8 de novembro de 2015

Capítulo 12

Elena girou lentamente em frente ao alto espelho no quarto de tia Judith. Margaret sentou-se no pé da grande cama de dossel, seus olhos azuis arregalados e solenes com admiração.
— Eu queria ter um vestido como esse pra fazer gostosura-ou-travessura — ela disse.
— Acho que você fica melhor como uma gatinha branca — respondeu Elena, dando um beijo entre as orelhas brancas de veludo presas na tiara de Margaret. Então se virou para sua tia, que estava de pé na porta com agulha e linha prontas.
— É perfeito — ela falou calorosamente. — Nós não precisamos mudar nada.
A garota no espelho podia ter saído de um dos livros sobre a Renascença Italiana. Sua garganta e ombros estavam nus, e o espartilho apertado do vestido azul-gelo mostrava sua pequenina cintura. As mangas longas e cheias eram cortadas de modo que a camisola de seda branca por baixo ficasse à mostra, e a saia longa e vasta cobria o chão ao seu redor. Era um lindo vestido, e o pálido e nítido azul parecia acentuar o azul mais escuro dos olhos de Elena.
Enquanto ela se virava, o seu olhar caiu sobre o relógio de pêndulo antiquado acima da cômoda.
— Ah, não... são quase sete. Stefan vai chegar a qualquer minuto.
— Ali está o carro dele — disse tia Judith, espiando pela janela. — Eu vou descer e deixá-lo entrar.
— Não é necessário — Elena falou rapidamente. — Encontrarei com ele eu mesma. Tchau, divirtam-se pedindo doces na rua! 
Ela se apressou pelas escadas.
Aqui vai. Enquanto alcançava a maçaneta, se lembrou daquele dia, há quase dois meses agora, quando entrou diretamente na vida de Stefan na aula de História da Europa. Ela tinha essa mesma sensação de expectativa, animação e tensão.
Eu só espero que isso funcione melhor do que aquele plano, pensou. Durante aquela última semana e meia, cultivara suas esperanças para esse momento, para essa noite. Se ela e Stefan não se unissem nesta noite, eles nunca se uniriam.
A porta se abriu, e ela saiu olhando para baixo, sentindo-se quase tímida, com medo de ver o rosto de Stefan. Mas quando ouviu sua respiração afiada, ela olhou para cima rapidamente... e sentiu seu coração gelar.
Ele a encarava com espanto, sim. Mas não era a espantosa alegria que ela tinha visto em seus olhos naquela primeira noite em seu quarto. Isso era algo mais próximo de choque.
— Você não gostou — ela sussurrou, horrorizada com a ardência em seus olhos.
Ele se recuperou rapidamente, como sempre, piscando e balançando a cabeça.
— Não, não, é lindo. Você é linda.
Então por que você está parado aí, como se tivesse visto um fantasma?, ela pensou. Por que você não me segura, me beija, ou qualquer coisa assim?
— Você está maravilhoso — ela disse baixinho.
E era verdade; ele estava lindo e elegante no smoking e a capa. Ela ficou surpresa quando ele concordou com a fantasia, quando sugeriu, ele pareceu mais divertido do que qualquer outra coisa. Nesse momento, parecia elegante e confortável, como se tais roupas fossem tão naturais quanto seus jeans normais.
— É melhor irmos — ele disse, igualmente silencioso e sério.
Elena concordou e foi com ele até o carro, mas seu coração não estava mais meramente frio; estava gelado. Ele estava mais distante dela do que nunca, e ela não fazia ideia de como conquistá-lo de volta.
Trovões rosnaram acima de suas cabeças enquanto eles dirigiam para a escola, e Elena olhou para fora da janela do carro com banal desolação. A cobertura de nuvens era grossa e escura, apesar de ainda não ter começado a chover. O ar tinha uma sensação carregada e elétrica, e as mal-humoradas trovoadas roxas davam ao céu um quê atemorizante. Era a atmosfera perfeita para o Dia-das-Bruxas, ameaçadora e de outro mundo, mas só despertou apreensão em Elena.
