10 de novembro de 2015

Capítulo 15

— Elena, você está sendo grossa! — Tia Judith raramente ficava nervosa, mas ela estava nervosa agora. — Está velha demais para esse tipo de comportamento.
— Não é grosseria! Você não entende...
— Entendo perfeitamente. Está agindo do mesmo jeito que agiu quando Damon veio jantar. Não acha que um convidado merece um pouco mais de consideração?
Frustração fluiu por Elena.
— Você nem sabe sobre o que está falando — ela disse.
Isso era demais. Ouvir as palavras de Damon vindas dos lábios da tia Judith... Era insuportável.
— Elena! — Um rubor matizado estava subindo pelas bochechas da tia Judith. — Estou chocada com você! E tenho que dizer que esse comportamento infantil só começou depois de você sair com aquele garoto.
— Ah, “aquele garoto” — Elena olhou para Damon.
— Sim, aquele garoto!  Tia Judith respondeu. — Desde que ficou louca por ele você tem agido como uma pessoa diferente. Irresponsável, reservada... e desafiadora! Ele está sendo uma má influência desde o começo, e não vou mais tolerar isso.
— Ah, sério? — Elena sentia como se estivesse falando com Damon e tia Judith ao mesmo tempo, olhou para frente e para trás entre os dois.
Todas as emoções que estivera sufocando nos últimos dias – nas últimas semanas, nos meses desde que Stefan tinha entrado na sua vida – estavam agitando-se. Era como um grande maremoto dentro dela, sobre o qual não tinha controle algum. Percebeu que estava tremendo.
— Bem, é uma pena, porque vai ter que tolerar isso. Nunca vou abrir mão de Stefan, não por ninguém. Certamente não por você! — Essa última fora para Damon, mas a tia Judith arfou.
— Já chega! — Robert retrucou. Ele tinha aparecido com Margaret, e seu rosto estava obscuro. — Mocinha, se é assim que aquele garoto a encoraja a falar com a sua tia...
— Ele não é “aquele garoto”! — Elena recuou outro passo, para que pudesse encarar todos.
Ela estava fazendo um espetáculo, todos no pátio estavam olhando. Mas não ligava. Esteve mantendo um tampão em seus sentimentos por tanto tempo, empurrando toda a ansiedade, o medo e a raiva para onde não seriam vistos. Toda a preocupação com Stefan, todo o medo de Damon, toda a vergonha e humilhação que sofria na escola, tinha enterrado profundamente. Mas agora estava voltando. Tudo, de uma só vez, em um redemoinho de violência impossível. Seu coração estava golpeando loucamente; seus ouvidos soando.
Sentia que nada importava exceto machucar as pessoas que estavam a sua frente, mostrar tudo a elas.
— Ele não é “aquele garoto”  disse novamente, sua voz mortalmente gélida. — Ele é Stefan e é tudo para mim. E acontece que estou noiva dele.
— Ah, não seja ridícula! — Robert trovejou.
Foi a última gota.
— Isso é ridículo? — Ela ergueu sua mão, seu anel na direção deles. — Vamos nos casar!
— Você não vai se casar — Robert começou.
Todos estavam furiosos. Damon agarrou a mão dela e encarou o anel, então virou abruptamente e caminhou para longe, cada passo cheio de selvageria mal dominada. Robert balbuciava em exasperação. Tia Judith estava fumegando.
— Elena, te proíbo absolutamente...
— Você não é minha mãe!  Elena gritou. Lágrimas tentavam se forçar para fora dos olhos dela. Precisava fugir, ficar sozinha, ficar com alguém que a amasse. — Se Stefan perguntar, estarei na pensão!  acrescentou, e escapou pela multidão.
Ela meio que esperava que Bonnie ou Meredith a seguissem, mas ficou feliz por não terem feito isso.
O estacionamento estava cheio de carros, mas quase vazio de pessoas. A maioria das famílias ia ficar para as atividades da tarde. Mas um Ford sedan acabado estava estacionado perto, e uma figura familiar destrancava a porta.
— Matt! Você está indo embora?
Tomou sua decisão instantaneamente. Estava frio demais para andar até a pensão.
— Hã? Não, tenho que ajudar o Treinador Lyman a desmontar as mesas. Só estou colocando isso de lado — ele jogou a placa de Atleta Excepcional no assento dianteiro. — Ei, você está bem?
Os olhos dele se arregalaram ao ver o rosto dela.
