10 de novembro de 2015

Capítulo 14

Bonnie tremeu enquanto aguardava na frente da alta casa vitoriana. O ar estava gelado essa manhã e mesmo que fosse quase oito da manhã, o sol ainda não saíra. O céu era uma massa espessa de nuvens cinzas e brancas que criavam uma penumbra fantasmagórica abaixo delas.
Havia começado a bater o pé no chão e a esfregar as mãos quando a porta dos Forbes se abriu. Bonnie retrocedeu um pouco para trás dos arbustos que constituíam seu esconderijo e observou a família ir até o carro. O Sr. Forbes não levava mais do que uma câmera, a Sra. Forbes tinha uma bolsa e uma cadeira montável, Daniel Forbes, o irmão pequeno de Caroline carregava outra cadeira. E Caroline...
Bonnie se inclinou para frente, sua respiração acelerando em satisfação. Caroline estava vestida com um jeans e um suéter pesado e levava uma espécie de bolsa branca fechado com um cordão. Não era muito grande, mas era o bastante para conter um pequeno diário.
Reconfortada com o triunfo, Bonnie aguardou atrás dos arbustos até que o carro se afastasse. Logo depois foi até a esquina da Rua Thrush com Hawthorne Drive.


— Ali está, tia Judith. Na esquina. 
O carro diminuiu até parar e Bonnie deslizou no assento junto a Elena.
— Ela leva uma bolsa branca fechada com um cordão — murmurou no ouvido de Elena enquanto tia Judith voltava a arrancar.
Um formigamento de entusiasmo percorreu Elena, que apertou a mão da amiga.
— Estupendo — suspirou. — Agora vemos se ela a leva para a casa da Sra. Grimesby. Se não, dizemos a Meredith que está no carro. 
Bonnie assentiu e apertou a mão de Elena.
Chegaram à casa da Sra. Grimesby a tempo de ver Caroline entrar com a bolsa branca pendurada no braço. Elas se olharam. Agora era Elena que tinha que ver onde Caroline a deixava no interior da casa.
— Ficarei aqui também, Srta. Gilbert  disse Bonnie enquanto Elena saltava do carro.
Ela aguardaria no exterior com Meredith até que Elena pudesse dizer onde estava a bolsa. O importante era não deixar que Caroline suspeitasse de nada diferente.
A Sra. Grimesby foi quem abriu a porta para Elena. Bibliotecária de Fell’s Church, sua casa quase parecia uma biblioteca. Havia livros por todas as partes e amontoados no chão. Também era a guardiã dos artefatos históricos de Fell’s Church, incluindo as roupas que eram conservadas desde os primeiros tempos da cidade.
Naquele momento na casa, ressoavam vozes juvenis e os quartos estavam cheios de estudantes em diversas fases de nudez. A Sra. Grimesby sempre supervisionava os trajes do espetáculo histórico. Elena estava a ponto de pedir que a colocassem no mesmo quarto que Caroline, mas não foi necessário. A Sra. Grimesby a fez entrar.
Caroline, que estava com as roupas íntimas da última moda, dedicou a Elena o que sem dúvida devia ser um olhar indiferente, mas Elena detectou o malicioso deleite oculto e manteve os olhos nos montes de peças de roupas que a Sra. Grimesby recolhia da cama.
— Aqui está, Elena. Uma das nossas peças mais primorosamente conservadas... e ela é completamente autêntica, inclusive as faixas. Acreditamos que este vestido pertenceu a Honoria Fell.
— É bonito — Elena comentou enquanto a Sra. Grimesby sacudia as pregas do fino material branco. — De que é feito?
— Musselina de Moravia e gaze de seda. Posto que hoje fará bastante frio, pode levar esta blusa de veludo por cima.
A bibliotecária indicou uma peça de roupa cor de rosa cinzento que descansava no respaldo de uma cadeira.
Elena dirigiu um olhar rápido a Caroline enquanto começava a se trocar. Sim, ali estava a bolsa, aos pés dela. Considerou a ideia de pegá-la, mas a Sra. Grimesby ainda estava no quarto.
O vestido de musselina era bastante simples e o material leve era preso com um cinto muito alto, abaixo dos seios com uma fita rosa pálida. As mangas ligeiramente fofas terminavam atadas em uma fita de mesma cor. A moda havia sido bastante folgada no princípio do século XIX e ficavam bem em uma garota do século XX, ao menos se esta fosse magra. Elena sorriu quando a Sra. Grimesby as conduziu para um espelho.
