26 de novembro de 2015

Capítulo 15

Apressando-se atrás de Damon, Elena tentou não olhar para os lados. Podia ver bem mais do que aquilo que para Meredith e Bonnie era apenas uma escuridão uniforme.
Havia depósitos dos dois lados, lugares onde escravos obviamente eram comprados, vendidos ou transportados posteriormente. Elena podia ouvir gemidos de crianças no escuro e se ela própria não estivesse tão assustada, teria corrido para acudir as crianças chorosas.
Mas não posso fazer isso, porque agora sou uma escrava, pensou ela, com um choque que começava pela ponta dos dedos. Não sou mais um ser humano de verdade. Sou propriedade de alguém.
Ela se viu mais uma vez olhando a nuca de Damon e perguntando-se como fora convencida a se meter nessa. Elena entendia o que significava ser uma escrava, na verdade parecia ter uma compreensão intuitiva e surpreendente disso, e definitivamente era boa coisa.
Significava que ela podia ser... Bom, que qualquer coisa podia ser feita com ela e não era da conta de ninguém, só de seu dono. E seu dono (como ele a convencera daquilo mesmo?) era ninguém menos que Damon.
Ele podia vender as três meninas — Elena, Meredith e Bonnie — e sair dali uma hora depois com o lucro.
Eles andaram apressadamente pelas docas, com as meninas olhando para baixo para não tropeçar.
Depois subiram uma colina. Abaixo do grupo, numa espécie de formação em cratera, havia uma cidade.
Os cortiços ficavam às margens e se estendiam quase até o ponto onde eles estavam. Mas havia uma tela de arame diante deles, que os mantinha isolados, ao mesmo tempo que proporcionava uma vista de cima da cidade. Se ainda estivessem na caverna por onde entraram, esta teria sido a maior caverna subterrânea imaginável, mas não estavam mais no subsolo.
— Isso às vezes acontece durante a travessia de balsa — disse Damon. —Nós pegamos... Bom... Um desvio no espaço, digamos assim. — Ele tentou explicar e Elena se esforçou para entender.
— Você entra pelo Portal do Demônio e quando sai não está mais na dimensão da Terra, mas em outra completamente diferemte. — Elena teve que olhar o céu para acreditar nele. As constelações eram outras; não havia Ursa Menor nem Ursa Maior, nem Estrela Polar.
E havia o Sol, que era muito maior, mas muito mais fraco que o da Terra, e jamais deixava o horizonte. A qualquer momento cerca de metade dele aparecia, dia e noite — termos que, como Meredith observou, perdiam seu significado ali.
Ao se aproximarem de um portão de tela que finalmente os tiraria da área de armazenagem de escravos, foram detidos, que Elena mais tarde descobriria ser uma Guardiã.
Ela aprenderia isso, de certo modo; os Guardiões eram os governantes da Dimensão das Trevas, embora eles mesmos viessem de um lugar distante; era como se praticamente tivessem ocupado este pedacinho do Inferno, tentando impor a ordem entre os reis dos cortiços e senhores feudais que dividiam a cidade entre eles.
Esta Guardiã era alta, seu cabelo da cor do de Elena — verdadeiramente dourado — cortado reto na altura dos ombros, e praticamente ignorou a presença de Damon, mas de imediato perguntou a Elena, que estava logo atrás dele na fila:
— Por que está aqui?
Elena ficou feliz, muito feliz, por Damon ter lhe ensinado a controlar sua aura. Ela se concentrou nisso enquanto o cérebro zumbia a uma velocidade supersônica, perguntando-se qual seria a resposta certa para aquela pergunta.
A resposta que os deixaria livres e não os mandasse de volta para casa. Damon não nos treinou para isso, foi a primeira coisa que Elena pensou. E a segunda foi, porque ele nunca esteve aqui. Ele não sabe como tudo funciona por aqui, só algumas coisas. E se tivesse a impressão de que esta mulher pudesse tentar se meter nos negócios dele, Damon simplesmente enlouqueceria e a atacaria, acrescentou uma voz de algum lugar no subconsciente de Elena. Elena duplicou a velocidade de seu estratagema. Antes, costumava ser uma especialista na arte de mentir, e, naquele momento, ela disse a primeira coisa que lhe passou pela cabeça e mostrou o polegar para cima.
