26 de novembro de 2015

Capítulo 18

Com muito esforço, Elena voltou aos poucos para o mundo real. Cravou as unhas no couro da jaqueta de Damon, viu-se perguntando brevemente se aquilo estaria incomodando, depois seu estado de espírito foi quebrado novamente por aquele som, uma batida imperativa e ríspida.
Damon levantou a cabeça e rosnou. Nós somos mesmo uma dupla de lobos, não é? pensou Elena. Lutando com unhas e dentes.
Mas outra parte de sua mente arrematou, Isso não está fazendo as batidas pararem. Ele avisou àquelas meninas...
Aquelas meninas! Bonnie e Meredith! E ele disse para não interromper a não ser que a casa estivesse pegando fogo!
Mas o médico — ah, Deus, algo aconteceu com a pobre coitada da mulher! Ela está morrendo!
Damon ainda rosnava, com um vestígio de sangue nos lábios mas era só um vestígio, já que a segunda ferida de Elena fora tão bem curada como a primeira, aquela que atravessava a maçã do rosto. Elena não fazia ideia de quanto tempo se passara desde que puxou Damon para beijar seu corte. Mas agora, com o sangue dela nas veias e seu prazer interrompido, ele parecia uma pantera negra indomada nos braços dela.
Ela não sabia se podia fazê-lo parar ou reduzir o ritmo sem recorrer ao seu Poder.
— Damon! — disse ela em voz alta. — Lá fora... São nossos amigos. Lembra? Bonnie, Meredith e o curandeiro.
— Meredith — disse Damon, e novamente seus lábios recuaram, expondo caninos longos e apavorantes. Ele ainda não havia voltado para a realidade. Se visse Meredith agora, não ficaria assustado, pensou Elena, e, ah, sim, ela sabia como sua amiga mais racional e ponderada deixava Damon inquieto. Eles viam o mundo por óticas diferentes. Ela o irritava como uma pedra no sapato. Mas agora ele podia lidar com essa inquietação de uma forma que faria de Meredith um cadáver dilacerado.
— Deixe-me ver o que é — disse ela, quando escutou outra batida; será que não podiam parar com isso? Ela já não tinha problemas suficientes?
Os braços de Damon meramente se estreitaram em Elena. Ela sentiu um lampejo de calor, porque sabia que, mesmo enquanto a restringia, ele estava reprimindo grande parte de sua força. Apenas um décimo do Poder nos músculos da mão era suficiente para esmagá-la. Mas ele tomava todo o cuidado para não fazer isso.
A onda de sentimento que a banhou a fez fechar os olhos brevemente, indefesa, mas ela sabia que aquilo era a voz da sanidade.
— Damon! Eles podem estar tentando nos avisar algo importante... Ou Ulma pode ter morrido.
A morte o fez acordar. Seus olhos eram fendas, a luz sangrenta das cortinas da cozinha lançando grades de escarlate e preto pelo seu rosto, deixando-o muito mais bonito — e mais demoníaco — do que nunca.
— Você fica aqui — disse Damon categoricamente, sem ter ideia de estar se comportando como um amo‖ ou um cavalheiro. Era como uma fera selvagem protegendo a parceira, a única criatura no mundo que não era concorrência ou alimento.
Não havia como discutir com ele, não neste estado. Elena fïcaria ali.
Damon faria o que fosse preciso e pelo tempo que ele julgasse necessário.
Elena não sabia se esses últimos pensamentos tinham vindo dele ou dela.
Eles ainda tentavam separar suas emoções. Ela decidiu observá-lo e só se ele realmente não conseguisse se controlar...
Você não iria querer me ver descontrolado.
Senti-lo saltar do puro instinto animal para o domínio mental gélido e perfeito era ainda mais assustador do que seu lado animal. Ela não sabia se Damon era a pessoa mais sã que conhecera ou só a que melhor encobria sua selvageria. Ela fechou a blusa e o viu caminhar com uma elegância tranquila até a porta e, então, de repente e com violência, quase arrancá-la das dobradiças.
Ninguém caiu; ninguém estava ouvindo sua conversa particular. Mas Meredith estava ali, refreando Bonnie com uma das mãos e a outra erguida, pronta para bater de novo.
— Sim? — disse Damon num tom glacial. — Pensei ter dito a vocês...
— Você disse, e tem mesmo — disse Meredith, interrompendo este Damon, numa tentativa incomum de cometer suicídio.
— Tem o quê? — rosnou Damon.