— Realmente pertenceu a Honoria Fell? — perguntou, pensando na imagem de mármore daquela dama que jazia em sua tumba da igreja em ruínas.
— Essa é a história, pelo menos — disse a Sra. Grimesby. — Menciona um vestido assim em seu diário, de modo que estamos bastante certos.
— Ela escrevia um diário — sobressaltou-se Elena.
— Ah, sim. Eu o tenho na vitrine da sala de estar, mostrarei quando sairmos. Agora, a blusa... Ora, o que é isto?
Algo violeta caiu no chão quando Elena levantou a jaqueta.
A garota sentiu como sua expressão se congelasse. Pegou o bilhete antes que a Sra. Grimesby pudesse inclinar-se até ele e o leu rapidamente.
Uma linha. Recordou tê-la escrito em seu diário no dia 4 de setembro, o primeiro dia de aula. Só que após tê-la escrito, a havia riscado. Aquelas palavras não estavam riscadas agora, estavam bem traçadas e claras.

Alguma coisa horrível vai acontecer hoje.

Elena pôde apenas se conter para não ir para cima de Caroline e esfregar o papel roxo em seu rosto. Mas isso estragaria tudo. Obrigou-se a permanecer tranquila enquanto amassava a pequena tira de papel e a jogava na lixeira.
— Não é mais do que lixo — disse e se virou para a mulher, com os ombros muito tensos.
Caroline não disse nada, mas Elena sentiu aqueles olhos verdes triunfarem sobre ela.
Espere e verá, pensou. Espere até eu conseguir recuperar esse diário. Eu o queimarei e logo teremos uma conversa.
Para a Sra. Grimesby, ela disse:
— Estou pronta.
— Eu também — disse Caroline em um tom de voz recatado.
Elena adotou um olhar frio e indiferente enquanto contemplava o vestido da outra garota. O traje verde pálido de Caroline com largas fitas verdes e brancas não era tão bonito quanto o dela.
— Maravilhoso. Vocês, garotas, vão na frente e aguardem seus veículos. Ah, Caroline, não esqueça seu retúculo.
— Não esquecerei — respondeu sorrindo, e esticou o braço para pegar a bolsa aos seus pés fechada com um cordão.
Foi uma sorte que naquela posição ela não pudesse ver o rosto de Elena, porque naquele instante sua indiferença se desfez por completo. Elena ficou olhando-a atônita, enquanto Caroline começava a atar a bolsa em sua cintura.
Seu assombro não passou despercebido pela Sra. Griemsby.
— Isso é um retículo, o antepassado da nossa moderna bolsa feminina — explicou com amabilidade a mulher. — As senhoras guardavam suas luvas e leques neles. Caroline passou por aqui e o levou no início da semana para reparar uns bordados em que faltavam miçangas... o que foi muita consideração da parte dela.
— Estou certa disso — conseguiu dizer Elena com a voz afogada.
Ela tinha que sair dali ou algo horrível aconteceria naquele mesmo momento. Ia gritar ou atirar Caroline no chão ou explodir.
— Preciso de um pouco de ar fresco — disse.
Saiu em disparada do quarto e da casa, irrompendo na rua.
Bonnie e Meredith aguardavam no carro de Meredith. O coração de Elena martelava de um modo estranho enquanto andava até elas e se inclinava sobre a janela.
— Ela foi mais rápida que nós — disse em voz baixa. — A bolsa é parte do seu traje e vai levá-lo com ela o dia todo.
Bonnie e Meredith arregalaram os olhos primeiro para olhá-la e logo para olhar uma a outra.
— Mas... Então, o que vamos fazer? — perguntou Bonnie.
— Não sei — com angústia e consternação, Elena estava plenamente consciente do fim. — Não sei!
— Ainda podemos vigiá-la. Além do mais, ela tirará a bolsa quando for almoçar ou algo assim...
Mas a voz de Meredith soou oca. Todas sabiam a verdade, e a verdade era que não havia esperança. Tinham perdido.
Bonnie deu uma olhada no retrovisor e logo se retorceu em seu assento.
— É a sua carruagem.
Elena olhou. Dois cavalos brancos vinham pela rua puxando uma carruagem elegantemente renovada. As rodas da carruagem levavam grinaldas de papel crepom entrelaçadas, os assentos eram decorados com samambaias e uma grande faixa na lateral proclamava: O Espírito de Fell’s Church.
Elena só teve tempo para uma mensagem desesperada.
