15 de novembro de 2015

Capítulo 14

— Ele está insano, — Matt disse, encarando o corredor vazio através do qual Stefan tinha desaparecido.
— Não, ele não está, — disse Meredith. Sua voz estava deplorável e silenciosa, mas havia um tipo de risada impotente nela também. — Não vê o que ele está fazendo, Matt? — disse quando ele se virou para ela. — Gritando conosco, fazendo-nos odiá-lo para tentar nos afastar. Sendo o mais rude possível para que fiquemos bravos e o deixarmos sozinho. — Ela espiou para a porta e ergueu suas sobrancelhas. — 'Qualquer um que me seguir, vou matar’ foi passar dos limites, contudo.
Bonnie riu de repente, selvagemente, contra sua vontade. — Acho que ele pegou isso do Damon. ‘Entendam isso, não preciso de nenhum de vocês!’
— ’Seu bando de humanos estúpidos,’ — Matt acrescentou. — Mas ainda não entendo. Você acabou de ter uma premonição, Bonnie, e Stefan geralmente não menospreza elas. Se não há jeito de lutar e vencer, qual o objetivo de ir?
— Bonnie não disse que não havia maneira de lutar e vencer. Disse que não havia maneira de lutar e sobreviver. Certo, Bonnie? — Meredith olhou para ela.
O ataque de risadas se dissolveu. Ela mesma assustada, Bonnie tentou examinar a premonição, mas não sabia mais do que as palavras que tinham brotado em sua mente. Ninguém pode lutar com ele e sair vivo.
— Quer dizer que Stefan acha... — Vagarosamente, ultraje atroador estava queimando os olhos de Matt. — Acha que vai impedir Klaus apesar dele mesmo ser morto? Como um carneiro de sacrifício?
— Mais como a Elena, — Meredith disse sombriamente. — E talvez... para que possa estar com ela.
— Ãhn-ãhn. — Bonnie balançou a cabeça. Podia não saber mais sobre a profecia, mas sabia disso. — Ele não acha isso, tenho certeza. Elena é especial. É porque morreu jovem demais; deixou tanta coisa inacabada em sua própria vida, e... bem, ela é um caso especial. Mas Stefan tem sido um vampiro por quinhentos anos, e ele certamente não morreria jovem. Não há garantia de que terminará com Elena. Ele pode ir para outro lugar ou... ou simplesmente ir. E ela sabe disso. Tenho certeza de que ele sabe disso. Acho que simplesmente está mantendo sua promessa a ela, parar Klaus custe o que custar.
— Tentar, pelo menos, — Matt disse suavemente, e soava como se estivesse citando. — Mesmo se você souber que vai perder. — Olhou para as garotas repentinamente. — Vou atrás dele.
— É claro, — disse Meredith pacientemente.
Matt hesitou. — Ah... suponho que não posso convencê-las de ficar aqui?
— Depois de toda essa conversa inspiradora sobre trabalho de equipe? Sem chance.
— Eu receava isso. Então...
— Então, — disse Bonnie, — vamos cair fora daqui. 


Eles reuniram as armas que conseguiram. O canivete de Matt que Stefan tinha derrubado, a adaga com punho de marfim da cômoda de Stefan, uma faca de trinchar da cozinha.
Do lado de fora, não havia sinal da Sra. Flowers. O céu estava um roxo pálido, com nuances de damasco no oeste. Crepúsculo da véspera do solstício, Bonnie pensou, e pelos dos seus braços tentaram levantar.
— Klaus disse na velha fazenda na floresta – deve ser o lugar dos Francher, — Matt disse. — Onde Katherine jogou Stefan no poço abandonado.
— Isso faz sentido. Ele provavelmente vem usando o túnel da Katherine para ir e vir debaixo do rio, — Meredith disse. — A não ser que Antigos sejam tão poderosos que possam cruzar água corrente sem se machucarem.
Está certo, Bonnie se lembrou, coisas malignas não podem cruzar água corrente, e quanto mais maligno você é, mais difícil fica. — Mas não sabemos nada sobre os Originais, — disse em voz alta.
— Não, e isso significa que devemos ser cuidadosos, — Matt disse. — Conheço muito bem essa floresta, e sei o caminho que Stefan provavelmente usará. Acho que devíamos pegar um diferente.
