26 de novembro de 2015

Capítulo 16

Damon decidiu apelar à clemência de Elena e lançou um olhar comovente e meio desequilibrado a ela, o que ele fazia com facilidade sempre que queria.
— Eu realmente não tentei influenciá-la — repetiu ele, mas logo acrescentou: — Talvez seja melhor mudar de assunto... Quem sabe contar mais sobre as esferas estelares.
— Esta — disse Elena em sua voz mais fria — pode ser uma ótima ideia.
— Bom, as esferas gravam as memórias diretamente de seus neurônios, entendeu? Tudo o que você viveu está armazenado em algum lugar do seu cérebro, e a esfera só traz para fora.
— Assim você pode se lembrar daquilo sempre e assistir quantas vezes quiser, como um filme? — perguntou Elena, brincando com o véu para esconder o rosto e pensando que uma esfera estelar seria um ótimo presente para Alaric e Meredith antes do casamento.
— Não — disse Damon, carrancudo. — Não é assim. Primeiro, a lembrança sai de você... Estamos falando de brinquedos de kitsune, lembra? Depois que a esfera tira a memória de seus neurônios, você não se lembra mais de nada. Segundo, a 'gravação' na esfera estelar vai sumindo aos poucos... Com o uso, com o pó, com outros fatores que ninguém compreende. Mas a esfera mais turva e as sensações enfraquecem, até que por fim não passa de um globo de cristal vazio.
— Mas... Aquele pobre homem estava vendendo um dia da vida dele. Um dia maravilhoso! É de se pensar que ele quisesse ficar com ele.
— Você o viu.
— Sim. — Mais uma vez Elena teve a visão do velho infestado de piolhos, faminto, a pele cinzenta. Sentiu algo gelado descendo pela espinha ao pensar que um dia ele fora o jovem John risonho e alegre que ela viu e sentiu.
— Ah, que coisa triste — disse, e não estava falando da lembrança.
Mas, pela primeira vez, Damon não acompanhou seus pensamentos.
— Sim — disse ele. — Existem muitos pobres e velhos aqui. Eles trabalham para se libertar da escravidão, ou seu senhor generoso morre... E é assim que eles acabam.
— Mas e as esferas estelares? São feitas para os pobres? Os ricos podem simplesmente viajar para a Terra e viver um dia de verão por si mesmos, não é?
Damon riu sem muito humor.
— Ah, não, eles não podem. A maioria deles está amarrada a este lugar.
Ele pronunciou amarrada de um jeito estranho. Elena se arriscou: — Ocupados demais para tirar férias?
— Ocupados demais, poderosos demais para passar pelas proteções que cercam a Terra deles, preocupados demais com o que seus inimigos farão enquanto eles estiverem fora, fisicamente decrépitos, famosos demais, mortos demais.
— Mortos? — O horror do túnel e da névoa com cheiro de decomposição parecia prestes a envolver Elena. Damon abriu um de seus sorrisos cruéis.
— Esqueceu-se de que seu namorado é de mortius? Para não falar de seu ilustre amo? A maioria das pessoas, quando morre, vai para outro nível, que não é este... Um nível superior ou inferior. Este é o lugar dos maus, mas é um nível acima. Mais para baixo... Bom, ninguém quer ir para lá.
— Como o Inferno? — Elena arquejou. — Estamos no Inferno?
— É mais como o Purgatório, pelo menos onde estamos. E tem o Outro Lado. — Ele assentiu para o horizonte, onde o sol poente ainda estava parado.
— A outra cidade, que pode ter sido seu destino em suas 'férias no além'. Aqui a chamam de 'O Outro Lado'. Mas posso lhe contar duas histórias que ouvi de meus informantes. Lá, chamam de Corte Celeste. E lá o céu é azul cristalino e o sol está sempre nascendo.
— A Corte Celeste... — Elena se esqueceu de que falava em voz alta. Ela sabia, por instinto, que era o tipo de corte de rainhas-e-cavaleiros-e-feiticeiras, e não uma corte judicial. Seria como Camelot. Só de pronunciar as palavras ela teve uma nostalgia dolorosa e... não lembranças, mas a sensação de que as lembranças estavam trancadas atrás de uma porta. Era uma porta, porém, bem trancada, e só o que Elena podia ver pelo buraco da fechadura eram filas de mulheres que pareciam com as Guardiãs, altas, de cabelos dourados, olhos azuis, e uma delas — do tamanho de uma criança entre mulheres adultas — olhava para cima e de uma forma penetrante, a uma longa distância, encontrou diretamente os olhos de Elena.
