8 de novembro de 2015

Capítulo 14

Elena sentiu sua pele arrepiar-se com as palavras.
— Você não quis dizer isso — disse, trôpega. Ela se lembrou do que tinha visto no telhado, o sangue manchado nos lábios de Stefan, e se forçou a não recuar dele. — Stefan, eu te conheço. Você não poderia ter feito isso...
Ele ignorou seus protestos, simplesmente continuou encarando com olhos que queimavam como o verde-gelo no fundo de uma geleira. Ele estava olhando através dela, para alguma distância incompreensível.
— Enquanto eu deitava na cama naquela noite, me segurava em todas as esperanças de que ela viria. Já estava notando algumas das mudanças em mim. Podia ver melhor na escuridão; parecia que podia escutar melhor. Me sentia mais forte do que nunca, cheio de alguma energia elemental. E eu estava faminto. Era uma fome que eu nunca tinha imaginado. No jantar descobri que comida e bebida normais não faziam nada para satisfazê-la. Eu não podia entender isso. E então vi o pescoço branco de uma das serventes, e soube porquê.
Ele tomou um longo fôlego, seus olhos escuros e torturados.
— Naquela noite, resisti à necessidade, apesar de ter tomado toda a minha força de vontade. Eu estava pensando em Katherine, e rezando que ela viesse a mim. Rezando! — ele deu uma risada breve. — Como se uma criatura como eu pudesse rezar.
Os dedos de Elena estavam entorpecidos nas mão de Stefan, mas ela tentou apertá-los, reassegurá-lo.
— Continue, Stefan.
Ele não tinha problemas em falar agora. Parecia quase ter esquecido da presença dela, como se estivesse contando essa história a si mesmo.
— Na manhã seguinte, a necessidade estava mais forte. Era como se as minhas próprias veias estivessem secas e rachadas, desesperadas por umidade. Sabia que não podia suportar isso por muito tempo. Fui aos aposentos de Katherine. Queria pedir a ela, implorar à ela... — sua voz rachou. Ele parou e então continuou. — Mas Damon já estava lá, esperando do lado de fora de seu quarto. Podia ver que ele não tinha resistido à necessidade. O brilho de sua pele, a fluidez em seu passo, me disseram isso. Ele parecia tão presunçoso quanto o gato que tinha o peixe. Mas ele não tinha Katherine. “Bata quanto quiser”, ele me dissera, “mas o dragão fêmea aí dentro não te deixará passar. Eu já tentei. Devemos dominá-la, você e eu?” Não respondi. O olhar em seu rosto, aquele olhar astuto e convencido, me repelia. Golpeei a porta para acordar... — ele vacilou, e então deu outra risada sem humor. — Eu ia dizer, “acordar os mortos.” Mas os mortos não são tão difíceis de acordar afinal, são?
Depois de um momento, ele continuou.
— A ama, Gudren, abriu a porta. Ela tinha um rosto como um prato branco, e olhos como um copo preto. Perguntei-lhe se podia ver sua senhora. Esperei ouvir que Katherine estava dormindo, mas ao invés disso Gudren simplesmente olhou para mim, e então para Damon por cima do meu ombro. “Eu não direi a ele,” ela falou por fim, “mas direi à você. Minha senhora Katherine não está aqui dentro. Ela saiu cedo esta manhã para andar nos jardins. Disse que precisava pensar muito.” Eu ficara surpreso. “Cedo esta manhã?” “Sim”, ela replicara. Olhou para ambos sem gostar. “Minha senhora estava muito infeliz ontem à noite”, dissera significativamente. “Por toda a noite, ela chorou.”
“Quando disse isso, uma estranha sensação me apossou. Não era só vergonha e luto por Katherine estar tão infeliz. Era medo. Esqueci minha fome e fraqueza. Até mesmo esqueci minha inimizade por Damon. Fui preenchido com pressa e uma grande urgência de impulsão. Me virei para Damon e disse a ele que tínhamos que encontrar Katherine, e para minha surpresa ele simplesmente concordou.
