13 de novembro de 2015

Capítulo 15

Elena contemplou Damon com mudo pavor. Conhecia muito bem aquele sorriso inquietante. Mas ao mesmo tempo que sua alma caía aos pés, sua mente lhe lançou uma pergunta divertida. E que diferença faz? Stefan e ela morreriam de qualquer forma. Era totalmente sensato que Damon preferisse se salvar. E era um erro esperar que ele fosse contra  sua natureza.
Observou aquele lindo e caprichoso sorriso com um sentimento de pena pelo o que Damon poderia ter sido.
Katherine devolveu o sorriso, encantada.
— Seremos muito felizes juntos. Quando estiverem mortos, eu o libertarei. Não era minha intenção machucá-lo, não de verdade. Simplesmente, me irritei — estendeu uma mão delgada e acariciou a bochecha dele. — Eu sinto muito.
— Katherine — ele falou, e continuava sorrindo.
— Sim? — se inclinou mais até ele.
— Katherine...
— Sim, Damon?
— Vá para o inferno!
Elena estremeceu ante ao que aconteceu depois, inclusive antes acontecesse, sentindo a violenta pulsação de poder, poder malévolo e livre. Gritou ao ver a mudança em Katherine. Aquele rosto precioso se retorcia, transformando-se em algo que não era nem humano nem animal. Uma luz vermelha queimou nos olhos de Katherine enquanto se atirava sobre Damon, afundando as presas em sua garganta.
Das pontas dos dedos brotaram garras que arranharam o peito já sangrento dele, arrancando a carne enquanto o sangue fluía. Elena continuou gritando, notando vagamente que a dor em seus braços se devia ao esforço de lutar contra as cordas que a seguravam. Ouviu Stefan gritar também, mas acima de tudo, ouviu a gritaria ensurdecedora da voz mental de Katherine.
Agora sim você vai se arrepender! Farei com que se arrependa! Vou matá-lo! Vou matar você! Vou matar você! VOU MATAR VOCÊ!
As palavras feriam como se fossem adagas perfurando a mente de Elena. Seu terrível poder a atordoava, a balançava contra as grades de ferro. Mas não havia uma forma de fugir dele. Parecia ressoar por todas as partes, martelando seu cérebro.
Vou matar você! Vou matar você! Vou matar você!
Elena perdeu a consciência.


Meredith, agachada junto à tia Judith na área de serviço, mudou o peso do corpo para a outra perna, esforçando-se para interpretar os sons que vinham do outro lado da porta. Os cachorros haviam conseguido entrar no porão; não estava certa de como, mas a julgar pelos focinhos ensanguentados de alguns deles, imaginou que tivessem entrado pelas janelas próximas ao chão. Agora os animais estavam no cômodo ao lado, mas Meredith não sabia o que faziam. Estava silencioso demais do lado de fora.
Margaret, encolhida no peito de Robert, choramingou:
— Silêncio — murmurou Robert. — Não está acontecendo nada, querida. Vai ficar tudo bem.
Meredith cruzou o olhar com a expressão assustada e decidida dele por cima da cabeça da menininha loira. Quase demos a você a medalha de ouro do Outro Poder, pensou. Mas naquele instante não havia tempo para se lamentar.
— Onde está Elena? Elena disse que cuidaria de mim — Margareth falou, os olhos muito arregalados e solenes. — Disse que me vigiaria.
Tia Judith levou uma mão à boca.
— Ela está cuidando de você — sussurrou Meredith de volta. — Na verdade, ela me enviou para fazer isso. É verdade — acrescentou com ferocidade, e viu que o olhar de reprovação de Robert se transformara em perplexidade.
Do lado de fora, o silêncio havia dado lugar a ruídos de arranhões e dentes roendo. Os cachorros estavam trabalhando na porta.
Robert acolheu a cabeça de Margareth para mais perto de seu peito.