— Tem uma multidão do lado de fora ameaçando colocar fogo no prédio. Não sei se estão aborrecidos por Drohzne ou por trazermos Ulma, mas estão definitivamente enfurecidos e trouxeram tochas. Não queria interromper o tratamento‖ de Elena mas o Dr. Meggar disse que eles não vão lhe dar ouvidos. Ele é humano.
— E já foi escravo — acrescentou Bonnie, libertando-se da mão sufocante de Meredith. Ela olhou para Damon com os olhos castanhos se derramando e as mãos estendidas. — Só você pode nos salvar — disse ela, traduzindo a mensagem de seu olhar em voz alta, o que significava que as coisas estavam realmente feias.
— Muito bem, muito bem. Vou cuidar deles. Vocês cuidem de Elena.
— Claro, mas...
— Não. — Damon ou ficara impiedoso com o sangue, e as lembrancas que ainda impediam que Elena formasse uma frase coerente, ou de algum modo perdera todo o medo de Meredith. Ele pôs as mãos nos ombros dela e, como era apenas uns cinco centímetros mais alto do que ela, então não teve problemas para olhar fixamente em seus olhos. — Cuide você de Elena. Por aqui tragédias acontecem a todo instante: coisas imprevisíveis, horríveis, mortais. E não quero que aconteça uma delas com Elena.
Meredith ficou olhando para ele por um bom tempo e pela primeira vez não consultou Elena com os olhos antes de responder a uma pergunta sobre um assunto que a envolvia. Simplesmente disse: ― Vou protegê-la  numa voz baixa e sem emoção. Pela postura que tinha, por seu tom de voz, quase se podia ouvir um acréscimo mudo, ― com a minha vida — e isso nem parecia melodramático.
Damon a soltou, andou até a porta e, sem olhar para trás, desapareceu da vista de Elena. Mas a voz mental dele era cristalina em sua mente: Você ficará segura se houver alguma maneira de salvá-la. Eu juro.
Se houver alguma maneira de ser salva. Ótimo. Elena tentou fazer o cérebro funcionar novamente.
Meredith e Bonnie a olhavam. Elena respirou fundo, automaticamente atraída a um passado longínquo, quando uma menina recém-saída de um encontro romântico podia esperar um interrogatório longo e sério.
— Seu rosto... está muito melhor! — foi só o que Bonnie disse.
— É — disse Elena, usando as duas pontas da blusa para amarrar um top improvisado. — O problema é a minha perna. Nós ainda não... terminamos.
Bonnie abriu a boca, mas a fechou, decidida, o que, vindo dela, era uma demonstração de heroísmo semelhante à promessa de Meredith a Damon.
Quando a abriu de novo, foi para dizer:
— Pegue meu cachecol e amarre na perna. Vai ajudar a estancar o sangue.
— Acho que o Dr. Meggar terminou com Ulma — disse Meredith.  Talvez ele possa ver você.
Na outra sala, o médico mais uma vez lavava as mãos, usando uma bomba grande para colocar mais água na bacia. Havia panos sujos de sangue numa pilha e um cheiro que Elena ficou grata ao médico por ter camuflado com ervas. Em uma cadeira grande que parecia confortável, sentava-se uma mulher que Elena não reconheceu.
Ela sabia que o sofrimento e o terror podiam mudar uma pessoa, mas nunca teria percebido o quanto — nem o quanto alívio e a libertação da dor podiam alterar um rosto. Ela havia salvado uma mulher que, em sua mente, se enroscou até fica quase do tamanho de uma criança, e cuja face pequena e arruinada, retorcida por uma agonia e um pavor implacáveis, parecera quase uma espécie de desenho abstrato de um duende. A pele era de um tom cinzento doentio, o cabelo fino mal parecia suficiente para cobrir a cabeça e pendia em mechas como algas marinhas. Tudo nela gritava que era uma escrava, das pulseiras de ferro nos pulsos, a nudez e o corpo com cicatrizes e sangue, a seus pés descalços e cheios de ferrugem. Elena nem sabia dizer a cor dos olhos da mulher, porque pareciam tão cinzentos como o resto do corpo.
Agora Elena estava diante de uma mulher que talvez estivesse na casa dos 30 anos. Tinha um rosto magro, bonito e um tanto aristocrático, com um nariz marcante e nobre, olhos escuros que pareciam perspicazes e belas sobrancelhas que pareciam asas de uma ave em pleno voo. Estava relaxada na poltrona os pés num divã, escovando lentamente o cabelo, que era escuro com alguns fios grisalhos que emprestavam um ar de dignidade ao roupão azul-escuro e simples que usava. Seu rosto tinha rugas que lhe davam personalidade, mas, em geral, observava-se nela uma espécie de ternura nostálgica, talvez devido ao leve volume na barriga, em que agora gentilmente colocava mão. Quando fez isso, seu rosto corou e todo o seu semblante pareceu brilhar.