“Nós começamos a procurar nos jardins, chamando o nome de Katherine. Lembro exatamente da aparência de tudo naquele dia. O sol brilhava nos altos ciprestes e nos pinheiros no jardim. Damon e eu nos apressamos entre eles, movendo-nos mais e mais rapidamente, e chamando. Nós continuamos chamando-a...
Elena pôde sentir os tremores no corpo de Stefan, passados a ela através de seus dedos fortemente apertados. Estava respirando rápida e superficialmente.
— Nós tínhamos quase alcançado o final dos jardins quando me lembrei de um lugar que Katherine amava. Era um pouco longe do território, uma parede baixa ao lado de um limoeiro. Eu corri para lá, gritando por ela. Mas quando cheguei mais perto, parei de gritar. Eu senti... um medo... uma premonição terrível. E sabia que não devia... não devia ir...
— Stefan! — Elena exclamou. Ele estava machucando-a, seus dedos cortando os dela, esmagando-os. Os tremores correndo pelo seu corpo estavam crescendo, tornando-se calafrios. — Stefan, por favor!
Mas ele não mostrou sinal de que a tinha ouvido.
— Era como... um pesadelo... tudo acontecendo tão lentamente. Não podia me mover... e ainda assim que tinha que fazer isso. Eu tinha que continuar andando. Com cada passo, o medo crescia mais fortemente. Eu podia sentir o cheiro. Um cheiro como de gordura queimada. Eu não devia ir lá... não queria ver isso.
Sua voz tinha se tornado alta e urgente, sua respiração vindo em arfadas. Seus olhos estavam arregalados e dilatados, como uma criança aterrorizada. Elena agarrou seus dedos apertados com sua outra mão, envolvendo-os completamente.
— Stefan, está tudo bem. Você não está lá. Você está aqui comigo.
— Eu não quero ver isso... mas não posso evitar. Há algo branco. Algo branco debaixo da árvore. Não me faça olhar para isso!
— Stefan, Stefan, olhe para mim!
Ele não a escutava mais. Suas palavras vinham em espasmos ondeantes, como se não pudesse controlá-las, não pudesse dizê-las rápido o bastante.
— Não posso chegar mais perto... mas chego. Vejo a árvore, a parede. E aquele branco. Atrás da árvore. Branco com dourado embaixo. E então eu sei, eu sei, e estou me movendo em direção a ele porque é o vestido dela. O vestido branco de Katherine. Dou a volta na árvore e vejo-o no chão e é verdade. É o vestido de Katherine — sua voz elevou-se e quebrou com horror inimaginável... — mas Katherine não está nele.
Elena sentiu um calafrio, como se seu corpo tivesse sido mergulhado em água gelada. Sua pele se tremeu com um arrepio, e ela tentou falar, mas não conseguiu. Ele estava tagarelando como se pudesse manter o horror longe se continuasse falando.
— Katherine não está lá, então talvez seja tudo uma piada, mas seu vestido está no chão e está cheio de cinzas. Como as cinzas na lareira, exatamente como essas, só que essas cheiravam a carne queimada. Elas fediam. O cheiro me deixa enojado e fraco. Ao lado da manga do vestido está um pedaço de pergaminho. E em uma pedra, uma pedra um pouco distante, está um anel. Um anel com um cristal azul, o anel de Katherine. O anel de Katherine...
De repente, ele gritou em uma voz terrível.
— Katherine, o que você fez?
Então ele caiu de joelhos, soltando os dedos de Elena por fim, para enterrar seu rosto nas mãos.
Elena segurou-o enquanto era dominado por choros devastadores. Ela segurou seus ombros, puxando-o para seu colo.
— Katherine tirou o anel — ela sussurrou. Não era uma pergunta. — Ela se expôs ao sol.
Seus soluços duros continuaram, enquanto ela o segurava na saia cheia de seu vestido azul, acariciando seus ombros tiritantes. Ela murmurava tolices para acalmá-lo, afastando o seu próprio horror. E, nesse instante, ele se aquietou e levantou a cabeça. Falou grossamente, mas parecia ter retornado ao presente, ter voltado.