— Fiz uma aposta com ele e perdi.
Uau, pareceu bom. As pessoas perdem todo tipo de coisas quando apostam: lavouras, talismãs, cavalos, castelos, lâmpadas gênios. E se por acaso aquilo não fosse motivo suficiente, ela podia dizer que era só o começo de sua triste história. Melhor ainda, de certo modo aquela história era verdade. Havia tempos, dera sua vida por Damon e por Stefan, e Damon não virou exatamente a página, como Elena pedira. Meia página, talvez. Apenas um pedacinho.
A Guardiã a encarava com uma expressão confusa nos olhos azuis. As pessoas haviam encarado Elena a vida toda — quando se era jovem e bonita, só se fica irritada quando as pessoas não olham para você. Mas aquela expressão era meio preocupante. Será que a mulher alta estava lendo sua mente? Elena tentou acrescentar outra camada de ruído branco. O que apareceu foram alguns versos de uma música da Britney Spears. Ela aumentou o volume psíquico.
A mulher alta colocou dois dedos na cabeça como alguém que sente a pontada de uma súbita cefaleia. Depois olhou para Meredith.
— Por que... está aqui?
Em geral Meredith não mentia, mas quando era necessário tratava a mentira como uma arte intelectual. Felizmente, ela também nunca tentava consertar nada que não tivesse defeitos.
— Aconteceu a mesma coisa comigo — disse ela com tristeza.
— E você? — A mulher olhava para Bonnie, que dava a impressão de que ia desmaiar novamente.
Meredith deu um pequeno cutucão em Bonnie. Depois olhou bem para ela. Elena a encarou severamente, sabendo que Bonnie só precisava murmurar um 'eu também'. E Bonnie era boa em concordar uma vez que Meredith fizesse isso.
O problema era que Bonnie ou estava em transe, ou perto demais disso para se importar.
— Almas Sombrias — disse Bonnie.
A mulher pestanejou, mas não como piscamos quando alguém diz algo que não tem resposta. Ela piscou de assombro.
Ah, meu Deus, pensou Elena. Bonnie conseguiu a senha deles ou coisa parecida. Está fazendo previsões, profetizando ou sei lá o quê.
— Almas... Sombrias? — disse a Guardiã, olhando Bonnie atentamente.
— A cidade está cheia delas — disse Bonnie num tom infeliz. Os dedos da Guardiã dançaram sobre o que parecia um palmtop.
— Sabemos disso. É para este lugar que elas vêm.
— Então deviam impedir.
— Nossa jurisdição é limitada. A Dimensão das Trevas é regida por uma dezena de facções de senhores, que têm chefes nos cortiços para levar suas ordens a cabo.
Bonnie, pensou Elena, tentando atravessar o labirinto mental da amiga mesmo que a Guardiã a ouvisse. Eles são a polícia.
No mesmo instante, Damon assumiu.
— O motivo dela é o mesmo das outras — disse ele. — Só que é paranormal.
— Ninguém pediu a sua opinião — rebateu a Guardiã, sem sequer olhar na direção dele. — Não me importa que tipo de figurão você era lá. — Ela apontou a cabeça com desdém para a cidade de luzes. — Atrás desta cerca, está em meu território. E estou perguntando à ruivinha: o que ele diz é verdade?
Elena entrou em pânico por um instante. Depois de tudo por que passaram, se agora Bonnie estragasse tudo...
Desta vez Bonnie piscou. O que quer que estivesse tentando comunicar, a verdade era que era igual a Meredith e Elena. E era verdade que ela era paranormal. Bonnie mentia muito mal quando tinha tempo demais para pensar, mas ela só respondeu sem hesitar:
— Sim, é verdade.
A Guardiã encarou Damon.
Damon sustentou seu olhar como se pudesse fazer isso a noite toda. Encarar era a especialidade dele.
E a Guardiã acenou para se afastarem.
— Imagino que até uma paranormal possa ter um dia ruim — disse ela. Depois acrescentou a Damon: — Cuide delas. Você sabe que todas as paranormais devem ter licença para trabalhar, não sabe?
Damon, com suas melhores maneiras de nobre, respondeu:
— Senhora, elas não são paranormais profissionais. São minhas assistentes particulares.