Bonnie não sabia quanto tempo passaram trabalhando. Horas, na verdade. Uma eternidade, era o que parecia. Os cachorros haviam entrado pela cozinha e as antigas portas laterais de madeira. Até o momento, só uma dúzia, aproximadamente, conseguira ultrapassar as fogueiras acesas em barricadas na frente das aberturas. E os homens que tinham armas se ocuparam da maioria deles.
O Sr. Smallwood e seus colegas seguravam rifles carregados naquele momento. E eles estavam ficando sem coisas para queimar.
Vickie ficara histérica há alguns instantes, gritando e segurando a cabeça como se algo a estivesse machucando. Tentaram pará-la de várias formas até que, por fim, ela perdeu a consciência.
Bonnie se aproximou de Matt, que olhava por cima do fogo através da porta lateral derrubada. Não procurava a presença de cachorros, sabia, mas sim de algo que estava muito mais longe. Algo que não podiam ver dali.
— Nós tivemos que ir, Matt — disse. — Não podíamos fazer mais nada.
Ele não respondeu nem virou a cabeça.
— Já está quase amanhecendo — ela apontou. — Talvez quando amanhecer, os cachorros se vão — mas mesmo enquanto dizia aquilo, sabia que não estava certo.
Matt não respondeu. Bonnie tocou seu ombro.
— Stefan está com ela. Stefan está lá.
Por fim, Matt teve alguma reação. Assentiu.
— Stefan está lá — repetiu.
Enfurecida, uma figura de cor marrom avançou na escuridão.