Por um instante Elena pensou que devia ser a esposa ou a empregada do médico e quase perguntou se Ulma, a pobre escrava, tinha morrido.
Depois viu o que um punho do roupão azul-escuro não podia esconder: um vislumbre de uma pulseira de ferro.
Esta mulher aristocrática, morena e magra era Ulma. O médico operara um milagre.
Um curandeiro, como ele se nomeava. Era evidente que, como Damon, ele podia curar feridas. Ninguém que tivesse sido açoitado como Ulma podia aparecer neste estado sem uma magia poderosa. Obviamente seria impossível tentar simplesmente suturar a confusão sangrenta que Elena trouxera, e ainda assim o Dr. Meggar a curou.
Elena estivera em uma situação dessas, então recorreu às boas maneiras com que fora criada na Virgínia.
— É bom ver a senhora. Meu nome é Elena — disse ela, estendendo a mão. A escova caiu na cadeira. A mulher estendeu as duas mãos para Elena.
Aqueles olhos escuros e penetrantes pareciam devorar seu rosto.
— É você — disse ela, depois, tirando os pés com chinelos do divã, colocou-se de joelhos.
— Ah, não, senhora! Por favor! O médico lhe disse para descansar. Agora é melhor ficar sentada e quieta.
— Mas é você. — Por algum motivo, a mulher parecia precisar de confirmação. E Elena estava disposta a fazer qualquer coisa para tranquilizá-la.
— Sou eu — disse Elena. — E agora acho que a senhora deve se sentar de novo.
Ela obedeceu imediatamente e, no entanto, havia uma leveza alegre em tudo o que Ulma fazia. Elena entendeu isso depois de algumas horas de escravidão. Obedecer quando se tinha alternativa era inteiramente diferente de obedecer porque a desobediência podia significar a morte.
Mas mesmo enquanto se sentava, Ulma permaneceu com os braços estendidos.
— Olhe para mim! Serafim, deusa, Guardiã... quem quer que seja: olhe para mim! Depois de três anos vivendo como um animal eu me tornei humana de novo... Graças a você! Você apareceu como um anjo de luz e se postou entre mim e a chibata. — Ulma começou a chorar, mas suas lágrimas pareciam de alegria. Seus olhos procuraram o rosto de Elena, demorando-se na maçã do rosto marcada. — Mas você não é Guardiã; eles têm feitiços que os protegem, mas nunca interferem. Por três anos, nunca interferiram. Eu vi todos os meus amigos, meus companheiros escravos, caírem ao chicote dele e à fúria dele. —Ela balançou cabeça, como se fosse fisicamente incapaz de dizer o nome Drohzne.
— Eu lamento muito... Lamento tanto... — Elena estava atrapalhada. Olhou para trás e viu que Bonnie e Meredith estavam igualmente abaladas.
— Não importa. Soube que seu companheiro o matou na rua.
— Eu contei a ela — disse Lakshmi com orgulho. Tinha entrado na sala sem que ninguém percebesse.
— Meu companheiro? — Elena gaguejou. — Bom, ele não é meu... Quero dizer, ele e eu... Nós...
— Ele é nosso dono — disse Meredith com franqueza, de trás de Elena.
Ulma ainda olhava para Elena com os olhos cheios de emoção.
— Vou rezar todo dia para que sua alma ascenda daqui.  Elena ficou surpresa.
— As almas podem ascender daqui?
— Mas é claro. O arrependimento e as boas ações podem resultar nisto, e as orações dos outros sempre são levadas em consideração, eu creio.
Ela não fala como escrava, refletiu Elena. Ela tentou pensar numa maneira de abordar o assunto com delicadeza, confusa, sua perna doía e suas emoções estavam num turbilhão.
— A senhora não parece... Bom, com o que eu esperaria de uma escrava — disse ela. — Ou estou só sendo muito ingênua?
Ela podia ver as lágrimas se formarem nos olhos de Ulma.
— Ah, Deus! Por favor, esqueça o que eu perguntei. Por favor...
— Não! Não há ninguém a quem eu queira mais contar. Se quiser ouvir como cheguei a este estado de degradação... — Ulma esperou, olhando Elena, estava claro que esse último desejo de Elena era para Ulma uma ordem.
