Ela tinha o seu SUV estacionado ao lado de seu carro, no meio da rua.
Atrás dela, dando-lhe retaguarda, estava Tyrone, que seria o próximo quarterback, no ano seguinte, na Robert E. Lee. Sua irmã, que estava quase indo para o segundo ano de faculdade, estava tentando sair do carro também, mas parou quando Tyrone a viu.
— Jayneela! — Ele rugiu em uma voz que só o Tyre-minator poderia fazer. — Volte e aperte o cinto. Você sabe o que a mamãe disse! Volte agora!
Matt encontrou-se segurando as mãos marrom-chocolate da Dr.ª Alpert. Sabia que ela era uma boa mulher e boa zeladora, que havia adotado seus filhos quando a mãe deles havia morrido de câncer. Talvez ela o ajudaria, também. Ele começou babulciando:
— Ah, Deus, tenho que tirar minha mãe daqui. Minha mãe vive aqui sozinha. E tenho que tirá-la daqui.
Ele sabia que estava suando. Só esperava que não estivesse chorando.
— Ok, Matt. — A médica disse em sua voz rouca. — Estou indo embora com minha família nesta tarde. Vamos ficar com uns parentes ao oeste de Virgínia. Ela é bem-vinda, se quiser vir.
Não podia ser assim tão simples. Matt sabia que tinha lágrimas nos olhos agora. Ele se recusou a piscar e as deixou caírem.
— Eu não sei o que dizer... Mas se você pudesse... Você é uma adulta, entende? Não me dará ouvidos. Ela ouvirá a você. Esse quarteirão está todo infectado. Esse menino, Cole...
Ele não pôde continuar. Mas a mulher pôde ver por si só: o animal, o garoto com sangue nos dentes e sua boca ainda vomitava.
A Dr.ª Alpert não reagiu. Só pegou um pacote de lenços umedecidos de Jayneela, que estava dentro do SUV e segurava o garoto, enquanto limpava vigorosamente seu rosto.
— Vá para casa. — Ela disse para ele severamente.
— Você tem que deixar os infectados irem também. — Ela disse para Matt, com um olhar terrível. — Por mais cruel que pareça, eles só transmitiram a doença para poucos que ainda estavam bem.
Matt começou a dizer a ela os efeitos dos Post-It, mas ela já estava dizendo:
— Tyrone! Vem aqui para vocês enterrarem este pobre animal. Assim, você poderá colocar as coisas da Sra. Honeycutt dentro da vã. Jayneela, faça o que o seu irmão disser. Terei um conversinha com a Sra. Honeycutt agora.
Ela não aumentou muito sua voz. Nem era preciso. O Tyre-minator já estava obedecendo, voltando para Matt, olhando as últimas crianças rastejantes que se afastaram depois do grito de Matt.
Ele é rápido, Matt pensou. Mais rápido do que eu. Isso parecia um jogo. Enquanto você estivesse olhando para eles, eles não se moviam.
Eles se revezavam ao serem aquele que observava e aquele que manipulava a pá. A terra aqui era dura igual uma pedra, cheia de erva daninhas. Mas, de alguma forma, conseguiram cavar um buraco e o trabalho os ajudou mentalmente. Eles enterraram Toby, e Matt ficou arrastando os pés na grama igual a um zumbi, tentando tirar o vômito de seus sapatos.
De repente, ao lado deles, houve um barulho de uma porta se abrindo e Matt correu, correu para sua mãe, que estava tentando segurar uma maleta imensa, muito pesada para ela, que estava atravessando a porta.
Matt pegou a maleta dela e sentiu-se englobado num abraço dela, mesmo que ele teve de ficar na ponta dos pés para fazer isso.
— Matt, eu não posso abandoná-lo...
— Ele é um dos que está tentando tirar a cidade desta bagunça. — A Dr.ª Alpert disse, substituindo-a. — Ele a colocará em ordem. Agora, temos que sair daqui antes que o deixemos mais abalado ainda. Matt, só para você saber, ouvi dizer que os McCullough estão indo embora também. Parece que o Sr. e a Sra. Sulez ainda não irão partir, nem os Gilbert-Maxwell. — Ela disse as duas últimas palavras com uma ênfase distinta.
Os Gilbert-Maxwell eram: a tia de Elena, Judith, seu marido, Robert Maxwell, e a irmã caçula de Elena, Margaret. Não havia motivo para mencioná-los. Mas Matt sabia por que a Dr.ª Alpert os mencionou. Ele se lembrou de ter visto Elena quando essa confusão toda começou.Apesar da purificação que Elena fez nos bosques onde a Dr.ª Alpert estava, a médica se lembrara.
— Eu direi... À Meredith. — Matt disse, e olhando em seus olhos, ele era o mesmo que dissesse “E direi à Elena, também.”
— Algo mais para trazer? — Tyrone perguntou.
Ele estava segurando uma gaiola de canários, com um pássaro dentro batendo as asas freneticamente, e uma mala um pouco menor.
— Não, mas como poderei agradecer? — A Sra. Honeycutt disse.
— Agradeça depois… Agora, todos para dentro. — Disse a Dr.ª Alpert. — Estamos dando o fora daqui.
Matt abraçou sua mãe e deu um pequeno empurrãozinho nela em direção ao SUV, que já tinham a gaiola e as malas.
— Adeus! — Todos estavam gritando.
Tyrone apareceu com sua cabeça para fora da janela para dizer:
— Me ligue quando quiser! Quero ajudar!
E então, eles se foram.
Matt mal podia acreditar que isso tinha acabado; havia acontecido tão rápido.
Ele correu para dentro da casa e pegou seus tênis de corrida, só para o caso da Sra. Flowers não conseguir arrumar o cheiro daqueles que ele estava usando.
Quando ele saiu novamente da casa, teve que piscar. Ao invés do SUV branco, havia outro carro branco estacionado ao lado do seu.
Ele olhou ao redor do quarteirão. Sem crianças. Nenhuma.
E o canto dos pássaros havia voltado.
Havia dois homens dentro do carro. Um deles era branco e o outro era negro e ambos estavam na idade de serem considerados pais. De qualquer forma, tinham bloqueado sua saída, pelo modo como o carro deles estava estacionado. Ele não teve escolha senão ir até eles. Assim que o fez, ambos saíram do carro, olhando-o como se ele fosse um kitsune perigoso.
No instante em que fizeram isso, Matt sabia que ele havia cometido um erro.
— Você é Matthew Jeffrey Honeycutt?
Matt não tinha escolha a não concordar.
— Diga sim ou não, por favor.
— Sim.
Matt pôde ver o interior do carro branco agora. Era um carro de polícia discreto, um com a sirene lá dentro, pronta para ser fixada no teto caso os policiais quisessem que você soubesse desse segredo.
— Matthew Jeffrey Honeycutt, você está preso por violentar e agredir Caroline Beula Forbes. Você tem o direito de permanecer em silêncio. Tudo que disser poderá ou será usado contra você no tribunal...
— Vocês não viram aquelas crianças? — Matt estava gritando. — Vocês devem ter visto uma ou duas delas! Aquilo não significa nada para vocês?
— Vá para frente do carro e coloque suas mãos nele.
— Elas vão destruir toda a cidade! Vocês estão ajudando ao fazer isso!
— Você conhece os seus direitos...?
— Você entende o que está acontecendo com Fell’s Church?
Houve uma pausa dessa vez. E então, numa perfeita entonação, um deles disse:
— Somos de Ridgemont.

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