Desde aquela noite na casa de Bonnie, tinha perdido seu apreço pelo lúgubre e sinistro.
Seu diário nunca mais apareceu, apesar de terem procurado na casa de Bonnie de cima a baixo. Ainda não conseguia acreditar que tinha realmente sumido, e a ideia de um estranho lendo seus pensamentos mais privados a fez sentir-se selvagem por dentro. Porque, é claro, tinha sido roubado; que outra explicação havia? Mais de uma porta fora aberta naquela noite na casa dos McCullough; alguém podia ter simplesmente entrado. Ela queria matar quem quer que tenha feito isso.
Uma visão de olhos escuros apareceu na sua frente. Aquele garoto, o garoto ao qual quase cedera na casa de Bonnie, o garoto que a tinha feito se esquecer de Stefan. Fora ele?
Despertou enquanto chegavam à escola e se forçou a sorrir enquanto passavam pelos corredores. O ginásio era um caos mal organizado. Na hora que Elena passara fora, tudo tinha mudado. Até então, o lugar estivera cheio de veteranos: membros do Conselho Estudantil, jogadores de futebol americano, o Clube Chave, todos arrumando os últimos detalhes nas colunas e no cenário. Agora estava cheio de estranhos, a maioria nem mesmo humana.
Diversos zumbis viraram-se quando Elena chegou, seus crânios zombeteiros visíveis através da carne apodrecendo em seus rostos. Um corcunda grotescamente deformado mancava em sua direção, junto com um cadáver com pele branca lívida e olhos ocos. De outra direção vinha um lobisomem, seu focinho resmungão coberto de sangue, e uma bruxa sombria e dramática.
Elena percebeu, com um choque, que não conseguia reconhecer metade dessas pessoas com suas fantasias. Então eles estavam ao seu redor, admirando seu vestido azul-gelo, anunciando problemas que já tinham se edificado. Elena acenou para que se silenciassem e se virou na direção da bruxa, cujo longo cabelo escuro inundava as costas de um vestido preto muito apertado.
— O que foi, Meredith? — ela perguntou.
— O Treinador Lyman está doente — Meredith respondeu carrancudamente — então alguém colocou o Tanner de substituto.
— O Sr. Tanner? — Elena estava horrorizada.
— Sim, e ele já está criando problema. A pobre da Bonnie já aguentou o suficiente. É melhor você ir até lá.
Elena suspirou e concordou, então seguiu a rota serpenteante da turnê da Casa Assombrada. Enquanto passava pela pavorosa Câmara de Tortura e a medonha Sala do Carniceiro Louco, pensou que haviam construído quase bem demais. Esse lugar era enervante mesmo na claridade.
A Sala Druida ficava perto da saída. Lá, um Stonehenge de papelão havia sido montado. Mas a pequena e linda sacerdotisa druida que estava de pé ao redor de colunas de pedra bem realistas usando uma túnica branca e uma grinalda de folhas de carvalho parecia prestes a explodir em lágrimas.
— Mas você tem que usar o sangue — ela argumentava. — É parte da cena; você é um sacrifício.
— Usar essas túnicas ridículas já é ruim o bastante — respondeu Tanner rispidamente. — Ninguém me informou que eu teria que espalhar xarope em mim.
— Ele realmente não fica em você — Bonnie respondeu. — É só nas túnicas e no altar. Você é um sacrifício — ela repetiu, como se de alguma maneira isso fosse convencê-lo.
— Quanto a isso — o Sr. Tanner devolveu com nojo — a precisão de todo esse esquema é altamente suspeita. Ao contrário da crença popular, os druidas não construíram o Stonehenge; foi construído por uma cultura da Época do Bronze que... 
Elena deu um passo à frente.
— Sr. Tanner, essa realmente não é a questão.
— Não, não seria, para você — ele disse. — E é por esse motivo que você e sua amiga neurótica aqui estão reprovando em história.
— Isso foi desnecessário — disse uma voz, e Elena olhou rapidamente para Stefan por sobre seu ombro.