Elena olhou para Meredith e Bonnie. Não ouvia mais gritos da rua e o prédio certamente não parecia estar pegando fogo.
Felizmente, nesse momento, o Dr. Meggar entrou de novo.
— Já fizeram as apresentações? — perguntou ele, as sobrancelhas agora em movimentos contrários: uma subia e outra descia. Ele estava com a garrafa de Black Magic nas mãos.
— Sim — disse Elena, — mas eu estava me perguntando se devemos evacuar o prédio ou coisa assim. Parece que tem uma mulltidão...
— O companheiro de Elena vai dar trabalho a eles — disse Lakshmi com satisfação. — Todos foram para o Ponto de Reunião para resolver a história da propriedade de Drohzne. Aposto que ele vai esmurrar algumas cabeças e voltar logo — acrescentou ela animada, sem deixar dúvidas de quem ele era. — Queria ser menino para estar lá.
— Você foi mais corajosa do que qualquer menino; foi você quem nos mostrou como chegar aqui — disse-lhe Elena. Depois consultou Meredith e Bonnie com os olhos. Parecia que a comoção tinha se transferido a outro lugar e Damon era um mestre em se safar de comoções. Ele podia também... precisar lutar, livrar-se da energia excessiva do sangue de Elena. Uma comoção podia a ele, pensou Elena.
Ela olhou para o Dr. Meggar.
— Acha que meu... que nosso amo está bem?
As sombrancelhas do Dr. Meggar subiram e desceram.
— Talvez ele tenha de pagar aos parentes do Velho Drohzne com sangue, mas não deve ser grande coisa. Depois ele pode fazer o que quiser com a propriedade daquele velho canalha — disse ele. — Eu diria que o lugar mais seguro para vocês agora é aqui, longe do Ponto de Reunião. — Ele reforçou sua opinião servindo a todos em taças de licor, percebeu Elena, vinho Black Magic. — Faz bem aos nervos — disse ele, e tomou um gole.
Ulma abriu seu sorriso bonito e caloroso para ele, enquanto o médico circulava a bandeja.
— Obrigada... E obrigada... E obrigada — disse ela. — Na vou incomodá-las com minha história...
— Não, conte... Conte, por favor! — Agora que não havia perigo imediato para elas ou para Damon, Elena estava ansiosa para ouvir a história.
Todos os outros assentiram.
Ulma corou um pouco, mas começou calmamente:
— Nasci no reinado de Kelemen II — disse ela. — Sei que isso não significa nada para vocês, apenas para os que conheceram a ele e suas... indulgências. Estudei com minha mãe, que se tornou uma estilista muito popular. Meu pai era um designer de jóias quase tão famoso quanto ela. Tinham uma propriedade nos arredores da cidade e podiam pagar uma casa tão elegante quanto a de muitos de seus clientes mais ricos... Mas tinham o cuidado de não ostentar sua riqueza. Eu era Lady Ulma na época, e não Ulma, a bruxa. Meus pais fizeram o máximo para me manter fora de vista, para minha própria segurança. Mas...
Ulma — Lady Ulma, pensou Elena, tomando um bom gole do vinho.
Seus olhos mudaram; ela estava vendo o passado e tentava não aborrecer seus ouvintes. Mas quando Elena estava prestes a pedir que parasse, pelo menos até se sentir melhor, ela continuou:
— Mas apesar de todos os cuidados de meus pais... alguém... me viu e exigiu minha mão em casamento. Não Drohzne, ele era apenas um vendedor de peles estrangeiro, eu só o vi há três anos. Era o senhor feudal, o general, um demônio que tinha uma fama terrível... Meu pai se recusou a ceder, mas eles nos visitaram à noite. Eu tinha 14 anos quando aconteceu. E foi assim que me tornei escrava.
Elena descobriu que sentia a dor emocional diretamente da mente de Lady Ulma. Ah, meu Deus, eu fiz isso de novo, pensou ela, apressadamente tentando controlar seus sentidos paranormais.
— Por favor, não precisa nos contar isso. Talvez em outra hora...
— Quero contar a você... a você... para que saiba o que fez. E eu preferia contar tudo de uma vez. Mas, se não quer mais ouvir...
Era uma guerra de educação.
