15 de novembro de 2015

Capítulo 15

Klaus gritou, um grito que lembrou a Bonnie o grito dos antigos predadores, de um dente de sabre e de um mamute macho. Espuma ensanguentada saía de sua boca junto ao grito, tornando o lindo rosto em uma máscara distorcida pela fúria.
Suas mãos arranhavam nas suas costas, tentando pegar a estaca de madeira branca e arrancá-la. Mas estava muito profunda. O lançamento tinha sido muito bom.
— Damon — sussurrou Bonnie.
Ele estava de pé na borda do claro, emoldurado pelas árvores de carvalho. Quando ela olhou, deu um passo até Klaus, e logo outro; ágil, se aproximando, passos cheios de propósitos mortais.
E ele estava zangado. Bonnie teria corrido do olhar do rosto dele se os músculos dela não estivessem congelados. Nunca tinha visto tanta ameaça contida.
— Se... afaste... de meu irmão — disse ele, quase respirando isso, com os olhos fixos em Klaus deu outro passo.
Klaus gritou de novo, mas suas mãos deixaram pararam com a frenética tentativa de arrancar a estaca.
— Idiota! Não temos que brigar por isso! Disse a você na casa! Nós podemos ignorar os outros.
A voz de Damon não era mais alta que antes.
— Se afaste do meu irmão.
Bonnie podia senti-lo dentro dele, um crescimento de Poder como um tsunami. Ele continuou tão suavemente que Bonnie tinha que se esforçar para ouvi-lo.
— Antes que eu arranque seu coração.
Bonnie podia se mover. Ela foi para trás.
— Eu disse a você! — gritou Klaus, espumando. Damon não reconheceu as palavras de qualquer forma. Tudo nele parecia se concentrar na garganta de Klaus, em seu peito e no coração que ia arrancar.
Klaus pegou a lança inquebrável e se apressou sobre ele.
Apesar de todo o sangue, o homem loiro parecia ter força o suficiente. A corrida foi repentina, violenta e quase inaudível. Bonnie o viu empurrar a lança em Damon e fechou os olhos involuntariamente, então os abriu um instante mais tarde e ouviu um bater de asas. 


Klaus tinha arremessado para o lugar onde Damon tinha estado, e um corvo negro estava voando para cima enquanto uma só pena flutuou, caindo. Quando Bonnie olhou fixamente, Klaus foi depressa para a escuridão além do claro e desapareceu.
O silêncio morreu na madeira.
A paralisia de Bonnie se rompeu lentamente, e ela deu o primeiro passo, e então correu para onde Stefan estava. Ele não abriu os olhos quando aproximou; parecia inconsciente. Ela ajoelhou-se ao seu lado. E então sentiu um tipo de calma horrível se arrastando por cima dela, como alguém que tivesse estado nadando em água gelada e por fim tivesse sentido o primeiro sinal inegável de hipotermia. Se não tivesse tido tanto sustos sucessivos, podia ter gritado, gritado ou podia ter ficado histérica. Mas, isso simplesmente era o último passo, o último deslizar fora da realidade. No mundo do não poder ser, mas era.
Porque isso era ruim. Muito ruim. Tão ruim quanto podia ser.
Nunca tinha visto ninguém tão ferido assim. Nem o Sr. Tanner, e ele tinha morrido das feridas. Nada que Mary tivesse dito podia ajudar a solucionar esse problema. Mesmo se eles tivessem Stefan deitado, fora da sala de operações, isso não poderia ter sido pior.
Nesse estado de terrível calma ela olhou para o borrão do bater de asas e o brilho da luz da lua. Damon estava de pé ao seu lado, e falou bastante calma e racional.
— Ajudaria dar sangue a ele?
Ele não parecia ouvi-la. Seus olhos estavam negros, e amáveis. Aqueles que apenas liberavam a violência, esse sentimento de feroz energia retida, se fora. Se ajoelhou e tocou a cabeça escura na terra.
— Stefan?
Bonnie fechou os olhos.
Damon está assustado, pensou. Damon está assustado – Damon! – e oh, Deus, eu não sei o que fazer. Não há nada o que fazer, tudo acabou e estamos perdidos e Damon está assustado por Stefan. Ele não vai cuidar das coisas que não tem solução e alguém tem que arrumar isso. Oh, Deus, por favor, me ajude porque estou assustada e Stefan está morrendo, Meredith e Matt estão feridos e Klaus vai voltar.