— Para que Stefan não nos veja e nos mate? 
— Para que Klaus não nos veja, ou nem todos de nós. Para que talvez tenhamos uma chance de recuperar a Caroline. De um jeito ou de outro, temos que tirar Caroline disso; enquanto Klaus puder ameaçar machucá-la, ele pode fazer Stefan fazer qualquer coisa que quiser. E é sempre melhor planejar adiantado, surpreender o inimigo. Klaus disse para encontrá-lo lá depois do escurecer; bem, estaremos lá antes de escurecer e talvez possamos surpreendê-lo.
Bonnie estava profundamente impressionada por essa estratégia. Não era de se espantar que ele seja um zagueiro, ela pensava. Eu teria simplesmente corrido para lá, gritando.
Matt pegou um caminho quase invisível entre as árvores de carvalho. Os arbustos pequenos estavam especialmente exuberantes nessa época do ano, com musgos, gramas, plantas floridas, e samambaias. Bonnie tinha que confiar que Matt sabia onde estava indo, porque ela certamente não sabia. Acima, as aves estavam dando uma última explosão de canto antes de procurarem um teto para a noite.
Ficou mais turvo. Traças e crisopas agitavam-se ao redor do rosto de Bonnie. Depois de tropeçar num amontoado de cogumelos venenosos cobertos com lesmas se alimentando, ficou intensamente grata por dessa vez estar usando calça jeans.
Por fim Matt parou-as. — Estamos chegando perto, — disse, em voz baixa. — Há uma espécie de penhasco de onde podemos olhar para baixo e Klaus talvez não nos veja. Fiquem quietas e tenham cuidado.
Bonnie nunca teve tantos problemas em plantar seus pés antes. Felizmente, a desordem das folhas estava molhada e não frágil. Após alguns minutos Matt deitou sobre sua barriga e gesticulou para que elas o seguissem. Bonnie continuou dizendo a si mesma, ferozmente, que não se importava com as centopeias e minhocas as quais seus dedos deslizantes descativaram, que não tinha problemas de modo algum com teias de aranha em seu rosto. Isso era vida ou morte, e ela era competente. Não uma imbecil, não uma bebezinha, mas competente.
— Aqui, — Matt sussurrou, sua voz mal audível. Bonnie movimentou-se sobre sua barriga até ele e olhou.
Eles estavam espiando a propriedade dos Francher – ou o que restara dela. Tinha desmoronado na terra há muito, tomada pela floresta. Agora era só uma base, pedras de construção cobertas por ervas daninhas florescendo e arbustos de framboesa espinhosos, e uma alta chaminé como um monumento solitário.
— Ali está ela. Caroline. — Meredith respirou no outro ouvido de Bonnie.
Caroline era uma figura turva sentada contra a chaminé. Seu vestido verde pálido aparecia na reunião sombria, mas seu cabelo castanho simplesmente parecia preto. Algo branco brilhou contra seu rosto, e após um momento Bonnie percebeu que era uma mordaça. Fita ou atadura. De sua posição estranha – braços atrás dela, pernas esticadas retas em frente – Bonnie também adivinhou que ela estava amarrada.
Pobre Caroline, pensou, perdoando a outra garota por todas as coisas indecentes, mesquinhas, egoístas que já tinha feito, o que era uma quantidade considerável se você parasse para pensar. Mas Bonnie não conseguia imaginar nada pior do que ser abduzida por um vampiro psicopata que já tinha matado duas de suas colegas, arrastada aqui para a floresta e presa, então deixava para esperar, com sua vida dependendo de outro vampiro que tinha algumas boas razões para odiá-la. Afinal, Caroline tinha querido Stefan no começo, e tinha odiado e tentado humilhar Elena por tê-lo. Stefan Salvatore era a última pessoa que devia ter sentimentos bondosos em relação à Caroline Forbes.
— Olhem! — disse Matt. — É ele? Klaus?
Bonnie tinha visto também, uma onda de movimento no lado oposto da chaminé. Enquanto forçava a vista, ele apareceu, sua capa de chuva cor de canela clara agitando-se fantasmagoricamente ao redor de suas pernas. Olhou para Caroline e ela se encolheu dele, tentando se afastar. Sua risada soou tão claramente no ar silencioso que Bonnie acovardou-se.