— O pergaminho era um bilhete, para mim e para Damon. Dizia que ela tinha sido egoísta, querendo ter nós dois. Dizia... não podia suportar ser a causa da rixa entre nós. Esperava que uma vez que ela se fora nós não nos detestássemos mais. Ela fez isso para nos unir.
— Oh, Stefan — sussurrou Elena. Ela sentiu lágrimas encherem seus próprios olhos em simpatia. — Ah, Stefan, eu sinto tanto. Mas não vê, depois de todo esse tempo, que o que Katherine fez foi errado? Foi egoísta, até, e foi a escolha dela. De certo modo, não teve nada a ver com você, ou com Damon.
Stefan balançou sua cabeça como se para tirar a verdade das palavras.
— Ela deu a sua vida... por isso. Nós a matamos.
Ele estava se sentando agora. Mas seus olhos ainda estavam dilatados, grandes discos pretos, e ele tinha o olhar de um menininho estupefato.
— Damon chegou por trás de mim. Ele tomou o bilhete e o leu. E então... acho que ele ficou louco. Nós dois ficamos loucos. Eu tinha pego o anel de Katherine, e ele tentou tomá-lo. Não deveria. Nós lutamos. Nós dissemos coisas horríveis um ao outro. Cada um culpou o outro pelo que aconteceu. Não me lembro de como voltamos para casa, mas de repente eu estava com a minha espada. Nós estávamos lutando. Queria destruir aquele rosto arrogante para sempre, matá-lo. Lembro do meu pai gritando de casa. Nós lutamos mais arduamente, para terminar isso antes que ele nos alcançasse.
“E éramos bons adversários. Mas Damon sempre fora mais forte, e naquele dia ele parecia mais rápido, também, como se ele tivesse mudado mais do que eu. E então enquanto meu pai ainda estava gritando da janela quando senti a lâmina de Damon passar pela minha guarda. Então a senti entrar em meu coração.
Elena encarou, horrorizada, mas ele continuou sem parar.
— Eu senti a dor do aço, senti-o me apunhalar, cada vez mais profundamente. Todo o caminho, um impulso duro. E então a força transbordou de mim e eu caí. Eu fiquei deitado lá no chão pavimentado.
Ele olhou para Elena e terminou simplesmente:
— E foi assim que... eu morri.
Elena sentou paralisada, como se o gelo que sentira em seu peito mais cedo tivesse vazado e a prendido.
— Damon veio e ficou de pé sobre mim e se agachou. Podia ouvir os choros do meu pai de longe, e gritos dos empregados, mas tudo o que pude ver foi o rosto de Damon. Aqueles olhos negros que eram como uma noite sem lua. Queria machucá-lo pelo o que tinha feito a mim. Por tudo que tinha feito a mim, e a Katherine — Stefan ficou quieto por um momento, e então disse, quase sonhadoramente: — E então eu ergui minha espada e o matei. Com minhas últimas forças, eu apunhalei meu irmão no coração.


A tempestade tinha passado, e através da janela quebrada Elena pôde ouvir os suaves sons noturnos, o gorjeio dos grilos, o vento balançando nas árvores. No quarto de Stefan, estava muito quieto.
— Eu não soube de mais nada até que acordei em minha tumba — disse Stefan.
Ele se inclinou para trás, longe dela, e fechou seus olhos. Seu rosto estava espremido e esgotado, mas aquele terrível aspecto sonhador de criança tinha sumido.
— Tanto Damon quanto eu tínhamos tomado o suficiente do sangue de Katherine para nos impedir de realmente morrer. Ao invés disso, nós nos transformamos. Acordamos juntos em nossa tumba, vestidos em nossas melhores roupas, deitados em pedaços de madeira lado a lado. Estávamos fracos demais para ferir um ao outro; o sangue mal fora o suficiente. E estávamos confusos. Chamei Damon, mas ele correu para fora para a noite. Felizmente, tínhamos sido enterrados com os anéis que Katherine nos dera. E eu achei o anel dela no meu bolso.