— Senhor Salvatore — cumprimentou o Sr. Tanner, pronunciando as palavras como se elas significassem “Agora meu dia está completo”. — Suponho que você tenha novas palavras de sabedoria para oferecer. Ou vai me dar um olho roxo?
Seu olhar viajou por Stefan, que estava de pé parado ali, inconscientemente elegante em seu smoking perfeitamente costurado, e Elena sentiu um choque repentino de discernimento.
Tanner não é realmente muito mais velho do que nós, ela pensou. Ele parece velho porque tem calvície, mas aposto que está na casa dos vinte. Então, por alguma razão, se lembrou de como Tanner estava no Baile de Boas-Vindas, em seu terno barato e brilhante que não caía bem.
Aposto que ele nem ao menos foi ao seu próprio baile, pensou. E, pela primeira vez, sentiu algo como simpatia por ele.
Talvez Stefan sentisse, também, porque apesar de ter enfrentado o homem pequeno, ficado cara-a-cara com ele, sua voz estava silenciosa.
— Não, não vou. Acho que esse negócio todo saiu das proporções. Por que não... — Elena não pôde escutar o resto, mas ele estava falando em tons baixos e calmantes, e o Sr. Tanner realmente parecia estar escutando. Ela olhou de volta para a multidão que tinha se reunido atrás dela: quatro ou cinco demônios, o lobisomem, um gorila, e um corcunda.
— Tudo bem, tudo está sob controle — ela falou, e eles se dispersaram.
Stefan estava cuidando das coisas, apesar de ela não ter certeza de como, já que podia ver apenas a parte de trás de sua cabeça.
A parte de trás de sua cabeça... Por um instante, uma imagem do primeiro dia da escola relampejou perante ela, o modo como Stefan ficou no escritório falando com a Sra. Clarke, a secretária, e quão estranha ela agira. Sem dúvida, quando Elena olhou para o Sr. Tanner agora, ele tinha a mesma expressão ligeiramente tonta.
Elena sentiu uma lenta onda de inquietação.
— Vamos — ela disse para Bonnie. — Vamos lá para frente. 
Elas cortaram caminho direto pela Sala de Aterrissagem Alienígena e a Sala dos Mortos-Vivos, deslizando entre as divisões, voltando na primeira sala onde os visitantes entravam e eram cumprimentados por um lobisomem. O lobisomem tinha tirado sua cabeça e estava falando com duas múmias e uma princesa egípcia.
Elena tinha que admitir que Caroline estava bonita de Cleópatra, as linhas daquele corpo bronzeado francamente visíveis através das roupas de linho puro que ela usava. Matt, o lobisomem, mal podia ser culpado se seus olhos ficavam deslizando do rosto de Caroline.
— Como está indo aqui? — Elena perguntou com uma leveza forçada.
Matt moveu-se ligeiramente, então se virou na direção dela e de Bonnie. Elena mal o tinha visto desde a noite do Baile, e sabia que ele e Stefan tinham se afastado, também. Por sua causa. E apesar de Matt dificilmente poder ser culpado por isso, ela podia dizer o quanto isso machucava Stefan.
— Tudo está bem — Matt respondeu, parecendo desconfortável.
— Quando Stefan terminar com Tanner, acho que o mandarei para cá — Elena disse. — Ele pode ajudar a trazer pessoas.
Matt deu de ombros indiferentemente. Então ele disse:
— Terminar o que com o Tanner?
Elena olhou para ele em surpresa. Podia ter jurado que ele estava na Sala Druida há um minuto. Ela explicou.
Lá fora, o trovão estrondou novamente, e através da porta aberta Elena viu um flash de luz no céu noturno. Houve outra explosão de trovões mais barulhenta alguns segundos depois.
— Espero que não chova — Bonnie comentou.
— Sim — concordou Caroline, que estivera de pé silenciosamente enquanto Elena falava com Matt. — Seria uma pena se ninguém viesse.
Elena olhou para ela severamente e viu um ódio aberto nos olhos estreitos e penetrantes de Caroline.