— Vigiem-na. E se houver um instante em que estiver só...
Então ela teve que ir.
Mas durante aquela longa e terrível manhã, não houve um momento em que Caroline estivesse sozinha. Esteve rodeada por uma multidão de espectadores.
Para Elena, o desfile foi uma tortura completa. Permaneceu sentada na carruagem junto ao prefeito e sua esposa, tentando sorrir, parecer normal. Mas o angustioso temor era como um peso esmagador em seu peito.
Em algum lugar na frente, entre as bandas, grupos uniformizados e conversíveis que desfilavam, estava Caroline. Elena havia se esquecido de averiguar em que carruagem ela estava. A carruagem da escola, talvez; uma grande maioria das crianças  menores estariam nela.
Não importava. Onde Caroline estivesse, estava à vista de meia cidade.
O almoço que seguiu o desfile foi celebrado no refeitório da escola secundaria e Elena se viu presa em uma mesa com o prefeito Dawley e sua esposa. Caroline estava numa mesa próxima. Elena podia ver a brilhante parte posterior de sua cabeleira cor de caju. E sentado ao seu lado, inclinando-se possessivamente sobre ela, estava Tyler Smallwood.
Ela estava em uma posição perfeita para ver o pequeno drama que teve lugar mais ou menos a metade do almoço. Seu coração foi à boca quando viu que Stefan, com expressão indiferente, passava junto à mesa de Caroline.
Ele falou com ela. Elena observou, esquecendo inclusive de brincar com a comida intacta no prato. Mas o que aconteceu fez sua alma cair em seus pés. Caroline balançou a cabeça, respondeu brevemente e logo regressou à sua refeição. E Tyler se levantou pesadamente, o rosto avermelhado quando fez um gesto enraivecido. Não voltou a se sentar até que Stefan se afastasse.
Stefan olhou na direção de Elena ao caminhar e em um momento seus olhos se encontraram em muda comunicação.
Não havia nada que ele pudesse fazer, então. Mesmo se seus Poderes tivessem voltado, Tyler o manteria longe de Caroline. O esmagador peso oprimiu os pulmões de Elena de tal modo que apenas pôde respirar.
Depois disso, limitou-se a permanecer sentada, presa ao abatimento e ao desespero até que alguém lhe deu um tapinha e lhe indicou que era hora de ir para os bastidores.
Escutou quase com indiferença o discurso de boas-vindas do prefeito Dawley, que falou sobre os “duros momentos” que Fell’s Church havia enfrentado recentemente e sobre o espírito de comunidade que os sustentou nos últimos meses. Depois entregaram os prêmios, por erudição, proezas atléticas, serviços à comunidade... Matt subiu para receber o de Atleta Masculino Excepcional do Ano e Elena viu que ele a olhava com curiosidade.
Logo teve lugar a representação histórica. As crianças da escola fundamental riram, deram tropeções e esqueceram suas falas enquanto representavam as cenas desde a fundação de Fell’s Church até a Guerra de Secessão. Elena contemplou sem assimilar nada daquilo. Desde a noite anterior estava se sentindo ligeiramente enjoada e com tremores, e naquele momento se sentia como se estivesse gripada. Sua mente que geralmente estava repleta de planos e cálculos estava vazia. Não conseguia pensar. Quase nem se importava.
A representação terminou com uma centelha de flashes e tumultuosos aplausos. Quando o último soldado confederado abandonou o palco, o prefeito Dawley pediu silêncio.
— E agora — disse, — os alunos que fizeram a cerimônia de clausura. Por favor, mostrem seu reconhecimento ao Espírito de Independência, ao Espírito de Fidelidade, ao Espírito de Fell’s Church!
Os aplausos foram ainda mais estrondosos. Elena se colocou de pé junto a John Clifford, o inteligente aluno do último ano que havia sido elegido para representar o Espírito da Independência. Ao lado de John estava Caroline. De um jeito distante, quase apático, Elena notou que ela parecia esplêndida: a cabeça inclinada para trás, os olhos chamativos, as bochechas rosadas.
John avançou primeiro, ajustando os óculos e o microfone antes de ler o grosso livro marrom situado sobre o átrio. Oficialmente, os alunos do último ano eram livres para escolher suas próprias seleções. Na prática, quase sempre liam algo das obras de M.C. Marsh, o único poeta que Fell’s Church produziu.