Como se inconscientemente, Stefan esticou a mão para acariciar o anel de ouro.
— Creio que pensaram que ela o tinha dado a mim. Tentei ir para casa. Isso foi idiota. Os serventes gritaram quando me viram e correram para trazer um padre. Corri, também. Para o único lugar onde estava a salvo, para a escuridão. E foi lá que fiquei desde então. É aonde pertenço, Elena. Matei Katherine com meu orgulho e com meu ciúme, e matei Damon com meu ódio. Mas fiz pior do que matar meu irmão. Eu o amaldiçoei. Se ele não tivesse morrido então, com o sangue de Katherine tão forte em suas veias, teria tido uma chance. Com o tempo o sangue teria ficado mais fraco, e então desaparecido. Teria se tornado um humano normal de novo. Matando-o então, eu o condenei a viver na noite. Tomei sua única chance de salvação.
Stefan riu amargamente.
— Você sabe o que o nome Salvatore quer dizer em italiano, Elena? Quer dizer salvação, salvador. Eu fui nomeado assim, e de St. Stephen, o primeiro mártir cristão. E eu amaldiçoei meu irmão ao inferno.
— Não — disse Elena. E então, com uma voz mais forte, ela disse: — não, Stefan. Ele amaldiçoou a si próprio. Ele matou você. Mas o que aconteceu a ele depois disso?
— Por um tempo se juntou a uma das Companhias Livres, mercenários bárbaros cujo negócio era roubar e saquear. Vagou pelo país com eles, lutando e bebendo o sangue de suas vítimas. Eu estava vivendo além dos portões da cidade na época, parcialmente faminto, caçando animais, eu mesmo um animal. Por um longo tempo, não escutei nada sobre Damon. Então um dia eu ouvi sua voz em minha mente.
“Ele estava mais forte do que eu, porque estava bebendo sangue humano. E matando. Os humanos têm a essência de vida mais forte, e o sangue deles dá poder. E quando são mortos, de algum jeito a essência de vida que eles dão é a mais forte de todos. É como se naqueles últimos momentos de terror e luta a alma fica mais vibrante. Porque Damon matava humanos, era capaz de aproveitar-se mais dos Poderes do que eu.
— Que... poderes? — perguntou Elena.
Um pensamento crescia em sua mente.
— Força, como você disse, e rapidez. Um aguçamento de todos os sentidos, especialmente à noite. Esses são os básicos. Nós também podemos... sentir mentes. Nós podemos sentir a presença delas, e às vezes a natureza de seus pensamentos. Podemos confundir mentes mais fracas, tanto para oprimi-las como para moldá-las ao nosso desejo. Há outros. Com sangue humano suficiente podemos mudar de forma, nos tornarmos animais. E quanto mais você mata, mais forte todos os Poderes se tornam.
“A voz do Damon na minha mente era muito forte. Ele disse que era agora o condottieri de sua própria companhia e estava voltando à Florença. Disse que se eu estivesse lá quando chegasse, iria me matar. Acreditei nele, e fui embora. Eu o vi uma ou duas vezes desde então. A ameaça é sempre a mesma, e ele sempre está mais poderoso. Damon tirou o máximo de proveito de sua natureza, e parece gloriar-se em seu lado mais obscuro.
“Mas é a minha natureza, também. A mesma escuridão está dentro de mim. Achei que pudesse dominá-la, mas estava errado. Foi por isso que vim para cá, para Fell’s Church. Pensei que se me instalasse em uma cidade pequena, bem longe das lembranças antigas, talvez pudesse escapar à escuridão. E ao invés disso, hoje à noite, eu matei um homem.
— Não — Elena falou convincentemente. — Não acredito nisso, Stefan. — A história dele tinha enchido-a com horror e pena… e medo, também. Ela admitia isso. Mas seu nojo tinha desaparecido, e havia uma coisa sobre a qual tinha certeza. Stefan não era um assassino. — O que aconteceu hoje à noite, Stefan? Você discutiu com o Tanner?
