26 de novembro de 2015

Capítulo 13

O portal do Demônio. Elena olhou por cima do ombro para o banco de trás do Prius. Bonnie estava piscando sonolenta. Meredith, que tinha conseguido dormir muito menos, mas ouviu muito mais notícias alarmantes, estava parecendo uma lâmina de barbear: cortante, afiada como gelo, e pronta.
Não havia mais nada a ver, exceto Damon com seus sacos de papel no banco ao lado dele, conduzindo o Prius. Fora das janelas, onde a árida madrugada do Arizona ofuscava a estrada no horizonte, não havia nada além da névoa.
Isso era assustador e desconcertante. Eles tinham tomado uma pequena estrada fora da Rodovia 179 e, gradativamente, o nevoeiro cresceu, enviando redemoinhos de névoa ao redor do carro e, finalmente, engolindo-o inteiro.
Parecia para Elena que estavam sendo deliberadamente arrancados do velho e comum mundo de McDonald's e Target, e estavam cruzando a fronteira para um lugar que não foram feitos para conhecer, muito menos adentrar.
Não havia tráfego na outra direção. Nada mesmo. E por mais forte Elena olhasse para fora da janela, era como tentar olhar através de nuvens em movimento rápido.
— Não estamos indo rápido demais? — Bonnie perguntou, esfregando os olhos.
— Não, — disse Damon. — Seria uma notável coincidência se alguém mais estivesse na mesma rota ao mesmo tempo que nós.
— Isso se parece muito com o Arizona— disse ela, decepcionada.
— Pode ser o Arizona, por tudo que eu sei, — Damon respondeu. — Mas não cruzamos o Portal ainda. E isso não é qualquer lugar no Arizona onde você poderia simplesmente entrar acidentalmente. O caminho sempre tem seus pequenos truques e armadilhas. O problema é que você nunca sabe o que vai enfrentar. Agora escutem, — acrescentou, olhando para Elena com uma expressão que ela já conhecia. Ela queria dizer: não estou brincando; estou falando com você como um igual; estou falando sério.
— Você ficou muito boa em mostrar apenas a aura do tamanho de um humano, — disse Damon. — Mas isso significa que se você pode aprender mais uma coisa antes de entrar, pode realmente usar a sua aura, usá-la para fazer algo bom quando você precisar, em vez de apenas escondê-la até que ela fique fora de controle e levante três mil quilos de carros.
— Que tipo de coisa boa?
— Como o que eu vou mostrar para você. Antes de mais nada apenas relaxe e deixe-me controlar. Depois, pouco a pouco, vou afrouxar os controles e vai tomá-los. Ao final, você deve ser capaz de enviar seus poderes para seus olhos e ver muito melhor, para os seus ouvidos e ouvir muito melhor, para seus membros e se mover muito mais rápido e com precisão. Tudo bem?
— Você não poderia ter me ensinado isso um pouco antes de começarmos essa excursão?
Ele sorriu para ela, um imprudente sorriso selvagem que a fez sorrir também, mesmo ela não sabendo do que se tratava. — Até que você mostrasse o quão bem pode controlar sua aura por todo o caminho - o caminho até aqui - eu não pensei que você estava pronta, — disse ele sem rodeios. — Agora eu sei. Há coisas em sua mente apenas esperando para ser desbloqueadas. Você vai entender quando desbloqueá-las.
E nós vamos desbloqueá-las com o que? Um beijo? Elena pensou desconfiada.
— Não. Não. E esse é o outro motivo você tem que aprender isso. Sua telepatia está ficando fora de controle. Se você não aprender a parar de projetar seus pensamentos, nunca vai passar no posto de inspeção do Portal como um ser humano.
Posto de inspeção. Isso soou ameaçador. Elena balançou a cabeça e disse : — Tudo bem, vamos fazer o quê?
— O que fizemos antes. Como eu disse, relaxe. Tente confiar em mim.
Ele colocou sua mão direita no lado esquerdo do seu peito, sem tocar no pano de seu top dourado. Elena pôde sentir-se ruborizando, e ela perguntou o que Bonnie e Meredith devem pensar disso.
E, em seguida, Elena sentiu algo diferente. Não era frio, não era quente, mas era algo como o mais extremo dos dois. Era puro Poder. Isso poderia ter nocauteado-a se Damon não estivesse segurando-a pelo braço com a outra mão. Ela pensou, ele está usando seu próprio poder para aperfeiçoar o meu, para fazer algo...
— Algo que dói...
Não! Elena tentou, vocal e telepaticamente, dizer a Damon que o Poder era demais, que machucava. Mas Damon ignorou seu pedido assim como ignorou as lágrimas que derramavam sobre seu rosto. Seu poder estava liderando o dela agora, dolorosamente, em todo seu corpo. Estava em sua corrente sanguínea, arrastando seu próprio poder atrás do dele, como a cauda de um cometa. Estava forçando-a a levar o Poder para diferentes partes do seu corpo e deixá-lo criar e construir ali, não deixando-a exalá-lo, não deixando-a movê-lo.
Eu vou explodir...