Durante toda a leitura de John, Caroline tratou de olhá-lo. Sorriu, sacudiu os cabelos, suspendeu o reticulo que carregava na cintura. Seus dedos acariciaram amorosamente a bolsa e Elena se encontrou olhando fixamente, hipnotizada, memorizando cada miçanga.
John fez uma reverência e voltou a seu posto. Caroline ergueu os ombros e avançou como uma modelo até o átrio.
Nesse momento os aplausos se misturam com assovios. Mas Caroline não sorriu; havia adotado um ar de trágica responsabilidade. Com o delicioso sentido do momento aguardou até que a sala ficasse em perfeito silêncio para falar.
— Minha intenção era ler um poema de M.C. Marsh hoje — disse perante ao atento silêncio — mas não vou ler. Por que ler isso — levantou o volume de poesia do século XIX — quando há algo muito mais... relevante... em um livro que tive a casualidade de encontrar?
Que teve casualidade de roubar, você quer dizer, pensou Elena. Seus olhos buscaram entre os rostos da multidão e localizou Stefan. Estava de pé no fundo, com Bonnie e Meredith postadas uma a cada lado como se o protegessem. Então reparou em algo mais. Tyler, junto a Dick e vários outros garotos, estavam de pé poucos metros mais atrás. Os garotos tinham mais idade que os alunos de segundo ano, pareciam rudes e eram cinco.
Veja, pensou Elena, voltando a encontrar os olhos de Stefan. Desejou que compreendesse o que dizia. Veja, Stefan, por favor, vá embora antes de que aconteça. Vá agora!
De um modo muito leve, quase imperceptível, Stefan negou com a cabeça.
Os dedos de Caroline submergiram na bolsa como se não pudesse mais esperar.
— O que vou ler é sobre a Fell’s Church de hoje, não há cem ou duzentos anos — dizia, consumindo-se em uma espécie de exultação febril. — O agora é mais importante, porque se trata de alguém que vive na cidade conosco. Na verdade, ele está aqui, nesse local.
Tyler devia ter escrito o discurso, decidiu Elena. No mês anterior, no ginásio, havia mostrado um dom único para esse tipo de coisa. “Ah Stefan, ah Stefan, estou assustada...” seus pensamentos se transformaram em incoerências quando Caroline afundou a mão na bolsa.
— Acho que compreenderão a que me refiro quando escutarem — disse e com um rápido gesto extraiu um livro coberto de veludo e o levantou teatralmente. — Acredito que explicará muito do que tem acontecido em Fell’s Church recentemente.
Respirando rápida e superficialmente, passou os olhos do auditório ao livro.
Elena quase desmaiou quando Caroline tirou o diário. Brilhantes centelhas percorreram nas bordas de sua visão e o enjoo rugiu, pronto para arrebatar Elena, e então ela notou algo.
Deviam ser seus olhos. As luzes do cenário e os flashes sem duvida a haviam deslumbrado. Sentia-se a ponto de desmaiar; não se surpreendia em absoluto que não pudesse ver a claridade. 
O livro que Caroline tinha nas mãos parecia verde e não azul.
Devo está ficando louca... ou isto é um sonho... ou talvez um truque de luzes. Mas, olhe a cara de Caroline!
Caroline, com a boca abrindo e fechando, contemplava fixamente o livro de veludo. Parecia ter se esquecido completamente do público. Girou o diário uma e outra vez entre as mãos, olhando para todos os lados. Seus movimentos se tornaram frenéticos. Introduziu violentamente uma mão no retículo como se de algum modo esperasse encontrar algo mais nele. Então passou uma olhada enlouquecida pelo cenário, como se o que buscasse pudesse ter caído no chão.
O público murmurava, se impacientava. O prefeito Dawley e o diretor da escola secundária trocaram olhares de desaprovação com os lábios apertados.
Não encontrando nada no chão, Caroline voltou a olhar com firmeza o pequeno livro. Mas naquele momento o contemplava como se fosse um escorpião. Com um gesto repentino, o abriu violentamente e o olhou por dentro, como se sua última esperança fosse que só a capa tivesse mudado e que as palavras em seu interior pudessem ser de Elena.
Então levantou devagar os olhos do livro e os dirigiu para a sala lotada.
Havia voltado a fazer silêncio e o momento se prolongou enquanto todos os olhos permaneciam fixos na garota de vestido verde pálido. Com um sorriso inarticulado, Caroline girou seus calcanhares. Esbarrou em Elena ao passar. Seu rosto era uma máscara de raiva e ódio.