Muito mais tarde, quando Elena recobrou, paulatinamente, a consciência, soube que podia ver não só devido ao punhado de velas que Katherine acendera, mas também pela fria penumbra cinzenta que se infiltrava pelo chão através da abertura da cripta.
Pôde ver Damon também. Ele jazia no chão, as roupas cortadas em farrapos. Havia luz o suficiente para ver todo o alcance de suas feridas, e Elena se perguntou se ele continuava vivo. Estava imóvel o suficiente para estar morto.
Damon?, chamou.
Até que o tivesse feito, não reparou que não havia pronunciado a palavra. De algum modo, os gritos de Katherine tinham fechado um circuito em sua mente, ou melhor, tinham despertado algo que estava adormecido. E o sangue de Matt sem dúvidas ajudara, proporcionando-lhe a energia para encontrar finalmente sua voz mental.
Virou a cabeça para o outro lado.
Stefan?
Ele tinha o rosto marcado pela dor, mas estava consciente. Muito consciente. Elena quase desejou que estivesse tão inconsciente quanto Damon ao que lhes tinha acontecido.
Elena, respondeu ele.
Onde ela está?, perguntou Elena, passando os olhos lentamente pelo lugar.
Stefan olhou em direção à abertura da cripta.
Subiu por ali faz um instante. Talvez para ver como os cachorros estavam indo.
Elena acreditara ter chegado limite de medo e pavor, mas não era verdade. Não tinha pensado nos demais até então.
Elena, sinto muito. O rosto de Stefan estava embargado por algo que não podia se expressar com palavras.
Não é culpa sua, Stefan. Você não fez isso. Ela sim. Ou... simplesmente aconteceu devido ao que ela é. A que nós somos. Discorrendo sob dos pensamentos de Elena estava a lembrança do modo como tinha atacado Stefan no bosque, e como tinha se sentido quando corria até o Sr. Smallwood, planejando sua vingança. Podia ter sido eu.
Não! Você jamais se tornaria assim.
Elena não respondeu. Se possuísse o Poder naquele momento, o que faria a Katherine? O que não lhe faria? Mas sabia que falar disso só transtornaria mais Stefan.
Pensei que Damon fosse nos trair, ela falou.
Também pensei, respondeu Stefan com um tom estranho. Mirava seu irmão com uma expressão peculiar.
Ainda o odeia?
O olhar de Stefan se escureceu.
Não, disse com a voz pausada. Não o odeio mais.
Elena assentiu. Era importante, de algum modo. Então piscou, com os nervos totalmente alertas, quando algo escureceu a entrada da cripta. Stefan também ficou tenso.
Lá vem ela, Elena... 
Eu amo você, Stefan, disse com desespero enquanto a nebulosa forma branca descia a toda velocidade.
Katherine se materializou diante deles.
— Não sei o que está acontecendo — disse com expressão modesta.  — Vocês está impedindo o aceso ao meu túnel — voltou a olhar para atrás de Elena, para a tumba destroçada e o buraco na parede. — Isso é o que uso para sair daqui — disse, parecendo alheia à presença do corpo de Damon a seus pés. — Passa por baixo do rio. Assim não tenho que cruzar a água corrente, sabe. No lugar disso, contorno por baixo — os olhou como se desejasse sua apreciação do gracejo.
A propósito, pensou Elena, como pude ser tão estúpida? Damon passou conosco sobre o rio no carro de Alaric. Cruzou água corrente conosco, e provavelmente várias outras vezes. Não poderia ter sido o Outro Poder.
Era estranho o modo como era capaz de pensar apesar de estar tão assustada. Era como se uma parte de sua mente observasse de longe.
— Vou matá-los agora — disse Katherine simplesmente. — Então passarei por baixo do rio para matar seus amigos. Não acho que os cachorros já o tenham feito. Mas me ocuparei disso eu mesma.
— Deixe Elena ir — pediu Stefan; a voz soou apagada, mas imperiosa de toda forma.
— Não decidi como fazer ainda — Katherine continuou, sem prestar atenção. — Podia queimá-los. Há quase luz suficiente para isso agora. E tenho isto — colocou a mão na parte dianteira do vestido e a tirou fechada. — Um... dois... três! — disse, deixando cair dois anéis de prata e ouro no chão.
Os lápis-lazúli brilhavam como os olhos de Katherine, azuis como a pedra no colar que rodeava a garganta de Katherine.
As mãos de Elena se retorceram freneticamente e ela percebeu a lisa nudez de seu dedo anelar. Estava certa. Jamais pensou que se sentiria nua sem aquele aro de metal. Era necessário para sua vida, para sua sobrevivência. Sem ele...