— É ele, — sussurrou, se escondendo atrás da proteção das samambaias. — Mas onde está o Stefan? Está quase escuro agora.
— Talvez ele tenha se espertado e decidido não vir, — disse Matt.
— Sem chance, — disse Meredith. Ela estava olhando através das samambaias para o sul. A própria Bonnie olhou para aquele caminho e deu um sobressalto.
Stefan estava parado na beirada da clareira, tendo se materializado lá como se do próprio ar. Nem mesmo Klaus tinha o visto chegar, Bonnie pensou. Ele ficou parado silenciosamente, não tentando se esconder ou a lança de freixo branco que estava carregando. Havia algo na sua postura e no jeito como olhava a cena perante ele que fez Bonnie se lembrar de que no século quinze ele fora um aristocrata, um membro da nobreza. Ele não disse nada, esperando Klaus notá-lo, recusando-se a ser apressado.
Quando Klaus se virou para o sul ele ficou imóvel, e Bonnie teve o pressentimento de que estava surpreso de Stefan ter se esgueirado por ele. Mas então riu e esticou seus braços.
— Salvatore! Que coincidência; estava justamente pensando em você!
Vagarosamente, Stefan olhou Klaus de cima a baixo, da cauda de sua capa de chuva esfarrapada ao topo de seu cabelo bagunçado pelo vento. O que Stefan disse foi:
— Você me chamou. Estou aqui. Deixa a garota ir.
— Eu disse isso? — Parecendo genuinamente surpreso, Klaus pressionou duas mãos em seu peito. Então balançou sua cabeça, rindo. — Acho que não. Vamos falar primeiro.
Stefan acenou, como se Klaus tivesse confirmado algo amargo pelo qual estivera esperando. Pegou a lança de seu ombro e a segurou em sua frente, lidando com a distância pesada da floresta hábil, facilmente. — Estou escutando, — disse.
— Não é tão burro quanto parece, — Matt murmurou de detrás das samambaias, um tom de respeito em sua voz. — E não está tão ansioso para ser morto quanto pensei, — Matt acrescentou. — Ele está sendo cuidadoso.
Klaus gesticulou na direção de Caroline, a ponta de seus dedos acariciando seu cabelo castanho. — Por que não vem aqui para que não precisemos gritar? — Mas ele não ameaçou machucar sua prisioneira, Bonnie notou.
— Consigo ouvi-lo bem, — Stefan replicou.
— Bom, — Matt sussurrou. — É isso aí, Stefan!
Bonnie, contudo, estava estudando Caroline. A garota capturada estava lutando, jogando sua cabeça para frente e para trás como se estivesse frenética ou com dor. Mas Bonnie teve um pressentimento estranho sobre os movimentos de Caroline, especialmente aquelas jogadas violentas da cabeça, como se a garota estivesse forçando-se para alcançar o céu. O céu... O olhar de Bonnie levantou-se, onde a escuridão total tinha caído e uma lua minguante brilhava sobre as árvores. Era por isso que ela conseguia ver que o cabelo de Caroline estava castanho agora: a luz do luar, pensou. Então, com choque, seus olhos caíram para a árvore logo acima de Stefan, cujos galhos estavam farfalhando ligeiramente na ausência de qualquer vento. — Matt? — ela sussurrou, alarmada.
Stefan estava se focando em Klaus, cada sentido, cada músculo, cada átomo de seu Poder afiado e virado na direção do Antigo perante ele.
Mas naquela árvore diretamente acima dele...
Todos os pensamentos e estratégia, de perguntar a Matt o que fazer, fugiram da mente de Bonnie. Ela se levantou de seu lugar esconderijo e gritou.
— Stefan! Acima de você! É uma armadilha!
Stefan pulou para o lado, elegante como um gato, exatamente quando algo arrojou-se no lugar exato onde ele estava há um instante. A lua iluminava a cena perfeitamente, o bastante para Bonnie ver o branco dos dentes expostos de Tyler.
E ver o relampejo branco nos olhos do Klaus enquanto ele dirigia-se a ela. Por um momento surpreendente ela encarou-o, e então um relampejo explodiu.
De um céu limpo.