Ela abriu seus olhos para olhar para Damon. Ele estava branco, seu rosto aprecia muito jovem nesse momento, com os olhos negros dilatados.
— Klaus vai voltar — disse Bonnie calmamente. Ela não teve medo dele. Era um caçador de séculos de idade e uma garota humana de dezessete anos sentados na beirada do mundo.
Eram simplesmente duas pessoas, Damon e Bonnie que tinham que fazer o melhor que pudessem.
— Eu sei — disse Damon. Estava segurando a mão de Stefan, parecia completamente envergonhado sobre isso, e isso parecia bastante lógico e sensato. Bonnie podia sentir que enviava Poder a Stefan, também podia sentir que não era o bastante.
— Sangue poderia ajudá-lo?
— Não muito. Um pouco, talvez.
— Temos que tentar qualquer coisa que o ajude. 
Stefan sussurrou:
— Não.
Bonnie se surpreendeu. Pensou que ele estava inconsciente. Mas seus olhos estavam abertos, com alarme e ardendo sem a chama verde. Eles eram a única coisa viva nele.
— Não seja estúpido — disse Damon, endurecendo a voz. Ainda com as mãos de Stefan, moveu-as até os nós dos dedos esbranquiçados dele. — Você está muito ferido.
— Não vou quebrar minha promessa — essa obstinação imóvel estava na voz de Stefan, no seu rosto pálido. E quando Damon abriu a boca de novo, para dizer que, sem dúvida, Stefan quebraria isso e como ou ele quebraria seu pescoço, Stefan adicionou: — Especialmente quando isso não adiantaria nada.
Houve um silêncio enquanto Bonnie lutou com a crua verdade disso. Onde estavam agora, naquele terrível lugar além de todas as coisas extraordinárias, fingir ou falsificar uma reafirmação parecia errado.
Só a verdade valia. E Stefan estava dizendo a verdade.
Ainda olhava para seu irmão, quem estava olhando para trás, com toda fúria, com uma furiosa atenção em Stefan como antes focava Klaus. Como se de algum modo isso ajudasse.
— Estou muito ferido, estou morto — disse Stefan brutalmente, seus olhos focaram Damon. A última e grande luta deles como testamento, pensou Bonnie. — E você tem que tirar Bonnie e os outros daqui.
— Não vamos deixar você — interveio Bonnie. Essa era a verdade; ela podia dizer isso.
— Vocês devem! — Stefan não desviou o olhar de seu irmão. — Damon, sabe que eu tenho razão. Klaus voltará a qualquer momento. Não jogue sua vida fora. Não jogue a vida deles fora.
— Não dou a mínima para a vida deles — sibilou Damon. A verdade, pensou Bonnie, curiosamente inofensível. Havia só uma vida que preocupava Damon, e não era a sua.
— Sim, você se importa — Stefan sinalou para suas costas queimadas. Estava segurando a mão de Damon com um aperto feroz, como se fosse uma resposta e ele pudesse forçar Damon a seguir esse caminho. — Elena tinha um último pedido; bem, ele também será o meu. Você tem Poder, Damon. Quero que use para ajudá-los.
— Stefan... — sussurrou Bonnie desesperançosa.
— Me prometa — disse Stefan a Damon, e então um espasmo de dor torceu seu rosto.
Por incontáveis segundos Damon simplesmente olhou para baixo. Então disse:
— Eu prometo — rápido e de repente como o golpe de uma adaga. Soltou a mão de Stefan e se levantou. Virou-se para Bonnie. — Vamos.
— Não podemos deixá-lo...
— Sim, podemos — não havia nada jovem agora sobre o rosto de Damon. Nada vulnerável. — Você e seus amigos sairão daqui, para sempre. Eu vou logo depois.
Bonnie balançou a cabeça. Soube, tenuamente, Damon não estava traindo Stefan, em todo o caso, Damon estava colocando os ideais de Stefan acima da vida de Stefan, mas isso era tudo tão obtuso e incompreensível. Ela não o entendeu e não queria entendê-lo. Tudo o que sabia era que Stefan estava ali e não podia deixá-lo.
— Venha agora — disse Damon, alcançando-a, o anel de aço em sua voz. Não entendendo isso, Bonnie se preparou para lutar, e então ocorreu algo que fez todos os seus sentidos se debaterem. Houve um estalido como se um gigante tivesse batido em algo e um flash como a luz do dia, e Bonnie estava deslumbrada. Quando pôde ver através da imagem, seus olhos voaram para as chamas que estavam lambendo do recém buraco negro até a base de uma árvore.