— Eu... não lembro — ele disse desoladamente. — Eu usei o Poder para persuadi-lo a fazer o que você queria. Então fui embora. Mas mais tarde uma tontura e uma fraqueza se apossarem de mim. E isso aconteceu antes — ele olhou para ela diretamente. — A última vez que isso aconteceu foi no cemitério, perto da Igreja, na noite em que Vickie Bennett foi atacada.
— Mas você não fez isso. Não poderia ter... Stefan?
— Eu não sei — ele respondeu duramente. — Que outra explicação poderia haver? E bebi sangue do velho debaixo da ponte, na noite que vocês e as garotas fugiram do cemitério. Teria jurado que não tinha tomado o suficiente para machucá-lo, mas ele quase morreu. E eu estava lá quando os dois, Vickie e Tanner, foram atacados.
— Mas você não se lembra de atacá-los — disse Elena, aliviada.
Aquela ideia que esteve crescendo em sua mente era agora quase uma certeza.
— Que diferença isso faz? Quem mais poderia ter feito isso, se não eu?
— Damon — Elena respondeu.
Ele recuou, e ela viu seus ombros se enrijecerem novamente.
— É um belo pensamento. Esperei de primeira que talvez pudesse ter alguma explicação desse tipo. Que talvez fosse outra pessoa, alguém como o meu irmão. Mas procurei com a minha mente e não achei nada, nenhuma outra presença. A explicação mais simples é que eu sou o assassino.
— Não — Elena continuou — você não entende. Não quero simplesmente dizer que alguém como Damon pode ter feito as coisas que vimos. Eu quero dizer que Damon está aqui, em Fell’s Church. Eu o vi.
Stefan simplesmente encarou-a.
— Deve ser ele — Elena disse, tomando um longo fôlego. — Eu o vi duas vezes já, talvez três. Stefan, você acabou de me contar uma história longa, e agora tenho que lhe contar uma.
Tão rápida e simples quanto pode, ela contou sobre o que aconteceu no ginásio, e na casa de Bonnie. Seus lábios se apertaram em uma linha branca enquanto contava sobre como Damon tentou beijá-la. As bochechas dela ficaram quentes à medida que ela lembrava-se de sua própria resposta, como quase havia cedido a ele. Mas contou tudo a Stefan.
Sobre o corvo, também, e todas as outras coisas estranhas que tinham acontecido desde que ela voltara para casa da França.
— E, Stefan, acho que Damon estava na Casa Assombrada esta noite — ela terminou. — Logo depois que você se sentiu tonto na sala principal, alguém passou por mim. Ele estava vestido como... como a Morte, em mantas pretas e um capuz, não consegui ver seu rosto. Mas algo no jeito como ele se movia era familiar. Era ele, Stefan. Damon estava lá.
— Mas isso ainda não explicaria as outras vezes. Vickie e o velho. Eu tomei sangue do velho.
O rosto de Stefan estava tenso, como se quase estivesse com medo de ter esperança.
— Mas você mesmo disse que não tomou sangue o suficiente para machucá-lo. Stefan, quem sabe o que aconteceu ao homem depois de você ter ido embora? Não seria a coisa mais fácil no mundo para Damon atacá-lo então? Especialmente se estivesse te espiando o tempo todo, talvez em alguma outra forma...
— Como um corvo — murmurou Stefan.
— Como um corvo. E quanto à Vickie... Stefan, você disse que pode confundir mentes mais fracas, dominá-las. Não poderia ser isso o que Damon estava fazendo a você? Dominando a sua mente do jeito que você pode dominar a de um humano?
— Sim, e escondendo sua presença de mim — havia uma crescente animação na voz de Stefan. — É por isso que não respondeu aos meus chamados. Ele queria...
— Ele queria justamente que acontecesse o que aconteceu. Queria que você duvidasse de si mesmo, pensasse que fosse um assassino. Mas não é verdade, Stefan. Ah, Stefan, sabe disso agora, e você não tem mais que ter medo.