Todo esse tempo seus olhos estavam fixados nos de Damon, transmitindo seus sentimentos a ele: de raiva indignada ao choque da doagonizante e agora...
Sua mente explodiu.
O resto de seu poder passou a andar em círculos, sem causar qualquer dor. Cada novo fôlego que ela tomou adicionou mais poder a ela, mas isso simplesmente circulava através de seu sangue, sem aumentar sua aura, mas aumentando a energia que estava dentro dela. Depois de mais duas ou três respirações rápidas ela percebeu que estava fazendo isso sem esforço.
Agora o Poder de Elena não estava simplesmente deslizando suavemente dentro dela, parecendo de fora como qualquer outro ser humano. Foi também preenchendo vários nódulos inchados estourados dentro dela e onde isso acontecia, coisas mudavam.
Ela percebeu que estava olhando para Damon com os olhos redondos.
Ele poderia ter dito a ela o que isso a iria fazer sentir, ao invés de deixá-la ir às cegas.
Você realmente é um bastardo total, não é? Pensou Elena, e, surpreendentemente, ela podia sentir Damon receber o pensamento, e pôde sentir a sua resposta automática, que estava alegremente de acordo, e não o contrário.
Então Elena esqueceu dele no alvorecer de um novo entendimento. Ela estava percebendo que poderia manter o seu Poder circulando dentro dela, e até mesmo construí-lo mais e mais, preparando-se para verdadeira explosão, e não mostrar nada do que estava fazendo na superfície.
E quanto aos nódulos...
Elena olhou à sua volta no que há poucos minutos tinha sido um deserto estéril. Era como atirar balas de luz através de ambos os olhos. Ela ficou deslumbrada; estava encantada. As cores pareciam vir à vida em uma glória dolorosa. Ela achava que podia ver muito mais longe do que já viu, mais e mais dentro do deserto, e ao mesmo tempo, podia distinguir as pupilas de Damon de sua íris.
Ora, elas são pretas, mas tons diferentes de preto, ela pensou. Claro, elas caminham juntas. Damon nunca teria íris que não complementassem suas pupilas. Mas a íris é mais aveludada, enquanto suas pupilas eram mais sedosas e brilhantes. E ainda assim, é um veludo que pode reter a luz dentro dele — quase como o céu noturno com estrelas — como as Bolas Estrela da kitsune que Meredith me falou.
Neste momento as pupilas estavam bem definidas e fixadas em seu rosto, como se Damon não quisesse perder um momento de sua reação. De repente, o canto de seus lábios curvaram em um sorriso.
— Você conseguiu. Aprendeu a canalizar sua energia para os seus olhos. — Ele falou em um sussurro que ela não poderia ter detectado antes.
— E para os meus ouvidos, — ela sussurrou de volta, ouvindo a sinfonia incrível de sons minúsculos em torno dela. Alto no ar, um morcego guinchou em uma frequência muito alta para qualquer ouvido humano normal notar.
Assim como a queda de grãos de areia ao redor dela, eles formaram algo parecido com um mini concerto enquanto batiam contra a rocha e saltavam com um pequeno sibilo antes de cair no chão.
Isso é incrível, disse a Damon, ouvindo a presunção de sua própria voz telepática. E posso falar com você desse jeito a qualquer momento? Ela teria que tomar cuidado para que a telepatia não ameaçasse revelar mais do que ela podia querer enviar a um destinatário.
É melhor ter cuidado, Damon concordou, confirmando suas suspeitas. Ela enviou mais do que ela pretendia.
Mas Damon, Bonnie pode fazer isso também? Devo tentar mostrar a ela?
— Quem sabe?  Damon respondeu em voz alta, fazendo Elena estremecer. — Ensinar os humanos a como usar o Poder não é exatamente o meu forte.
E os meus diferentes Poderes de Asas? Serei capaz de controlá-los, agora?
— Sobre isso não tenho absolutamente nenhuma ideia. Nunca vi nada parecido. — Damon ficou pensativo por um instante e depois sacudiu a cabeça. — Acho que você precisa de alguém com mais experiência que eu para lhe ensinar a controlá-los. — Antes que Elena pudesse dizer qualquer coisa, ele acrescentou, — É melhor voltar para os outros. Estamos quase no portal.
— E suponho que eu não deveria estar usando a telepatia então.
— Bem, isso é uma oferta bem óbvia.
— Mas você vai me ensinar mais tarde, não vai? Tanto quanto sabe sobre como controlar o poder?
— Talvez o seu namorado devesse estar fazendo isso, — disse Damon quase rudemente.
Ele está com medo, pensou Elena, tentando manter seus pensamentos ocultos sob uma parede de ruído branco, para Damon não captá-los. Ele tem medo de que vá revelar muito para mim a ponto de eu ter medo dele.

Um comentário:

  1. Essa cena se passou como se Elena e Damon fossem as únicas pessoas presentes, sendo que Meredith e Bonnie estavam lá também. Devia ter algo falando do que elas pensaram de tudo isso.

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