A liteira saía do mercado e entrava em outros cortiços, que Elena avistou espiando rapidamente para os dois lados, escondida atrás do véu. Pareciam com qualquer favela, bairros ou comunidades pobres da Terra — só que piores.
Crianças, com o cabelo vermelho queimado do sol, amontoavam-se em volta da liteira de Elena, as mãos estendidas num gesto de significado universal.
Elena se sentiu dilacerar intimamente por não ter nada de valor para lhes dar. Ela queria construir casas ali, certificar-se de que aquelas crianças tivessem comida e água potável, e também educação, e um futuro próspero. Uma vez que não tinha ideia de como lhes dar qualquer uma dessas coisas, ela as olhava correrem com tesouros, como seu chiclete Juicy Fruit, seu pente, sua escova, o gloss, a garrafa de água e os brincos.
Damon balançava a cabeça, mas só a deteve quando ela se atrapalhou com o pingente de lápis-lazúli e diamante que Stefan dera a ela. Elena chorava ao tentar abrir o fecho quando de repente a corda em volta de seu pulso se encurtou.
— Já basta — disse Damon. — Você não entende. Ainda nem entramos na cidade. Por que não dá uma olhada na arquitetura em vez de se preocupar com esses pirralhos inúteis que vão morrer de qualquer jeito?
— Que frieza, a sua — disse Elena, mas não conseguia pensar em um jeito de fazê-lo entender e estava com raiva demais para tentar.
Mesmo assim, ela parou de mexer na corrente e olhou além dos barracos, como Damon sugeriu. Ali podia ver uma silhueta impressionante, com prédios que pareciam existir havia uma eternidade, construídos com pedras, como as pirâmides egípcias e os zigurates maias deviam parecer quando novos. Tudo porém, era tingido de vermelho e preto por um sol agora escondido por repentinas nuvens carmim. Aquele sol imenso e vermelho dava à atmosfera um clima diferente para diferentes estados de espírito. Às vezes parecia quase romântico, cintilando em um grande rio pelo qual Elena e Damon passaram, destacando mil marolas no movimento lento da água. Em outras ocasiões, simplesmente parecia estranho e agourento, aparecendo claramente no horizonte como um presságio monstruoso, tingindo as instruções, por mais magníficas que fossem, da cor do sangue. Quando eles se afastaram disso, enquanto os carregadores entravam na cidade onde ficavam aqueles prédios imensos, Elena pôde ver sua própria sombra longa e ameaçadora atrás de si.
— E então? O que acha? — Damon parecia tentar aplacá-la.
— Ainda acho que parece o Inferno — disse Elena devagar. — Eu detestaria morar aqui.
— Ah, mas quem disse que vamos morar aqui, minha Princesa das Trevas? Vamos voltar para casa, onde a noite é negra e aveludada e a lua brilha, deixando tudo prateado. — Lentamente, Damon passou um dedo na mão de Elena, subindo por seu braço até chegar ao ombro, provocando um arrepio por dentro dela.
Ela tentou manter o véu alto como uma barreira contra ele, mas era transparente demais. Ele ainda lhe abria aquele sorriso reluzente e deslumbrante, pelo branco pontilhado de diamantes — rosado, é claro, por causa da luz — que estava de seu lado do véu.
— Este lugar tem uma lua? — perguntou ela, tentando distraí-lo. Elena estava com medo, com medo dele, com medo de si mesma.
— Ah, sim; acho que três ou quatro. Mas são pequenas demais e é claro que o sol nunca baixa, então não se pode vê-las bem. Não é... romântico. — Ele sorriu novamente, desta vez lentamente, e Elena virou o rosto.
E ao olhar para o lado, ela viu algo diante de si que prendeu toda a sua atenção. Numa rua transversal, uma carroça virava, derramando grandes rolos de pelo e couro. Havia uma velha magra de aparência faminta presa à carroça como uma besta, prostrada no chão, e um homem alto e colérico assomando sobre ela, descendo golpes de um chicote em seu corpo desprotegido. O rosto da mulher estava voltado para Elena. Contorcia-se numa careta de angústia, enquanto ela tentava em vão se enroscar, com as mãos na barriga.