Ela se levantou, sentindo alegria e alívio correrem por ela. Dessa noite horrorosa, algo maravilhoso tinha vindo.
— É por isso que você esteve tão distante de mim, não é? — ela perguntou, esticando suas mãos para ele. — Porque estava com medo do que poderia fazer. Mas não há mais necessidade disso.
— Não há? — ele estava respirando rapidamente de novo, e olhou suas mãos esticadas como se fossem duas cobras. — Você acha que não tem mais razão para se ter medo? Damon pode ter atacado aquelas pessoas, mas ele não controla meus pensamentos. E você sabe o que pensei sobre você.
Elena manteve sua voz estável.
— Você não quer me machucar — ela disse positivamente.
— Não? Houve horas, observando você em público, onde mal pude aguentar não tocá-la. Quando estivesse tão tentado por sua garganta branca, sua pequenina garganta branca com as fracas veias azuis sob a pele... — Os olhos dele estavam fixos no pescoço dela de um jeito que a lembrava dos olhos de Damon, e ela sentiu seus batimentos cardíacos aumentarem. — Horas quando pensei que iria te agarrar e te forçar ali mesmo na escola.
— Não há necessidade de me forçar — disse Elena. Ela pôde sentir sua pulsação em todo lugar agora; em seus pulsos e dentro de seus cotovelos – e em sua garganta. — Tomei minha decisão, Stefan — falou suavemente, prendendo os olhos dele. — Eu quero.
Ele engoliu em seco.
— Você não sabe o que está pedindo.
— Eu acho que sei. Você me contou como foi com a Katherine, Stefan. Quero que seja assim conosco. Não quero dizer que quero que você me transforme. Mas podemos dividir um pouco sem que isso aconteça, não podemos? Eu sei — ela acrescentou, mais suavemente ainda — o quanto você amava Katherine. Mas ela se foi agora, e eu estou aqui. Eu te amo, Stefan. Quero ficar com você.
— Você não sabe do que está falando! — ele estava rígido, seu rosto furioso, seus olhos angustiados. — Se eu uma vez perder o controle, o que vai me impedir de transformá-la, ou de matá-la? A paixão é mais forte do que pode imaginar. Você ainda não entende o que sou, o que posso fazer?
Ela ficou de pé ali e o fitou silenciosamente, seu queixo levantado ligeiramente. Isso pareceu enfurecê-lo.
— Ainda não viu o bastante? Ou tenho que te mostrar mais? Não pode imaginar o que posso fazer com você? — ele caminhou até a lareira gelada e agarrou um longo pedaço de madeira, mais grosso que os dois pulsos de Elena juntos. Com um movimento, ele quebrou-o em dois como um palito de fósforo. — Os seus ossos frágeis — disse.
Do outro lado do quarto um travesseiro estava na cama; ele o pegou e com um corte de suas unhas deixou a fronha de seda em tiras.
— A sua pele suave.
Então se moveu na direção de Elena com uma rapidez sobrenatural; ele estava lá e segurava seus ombros antes que ela soubesse o que estava acontecendo. Ele a assustou por um momento, então, com um sibilo selvagem que ergueu os pelinhos na nuca de seu pescoço, afastou seus lábios.
Era o mesmo ranger de dentes que tinha visto no telhado, aqueles dentes brancos expostos, os caninos crescidos e afiados inacreditavelmente. Eram as presas de um predador, de um caçador.
— Seu pescoço branco — disse em uma voz distorcida.
Elena ficou paralisada por outro instante, olhando para aquele semblante assustador como se estivesse sendo forçada, e então algo profundo em si mesma tomou conta inconscientemente. Esticou as mãos no círculo refreador de seus braços e pegou seu rosto entre as duas mãos. As bochechas dele estavam geladas contra as palmas dela. Ela o segurou desse jeito, suavemente, tão suavemente, como se para reprovar o aperto duro nos ombros nus dela. Viu a confusão lentamente tomar seu rosto à medida que percebia que ela não estava fazendo isso para lutar contra ele ou para empurrá-lo.