— Sim... Não. Ficarei se puder sair daqui. Olha, posso pegar o seu carro? Só por um instantinho?
— Bem... claro, mas… já sei, por que você não me deixa te levar? Eu aviso o Treinador Lyman.
— Não! Só quero ficar sozinha… Ah, por favor, não faça perguntas — ela praticamente apanhou as chaves da mão dele. — Trarei de volta em breve, prometo. Ou Stefan trará. Se você vir Stefan, diga a ele que estou na pensão. E obrigada.
Ela bateu a porta nos protestos dele e colocou o motor para funcionar, confundindo-se de marchas porque não estava acostumada ao câmbio manual. Deixou-o lá de pé, encarando-a.
Dirigiu sem realmente ver ou ouvir nada do lado de fora, chorando, presa em seu próprio tornado giratório de emoções. Ela e Stefan fugiriam... Iriam casar-se em segredo… Eles mostrariam a todos. Nunca colocaria os pés em Fell’s Church novamente.
E então tia Judith se arrependeria. Robert veria o quão errado estivera. Mas Elena nunca os perdoaria. Nunca.
Quanto a própria Elena, não precisava de ninguém. Certamente não precisava de um velho colégio Robert E. Lee estúpido, de onde você podia ir de megapopular para pária social em um dia só por amar a pessoa errada. Não precisava de família, ou de amigos, tampouco...
Diminuindo para cruzar a entrada espiralada da pensão, Elena sentiu seus pensamentos diminuírem, também.
Bem... não estava brava com seus amigos. Bonnie e Meredith não tinham feito nada. Ou Matt. Matt era bacana. De fato, talvez não precisasse dele, mas seu carro viera em boa hora.
Apesar de tudo, Elena sentiu uma risada abafada subir em sua garganta. Pobre Matt. As pessoas estavam sempre pegando seu dinossauro metálico que ele chamava de carro. Ele devia achar que ela e Stefan eram birutas.
A risada deixou escorregar mais algumas lágrimas e ela sentou e as limpou, balançando a cabeça. Ah, Deus, como as coisas ficaram desse jeito? Que dia. Ela deveria estar tendo uma festa da vitória porque tinha superado Caroline, e ao invés disso, estava chorando sozinha no carro de Matt.
Caroline tinha parecido muito engraçada, contudo. O corpo de Elena sacolejou fracamente com gargalhadas ligeiramente histéricas. Ah, o olhar no rosto dela. Era melhor que alguém tenha o vídeo disso.
Por fim os soluços e risadas acalmaram-se e Elena só sentiu exaustão. Inclinou-se contra o volante, tentando não pensar em nada por um tempo, e então saiu do carro.
Ela entraria e esperaria por Stefan, e ambos voltariam e lidariam com a bagunça que fizera. Exigiria muito limpeza, pensou desgastadamente. Pobre tia Judith. Elena tinha gritado com ela na frente de metade da cidade.
Por que tinha se deixado ficar tão chateada? Mas suas emoções ainda estavam à flor da pele, enquanto ela se postava à porta da pensão trancada e ninguém atendia a campainha.
Ah, maravilha, pensou, seus olhos pinicando novamente. A Sra. Flowers tinha ido na celebração do Dia do Fundador, também. E agora Elena tinha a escolha de sentar no carro ou ficar de pé ali na tormenta.
Era a primeira vez que notava o clima, mas quando notou, olhou ao redor em alarme.
O dia tinha começado nublado e gelado, mas agora havia uma neblina flutuando junto ao chão, como se soprada dos campos ao redor. As nuvens não estavam simplesmente serpenteando, elas estavam fervilhando. E o vento ficava mais forte.
Ele gemia pelos galhos das árvores de carvalho, rasgando as folhas que sobravam e mandando-as para baixo como uma ducha. O som crescia regularmente agora, não simplesmente um gemido, mas um rosnado.
E havia outra coisa. Uma coisa que vinha não só do vento, mas do próprio ar, ou do espaço ao redor do ar. Uma sensação de pressão, de ameaça, de alguma força inimaginável. Estava reunindo poder, aproximando-se, fechando o cerco.
Elena girou para encarar os carvalhos. Havia muitos atrás da casa, e mais além, sangrando na floresta. E além havia o rio e o cemitério.
Algo... Estava lá fora. Algo... Muito ruim…
— Não — sussurrou Elena.
Não conseguia ver, mas conseguia sentir, como alguma grande forma elevando-se para ficar sobre ela, apagando o céu. Sentiu a maldade, o ódio, a fúria animal.