Klaus tinha retornado. Com o relâmpago.
O olho de Bonnie foi para próximo dele, como a única outra coisa que em movimento no claro. Estava ondeando a estaca de madeira branca sangrenta que tinha tirado de seu próprio corpo como um troféu. Pára-raios, pensou Bonnie ilogicamente, e então houve outro acidente.
Caindo do céu vazio, em uma enorme bifurcação azul e branco que incendiava tudo como o sol do meio-dia. Bonnie assistiu como uma árvore e depois outra foi atingida, uma mais perto do que a anterior. As chamas lambiam as folhas com fome como duendes vermelhos.
Duas árvores, em ambos os lados de Bonnie, explodiram, com um estalido tão barulhento que sentiu mais do que ouviu, com uma dor penetrante em seus tímpanos. Damon, cujos olhos eram mais sensíveis, levantou uma mão para protegê-los. 
Então gritou:
— Klaus! — e saltou para o homem loiro. Ele não estava se aproximando furtivamente agora; esse era um ataque mortal. A explosão de velocidade da matança da caça de um gato ou um lobo.
O relâmpago iminente o alcançou.
Bonnie gritou quando o viu, saltando a seus pés. Houve um flash azul gases super quentes e um cheiro de queimado, e Damon caído, seu rosto jazendo sem movimento. Bonnie podia ver pequenos tufos de fumaça vindos dele, justamente como ele fizera com as árvores.
Muda pelo horror, ela olhava Klaus.
Ele estava comemorando através do claro, segurando sua estaca ensaguentada como em um clube de golfe. Inclinou-se sobre Damon quando passou, e sorriu. Bonnie quis gritar de novo, mas não tinha respiração. Não parecia ter nenhum ar para respirar.
— Me ocuparei de você depois. — disse Klaus ao inconsciente Damon. Ele virou seu rosto para Bonnie.
— Você — ele disse. — Vou cuidar de você agora.
Tardou um momento para compreender que ele estava olhando para Stefan, e não para ela. Os olhos azuis estavam fixos no rosto de Stefan. Eles se moviam para o Stefan ensanguentado.
— Vou comer você agora, Salvatore.
Bonnie estava só. A única que estava de pé. Ela teve medo.
Mas soube o que tinha que fazer.
Permitiu que seus joelhos se dobrassem de novo, se deixando cair na terra ao lado de Stefan.
E então é assim que acaba, pensou. Se ajoelha ao lado do seu cavalheiro e enfrenta o inimigo.
Olhou para Klaus e se moveu escudando Stefan. Parecia que ele a via pela primeira vez, e franziu o cenho como se tivesse encontrado uma aranha na salada.
A luz do fogo vermelho-alaranjado flutuou em seu rosto.
— Saia do meu caminho.
— Não.
E isto é começo do fim. Então, tão só, como uma palavra, e você morrendo em uma noite de verão. Uma noite de verão com a lua e estrelas brilhando e as fogueiras ardendo como quando os druidas convocavam os mortos.
— Bonnie, vá — disse Stefan dolorosamente. — Vá enquanto pode.
— Não — disse Bonnie. Sinto muito, Elena, pensou. Não posso salvá-lo. Isso é tudo que posso fazer.
— Fora do meu caminho — Klaus disse através de seus dentes.
— Não — ela podia esperar e deixar Stefan morrer dessa maneira, com os dentes de Klaus em sua garganta. Podia não parecer uma grande diferença, mas era a única coisa que podia oferecer.
— Bonnie... — sussurrou Stefan.
— Você não sabe quem eu sou, garota? Tenho caminhado com o diabo. Se você se mover, vou deixar você morrer rapidamente.
A voz de Bonnie se quebrou. Ela balançou a cabeça.
Klaus jogou sua cabeça para trás e riu. Um pouco mais de sangue gotejou.
— Bem — disse ele. — Ao seu modo. Os dois vão ir juntos.
Noite de verão, pensou Bonnie. A véspera do solstício. Quando a linha entre os mundos é mais fina.
— Diga boa noite a seu namorado.
Não há tempo para transe, não há tempo para nada. Nada exceto um apelo desesperado.
— Elena! — Bonnie gritou. — Elena! Elena! 