— Sem estes anéis, vocês morreriam — disse Katherine, roçando despreocupadamente os anéis com a ponta de um pé. — Mas não sei se isso será lento o bastante.
Retrocedeu até quase alcançar a parede oposta da cripta, o vestido prateado reluzindo na luz tênue.
Foi então que Elena teve uma ideia. Podia mover as mãos o suficiente para tocar uma à outra, o suficiente para saber que não estavam presas firmemente. As cordas estavam mais frouxas.
Mas Katherine era forte. Incrivelmente forte. E também mais rápida que Elena. Inclusive se Elena se soltasse, só teria tempo para uma única ação veloz.
Girou um pulso, sentindo como as cordas cederem.
— Existem outros modos — disse Katherine. — Podia fazer cortes em vocês e contemplar enquanto sangram. Eu gostaria de ver isso.
Rangendo os dentes, Elena exerceu pressão sobre a corda. A mão estava dobrada em um ângulo cruel, mas continuou pressionando e sentiu a queimadura da corda ao deslizar.
— Ou ratos — continuava Katherine, meditando. — Ratos podiam ser divertidos. Podia dizer-lhes quando começar e quando parar.
Liberar a outra mão foi muito mais fácil. Elena tentou não mostrar o que acontecia atrás de suas costas. Teria gostado de chamar Stefan mentalmente, mas não se atreveu. Não se existia alguma possibilidade de que Katherine pudesse ouvir.
O vagueio de Katherine a tinha levado até Stefan.
— Acho que começarei com você — disse, aproximando o rosto ao dele. — Estou faminta de novo. E você é tão doce, Stefan. Tinha esquecido do quão doce você é.
Havia uma luz retangular cinzenta no chão. Luz baixa. Estava vindo da cripta aberta. Katherine já tinha estado fora, na luz. Mas...
Katherine sorriu de repente, seus olhos azuis brilhavam.
— Já sei! Vou beber quase tudo e fazer você ver enquanto eu a mato! Vou deixá-lo forte o suficiente para vê-la morrer antes de ser morto. Não é um bom plano? — bateu palmas alegremente e voltou a fazer uma pirueta, se afastando com passos de valsa.
Só um passo mais, pensou Elena. Viu como Katherine se aproximava do retângulo de luz. Só mais um passo...
Katherine deu aquele passo.
— É isso, então! — ela começou a dar a volta. — Que bom...
AGORA!
Tirando de uma vez os braços adormecidos das últimas laçadas da corda, Elena se lançou sobre ela. Foi como uma investida de um gato caçando. Uma corrida desesperada para alcançar a presa. Uma possibilidade. Uma esperança.
Golpeou Katherine com todo seu peso, e o impacto as derrubou dentro do retângulo de luz. Sentiu como a cabeça de Katherine se chocava contra o chão de pedra.
E sentiu a dor abrasadora, como se tivessem submergido seu corpo em veneno. Era uma sensação parecida a ardente secura da fome, só que mais potente. Mil vez mais forte. Era insuportável.
— Elena! — gritou Stefan, com a mente e com a voz.
Stefan, pensou ela. Sob seu corpo ergueu-se uma onda de Poder quando os olhos atordoados de Katherine clarearam. A boca dela se retorcia de raiva e as presas estavam para fora. Eram tão longas que se cravavam no lábio inferior. A boca deformada se abriu um uivo.
A mão lenta de Elena tateou a garganta de Katherine. Os dedos se fecharam sobre o frio metal com a pedra azul, e com todas as suas forças, ela puxou e notou como a corrente cedia. Tentou segurá-la, mas os dedos careciam de tato e coordenação, e a mão de Katherine a puxava desesperadamente. A joia voou desimpedida até o interior das sombras.
— Elena!  — voltou a gritar Stefan com aquela voz tão espantosa.
A jovem sentiu como se seu corpo estivesse inundado de luz. Com se fosse transparente. Só que a luz era dolorosa. Abaixo dela, o rosto contorcido de Katherine olhava diretamente para cima, para o céu invernal, e no lugar de uivo, se escutava um grito agudo que aumentava e aumentava.
Elena tentou se levantar, mas não tinha forças. O rosto de Katherine rachava, se quebrava. Linhas de fogo apareciam nele. Os gritos alcançaram um ponto culminante; os cabelos de Katherine ardiam, a pele se enegrecia. Elena sentiu o fogo tanto de cima quanto de baixo.
Então notou que algo a agarrava, segurava seus ombros e a puxava dali. A frieza das sombras foi como água gelada. Algo lhe segurava, a embalava.
Viu os braços de Stefan, vermelhos onde foram expostos ao sol e sangrando no lugar onde tinha arrancado as cordas. Viu seu rosto, viu o horror e aflição inquietantes. Então seus olhos ficaram nublados e Elena não viu mais nada.