Sede de sangue. Stefan tinha usado a palavra, mas ela não tinha entendido. Agora sentia essa sede de sangue... Focada nela.
— Não!
Mais e mais, estava se elevando sobre ela. Ainda não conseguia ver nada, mas era como se grandes asas se abrissem, esticando-se para tocar o horizonte de ambos os lados. Algo com um Poder além da compreensão... E queria matar…
— Não!
Ela correu para o carro bem quando aquilo se inclinou e mergulhou para ela. Suas mãos rasparam na maçaneta, e ela lutou freneticamente com as chaves. O vento estava gritando, berrando, rasgando no cabelo dela. Gelo arenoso gotejou seus olhos, cegando-a, mas então a chave virou e ela deu um sacolejo para abrir a porta.
Salva! Fechou a porta novamente e golpeou a tranca com seu punho.
Então se jogou pelo assento para checar as trancas do outro lado.
O vento rugia com mil vozes do lado de fora. O carro começou a balançar.
— Pare com isso! Damon, pare com isso!
Seu diminuto choro estava perdido na cacofonia. Ela colocou suas mãos no painel como se para equilibrar o carro e ele balançou mais forte, gelo atirando-se contra ele.
Então viu algo. A janela traseira estava nublando-se, mas conseguia discernir a forma através dela. Parecia algum grande pássaro feito de névoa ou neve, mas os contornos estavam turvos. Tudo o que sabia era que tinha enormes asas envolventes... E que estava indo na direção dela.
Coloque a chave na ignição. Coloque! Agora vá!, sua mente gritava ordens.
O antigo Ford ofegou e os pneus gritaram mais alto do que o vento enquanto ela fugia. E a forma a seguiu, ficando maior e maior no espelho retrovisor.
Vá para a cidade, vá até Stefan! Vá! Vá! Mas à medida que ela entrava na Estrada Old Creek, virando a esquerda, os pneus travando, um raio de luz dividiu o céu.
Se ela já não estivesse escorregando e freando, a árvore teria caído em cima dela.
Como era de se esperar, o impacto violento chacoalhou o carro como um terremoto, errando o para-choque dianteiro por centímetros. A árvore era uma massa de galhos pesados e levantados, seu tronco bloqueando o caminho de volta para a cidade completamente.
Estava presa. Sua única rota para casa fora cortada. Estava sozinha, não havia escapatória desse terrível Poder...
Poder. Era isso; essa era a chave. “Quanto mais fortes são seus Poderes são, mais as regras da escuridão se vinculam a você.”
Água corrente!
Colocando o carro em marcha ré, ela o virou e então o golpeou para frente.
A forma branca voou e desceu, errando-a por tão pouco quanto a árvore, e então Elena estava acelerando pela Estrada Old Creek na pior parte da tempestade.
Ainda estava atrás dela. Só um pensamento golpeava o cérebro de Elena agora. Tinha que cruzar a água corrente, deixar essa coisa para trás.
Houve mais explosões de raios, e ela olhou outras árvores caindo, mas desviou ao redor delas. Não podia estar longe agora. Conseguia ver o rio relampejando no seu lado esquerdo através da tempestade de gelo. Então viu a ponte.
Estava lá; conseguira chegar! Uma rajada jogou chuva e neve no para-brisa, mas com o próximo golpe do limpador de para-brisa conseguiu ver fugazmente de novo. Era isso, a curva devia estar por aqui.
O carro recuou e derrapou na estrutura de madeira. Elena sentiu as rodas agarrarem plantas escorregadias e então as sentiu travarem. Desesperadamente, tentou virar com a derrapagem, mas não conseguia ver e não havia espaço.
E então estava batendo no parapeito, a madeira podre da passarela cedendo sobre o peso que não mais conseguia suportar.
Houve uma sensação doentia de giro, de queda, e então o carro atingiu a água.
Elena ouviu gritos, mas eles não pareciam estar conectados aos dela. O rio subiu ao seu redor e tudo estava barulhento e confuso e dolorido. Um vidro quebrou a medida que era acertado por escombros, e então outro. Água escura jorrou ao seu redor, junto com vidro como gelo. Ela estava sendo engolfada. Não conseguia ver; não conseguia sair.
E não conseguia respirar. Estava perdida nesse tumulto infernal, e não havia ar. Tinha que respirar. Tinha que sair daqui...
— Stefan, me ajude! — ela gritou.