— E eu não sou uma 'senhora'‖; sou tratada como Meritíssima. A propósito, os viciados em jogo costumam encontrar um fim terrível por aqui.
Ra, rá, pensou Elena. Se ela soubesse que tipo de jogo todos estamos fazendo... Bom, provavelmente ficaríamos pior do que Stefan.
Do outro lado da cerca havia um pátio, onde estavam algumas liteiras, assim como riquixás e pequenas charretes. Nenhuma carroça, nem cavalos. Damon pegou duas liteiras, uma para ele e Elena, outra para Meredith e Bonnie.
Bonnie, ainda com a expressão confusa, olhava o sol.
— Quer dizer que nunca acaba de nascer?
— Não — disse Damon pacientemente. — E está se pondo, e não nascendo. O crepúsculo eterno da Cidade das Trevas. Verá mais enquanto avançarmos. Não toque nisso — acrescentou ele, enquanto Meredith tentava desamarrar a corda dos pulsos de Bonnie antes de subir na liteira. — Vocês duas podem tirar as cordas na liteira, se fecharem as cortinas, mas não as percam. Ainda são escravas e precisam usar algo simbólico nos braços para mostrar isso... Mesmo que sejam só pulseiras iguais. Caso contrário, terei problemas. Ah, e vocês terão que entrar na cidade de véu.
— Nós... o quê? — Elena lançou um olhar incrédulo para ele.
Damon se limitou a abrir o sorriso de 250 quilowatts e, antes que Elena pudesse dizer alguma coisa, tirou alguns tecidos transparentes e finos da mochila preta e entregou-os a elas. O tamanho dos véus era suficiente para cobrir todo o corpo.
— Mas vocês só precisam colocar na cabeça, prender no cabelo ou coisa assim — disse Damon com desdém.
— É feito do quê? — perguntou Meredith, sentindo o tecido sedoso e leve, transparente e tão fino que o vento ameaçava arrançá-lo dos dedos.
— E como vou saber?
— A cor é diferente do outro lado! — Bonnie descobriu isso ao deixar o vento transformar o véu verde-claro em um prata cintilante.
Meredith balançava uma seda violeta-escuro em um azul misterioso pontilhado de uma miríade de estrelas.
Elena, que esperava que seu véu fosse azul, viu-se olhando para Damon. Ele segurava o tecido dobrado nas mãos.
— Vamos ver como fica em você — murmurou ele, assentindo para ela se aproximar. — Adivinhe a cor.
Outra menina teria percebido os olhos negros e as linha puras e entalhadas no rosto de Damon, ou talvez o sorriso selvagem e cruel — um tanto mais selvagem e mais doce do que nunca, como um arco-íris no meio de um furacão. Mas Elena também observou a rigidez de seu pescoço e dos ombros, onde a tensão se acumulava. A Dimensão das Trevas já está cobrando seu preço, fisicamente, mesmo com as zombarias de Damon.
Ela se perguntou quantas sondagens de Poder da parte dos curiosos ele tinha de bloquear a cada segundo. Ela estava prestes a oferecer ajuda, abrindo-se para o mundo sobrenatural, quando ele disse:
— Adivinhe! — E seu tom não era muito sugestivo.
— Dourado — disse Elena de imediato, surpreendendo-se. Quando estendeu a mão para pegar o quadrado dourado que Damon lhe oferecia, uma forte e agradável corrente elétrica disparou de sua palma, subindo pelo braço e parecendo torcê-la diretamente pelo coração. Damon segurou o dedos de Elena brevemente e ela sentiu como se pudesse captar a eletricidade pulsando da ponta dos dedos dele.
O verso do véu soprou branco e cintilou como se fosse incrustado de diamantes. Meu Deus, talvez fossem mesmo diamantes, pensou ela. Como ter certeza, em se tratando de Damon?
— Seu véu de noiva, quem sabe? — sussurrou Damon, com os lábios próximos do ouvido dela. A corda nos pulsos de Elena ficou frouxa demais e ela, indefesa, afagou o tecido transparente, sentindo as minúsculas pedras preciosas, do lado branco, frias em seus dedos.
— Como sabia que ia precisar de todas essas coisas? — perguntou Elena, com um pragmatismo contundente. — Você não sabia de tudo, mas parecia saber o bastante.