Meredith e Robert, que golpeavam focinhos empapados em sangue que apareciam pelo buraco da porta, se detiveram atordoados. Os dentes tinham deixado de morder e puxar. Um focinho deu uma sacudida e se esgueirou para fora. Se aproximando lentamente de costas para olhar o outro, Meredith viu que os olhos do cachorro estavam vidrados e leitosos. Não se moviam. Olhou para Robert, que se levantou ofegante.
Não escutava ruído no sótão. Tudo estava em silêncio. Mas não se atreveram a ter esperanças.
Os enlouquecidos uivos de Vickie cessaram como se os tivessem cortado com uma faca. O cachorro, que tinha afundado os dentes no músculo de Matt, ficou rígido e estremeceu violentamente; então, as mandíbulas o soltaram. Respirando com dificuldade Bonnie girou para olhar mais além da moribunda fogueira e viu os corpos dos outros cachorros jazendo onde tinha caído.
Matt e ela se encostaram um ao outro, olhando ao seu redor, perplexos.


Pouco a pouco, Elena abriu os olhos.
Tudo estava muito limpo e tranquilo.
Alegrou-a perceber que os gritos tivessem parado. Aquilo tinha sido horrível; tinha doído. Agora, nada doída. Sentia como se seu corpo voltasse a estar inundado de luz, mas agora não havia dor. Era como se flutuasse, muito alto e com facilidade, sobre rajadas de ar. Sentia-se quase como se não precisasse de um corpo.
Sorriu.
Girar a cabeça não produzia dor, ainda que aumentasse a vaga sensação de flutuar. Viu, na longa luz pálida do chão, os restos fumegantes de um vestido prateado. A mentira de Katherine de quinhentos anos atrás tinha se transformado em realidade.
Isso era tudo, então. Elena afastou o olhar. Já não desejava mal a ninguém, e não queria perder tempo com Katherine. Havia coisas muito mais importantes.
— Stefan — disse, suspirou e sorriu. Ora, aquilo era agradável... Assim devia ser se sentir como um pássaro. — Não era minha intenção que as coisas terminassem assim — falou pesarosa.
Os olhos verdes de Stefan que estavam úmidos voltaram a se encher de lágrimas, mas lhe devolveu o sorriso.
— Eu sei — ele respondeu. — Eu sei, Elena.
Ele compreendia. Estava certo; isso era importante. Agora ficava fácil ver as coisas que eram realmente importantes. E a compreensão de Stefan significava muito mais para ela que o mundo inteiro.
Parecia que tinha transcorrido muito tempo desde que realmente o tinha visto. Desde que tinha tomado o tempo necessário para apreciar o quanto ele era lindo, com seu cabelo escuro e seus olhos tão verdes como folhas de carvalho. Mas agora o via, e via sua alma brilhando através daqueles olhos.
— Valeu a pena. Eu não queria morrer, e não quero morrer agora. Mas faria tudo de novo se fosse necessário. Eu te amo — murmurou.
— Eu amo você — respondeu ele, apertando suas mãos entrelaçadas.
A estranha e lânguida leveza a embalava com suavidade. Apenas sentia Stefan a segurando.
Tinha pensando que se sentiria aterrorizada; mas não estava, não enquanto Stefan estivesse ali.
— As pessoas do baile... Estarão bem agora, não é? — perguntou.
— Estarão bem — sussurrou ele. — Você as salvou.
— Não pude dizer adeus a Bonnie e a Meredith. Nem à tia Judith. Terá que dizer que as amo.
— Eu direi — concordou Stefan.
— Pode dizer você mesma — disse outra voz rouca, que soava diferente.
Damon tinha se arrastado pelo chão até estar atrás de Stefan. O rosto estava destruído, manchado de sangue, mas os olhos escuros a fitavam ardentemente.
— Use sua vontade, Elena. Aguente. Você tem força para isso...
Sorriu para ele vacilante. Sabia a verdade. O que acontecera só pusera fim ao que tinha começado há duas semanas. Tinha tido treze dias para arrumar as coisas, para se desculpar com Matt e dizer adeus a Margaret. Para dizer a Stefan que o amava. Mas o período de bônus acabara.
Contudo, não tinha porque ferir Damon. Também o amava.
— Eu tentarei — prometeu.
— Vamos levá-la para casa — ele falou.
— Ainda não — ela respondeu com doçura. — Esperemos um pouquinho mais.
Algo mudou nos insondáveis olhos escuros, e a faísca flamejante se apagou. Então compreendeu que Damon também sabia.
— Não tenho medo — ela falou. — Bom... só um pouco.
Começava a notar uma sonolência e sentiu-se muito confortável, era simplesmente como se estivesse dormindo. As coisas se afastavam dela.
Notou uma dor no peito. Não estava muito assustada, mas sentia pesar. Tinha tantas coisas que sentiria falta, tantas coisas que queria ter feito...
— Ora — disse com a voz pausada. — Que engraçado.
As paredes da cripta pareciam ter se derretido. Eram cinzas e nebulosas, e havia algo parecido com uma entrada ali, como a porta que dava acesso ao lugar. Só que aquela era uma entrada de luz diferente.
— Que lindo — murmurou. — Stefan? Estou cansada...
— Agora você pode descansar — ele respondeu calmamente.
— Você não me soltará?
— Não.
— Então não terei medo.
Algo brilhava no rosto de Damon. Esticou a mão até ele, o tocou e afastou os dedos com assombro.
— Não fique triste — ela falou, sentindo a fresca umidade nas pontas dos dedos.
Mas uma pulsada de preocupação a perturbou. Quem estaria ali para compreender Damon agora? Quem estaria ali para abraçá-lo, para tentar ver o que havia realmente em seu interior?
— Temos que cuidar um do outro — ela falou, dando-se conta de que um pouco de energia voltava a ela, como vela flamejante ao vento. — Stefan, você me promete? Me promete que cuidaremos um dos outros?
— Prometo — respondeu. — Elena...
Ondas de sono apoderaram dela.
— Está bem. Está bem, Stefan...
A entrada estava mais próxima, tão próxima que podia tocá-la. Ela se perguntou se seus pais estariam em algum lugar do outro lado.
— É hora de ir para casa — murmurou.
E então a escuridão e as sombras se desvaneceram e não houve outra coisa mais que luz.