Mas seu grito não fez som algum. Ao invés disso, a água gelada apressou-se em seus pulmões, invadindo-a. Lutou contra ela, mas era forte demais para ela. Suas lutas tornaram-se mais selvagens, mais descoordenadas, e então elas pararam.
Então tudo ficou quieto.


Bonnie e Meredith estavam caçando pelo perímetro da escola impacientemente.
Elas tinham visto Stefan vir por aqui, mais ou menos coagido por Tyler e seus novos amigos.
Tinham começado a segui-lo, mas então o negócio com Elena começou. E Matt as informou que ela tinha se mandado. Então foram atrás de Stefan de novo, mas ninguém estava aqui fora. Não havia nem mesmo nenhum prédio com exceção de um solitário de um barracão.
— E agora vem vindo uma tempestade! — Meredith disse. — Escute o vento! Eu acho que vai chover.
— Ou nevar! — Bonnie estremeceu. — Onde eles foram?
— Eu não ligo; só quero ir para baixo de um telhado. Lá vem!
Meredith arfou quando a primeira camada de chuva gelada a acertou, correram para o abrigo mais próximo – o barracão Quonset.
E foi lá que elas encontraram Stefan. A porta estava entreaberta, e quando Bonnie olhou para dentro, horrorizou-se.
— Tyler tem um esquadrão de valentões! — ela sibilou. — Olhe lá! 
Stefan tinha um semicírculo de caras entre ele e a porta. Caroline estava no canto.
— Deve estar com ele! Ele o tomou de algum jeito; eu sei que ele o fez! — ela estava dizendo.
— Tomou o quê? — disse Meredith, audivelmente.
Todos viraram na direção delas.
O rosto de Caroline contorceu-se quando as viu na entrada e Tyler rangeu os dentes.
— Caiam fora — disse. — Você não quer se envolver nisso. 
Meredith ignorou-o.
— Stefan, posso falar com você?
— Em um minuto. Você vai responder a pergunta dela? Tomou o quê? — Stefan estava concentrando-se em Tyler, totalmente focado.
— Claro, responderei a pergunta dela. Logo depois de responder a sua — Tyler bateu um punho na palma e deu um passo para frente. — Você vai virar comida de cachorro, Salvatore. 
Vários dos caras durões deram risada.
Bonnie abriu sua boca para dizer, “Vamos cair fora daqui”.  Mas o que realmente disse foi:
— A ponte.
Foi estranho o bastante para fazer todos olharem para ela.
— O quê? — perguntou Stefan.
— A ponte — disse Bonnie novamente, sem querer dizê-lo. Seus olhos inflaram, alarmados. Conseguia ouvir a voz vindo de sua garganta, mas não possuía controle sobre ela. E então sentiu seus olhos ficarem arregalados e sua boca abrir e teve sua própria voz de volta. — A ponte, ah, meu Deus, a ponte! É onde Elena está! Stefan, você tem que salvá-la... Ah, depressa!
— Bonnie, tem certeza? 
— Sim, ah, Deus... é onde ela foi. Está se afogando! Depressa!
Ondas de grossa escuridão vieram para cima de Bonnie. Mas não podia desmaiar agora; eles tinham que chegar até Elena.
Stefan e Meredith hesitaram um minuto, e então Stefan passou pelo esquadrão de valentões, repelindo-os como lencinhos de papel. Eles correram a toda velocidade pelo campo em direção ao estacionamento, puxando Bonnie atrás. Tyler foi atrás deles, mas parou quando a força total do vento o atingiu.
— Por que ela sairia nessa tempestade? — Stefan gritou quando eles lançaram-se sobre o carro de Meredith.
— Ela estava chateada; Matt diz que ela disparou no carro dele — Meredith arfou novamente no relativo silêncio do interior. Ela saiu rapidamente do estacionamento e virou-se para o vento, acelerando perigosamente. — Ela disse que estava indo para a pensão.
— Não, ela está na ponte! Meredith dirija mais rápido! Ah, Deus, nós vamos chegar tarde demais!
Lágrimas escorriam pelo rosto de Bonnie.
Meredith atrapalhou-se. O carro oscilou, esmurrado pelo vento e pela chuva com neve. Por todo esse pesadelo de corrida Bonnie soluçou, seus dedos agarrando o assento à frente.
O aviso agudo de Stefan impediu Meredith de bater de frente contra a árvore. Eles se amontoaram para fora e foram imediatamente chicoteados e punidos pelo vento.