Klaus retrocedeu.
Por um momento, parecia como se o nome tivesse poder para alarmá-lo. Ou como se esperasse que algo respondesse ao pedido de Bonnie. Ele estava de pé, escutando.
Bonnie utilizou seus poderes, colocando tudo o que tinha neles, jogando sua necessidade e seu chamamento ao vazio.
E sentiu... nada.
Nada perturbou a noite de verão exceto o som das chamas. Klaus virou para Bonnie e Stefan, e sorriu abertamente.
Bonnie então viu a névoa se arrastando pelo chão.
Não podia ser névoa. Devia ser a fumaça do incêndio. Mas não se comportava como tal. Estava rodopiando, subindo no ar como um redemoinho pequeno ou uma poeira do mal. Contida em uma forma mais ou menos do tamanho de um homem.
Havia outra a pouca distância. Então Bonnie viu um terceiro. O mesmo estava acontecendo em todas as partes.
A névoa estava flutuando fora da terra, entre as árvores. Porções disso, cada um separado e diferente. Bonnie, olhando fixamente muda, podia ver através de cada fragmento, pôde ver as chamas, os carvalhos, os ladrilhos da chaminé. Klaus tinha parado de sorrir, parou, e também estava olhando.
Bonnie se virou para Stefan, incapaz até de perguntar.
— Espíritos inquietos — sussurrou ele cansadamente, seus olhos verdes em tentativa. — O solstício.
E então Bonnie entendeu.
Estavam vindo. Do outro lado do rio, onde ficava o antigo cemitério laico. Do bosque onde tinham escavado inumeráveis tumbas provisórias para descarregar os corpos antes de que putrificassem. Os espíritos inquietos dos soldados que tinham lutado aqui e tinham morrido durante a Guerra Civil. Um organizador sobrenatural que responde a chamada de ajuda. 
Estavam se organizando ao redor. Havia centenas deles.
Bonnie podia ver o rosto deles agora. Os contornos nebulosos se enchiam com pálidas cores como aquarelas fluídas. Viu uma chama azul, um vislumbre cinza. União e tropas Confederadas. Bonnie vislumbrou o punho de uma pistola em uma cintura, o brilho de uma espada ornamentada. As bifurcações em uma luva. Uma barba escura e espessa; uma longa bem tendida barba. Uma pequena figura, do tamanho de uma criança, com buracos escuros para os olhos e um tambor, pendurado ao nível da coxa.
— Oh, meu Deus — sussurrou. — Oh, Deus — não estava jurando. Era mais como uma oração.
Não é que não estivesse assustada com eles. Cada pesadelo que tinha tido sobre o cemitério era realidade. Como o primeiro sonho com Elena, quando as coisas vinham se arrastando para fora dos buracos negros na terra; só que estas coisas não se arrastavam, estavam voando, passando levemente pelo chão e flutuando até que ficassem na forma humana. Tudo que Bonnie já tinha imaginado sobre cemitérios – que havia vida e era cheio de olhos observadores, que havia algum Poder espreitando e esperando na quietude – estava provando ser real. A terra de Fell’s Church tinha memórias sanguentas. Os espíritos que aqui morreram, estavam caminhando de novo.
E Bonnie podia sentir a raiva deles. Isso a assustou, mas outra emoção a estava acordando dentro dela, suspendendo sua respiração fazendo mais pressão sobre a mão de Stefan. Porque o exército nebuloso tinha um líder.
Uma figura estava flutuando na frente dos outros, mais perto do lugar onde Klaus estava. Ele não tinha forma ou definição no momento, mas brilhou e cintilou como a pálida luz dourada da chama de uma vela. Então, diante os olhos de Bonnie, ele parecia assumir substâncias do ar, brilhando mais e mais a cada minuto com uma luz sobrenatural. Ele estava mais brilhante que o círculo de fogo. Era tão brilhante que Klaus se afastou e Bonnie pestanejou, mas quando se transformou em um som baixo, ela viu Stefan olhando diretamente para ela, sem medo, com os olhos muito abertos. E sorrindo, tão tolamente, como se estivesse contente que aquilo fosse a última coisa que fosse ver.
E Bonnie estava certa. 
Klaus deixou cair a estaca. Tinha se afastado de Bonnie e Stefan para enfrentar o ser de luz que estava no claro como um anjo vingador. O cabelo dourado para trás em um vento invisível, Elena olhava para ele.