— Ah, pesquisei em bares e em alguns lugares. Encontrei pessoas que estiveram aqui e conseguiram sair... Ou foram expulsas. — O sorriso selvagem de Damon ficava cada vez mais selvagem. — À noite enquanto você dormia. Comprei isto numa lojinha escondida. — Ele assentiu para o véu e acrescentou: — Não precisa cobrir o rosto com ele. Pressione no cabelo e ele vai se prender.
Elena obedeceu, usando o lado dourado para fora. Caía até seus calcanhares. Ela passou o dedo no véu, já podendo ver as possibilidades de sedução nele, assim como as de desdém. Se ela pudesse tirar essa maldita corda dos pulsos...
Depois de um momento, Damon se retraiu para a persona do senhor imperturbável e disse: — Para o bem de todos nós, precisamos ser rigorosos com essas coisas. Os chefes dos cortiços e a nobreza que governa esta abominável bagunça que chamam de Dimensão das Trevas sabem que estão à beira de uma revolução, e se dermos o menor motivo, eles vão fazer de nós Um Exemplo Público.
— Tudo bem — disse Elena. — Toma, segure minha corda que vou subir na liteira.
Mas depois que ambos estavam sentados na mesma liteira, não havia muito sentido na corda. A liteira era carregada por quatro homens — não grandes, porém musculosos, e todos da mesma altura, o que tornava o percurso suave.
Se Elena fosse uma cidadã livre, jamais teria se permitido ser carregada por quatro pessoas que (ela supunha) eram escravos. Na realidade, teria feito um estardalhaço por causa disso. Mas a conversa que teve consigo mesma nas docas a fez refletir. Ela era uma escrava, mesmo que Damon não tivesse pagado nada por ela. Não tinha o direito de fazer estardalhaço com nada.
Neste lugar carmesim com cheiro maligno, seus gritos provavelmente criariam ainda mais problemas para os próprios carregadores fazendo com que seu senhor ou quem administrasse o negócio das liteiras os castigasse, como se fosse culpa deles.
Por ora, melhor se ater ao Plano A: ficar de boca fechada.
Havia muito para ver. Tinham passado por uma ponte, que cobria cortiços de odor desagradável, e becos cheios de casas prestes a cair. Em seguida passaram por uma área de comércio, as primeiras lojas eram fortemente gradeadas e feitas de pedra, depois vinham construções mais respeitáveis, e de repente estavam andando por um mercado a céu aberto.
Mas mesmo aqui o selo da pobreza e da fadiga aparecia em muitos rostos. Elena esperava no máximo uma cidade fria, sombria e asséptica, com vampiros impassíveis e demônios de olhos vermelhos andando pelas ruas. Em vez disso, todos que via pareciam humanos e vendiam coisas, de remédios a comida e bebida, produtos dos quais os vampiros não precisavam.
Bom, talvez os kitsune e os demônios precisem deles, raciocinou Elena, tremendo com a ideia do que um demônio ia querer comer. Nas esquinas havia grupos de meninas e meninos mal vestidos de expressões rudes, e pessoas esfarrapadas e famintas segurando placas deprimentes que diziam: UMA LEMBRANÇA POR UMA REFEIÇÃO.
— O que elas querem dizer com isso? — perguntou Elena a Damon, mas ele não lhe respondeu de imediato.
— É assim que os humanos livres da cidade passam a maior parte do tempo — disse ele. — Então, lembre-se disso antes de pensar em se meter em uma de suas missões...
Elena não escutava. Olhava um dos que seguravam uma placa. O homem era terrivelmente magro, com uma barba enorme e dentes podres, mas o pior era a expressão de desespero em seu rosto. De vez em quando estendia a mão trémula na qual segura uma bola pequena e clara, murmurando: ― Um dia de verão quando eu era jovem. Um dia de verão por uma peça de dez geld.  Em geral não havia ninguém por perto quando ele falava.
Elena tirou o anel de lápis-lazúli que Stefan lhe dera e o estendeu para ele. Não queria irritar Damon saindo da liteira, então teve de dizer:
— Venha cá, por favor. — E estendeu o anel para o barbudo. Ele ouviu, e chegou à liteira com rapidez. Elena viu algo em sua barba, piolhos, talvez, e se obrigou a olhar para ele ao falar.