Foi só mais tarde que Bonnie perceberia a estranheza – o espanto – disso. Naquele momento mal notou que o céu estava limpo e varrido de estrelas e que o raio azul irregular bifurcado golpeou a palma da mão levantada de Klaus. A próxima visão que viu foi tão assustadora que escureceu todo o resto: Klaus dobrando sua mão no raio, guardando-o de algum modo, e jogando-o nela.
Stefan gritava, dizendo a ela para sair, sair! Bonnie escutou-o enquanto encarava, paralisada, e então algo a agarrou e puxou-a com violência para o lado. O raio explodiu acima de sua cabeça, com um som como de um chicote gigante estalando e um cheiro como de ozônio. Ela caiu de cara para baixo no musgo e rolou para cima para agarrar a mão de Meredith e agradece-la por salvá-la, só para descobrir que foi Matt.
— Fique aqui! Bem aqui! — ele gritou, e pulou para longe.
Aquelas temidas palavras. Lançaram Bonnie para cima, e ela corria atrás dele antes de saber o que estava fazendo.
E então o mundo se transformou em caos.
Klaus tinha girado de volta para Stefan, que estava lutando contra Tyler, batendo nele.
Tyler, em sua forma de lobo, estava fazendo sons terríveis enquanto Stefan jogava-o no chão.
Meredith corria na direção de Caroline, aproximando-se por trás da chaminé para que Klaus não a descobrisse. Bonnie a viu alcançar Caroline e viu o relampejo da adaga prateada de Stefan enquanto Meredith cortava as cordas ao redor dos pulsos de Caroline. Então estava meio carregando, meio arrastando Caroline atrás da chaminé para trabalhar em seu pé.
Um som como o de galhadas colidindo fez Bonnie girar ao redor. Klaus tinha chego a Stefan com um galho alto próprio – devia estar deitado no chão antes. Parecia tão afiado quanto o de Stefan, fazendo-se de uma lança prestativa. Mas Klaus e Stefan não estavam simplesmente apunhalando um ao outro; estavam usando os paus como bastões. Robin Hood, Bonnie pensou sonhadoramente. João Pequeno e Robin. Era assim que parecia: Klaus era muito mais alto e encorpado do que Stefan.
Então viu outra coisa e gritou sem palavras. Atrás de Stefan, Tyler tinha se levantado novamente e estava agachado, exatamente como no cemitério antes de se arremessar para a garganta de Stefan. As costas de Stefan estavam viradas para ele. E Bonnie não conseguia avisá-lo a tempo.
Mas tinha se esquecido de Matt. Cabeça abaixada, ignorando patas e presas, ele estava atacando Tyler, obstruindo-o como um defensor de primeira categoria antes que ele pudesse saltar. Tyler voou pelos ares, com Matt em cima dele.
Bonnie estava estupefata. Tanto estava acontecendo. Meredith estava serrando as cordas do tornozelo de Caroline; Matt golpeando Tyler de um jeito que certamente teria desqualificado no campo de futebol americano; Stefan estava girando aquela vara de freixo branco como se tivesse sido treinado para fazê-lo. Klaus estava rindo de forma delirante, parecendo animado pelo exercício, enquanto trocavam golpes com velocidade e acurácia mortal.
Mas Matt parecia estar com problemas agora. Tyler estava segurando-o e rosnando, tentando pegar sua garganta. Selvagemente, Bonnie olhou ao redor por uma arma, se esquecendo inteiramente do canivete em seu bolso. Seu olho caiu em um galho morto de carvalho. O pegou e correu para onde Tyler e Matt estavam lutando.
Uma vez lá, contudo, ela vacilou. Não ousava usar o pau por medo de acertar Matt. Ele e Tyler estavam rolando continuamente em um borrão de movimento.
Então Matt ficou acima de Tyler novamente, segurando a cabeça de Tyler para baixo, ele próprio afastado. Bonnie viu sua chance e mirou o pau. Mas Tyler a viu. Com uma explosão de força sobrenatural, juntou suas pernas e mandou Matt decolando para trás. A cabeça de Matt atingiu a árvore com um som que Bonnie nunca esqueceria. O som entorpecido de um melão podre estourando. Ele deslizou pela frente da árvore e ficou imóvel.