— Ela veio — sussurrou Bonnie.
— Você pediu para ela vir — murmurou Stefan. Sua voz se revelou uma trabalhosa respiração, mas ainda estava sorrindo. Seus olhos estavam serenos.
— Se afaste deles — disse Elena, sua voz veio simultaneamente nos ouvidos e na mente de Bonnie. Isso era como o titilar de duzentos sinos, uma vez sendo distante e intima. — Isso acaba agora, Klaus.
Mas Klaus se recuperou rapidamente. Bonnie viu seus ombros se incharem com um sopro, notou pela primeira vez o buraco na parte de trás da impermeável cor canela onde estava a estaca de madeira branca o tinha furado. Estava manchado de vermelho escuro, e sangue novo estava fluindo agora quando Klaus levantou seus braços.
— Acha que tenho medo de você — gritou. Ele andou ao redor, rindo de todas as formas pálidas. — Acha que tenho medo de qualquer um de vocês? Vocês estão mortos! Poeira do vento! Não podem me tocar.
— Você está errado — Elena disse em sua voz de vento.
— Sou um dos Anciões! Um Original! Você sabe o que isso significa? — Klaus se virou de novo, dirigindo-se a todos eles, seus olhos azuis sobrenaturais pareciam alguma coisa das luzes vermelhas do fogo. — Nunca morri. Cada um de vocês morreu, galeria de fantasmas. Mas eu não. A morte não pode me tocar. Eu sou invencível!
A última palavra chegou em grito tão forte que fez um eco entre as árvores. Invencível... invencível... invencível. Bonnie a ouviu desvanecer no som faminto do fogo.
Elena esperou até que o último eco morresse. Então disse, muito simplesmente:
— Não completamente — virou para olhar as formas nebulosas ao redor dela. — Ele quer derramar mais sangue aqui.
Uma nova voz falou, uma voz oca que saiu como jogo de água fria na coluna de Bonnie.
— Já houve mortes o suficiente — era um soldado da União com uma fila dupla de botões em sua jaqueta.
— Mais do que suficiente — disse outra voz, como o longe estampido de um tambor. Um Confederado que segurava uma baioneta.
— É hora de parar — disse um homem velho com o tecido do uniforme gasto.
— Não podemos permitir isso — disse o garoto do tambor com os buracos negros no lugar dos olhos.
— Não haverá mais sangue derramado — várias vozes o seguiram. — Não haverá mais mortes!
O lamento passou de um para outro até que a onda de sons era mais forte que o rugido do fogo.
— Não haverá mais sangue!
— Vocês não podem me tocar! Não podem me matar!
— Vamos pegá-lo, garotos!
Bonnie nunca soube quem deu essa última ordem. Mas foi obedecida por todos, Soldados da União e Confederados. Estavam subindo, fluindo, dissolvendo-se na névoa, de novo, uma névoa escura com cem mãos. Eles se balançaram sobre Klaus como uma onda do oceano, o golpeando e o rodando. Cada mão o pegou, e ainda que Klaus estivesse lutando e brigando com braços e pernas, eles eram muitos para ele. Em segundos foi escurecido, tragado pela névoa escura. Subiu girando como um tornado de gritos que só se ouvia ligeiramente.
— Não podem me matar! Eu sou imortal!
O tornado varreu a escuridão além da vista de Bonnie. Seguido por um rastro de fantasmas como rabo de um cometa, disparado para o céu noturno.
— Para onde o levaram? — Bonnie não quis dizer alto; apenas disse bruscamente, sem pensar. Mas Elena escutou.
— Onde ele não machucará ninguém — disse, e o olhar em seu rosto deteve Bonnie de fazer qualquer outra pergunta.
Houve um guincho, um forte som do outro lado do claro. Bonnie se virou e viu Tyler, em sua terrível forma parte humana, parte animal, sem pés. Não havia necessidade para o clube de Caroline. Ele estava olhando fixamente Elena e as poucas figuras fantasmagóricas.
— Não deixe que me levem! Não deixe que me levem também!
Antes de que Elena pudesse falar, ele tinha olhado ao redor. Considerou que o fogo estava mais alto que a sua cabeça, por um instante, e então entrou direto através dele, embrenhando-se mais além do bosque. Através de uma fenda entre as chamas, Bonnie o viu cair na terra, envolto em chamas, depois se levantou e correu de novo. Então o fogo se espalhou e ela não pôde ver mais nada.