— Pegue. Rápido, por favor.
O velho olhou o anel como se fosse um banquete. — Não tenho troco — gemeu ele, levantando a mão e enxugando a boca com a manga. Ele parecia prestes a cair inconsciente ao chão. — Não tenho troco!
— Não quero troco! — disse Elena vencendo o imenso inchaço que se formava na garganta. — Pegue o anel. Rápido, ou vou deixá-lo cair.
Ele o arrancou de seus dedos enquanto os carregadores avançavam de novo.
— Que os Guardiões a abençõem, senhora — disse ele, tentando acompanhar o trote dos carregadores. — Que eles a abençõem!
— Não devia ter feito isso — disse Damon a Elena quando a voz do homem esmoreceu atrás deles. — Ele não vai comprar uma refeição com isso, sabia?
— Ele estava faminto — disse Elena com brandura. Ela não conseguia explicar que ele lhe lembrava Stefan, não agora. — Era o meu anel —acrescentou ela na defensiva. — Acho que sei o que vai dizer. Que ele vai gastar tudo em álcool e drogas.
— Não, mas também não vai comprar uma refeição com ele. Vai comprar um banquete.
— Bom, que seja...
— Na imaginação dele. Vai comprar um globo empoeirado com alguma lembrança antiga de um vampiro em um banquete romano, ou a lembrança de alguém da cidade em um banquete moderno. Depois vai repetir essa recordação sem parar enquanto morre de fome aos poucos.
Elena ficou chocada.
— Damon! Rápido! Tenho que voltar e encontrá-lo...
— Receio que não possa. — Devagar, Damon ergueu a mão. Segurava firmemente a corda de Elena. — Além disso, ele já foi.
— Como ele pode fazer isso? Como alguém pode fazer isso?
— Como um paciente de câncer de pulmão se recusa a parar de fumar?Mas concordo que aqueles globos podem ser as substâncias mais viciantes do mundo. Culpe os kitsune por trazer suas esferas estelares para cá e fazer delas uma obsessão.
— Esferas estelares? Hoshi no tamciï — Elena arfou.
Damon a olhou, igualmente surpreso.
— O que você sabe delas?
— Só sei o que Meredith descobriu. Ela disse que os kitsune geralmente são retratados ou com chaves — ela ergueu as sobrancelhas para ele — ou com esferas estelares. E que segundo algumas lendas, podem colocar parte do seu poder, ou todo ele, na esfera, e assim, se você a encontrar, pode controlar o kitsune. Ela e Bonnie pretendem encontrar as esferas estelares de Misao ou Shinichi para poder controlá-los.
— Mas ainda assim, meu coração indomável — começou Damon teatralmente, mas no segundo seguinte já estava todo prático. — Lembra o que o velho disse? Um dia de verão por uma refeição? Ele estava falando disso. — Damon pegou o pequeno globo que o velho havia largado na liteira e levou-a à têmpora de Elena.
O mundo desapareceu.
Damon havia sumido. A visão e os sons — sim, e os cheiros — do mercado tinham sumido. Ela estava sentada na relva verde que ondulava com a brisa leve e olhava um salgueiro-chorão curvado na margem de um regato acobreado e ao mesmo tempo verde-escuro. Havia um cheiro doce no ar — madressilva, frésia? Algo delicioso agitava Elena enquanto ela se recostava para olhar as nuvens brancas e perfeitas como uma pintura rolando no céu.
Ela sentiu... Não sabia como dizer. Sentiu-se jovem, mas em algum lugar de sua mente sabia que na verdade era mais nova do que a personalidade estranha que se apoderara dela. Ainda assim, ficou animada por ser primavera e por cada folha verde e dourada, cada pequeno junco, cada nuvem branca e leve se rejubilarem com ela.
E de repente seu coração estava aos saltos. Ela acabara de ouvir o som de passos. Em um momento de alegria na primavera, ela estava de pé, os braços estendidos em seu amor extremado, a louca devoção que sentia por...
...essa jovem? Algo dentro do cérebro do usuário da esfera pareceu recuar de assombro. Acima de tudo, porém, foi pego relacionando as perfeições da menina que se esgueirava com tanta leveza pela realva ondulante: os cachos escuros se reunindo no pescoço, os olhos verdes e faiscantes sib as sombrancelhas arqueadas, o leve brilho da pele de seu rosto enquanto ela ria para o amado, fingindo fugir em pés leves como os de um elfo...!