— Caroline — ela falou impulsivamente — olha. Podemos ficar de bem? Podemos esquecer o que aconteceu e começar de novo?
Sob a cobra em sua testa, os olhos de Caroline se alargaram e então se estreitaram novamente. Sua boca entortou, e ela deu um passo para perto de Elena.
— Nunca esquecerei — ela disse, e então se virou e foi embora.
Houve um silêncio, Bonnie e Matt olhando para o chão. Elena foi até a entrada para sentir o ar gelado em suas bochechas. Lá fora podia ver o campo e os galhos agitados das árvores de carvalho além, e mais uma vez foi dominada por aquela estranha sensação de mau presságio. Esta é a noite, ela pensou miseravelmente. Esta é a noite quando tudo vai acontecer. Mas o que “tudo” era, ela não tinha ideia.
Uma voz soou pelo ginásio transformado.
— Tudo bem, eles estão prestes a liberar a fila do estacionamento. Apague as luzes, Ed!
De repente, a escuridão aumentou e o ar ficou cheio de gemidos e risadas maníacas, como uma orquestra se afinando. Elena suspirou e se virou.
— É melhor preparar-se para reuni-los — ela disse à Bonnie em voz baixa.
Bonnie concordou e desapareceu na escuridão. Matt colocou sua cabeça de lobisomem, e estava ligando uma fita cassete que acrescentava música lúgubre à cacofonia.
Stefan veio pela margem, seu cabelo e sua roupa mesclando-se à escuridão. Somente sua camisa branca aparecia claramente.
— Deu tudo certo com o Tanner — ele falou. — Tem mais alguma coisa que eu possa fazer?
— Bem, você podia trabalhar aqui, com Matt, atraindo as pessoas... — a voz de Elena dissipou-se. Matt estava inclinado sobre a fita cassete, ajustando minuciosamente o volume, sem olhar para cima. Elena olhou para Stefan e viu que seu rosto estava rígido e vazio. — Ou você pode ir ao vestiário dos garotos e ficar no comando do café e das coisas para os trabalhadores — ela terminou cansadamente.
— Eu vou para o vestiário — ele disse.
Enquanto se virava, ela notou uma ligeira hesitação em seu passo.
— Stefan? Você está bem?
— Ótimo — ele respondeu, recuperando seu equilíbrio. — Um pouco cansado, é só.
Ela o observou ir, seu peito parecendo mais pesado a cada minuto.
Ela se virou para Matt, querendo dizer-lhe algo, mas naquele momento a fila de visitantes alcançou a porta.
— O show começou — ele disse, e se contraiu nas sombras.


Elena moveu-se de sala em sala, localizando problemas. Em anos anteriores, ela apreciara mais essa parte da noite, observando as pavorosas cenas serem executadas e o terror delicioso dos visitantes, mas esta noite havia um sentimento de temor e tensão sustentando todos os seus pensamentos. Esta é a noite, ela pensou novamente, e o gelo em seu peito pareceu engrossar.
Um Anjo da Morte – ou pelo menos foi isso o que achou que a figura encapuzada de mantas pretas era – passou por ela, e distraiu-se tentando lembrar se o tinha visto em alguma das festas do Dia das Bruxas. Havia algo familiar no jeito como ele se movia.


Bonnie trocou um sorriso perturbado com a alta e esguia bruxa que estava comandando o tráfego na Sala da Aranha. Diversos calouros estavam batendo nas aranhas de borracha penduradas e gritavam, em geral perturbando todos. Bonnie empurrou-os para a Sala Druida.
Aqui as luzes estroboscópicas davam à cena um caráter sonhador. Bonnie sentiu um triunfo amargo ao ver o Sr. Tanner esticado no altar de pedra, sua túnica branca rigorosamente manchada com sangue, seus olhos encarando o teto.
— Legal! — gritou um dos garotos, correndo para o altar.
Bonnie ficou para trás e riu maliciosamente, esperando que o sacrifício sangrento se levantasse e desse um belo susto no garoto.
Mas o Sr. Tanner não se moveu, mesmo quando o garoto mergulhou uma mão na poça de sangue perto da cabeça do sacrifício.