Mas tinha se lembrado de algo: Meredith e Matt. Meredith apoiava sua cabeça no colo de Caroline, assistindo. Matt estava atrás. Ferido, mas não tão ferido como Stefan.
— Elena — disse Bonnie, capturando a atenção da figura luminosa, e então simplesmente olhou para ele.
O brilho se aproximou. Stefan não pestanejou. Olhou para dentro do coração da luz e sorriu.
— Ele foi derrotado. Graças a você.
— Foi Bonnie quem nos chamou. E ela não podia ter feito no lugar correto e no momento correto sem você e os outros.
— Eu tentei manter minha promessa.
— Eu sei, Stefan.
Bonnie não gostou nada de como isso soava. Parecia muito com uma despedida permanente. Suas próprias palavras afloraram de novo: Ele poderia ir a outro lugar ou... ou simplesmente ir embora. E não queria que Stefan fosse a lugar algum. Certamente qualquer um que parecesse tanto um anjo...
— Elena? — disse. — Você não pode fazer algo? Não pode ajudá-lo? — sua voz era agitada.
E a expressão de Elena quando virou-se para olhar Bonnie era suave, mas tão triste, estava desolada. Isso a lembrou alguém, e então ela lembrou. Honoria Fell. Os olhos de Honoria eram parecidos, como se estivesse olhando todos os males inescapáveis do mundo. Toda a injustiça, todas as coisas que não deveriam ter acontecido, mas aconteceram.
— Eu posso fazer algo — disse. — Mas não sei se é o tipo de ajuda que você quer — ela se voltou para Stefan. — Stefan, posso curar o que Klaus fez. Esta noite tenho muito Poder. Mas não posso curar o que Katherine fez. 
O cérebro entorpecido de Bonnie lutou com isso por um momento. O que Katherine fez? Mas...
Stefan tinha se recuperado há meses da tortura de Katherine na cripta. Então ela entendeu. O que Katherine fez foi fazer de Stefan um vampiro.
— Já faz muito tempo — Stefan estava dizendo a Elena. — Se você me curasse disso, eu seria um monte de poeira.
— Sim — Elena não sorriu, só continuou olhando firmemente para ele. — Quer minha ajuda, Stefan?
— Para continuar vivendo nesse mundo das sombras... — a voz de Stefan era um sussurro agora, seu verde olhar estava distante. Bonnie quis sacudi-lo. Viva, pensou, mas não disse por medo, ela faria ele decidir justamente pelo contrário. Então pensou em algo mais. 
— Para continuar tentando — disse, e os dois olharam para ela. Ela olhou para trás levantando o queixo, e viu o começo de um sorriso nos lábios luminosos de Elena. Elena se virou para Stefan, e esse pequeno sorriso passou para ele.
— Sim — disse calmamente, e depois para Elena. — Quero a sua ajuda.
Ela se inclinou e o beijou.
Bonnie o viu o brilho fluir dela para Stefan, como um rido de luz brilhante, crescente. Isso o inundou mais do que a névoa escura tinha rodeado Klaus, foi como uma cascata de diamantes até que seu corpo inteiro brilhava como o de Elena. 
Por um instante, Bonnie imaginou que podia ver o sangue dentro dele, como se estivesse em fusão, fluindo fora de cada veia, cada tubo capilar, curando tudo o que tocava. Então, o brilho se apagava em uma aura de ouro, encharcando a pele de Stefan. Sua camisa estava destruída, mas embaixo dela, a carne era lisa e firme. Bonnie, sentindo seus próprios olhos maravilhados, não podia resistir não tocar.
E sentiu como se fosse qualquer pele. As horríveis feridas tinham desaparecido.
Riu alto com grande entusiasmo e, depois olhou moderadamente.
— Elena, Meredith também...
O ser luminoso que era Elena já estava se movendo pelo claro. Procurava por Meredith no colo de Caroline.
— Olá, Elena — disse quase normalmente, só que sua voz estava muito fraca. 
Elena inclinou-se e beijou-a. O brilho fluiu de novo, abarcando Meredith.
E quando se foi, Meredith se colocava de pé com os dois pés.
Elena fez o mesmo com Matt que acordou confuso, mas em alerta. Beijou Caroline também, e Caroline parou de se agitar e se ajeitou.
E então foi para Damon.