Stefan a abraçou enquanto os olhos dela se fechavam. E então simplesmente a segurou, enquanto as lágrimas que tinha contido caíam livremente. Era uma dor diferente da que sentiu ao tirá-la do rio. Não havia raiva nele, e tampouco ódio, mas sim um amor que parecia seguir e seguir eternamente.
Doía mais ainda.
Olhou o retângulo de luz, a apenas um passo ou dois de distância. Elena tinha penetrado na luz. O tinha deixado só.
Não por muito tempo, pensou.
Seu anel estava no chão. Nem sequer lhe dirigiu um olhar enquanto se levantava, os olhos postos na luz solar que descia até o chão.
Uma mão agarrou seu braço e o puxou para trás.
Stefan olhou para o rosto de seu irmão.
Os olhos de Damon eram escuros como a meia-noite, e ele segurava o anel de Stefan. Enquanto este olhava, incapaz de se mover, Damon enfiou-lhe à força o anel no dedo e o soltou.
— Agora — disse, voltando a se deixar cair com um gesto de dor — pode ir aonde quiser — recolheu do chão o anel que Stefan tinha dado a Elena e o sustentou. — Isso é seu também. Pegue-o. Pegue-o e vá — virou seu rosto para longe.
Stefan olhou durante um bom momento o círculo de ouro que tinha na palma da mão. Então seus dedos se fecharam sobre ele e voltou a olhar Damon. Os olhos de seu irmão estavam fechados, a respiração, difícil. Parecia esgotado e dolorido.
E tinha feito uma promessa a Elena.
— Vamos — disse com suavidade, colocando o anel no bolso. — Eu o levarei a algum lugar onde possa descansar.
Rodeou seu irmão com um braço para ajudá-lo a se levantar. E então, por um momento, ficaram assim.

4 comentários:

  1. A morte da Katherine fez eles se matarem, a quase morte da Elena fez um querer matar o outro. A morte da Katherine e a suposta morte da Elena fez eles de unirem.

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    1. A morte de Katherine os separou. A morte de Elena os uniu.

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    2. Caracaaaaaaaaa que final é esse....senti muita pena de stefan mais acho que Damon ficou mais desamparado....boa liçao errar uma vez é humano,duas vezes coincidência e terceira vez acho q nao cola é burrisse......eles depois de tudo isso nao farao novamente.....eu espero que nao.

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  2. meu deus se eu fosse romantica choraria mas nao sou
    mas achei lindo o filnal desse capitulo

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