Bonnie arfava, estupefata. Pode ter começado a arrancar em direção a Matt, mas Tyler estava em sua frente, respirando arduamente, saliva sangrenta escorrendo por seu queixo. Parecia ainda mais com um animal do que tinha parecido no cemitério. Como se em um sonho, Bonnie levantou o pau, mas conseguia senti-lo tremendo em suas mãos. Matt estava tão imóvel – ele estava respirando? Bonnie conseguia ouvir o soluço em sua própria respiração enquanto encarava Tyler. Isso era ridículo; esse era um garoto de sua própria escola. Um garoto com quem tinha dançado no ano passado no Baile do 2º Ano. Como ele podia estar afastando-a de Matt, como ele podia estar tentando machucar todos eles? Como podia estar fazendo isso?
— Tyler, por favor... — ela começou, tentando fazê-lo raciocinar, implorar a ele...
— Sozinha na floresta, garotinha? — ele disse, e sua voz era um rosnado grosso e gutural, modelado de última hora em palavras. Naquele instante Bonnie soube que esse não era o garoto com quem ela fora para a escola. Isso era um animal. Ah, Deus, ele é feio, pensou. Cordas de cuspe vermelho balançavam de sua boca. E aqueles olhos amarelos com pupilas rachadas – neles ela via a crueldade do tubarão, do crocodilo, e da vespa que botava seus ovos no corpo da lagarta. Toda a crueldade da natureza animal naqueles dois olhos amarelos.
— Alguém devia tê-la avisado, — Tyler disse, abaixando sua mandíbula para rir do jeito que um cachorro ri. — Porque se você vai para a floresta sozinha, pode encontrar o Grande e Mau...
— Canalha! — uma voz terminou por ele, e com um sentimento de gratidão que beirava o religioso, Bonnie viu Meredith ao seu lado. Meredith, segurando a adaga de Stefan, que brilhava liquidamente na luz do luar.
— Prata, Tyler, — Meredith disse, brandindo-a. — Me pergunto o que a prata faz com os membros de lobisomens? Quer ver? — Toda a elegância de Meredith, sua reserva, sua fria falta de amor de observadora tinham ido. Essa era a Meredith essencial, uma Meredith guerreira, e apesar de ela estar sorrindo, estava furiosa.
— Sim! — gritou Bonnie alegremente, sentindo poder correr por ela. De repente conseguia se mover. Ela e Meredith, juntas, estavam fortes. Meredith estava caçando Tyler por um lado, Bonnie segurava o pau pronto do outro. Um desejo que nunca sentira antes acertou-a, o desejo de acertar Tyler tão forte que sua cabeça voaria fora. Ela conseguia sentir o poder de fazer isso agitando-se em seu braço.
E Tyler, com seu instinto animal, conseguia sentir isso, conseguia sentir isso de ambas, fechando cada lado. Recuou, foi capturado, e virou para tentar se afastar delas. Elas viraram também. Num minuto os três estavam orbitando como um mini sistema solar: Tyler se virou ao redor e ao redor no meio; Bonnie e Meredith circulando-os, procurando por uma chance de atacar.
Um, dois, três. Algum tipo de sinal não dito relampejou de Meredith para Bonnie. Bem quando Tyler pulava em Meredith, tentando jogar a faca para o lado, Bonnie atingiu. Lembrando-se do conselho de um namorado distante que tivera tentado ensiná-la a jogar beisebol, imaginou não só bater na cabeça de Tyler, mas através da cabeça dele, bater em algo do lado oposto. Ela colocou todo o peso de seu pequeno corpo por trás do golpe, e o choque da conexão quase estremeceu seus dentes. Balançou seus braços agonizantemente e espatifou o pau. Tyler caiu como um pássaro atingido no céu.
— Eu fiz! Sim. Beleza! Sim! — Bonnie gritou, arremessando o pau para longe. Triunfo irrompeu dela em um grito primitivo. — Nós fizemos! — Ela agarrou o corpo pesado pela parte de trás da juba e o tirou de cima de Meredith, onde tinha caído. — Nós... 
Então ela parou, suas palavras congelando em sua garganta. — Meredith! — ela gritou.
— Está tudo bem, — Meredith arfou, sua voz apertada com dor. E fraqueza, Bonnie pensou, esfriada como se submersa em água congelada. Tyler tinha arranhado sua perna até o osso. Havia feridas enormes e escancaradas na coxa da calça jeans de Meredith e na pele branca que mostrava claramente pelo tecido rasgado. E para o absoluto horror de Meredith, conseguia ver dentro da pele também, conseguia ver carne e músculos rasgados e sangue vermelho pingando.