Estava nua da cintura para cima, mas o chicote vergastava sua carne, e o corpo, do pescoço à cintura, recobria-se de uma camada de sangue.
Elena sentiu que inchava de Poderes das Asas, mas de algum modo não acontecia nada. Desejou com toda sua força vital circulante que alguma coisa — qualquer coisa — se libertasse de seus ombros, mas não adiantou. Talvez tivesse algo a ver com usar os restos das pulseiras de escrava. Talvez fosse Damon, ao lado dela, dizendo-lhe em uma voz vigorosa para não se meter.
Para Elena, as palavras dele não passavam de pontuação para a batida do coração em seus ouvidos. Bruscamente, ela livrou-se da corda, depois saiu da liteira. Em seis ou sete passos estava ao lado do homem com o chicote.
Era um vampiro, as presas alongadas ao ver o sangue, mas não parou seu açoite frenético. Era forte demais para Elena, mas...
Com um passo a mais Elena se postou acima da mulher, seus braços estendidos num gesto de proteção e defesa. Uma corda pendia de um pulso.
O dono da escrava não ficou impressionado. Já estava descendo a chibatada seguinte e acertou o rosto de Elena, abrindo ao mesmo tempo um rasgo grande em sua camiseta fina de verão, cortando e lancetando a carne por baixo. Enquanto ela ofegava, a ponta chicote cortou seus jeans como se o tecido fosse manteiga.
Lágrimas se formaram involuntariamente nos seus olhos, mas ela as ignorou. Conseguira não pronunciar um som que fosse além daquele ofegar no início. E ainda estava firme, exatame onde se postara para proteger a mulher. Ela podia sentir o vento vergastar sua blusa rasgada, enquanto o véu intocado oscilava às costas, como que para proteger a pobre escrava que desmaiara junto à carroça arruinada.
Elena ainda tentava, desesperadamente, invocar qualquer Asa. Queria lutar com armas de verdade, e as tinha, mas não conseguia obrigá-las a salvar a si ou àquela pobre escrava. Mesmo sem elas, Elena sabia de uma coisa. Aquele canalha diante dela não ia tocar na escrava novamente, não sem primeiro cortar Elena em pedaços.
Alguém parou para olhar e outra pessoa saiu de uma loja,correndo. Quando as crianças que seguiam a liteira a cercaram, gemendo, formou-se uma multidão.
Ao que parecia, uma coisa era ver um mercador espancando sua serva desgastada — as pessoas daqui deviam ver esse tipo de coisa todos os dias.
Mas ver essa linda menina ter as roupas cortadas, esta menina de cabelos como seda sob um véu branco e dourado, e olhos que talvez fizessem alguns se lembrar de um céu azul, do qual mal se recordavam — isto era bem diferente. A menina nova obviamente era uma escrava bárbara e novata que, sem dúvida, havia humilhado seu senhor ao romper as cordas das mãos dele e agora estava parada ali, transformando a santidade de seu véu em escárnio.
Um teatro de rua terrível.
E mesmo com tudo isso o senhor armava outro golpe, levantado o braço bem alto e se preparando para despejar toda a sua força nela. Algumas pessoas na multidão ofegaram; outras murmuraram, indignadas. A nova audição de Elena, agora elevada, podia captar cada sussurro. Uma menina assim não tinha significado algum para os cortiços; devia ser destinada ao coração da cidade.
Sua aura já mostrava isso. Na verdade, com aquele cabelo dourado e os olhos azul-claros, ela podia até ser uma Guardiã do Outro Lado. Quem poderia saber?
O chicote que subira ainda não descera. Antes de descer, houve um clarão de raio negro — de puro Poder — que dispersou metade da multidão. Um vampiro, de aparência jovem e vestido com roupa do mundo superior, a Terra, tinha aberto caminho e se postado entre a menina de cabelos dourados e o senhor da escrava — ou melhor, agora assomava sobre o senhor da escrava, que se encolhia. Os poucos na multidão que não se abalaram pela menina de imediato sentiram o coração bater mais forte ao ver aquela figura.
Ele era o amo da menina, certamente, e agora cuidaria do problema.
Nesse instante, Bonnie e Meredith chegaram à cena. Estavam reclinadas na liteira, decorosamente enroladas nos véus, Meredith num azul-escuro estrelado e Bonnie num verde-claro e suave. Elas podiam ser uma ilustração de As mil e uma noites.