— Não, não, se preferir contar... continue. Eu... só queria que soubesse o quanto lamento. — Elena olhou o médico, que esperava por ela pacientemente perto da mesa com a garrafa marrom nas mãos. — E se não se importa, gostaria de ter minha perna... curada, sim? — Ela sabia que disse a última palavra em dúvida, perguntando-se como alguém podia ter o poder de curar Ulma daquele jeito. Ela não se surpreendeu quando ele balançou a ca-beça. — Ou suturada, enquanto a senhora fala, se não se importa — disse ela.
Vários minutos se passaram antes de Lady Ulma superar o choque e a aflição de ter deixado sua salvadora esperando, mas por fim Elena foi à mesa e o médico a estimulou a beber da garrafa, que tinha cheiro de xarope de cereja para tosse.
Ah, bom, ela podia muito bem experimentar a versão de anestésico da Dimensão das Trevas — em especial porque a sutura podia doer, pensou Elena. Ela tomou um gole da garrafa e sentiu a sala girar. Acenou, rejeitando a oferta de um segundo gole.
O Dr. Meggar desamarrou o cachecol arruinado de Bonnie da perna dela e começou a cortar o jeans ensanguentado logo acima do joelho.
— Bom... Você é uma boa ouvinte — disse Lady Ulma. — Mas eu já sabia que era boa. Vou poupar vocês dos detalhes dolorosos de minha escravidão. Talvez baste dizer que passei de um senhor a outro ao longo dos anos, sendo sempre uma escrava, sempre decaindo. Por fim, como piada, alguém disse: — Dê-lhe ao Velho Drohzne. Ele vai espremer a última gota útil que se pode arrancar dela.
— Meu Deus! — disse Elena, e teve esperanças de que todos soubessem que ela se referia à história e não à picada da solução desinfetante que o médico passava em sua perna inchada. Damon era muito melhor nisso, pensou ela. Nem percebi a sorte que tive antes. Elena procurou não estremecer quando o médico começou a usar a agulha, mas sua mão apertou a de Meredith até; que Elena teve medo de quebrar seus ossos. Ela tentou afrouxar o aperto, mas Meredith apertou mais. Sua mão longa e macia era quase como a de um menino, apenas mais suave. Elena ficou feliz por apertar com a maior força que pôde.
— Minhas forças ultimamente me abandonaram — disse Lady Ulma com brandura. — Pensei que fosse aquilo — aqui ela usou uma expressão particularmente rude para seu dono — que estava me levando à morte. Depois percebi a verdade. — De repente todo o brilho mudou seu rosto, de modo que Elena podia ver como Ulma deve ter sido na adolescência e a beleza que um demônio desejava como esposa. — Eu sabia que uma nova vida se agitava em mim... E sabia que Drohzne a mataria se tivesse a oportunidade...
Ela não pareceu reconhecer as expressões de espanto e pavor no rosto das três meninas. Elena, porém, teve a sensação de que estava em um pesadelo, à beira de um abismo, e que teria de ficar tateando no escuro, por fissuras traiçoeiras e invisíveis no gelo da Dimensão das Trevas até chegar a Stefan e conseguir libertá-lo desse lugar. Esta referência casual à abominação não era o primeiro de seus passos em volta de um abismo, mas era o primeiro que ela reconhecia e considerava.
— Vocês, jovens, são muito novas aqui — disse Lady Ulma, enquanto o silêncio se estendia infinitamente. — Não pretendia dizer nada inadequado...
— Aqui somos escravas — respondeu Meredith, pegando uma corda. — Acho que quanto mais soubermos, melhor.
— Seu amo... Nunca vi ninguém tão rápido com o Velhio Drohzne. Muita gente ficou espantada, mas ninguém se atreveu a fazer nada. Mas seu amo...
— Nós o chamamos de Damon — intrometeu-se Bonnie incisivamente. Foi de pronto aceito por Lady Ulma.
— O amo Damon... Acham que ele pode ficar comigo? Depois de pagar o preço de sangue aos... parentes de Drohzne, ele escolherá o que quiser de seus bens. Sou uma das poucas escravas que ele não matou. — A esperança no rosto da mulher era quase dolorosa demais para Elena.
Foi só então que ela percebeu quanto tempo tinha se passado desde que vira Damon. Quanto tempo os negócios de Damon iam durar? Ela olhou com angústia para Meredith.
Meredith entendeu exatamente o que aquele olhar significava e balançou a cabeça, impotente. Mesmo que pedissem a Lakshmi que as levasse ao Ponto de Reunião, o que poderiam fazer? Elena reprimiu um tremor de dor e sorriu para Lady Ulma.
— Por que não nos conta de quando era criança? — disse ela.

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