Perseguidor e acossada caíram juntos no tapete macio da relva alta... E as coisas rapidamente ficaram tão apaixonadas que Elena, a mente distante ao fundo, começou a se perguntar como diabos se parava uma coisa dessas.
Sempre que levava a mão à têmpora, tateando era apanhada e beijada por... Allegra... e Allegra era uma menina. Certamente era bonita, em especial pelos olhos deste espectador. Sua pele macia e sedosa...
Em seguida, com um choque tão grande quanto o que sentiu quando o mercado desapareceu, ela estava de volta. Ela era Elena; estava na liteira com Damon; havia uma cacofonia ao seu redor e mil cheiros diferentes. Mas Elena respirava com dificuldade, e parte dela ainda ressoava John — era esse o nome dele — o amor de John por Allegra.
 Mas ainda não entendo — ela caiu de joelhos.
— É simples — disse Damon.  Você coloca uma espera estelar vazia do tamanho que quiser na têmpora e pensa no momento que quer registrar. A esfera faz o resto. — Ele gesticulou para que ela não o interrompesse e se inclinou para a frente com malícia naqueles olhos negros e insondáveis. — quem sabe você teve um dia de verão especialmente quente? —disse ele, acrescentando sugestivamente: — Essas liteiras têm cortinas.
— Deixa de ser bobo, Damon — disse Elena, mas os sentimentos de John atiçaram os dela, como sílex e lenha. Ela não queria beijar Damon, disse a si mesma com severidade. Queria beijar Stefan. Mas como segundos antes estivera beijando Allegra, este não parecia um argumento muito forte.
— Acho — começou ela, ainda sem fõlego, enquanto Damon estendia-lhe a mão — que esta não é uma boa...
Com um leve peteleco na corda, Damon desamarrou as mãos de Elena.
Ele teria puxado os pulsos dela, mas Elena imediatamente se virou um pouco, escorando-se com a mão. Precisava se escorar.
Naquelas circunstâncias, porém, não havia nada mais significativo — ou mais... excitante... do que o que Damon fizera.
Ele não puxou as cortinas, mas Bonnie e Meredith estavam numa liteira logo atrás, fora de vista. E certamente longe da mente de Elena. Ela sentiu uma onda de puro amor e apreço por Damon, por sua compreensão de que ela jamais faria isso como escrava com um senhor.
Nós dois somos indomáveis, ela ouviu em suas mente, lembrando-se de que quando relaxava a maior parte de suas capacidades paranormais, esquecia-se de baixar o volume desta. Ah, que seja, pode bem vir a calhar...
Nós dois gostamos de ser venerados, respondeu ela telepaticamente, e sentiu o riso de Damon nos lábios dela enquanto ele admitia a verdade. Ultimamente, não havia nada mais doce em sua vida do que os beijos de Damon. Ela podia vagar neles para sempre, esquecendo-se do mundo. E era bom, porque, para Elena, haiva depressão de mais e felicidade de menos no mundo. Mas se ela pudesse recorrer a isto sempre, a esta doçura, este êxtase bem-vindo...
Ela sobressaltou-se, lançando o peso para trás com tal rapidez que os carregadores da liteira quase caíram amontoados.
— Seu cretino — sussurrou ela com crueldade. Eles ainda estavam psiquicamente ligados e Elena ficou feliz por ver, pelos olhos de Damon, que ela era como uma Afrodite vingativa: seu cabelo dourado erguendo-se vergastando atrás dela como uma tempestade, os olhos violeta brilhando em sua fúria elementar.
— Nem um dia — disse ela. — Você não consegue manter sua promessa nem por um dia que seja!
— Eu não fiz! Não influenciei você, Elena!
— Não me chame assim. Agora temos uma relação profissional. Eu o chamo de amo‖. Você me chama de escrava, cadela ou o que quiser.
— Se temos uma relação profissional de senhor e escrava — disse Damon, com os olhos perigosos —, então posso simplesmente ordenar que você...
— Experimente! — Elena ergueu os lábios no que realmente não era um sorriso. — Por que não tenta e vê o que acontece?

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