Ele ainda estava jazendo no chão onde tinha caído. Os fantasmas tinham passado por cima dele sem notá-lo. O brilho de Elena o cobriu como asas, uma mão brilhante tocou seu peito. Inclinou-se e beijou a cabeça escura no chão.
Quando a luz brilhante desvaneceu, Damon se sentou e balançou a cabeça. Viu Elena e ainda caído, cuidou de cada movimento para se por de pé. Não disse nada, só olhou como Elena voltava para Stefan.
Ele estava com sua silhueta contra o fogo. Bonnie apenas tinha notado como o esplendor vermelho crescia de maneira quase como um eclipse de ouro em Elena. Mas agora viu e sentiu uma emoção alarmada.
— Meu último presente — disse Elena, e começou a chover.
Não era uma tempestade de trovões e relâmpagos, mas uma profunda paulatina chuva que encharcava tudo – Bonnie incluiu – e roçou o fogo. Isso era refrescante e bom, e parecia lavar o horror das últimas horas, limpando o claro de tudo que tinha acontecido. Bonnie inclinou seu rosto para cima, fechando os olhos, querendo esticar os braços e abraçá-la. Por fim, controlada, olhou de novo para Elena.
Elena estava olhando para Stefan, e não havia nenhum sorriso em seus lábios. A dor indescritível voltava a seu rosto.
— É meia-noite” disse. — Tenho que ir.
Bonnie soube naquele instante que o som da palavra “ir” não significava por um momento. “Ir” significava para sempre. Elena ia para algum lugar onde nenhum transe ou sonho podia chegar. 
E Stefan também sabia disso. 
— Só mais alguns minutos — disse ele, alcançando-a.
— Eu sinto muito...
— Elena, espere... Preciso dizer algo a você...
— Eu não posso! — pela primeira vez a serenidade de seu rosto luminoso se desfez, mostrando não só a tristeza gentil, mas o horrível pesar. — Stefan, não posso esperar. Sinto muito — era como se ela se jogasse para trás, se retirando para alguma dimensão que Bonnie não podia ver. Talvez o mesmo lugar que Honoria foi quando sua tarefa terminou, pensou Bonnie. Para ficar em paz.
Mas os olhos de Elena não pareciam que estivesse em paz. Eles se fixaram em Stefan, e ela estendeu sua mão para ele, desesperadamente. Eles não se tocaram. Onde quer que fosse, Elena estava indo para muito longe.
— Elena... por favor! — era a voz com a que Stefan a tinha chamado em seu quarto. Como se seu coração estivesse se despedaçando.
— Stefan — chorou ela, lhe oferecendo ambas as mãos agora. Mas ela estava diminuindo, desaparecendo. Bonnie sentia que um soluço crescia em seu próprio peito, fechando sua garganta. Isso não era justo. Tudo o que tinham desejado era estar juntos. E agora o prêmio de Elena por ajudar a cidade e terminar a tarefa, seria se separar irrevogavelmente de Stefan. Isso não era justo.
— Stefan — Elena chamou de novo, mas sua voz veio de uma longa distância. O brilho quase já tinha ido. Então, Bonnie olhou fixamente através das lágrimas desesperançosa, pestanejando.
Deixando o claro silenciosamente mais uma vez. Todos estavam indo, os fantasmas de Fell’s Church que tinham caminhado durante a noite para que não se derramasse mais sangue. O espírito luminoso que os liderava tinham desaparecido sem rastro, e inclusive a lua e as estrelas foram cobertas por nuvens.
Bonnie soube que a água no rosto de Stefan não era a chuva que imóvel salpicando. Ele estava de pé, movendo o peito com esforço, olhando o último lugar onde o brilho de Elena tinha sido visto. E toda a saudade e dor que Bonnie tinha vislumbrado em seu rosto algum tempo atrás, não era nada comparado ao que via agora.
— Isso não é justo — sussurrou ela. Então gritou para o céu, sem saber a quem estava se dirigindo. — Isso não é justo!
Stefan estava respirando cada vez mais rapidamente. Nesse momento levantou seu rosto, enraivado, mas não pela dor insuportável. Seus olhos estavam investigando as nuvens como se pudesse encontrar um último rastro de luz dourada, algum fragmento de luz. Ele não pôde. Bonnie viu o espasmo passar por ele, como a agonia de Klaus com a estaca. E o choro que explodiu dele foi a coisa mais terrível que ela já ouviu.
— Elena!

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