— É grande demais para mover! Nós teremos que andar — Stefan gritou.
É claro que era grande demais para mover, Bonnie pensou, já lutando com os galhos. Era um carvalho totalmente desenvolvido. Mas uma vez do outro lado, a ventania gelada apagou todo pensamento de sua cabeça.
Em minutos ela estava amortecida, e a estrada parecia continuar por horas. Eles tentaram correr, mas o vento batia neles de volta. Mal conseguiam enxergar; se não fosse por Stefan, elas teriam ido para a margem do rio. Bonnie começou a contorcer-se embriagadamente. Estava pronta para cair no chão quando ouviu Stefan gritando lá da frente.
O braço de Meredith ao redor dela se apertou, e ambas dispararam numa corrida trôpega.
Mas à medida que chegavam perto da ponte, o que viram fizeram-nas parar.
— Ah, meu Deus... Elena! — gritou Bonnie.
A Ponte Wickery era uma massa despedaçada. O parapeito de um lado tinha sumido e o chão tinha cedido lugar como se um punho gigante tivesse esmagado-o. Embaixo, a água escura agitava-se em uma pilha doentia de escombros. Parte dos escombros, inteiramente debaixo d’água exceto pelos faróis, era o carro de Matt.
Meredith estava gritando, também, mas estava gritando para Stefan.
— Não! Você não pode ir lá embaixo! 
Ele nem ao menos olhou para trás. Mergulhou da beirada, e a água se fechou em cima de sua cabeça.
Mais tarde, a memória de Bonnie da próxima hora ficaria misericordiosamente turva. Lembrava-se de esperar por Stefan enquanto a tempestade enraivecia sem parar. Lembrava-se que estava mais do que preocupada na hora que uma figura encurvada moveu-se para fora da água. Lembrava-se de não sentir decepção, só um luto vasto e escancarado, enquanto via a coisa frouxa que Stefan deitava na estrada.
E ela se lembrou do rosto de Stefan.
Lembrava-se de como ele aparentava enquanto tentavam fazer algo por Elena. Só que não era realmente Elena deitada ali, era uma boneca de cera com os traços de Elena. Não era nada que já estivera vivo e certamente não estava vivo agora. Bonnie achou que parecia bobo continuar cutucando e espetando-a desse jeito, tentando tirar água de seus pulmões e tudo mais. Bonecas de cera não respiravam.
Ela lembrava-se do rosto de Stefan quando ele finalmente desistiu. Quando Meredith lutou e gritou com ele, dizendo algo sobre mais de uma hora sem ar, e danos cerebrais. As palavras filtraram em Bonnie, mas seu significado não. Só achou estranho que enquanto Meredith e Stefan gritavam um com outro, ambos chorassem.
Stefan parou de chorar depois disso. Só ficou sentado lá segurando a boneca Elena. Meredith gritou um pouco mais, mas ele não a escutou. Ele só sentou. E Bonnie nunca esqueceria sua expressão.
E então algo chamuscou em Bonnie, trazendo-a de volta a vida, acordando-a para o terror.
Ela agarrou Meredith e encarou ao seu redor procurando a fonte. Algo ruim... Algo terrível estava vindo. Estava quase aqui.
Stefan parecia sentir isso, também. Estava alerta, duro, como um lobo sentindo um cheiro.
— O que foi? — berrou Meredith. — O que tem de errado com você?
— Vocês têm que ir! — Stefan ficou de pé, ainda segurando a forma frouxa em seus braços. — Saiam daqui!
— O que você quer dizer? Nós não podemos deixá-lo...
— Sim, vocês podem! Caiam fora daqui! Bonnie, tire-a daqui!
Ninguém nunca tinha dito a Bonnie para cuidar de outra pessoa antes. As pessoas estavam sempre cuidando dela. Mas agora ela agarrou o braço de Meredith e começou a puxá-la.
Stefan estava certo. Não havia nada que pudessem fazer por Elena, e se ficassem, o que quer que tivesse pego iria pegá-las.
— Stefan! — Meredith gritou enquanto era arrastada inexplicavelmente.
— Eu a deixarei debaixo das árvores. Dos salgueiros, não dos carvalhos  ele gritou atrás delas.
Por que ele nos diria isso agora?, Bonnie se perguntou em alguma parte profunda de sua mente que não estava tomada por medo e pela tempestade.
A resposta era simples, e sua mente prontamente devolveu para ela. Porque ele não ia ficar por perto para lhes contar depois.

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