Com delicadeza, com a sensação de flutuar, Elena se inclinou para recolher aquilo com que Caroline tentara golpeá-la.
O diário de Caroline.
Havia atividade atrás de Elena enquanto as pessoas corriam atrás de Caroline e em sua frente também. À medida que o público irrompia em comentários, discussões e disputas, Elena localizou Stefan. Seu aspecto parecia como se a alegria o inundasse, mas também parecia tão perplexo quanto Elena. Bonnie e Meredith davam a mesma impressão. Quando os olhos de Stefan cruzaram com os dela, Elena sentiu uma onda de gratidão e alegria, mas sua emoção predominante era a admiração.
Era um milagre. Além de toda a esperança, eles haviam sido resgatados. Haviam sido salvos.
E então seus olhos distinguiram outra cabeça escura na multidão.
Damon estava encostado... Não, recostado... na parede norte. Seus lábios estavam curvados em um meio sorriso e seus olhos se travavam com os de Elena descaradamente.
O prefeito Dawley estava naquele momento junto a ela, indo para frente, acalmando a multidão, tentando restaurar a ordem. Não servia de nada. Elena leu seu discurso com a voz distraída para um grupo de pessoas que conversava sem prestar a menor atenção; não tinha nem ideia de que palavras pronunciava. De vez em quando, olhava Damon.
Escutou um aplauso disperso e distraído quando finalizou e o prefeito anunciou o resto dos acontecimentos para aquela tarde. E logo tudo terminou e Elena ficou livre para ir.
Flutuou fora do palco sem a mínima ideia de onde ia, mas suas pernas a transportaram para a parede norte. A cabeça de Damon desapareceu pela porta lateral e ela o seguiu.
O ar do pátio parecia deliciosamente fresco atrás da abarrotada sala e as nuvens do céu eram prateadas e arredondadas. Damon a esperava.
Os passos de Elena perderam velocidade, mas não pararam. Avançou até ficar somente a trinta centímetros dele, esquadrinhando seu rosto com os olhos.
Houve um longo momento de silêncio e então ela falou:
— Por quê?
— Pensei que estaria mais interessada em como — apalpou sua jaqueta significantemente. — Fui convidado a tomar café esta manhã, depois de iniciar uma relação com eles semana passada.
— Mas, por quê?
Deu de ombros e durante um instante algo como consternação apareceu fugazmente em suas lindas feições desenhadas. A Elena pareceu que nem ele mesmo soubesse o motivo... Ou não queria admitir.
— Para meus próprios propósitos — respondeu.
— Não acredito — algo estava crescendo entre eles, algo que assustava Elena com seu poder. — Não acredito que essa seja a razão em absoluto. 
Um brilho perigoso apareceu naqueles olhos escuros.
— Não me pressione, Elena. 
Ela se aproximou mais, tanto que quase o tocava, e o olhou.
— Acho — disse — que talvez precise que eu te pressione. 
Seu rosto estava só a alguns centímetros do dela e Elena jamais soube o que podia ter acontecido se naquele momento uma voz não os interrompesse.
— No fim você conseguiu vir! Fico tão feliz!
Era tia Judith. Elena sentiu como se a tivessem transportado a toda velocidade de um mundo para outro. Piscou com uma sensação de vertigem, voltando a soltar o ar que não havia notado que o prendia.
— E conseguiu ouvir Elena — prosseguiu tia Judith alegremente. — Foi muito bem, Elena, mas não sei o que aconteceu a Caroline. Todas as garotas dessa cidade estão agindo como enfeitiçadas ultimamente.
— São os nervos — sugeriu Damon, com o rosto cuidadosamente solene.
Elena sentiu o impulso de rir tontamente e logo uma onda de irritação. Tudo bem se sentir agradecida a Damon por tê-los salvo, mas se não fosse por ele, não existiria problema, para começar. Damon havia cometido os crimes que Caroline queria culpar Stefan.
— E onde está Stefan? — perguntou, dando voz a seu pensamento seguinte.
Podia ver Bonnie e Meredith sozinhas.
O rosto de tia Judith mostrou desaprovação.
— Não o vi — disse com tom sucinto e logo sorriu carinhosamente. — Mas tenho uma ideia: por que não vem jantar conosco, Damon? Então, talvez você e Elena possam...
— Pare! — disse Elena a Damon, que se mostrou educadamente inquisitivo.
— O quê? — inquiriu tia Judith.
— Pare! — repetiu Elena a Damon. — Você sabe o quê. Pare agora!

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