— Meredith... — gritou freneticamente. Eles tinham que levar Meredith a um médico. Todos tinham que parar agora; todos tinham que entender isso. Tinham um ferimento aqui; precisavam de uma ambulância, ligar para a emergência. — Meredith, — arfou, quase chorando.
— Amarre isso com alguma coisa, — o rosto de Meredith estava branco. Choque. Entrando em choque. E tanto sangue; tanto sangue saindo. Ah, Deus, pensou Bonnie, por favor me ajude. Procurou por algo para amarrar isso com, mas não havia nada.
Algo caiu no chão ao lado dela. Um comprimento de corda de náilon como a corda que eles tinham usado para amarrar Tyler, com pontas desfiadas. Bonnie olhou para cima.
— Consegue usar isso? — perguntou Caroline incerta, seus dentes batendo.
Ela estava usando o vestido verde, seu cabelo castanho desordenado e grudado em seu rosto com suor e sangue. Mesmo enquanto falava oscilava, e caiu de joelhos ao lado de Meredith.
— Você está machucada? — Bonnie arfou.
Caroline balançou a cabeça, mas então se inclinou para frente, delatada pela náusea, e Bonnie viu as marcas em sua garganta. Mas não havia tempo para se preocupar com Caroline agora. Meredith era mais importante.
Bonnie amarrou a corda acima das feridas de Meredith, sua mente correndo desesperadamente por coisas que tinha aprendido com sua irmã Mary. Mary era uma enfermeira. Mary dizia – um torniquete não pode ser apertado demais ou deixado tempo demais ou a gangrena se assentava. Mas tinha que parar o sangue jorrante. Ah, Meredith.
— Bonnie... ajude o Stefan, — Meredith arfava, sua voz quase um sussurro. — Ele vai precisar... — Ela afundou para trás, sua respiração estertorosa, seus olhos rachados olhando para cima o céu.
Molhado. Tudo estava molhado. As mãos de Bonnie, suas roupas, o chão. Molhado com o sangue de Meredith. E Matt ainda estava deitado sob a árvore, inconsciente. Não podia deixá-los, especialmente não com Tyler ali. Ele podia acordar.
Atordoada, virou-se para Caroline, que estava tremendo e forçando vômito, suor adornando seu rosto. Inútil, Bonnie pensou. Mas não tinha outra escolha.
— Caroline, me escute, — disse. Ela pegou o maior pedaço do pau que tinha usado em Tyler e colocou nas mãos de Caroline. — Fique com Matt e Meredith. Afrouxe aquele torniquete a cada vinte minutos, mais ou menos. E se Tyler começar a acordar, mesmo se ele estremecer, bata nele o mais forte que puder com isso. Entende? Caroline, — acrescentou, — essa é sua grande chance de provar que é de valor. Que não é inútil. Está bem? — Ela capturou os furtivos olhos verdes e repetiu, — Está bem? 
— Mas o que você vai fazer?
Bonnie olhou na direção da clareira.
— Não, Bonnie. — A mão de Caroline agarrou a dela, e Bonnie notou com alguma parte de sua mente as unhas quebradas, a queimadura da corda nos pulsos. — Fique aqui onde é salvo. Não vá até eles. Não há nada que possa fazer...
Bonnie interrompeu-a e foi para a clareira antes que perdesse sua determinação. Em seu coração, sabia que Caroline estava certa. Não havia nada que pudesse fazer. Mas algo que Matt tinha dito antes de partirem estava buzinando em sua mente. Tentar pelo menos. Ela tinha que tentar.
Ainda assim, naqueles próximos horríveis minutos tudo que pôde fazer foi olhar.
Por enquanto, Stefan e Klaus tinham estado trocando golpes com tanta violência e acurácia que tinha sido uma linda dança letal. Mas tinha sido uma equalitária, ou quase equalitária, partida. Stefan estava se segurando.
Agora via Stefan pressionar com sua lança de freixo branco, pressionar Klaus a ficar de joelhos, forçando-o para trás, mais longe e longe, como um dançarino de limbo vendo o quanto conseguia descer. E Bonnie conseguia ver o rosto de Klaus agora, a boca ligeiramente aberta, encarando Stefan com aquele olhar de espanto e medo.