Mas no momento em que viram Damon e Elena, saltaram mais de maneira indecorosa da liteira. Agora a multidão era tão densa que abrir caminho até a frente exigia o uso de cotovelos e joelhos, mas em segundos elas estavam ao lado de Elena, as mãos desafiadoras desfazendo ou deixando pender a corda solta, os véus flutuando ao vento.
Quando chegaram ao lado de Elena, Meredith ofegou. Os olhos de Bonnie se arregalaram e assim ficaram. Elena entendeu o que elas viam. O sangue escorria em abundância do corte em seu rosto e sua blusa ficou aberta ao vento, revelando a combinação, também rasgada e ensanguentada. Uma perna do jeans rapidamente ficava vermelha.
Mas, atraída para a proteção de sua sombra, havia uma figura muito mais deplorável. E enquanto Meredith levantava o véu transparente de Elena para ajudar a manter sua blusa fechada e mais uma vez vesti-la com decência, a mulher levantou a cabeça, olhando as três meninas com os olhos de um animal sendo caçado.
Atrás delas, Damon disse com brandura:
— Este prazer será meu. — Ergueu o homem corpulento no ar com uma das mãos e atacou seu pescoço como uma cobra. Houve um grito horrendo, contínuo, que não cessava.
Ninguém tentou interferir, ninguém tentou incentivar o senhor da escrava a encarar a briga.
Elena, olhando os rostos na multidão, percebeu o motivo, e as amigas já estavam acostumadas com Damon — ou como alguém pode se acostumar a seu ar um tanto indomado de ferocidade. Mas essas pessoas estavam vendo pela primeira vez o jovem vestido de preto, de altura mediana e corpo magro, que compensava a pouca musculatura com uma elegância suave letal. Isto era ampliado pelo seu dom de dominar todo o espaço à sua volta, de modo que ele se tornava facilmente o foco de qualquer imagem — como uma pantera negra podia se tornar o foco se andasse preguiçosamente por uma rua movimentada uma cidade.
Mesmo aqui, onde a ameaça e a franca crueldade eram características comuns, este jovem irradiava um perigo que fazia todos ficarem fora de seu campo de visão e jamais se colocarem em seu caminho.
Enquanto isso, Elena, Meredith e Bonnie olhavam em volta, procurando por alguma assistência médica, ou mesmo algo limpo que estancasse o sangue.
Depois de cerca de um minuto, perceberam que não conseguiriam nada, então Elena apelou à multidão.
— Alguém conhece um médico? Um curandeiro? — gritou ela. A plateia apenas a olhou. Parecia relutar em se envolver com uma menina que desafiara o demônio de preto que agora torcia o pescoço do senhor da escrava.
— Então todos acham que não tem nada de mais — gritou Elena, percebendo a perda de controle, o nojo e a fúria em sua própria voz — um canalha como esse açoitar uma grávida faminta?
Alguns baixaram os olhos, outros davam respostas que seguiam o raciocínio ― Ele era o senhor dela, não era?  Mas um jovem que estivera recostado em uma carroça endireitou-se.
— Grávida? — repetiu ele. — Ela não parece grávida.
— Mas está sim!
— Bem — disse o jovem devagar. — Se for verdade, ele só está prejudicando a própria mercadoria. — Ele olhou nervoso para onde Damon agora estava, acima do senhor da escrava derrotado, em cujo rosto se formava uma careta medonha de agonia.
Elena ainda não havia conseguido ajuda nenhuma para uma mulher que ela temia estar à beira da morte.
— Será que ninguém sabe onde posso encontrar um médico? — Agora houve murmúrios em vários tons na multidão.
— Talvez a gente consiga algo se oferecer algum dinheiro a eles — disse Meredith. Elena de imediato colocou a mão no pingente, mas Meredith foi mais rápida, abrindo o colar de ametista no pescoço e o estendendo. — Isto vai para quem nos indicar um bom médico primeiro.
Houve uma pausa enquanto todos pareceram avaliar a recompensa e o risco.
— Não tem nenhuma esfera estelar? — perguntou uma voz ofegante.
Então uma voz aguda e leve gritou: — Isso serve para mim!
Uma criança — sim, um genuíno pivete — disparou para a frente da multidão, pegou a mão de Elena e apontou, dizendo:
— O Dr. Meggar, bem ali na rua. Só a algumas quadras podemos ir a pé.