Elena esperou até que essa confusão atingisse seus olhos, quebrando sua contemplação, tornando-se quase um olhar implorador. Sabia que seu próprio rosto estava destemido, suave mas mesmo assim intenso, seus lábios levemente separados. Ambos estavam respirando rapidamente agora, juntos e ritmados. Elena pôde sentir quando ele começou a chacoalhar, tremendo como quando as lembranças de Katherine tinha se tornado demais para suportar. Então, muito gentil e deliberadamente, ela encaminhou aquela boca raivosa para a sua.
Ele tentou contrapor-se. Mas a gentileza dela era mais forte do que toda a força sobre-humana dele. Ela fechou seus olhos e pensou somente em Stefan, não nas coisas horrendas que tinha aprendido hoje à noite, mas em Stefan, que tinha acariciado seu cabelo tão levemente como se ela fosse quebrar em suas mãos. Pensou nisso, e beijou a boca predadora que a havia ameaçado alguns minutos atrás.
Ela sentiu a mudança, a transformação em sua boca enquanto ele se rendia, respondendo desamparadamente à ela, correspondendo os beijos suaves dela com igual suavidade. Sentiu o tremor passar pelo corpo de Stefan enquanto o aperto duro em seus ombros se suavizava, também, tornando-se um abraço. E soube que ganhara.
— Você nunca irá me machucar — ela sussurrou.
Era como se eles estivessem dando beijos de despedida a todo o medo, desolação e solidão dentro deles. Sentiu uma onda de paixão passar por ela como a luz do verão, e pôde sentir a paixão gêmea em Stefan. Mas infundir todo o resto era uma gentileza quase assustadora em sua intensidade. Não havia necessidade de afobação ou aspereza, Elena pensou enquanto Stefan gentilmente a direcionou para se sentar.
Gradualmente, os beijos ficaram mais urgentes, e Elena sentiu a luz do verão piscar por todo o seu corpo, carregando-o, fazendo seu coração golpear. Isso a fez se sentir estranhamente suave e tonta, a fez fechar seus olhos e deixar sua cabeça cair em abandono.
Está na hora, Stefan, pensou. E, muito gentilmente, encaminhou a boca dele para baixo novamente, dessa vez para sua garganta.
Sentiu os lábios dele arranharem sua pele, sentiu o hálito quente e frio dele ao mesmo tempo. Então sentiu a picada afiada.
Mas a dor se dissipou quase instantaneamente. Foi substituída por uma sensação de prazer que a fez tremer. Um grande ataque de doçura a encheu, fluindo por ela até Stefan.
Por fim encontrou a si mesma encarando o rosto dele, um rosto que por fim não tinha barreiras, não tinha paredes.
E o olhar que ela viu ali a fez se sentir fraca.
— Você confia em mim? — ele sussurrou. E quando simplesmente concordou, ele capturou os olhos dela e alcançou algo ao lado da cama. Era a adaga. Ela observou-a sem medo, e então fixou seus olhos novamente no rosto dele.
Ele nunca desviou o olhar dela enquanto desatava-a e fazia um corte pequeno na base de seu pescoço. Elena olhou para aquilo com olhos arregalados, para o sangue tão brilhante quanto um arbusto de amoras, mas quando ele a encorajou a ir em frente, não tentou resistir.
Depois ele simplesmente segurou-a por um longo período, enquanto os grilos do lado de fora faziam sua música. Finalmente, se mexeu.
— Eu gostaria que você ficasse aqui — ele sussurrou. — Gostaria que pudesse ficar para sempre. Mas você não pode.
— Eu sei — ela respondeu, igualmente em voz baixa. Os olhos deles se encontraram novamente em uma silenciosa comunhão. Havia tanto a se dizer, tantas razões para estarem juntos. — Amanhã — ela disse. Então, inclinando-se contra o ombro dele, sussurrou: — O que quer que aconteça, Stefan, estarei com você. Diga-me que acredita nisso.
A voz dele estava abafada, oculta no cabelo dela.
— Ah, Elena, eu acredito nisso. O que quer que aconteça, nós estaremos juntos.

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