Então tudo mudou.
Bem no fim de sua descida, quando Klaus estivera curvado o máximo que conseguia, quando parecia que devia estar prestes a ter um colapso ou atingir um ponto crítico, algo aconteceu.
Klaus sorriu.
E então começou a empurrar de volta.
Bonnie viu os músculos de Stefan terem dificuldade, viu seus braços ficarem rígidos, tentando resistir. Mas Klaus, ainda sorrindo loucamente, olhos arregalados, simplesmente continuou indo. Ele se desvelava como um terrível macaco saltador (aquelas caixinhas na qual você dá corda e um bichinho pula de dentro), só que mais devagar. Lentamente. Inexoravelmente. Seu sorriso ficando mais largo até que parecesse que iria dividir seu rosto. Como o Gato Risonho. Um gato, pensou Bonnie.
Gato com um rato.
Agora Stefan era quem grunhia e esticava-se, os dentes cerrados, tentando afastar Klaus. Mas Klaus e seu pau moviam-se à frente ameaçadoramente, forçando Stefan para trás, forçando-o ao chão.
Sorrindo o tempo todo.
Até Stefan estar deitado de costas, seu próprio pau pressionando em sua garganta com o peso da lança de Klaus nele. Klaus olhou para baixo para ele e sorriu de alegria. — Estou cansado de jogar, garotinho, — disse, se endireitou e jogou seu próprio pau para baixo.
— Agora é hora de morrer.
Tomou o pau de Stefan tão facilmente como se tivesse tirando o de uma criança.
Pegou com um movimento de seu pulso e o quebrou sobre o joelho, mostrando como era forte, como sempre fora forte. Como estivera jogando cruelmente com Stefan.
Uma das metades do pau de freixo branco ele jogou sobre seu ombro do outro lado da clareira. A outra ele inseriu em Stefan. Usando não a ponta final, mas a despedaçada, quebrada em doze minúsculos pontos. Ele inseria com uma força que parecia quase casual, mas Stefan gritou. Fez isso de novo e de novo, extraindo um grito de cada vez.
Bonnie berrou, sem som.
Nunca tinha ouvido Stefan gritar antes. Não precisava que lhe dissessem que tipo de dor deve ter causado isso. Não precisava que lhe dissessem que freixo branco podia ser a única madeira mortal para Klaus, mas que qualquer madeira era mortal para Stefan. Que Stefan estava, se não morrendo agora, prestes a morrer. Que Klaus, com sua mão agora erguida, iria terminar isso com mais um golpe profundo. O rosto de Klaus estava virado para a lua com um sorriso de prazer obsceno, mostrando que era isso que ele gostava, de onde se estimulava.
De matar.
E Bonnie não conseguia se mover, não conseguia nem chorar. O mundo flutuou ao redor dela. Tudo tinha sido um erro, ela não era competente; era uma bebezinha afinal de contas. Não queria ver aquela enfiada final, mas não conseguia olhar para longe. E tudo isso não podia estar acontecendo, mas estava. Estava.
Klaus abanou a estaca despedaçada e com um sorriso de puro êxtase começou a descê-la.
E uma lança foi lançada pela clareira e o acertou no meio das costas, caindo e vibrando como uma flecha gigante, como a metade de uma flecha gigante. Fez os braços de Klaus serem lançados para fora, derrubando a estaca; tirou com um choque o sorriso extático de seu rosto. Ficou de pé, braços estendidos, por um segundo, e então virou-se, o pau de freixo branco em suas costas balançando ligeiramente.
Os olhos de Bonnie estava atordoados demais pelas ondas de pontos cinzas para ver, mas ouviu a voz claramente enquanto soava, fria e arrogante e cheia de convicção absoluta.
Só cinco palavras, mas elas mudavam tudo.
— Fique longe do meu irmão.

7 comentários:

  1. Afinal nao gostei q o Damon ficou meio "afim" da Bonnie. E essa parte me emocionou "Fique longe do meu irmao" ai q tudo!!! Te amo Damon <3

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  2. No começo não gostava muito do Damon mas depois dessa, não tem como não gostar!!!!!

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  3. Damon seu lindooo <3 <3 <3 <3

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