A criança estava enrolada num vestido velho e esfarrapado, mas devia ser apenas para se aquecer, porque ela, ou ele, também vestia calças. Elena não conseguia saber se era menino ou menina até que a criança lhe abriu um sorriso doce e inesperado e sussurrou: — Meu nome é Lakshmi.
— O meu é Elena — disse ela.
— É melhor correr, Elena — disse Lakshmi. — Os Guardiões vão chegar a qualquer minuto.
Meredith e Bonnie haviam colocado a escrava estupefada de pé, mas ela parecia sentir muita dor para decidir se elas queriam ajudá-la ou matá-la.
Elena se lembrou de como a mulher se agachara em sua sombra. Pôs a mão no braço ensanguentado dela e disse em voz baixa:
— Agora está segura. Vai ficar bem. Este homem... Seu... seu senhor... está morto e eu prometo que ninguém vai machucá-la novamente. Eu juro.
A mulher a olhou, incrédula, como se o que Elena dizia fosse impossível. Como se viver sem ser espancada constantemente — mesmo com todo o sangue, Elena podia ver cicatrizes antigas, algumas como cordões, na pele da mulher — fosse algo distante demais da realidade dela para sequer ser imaginado.
— Eu juro — disse Elena de novo, sem sorrir, mais seriamente. Ela entendeu que este era um fardo que ela tomava para toda a vida.
Está tudo bem, pensou, e percebeu que havia algum tempo enviava seus pensamentos a Damon. Eu sei o que estou fazendo. Posso assumir a responsabilidade disso.
Tem certeza? a voz de Damon chegou a ela, insegura, como Elena nunca ouvira. Porque eu não vou cuidar de uma bruxa velha quando você se cansar dela. Nem mesmo sei se estou preparado para lidar com o que vai me custar ter matado esse cretino do chicote.
Elena se virou para ele. Damon falava sério. Bom, então porque você o matou? ela o desafiou.
Está brincando? Damon lhe provocou um choque com a veemência e a malignidade daquele pensamento. Ele feriu você. Eu o devia ter matado mais devagar, acrescentou ele, ignorando um dos carregadores que se ajoelhava ao lado dele, sem dúvida perguntando o que fazer. Os olhos de Damon, porém, estavam fixos no rosto de Elena, no sangue que ainda escorria do corte. O filho de camponês, pensou Damon, os lábios se repuxando nos dentes enquanto ele olhava o cadáver. Até o carregador fugiu às pressas, engatinhado.
— Damon, não os deixe ir embora! Traga-os aqui, agora... — começou Elena, e depois, com uma espécie de ofegar coletivo a seu redor, continuou sem falar: — Não deixe os carregadores partirem. Precisamos de uma liteira para levar esta pobre mulher ao médico. E por que todo mundo está me encarando?
Porque você é uma escrava e está fazendo coisas que nenhum escravo faz e agora está dando ordens, a mim, seu amo. A voz telepática de Damon era amarga.
Isso não é uma ordem. É um... Olha, qualquer cavalheiro ajudaria, uma dama com problemas, não é? Bom, somos quatro aqui e uma tem mais problemas do que você pode imaginar. Não, são três. Acho que vou precisar de umas suturas e Bonnie está aponto de desmaiar. Elena espicaçava os pontos fracos e sabia que Damon entendia o que ela estava fazendo. Mas ele ordenou que um dos grupos de carregadores pegasse a escrava e que o outro levasse as meninas.
Elena ficou com a mulher e terminou numa liteira com as cortinas fechadas. O cheiro de sangue era cúprico e lhe dava vontade de chorar.
Mesmo que não quisesse olhar as lesões da escrava de perto, o sangue escorria pela liteira. Ela se viu tirando a blusa e a combinação e vestindo apenas a blusa, usando a combinação para entancar um corte no peito da mulher. Sempre que a mulher erguia os olhos castanho-escuros e assustados para ela, Elena tentava sorrir para lhe dar coragem. Elas estavam em algum lugar nos fossos da comunicação, onde um olhar e um toque significavam mais do que as palavras.
Não morra, pensava Elena. Não morra, você tem algo por que viver. Viva para ser livre e por seu filho.
E talvez parte do que ela pensava estivesse chegando à mulher, porque ela relaxou contra as almofadas da liteira, segurando a mão de Elena.

2 comentários:

  1. Se não fosse uma situação triste, chegaria a ser patético...

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  2. Sinceramente, me pergunto quando a Elena vai deixar de ser tão patética.

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