Isso é estranho, Bonnie pensou, correndo para evitar que um garoto pegasse a faca do sacrifício.
— Não faça isso — ela repreendeu, então o garoto levantou sua mão sangrenta ao invés, e mostrou o vermelho em cada relampejo aguçado do estroboscópio.
Bonnie sentiu um repentino medo irracional de que o Sr. Tanner fosse esperar até que ela se inclinasse sobre ele para fazê-la pular. Mas ele simplesmente continuou encarando o teto.
— Sr. Tanner, você está bem? Sr. Tanner? Sr. Tanner!
Nenhum movimento, nenhum som. Nenhum vacilo daqueles olhos brancos arregalados. Não o toque, algo na mente de Bonnie disse de repente e urgentemente. Não o toque, não o toque, não o toque...
Sob as luzes do estroboscópio ela viu sua própria mão avançar, viu-a agarrar o ombro do Sr. Tanner e chacoalhá-lo, viu sua cabeça cair na direção dela. Então viu sua garganta.
Começou a gritar.


Elena escutou os gritos. Eles eram agudos e prolongados e diferentes de qualquer outro som na Casa Assombrada, e ela soube de primeira que não eram brincadeira.
Tudo depois disso foi um pesadelo.
Alcançando a Sala Druida correndo, viu um quadro, mas não o preparado para os visitantes. Bonnie gritava, Meredith estava segurando seus ombros. Três jovens garotos tentavam escapar pela saída da cortina, e dois seguranças estavam espiando, bloqueando seu caminho. O Sr. Tanner estava deitado no altar de pedra, esparramado, e seu rosto...
— Ele está morto — Bonnie soluçav a, os gritos transformando-se em palavras. — Ah, Deus, o sangue é real, e ele está morto. Eu toquei nele, Elena, e ele está morto, ele realmente está morto...
As pessoas estavam se aproximando- da sala. Alguém começou a gritar e isso se espalhou, e então todo mundo estava tentando sair, empurrando uns aos outros em pânico, batendo nas divisórias.
— Acendam as luzes! — Elena gritou, e ouviu o grito repassado aos outros. — Meredith, rápido, vá até um telefone no ginásio e chame uma ambulância, ligue para a polícia... Acendam essas luzes!
Quando as luzes acenderam, Elena olhou ao redor, mas não conseguiu ver adultos, ninguém que se intitulasse para tomar controle da situação. Parte dela estava fria como gelo, sua mente correndo enquanto tentava pensar no que fazer a seguir. Parte dela estava simplesmente dormente com o horror. O Sr. Tanner…
Nunca gostara dele, mas de algum jeito isso só piorava.
— Tirem todas as crianças daqui. Todos exceto a equipe para fora — ela ordenou.
— Não! Fechem as portas! Não deixem ninguém sair até que a polícia chegue aqui — gritou um lobisomem ao lado dela, tirando sua máscara.
Elena virou-se perplexa para a voz e viu que não era Matt, mas Tyler Smallwood.
Ele tinha voltado à escola somente essa semana, e seu rosto ainda estava manchado da surra que levara nas mãos de Stefan. Mas sua voz tinha o toque de autoridade, e Elena viu os seguranças fecharem a saída. Ela escutou outra porta se fechar no ginásio.
Da dúzia de pessoas espremidas na área do Stonehenge, Elena reconheceu apenas uma como integrante da equipe. O resto eram pessoas que ela conhecia da escola, mas nenhuma que conhecesse bem. Uma delas, um garoto vestido de pirata, falou com Tyler.
— Você quer dizer... você acha que alguém aqui fez isso?
— Alguém aqui fez isso, com certeza — disse Tyler. Havia um som esquisito e animado em sua voz, como se quase estivesse gostando disso. Gesticulou para a poça de sangue na pedra. — Aquilo ainda está líquido; não deve ter acontecido há muito tempo. E veja a maneira como sua garganta foi cortada. O assassino deve ter feito isso com aquilo.
Ele apontou para a faca de sacrifício.
—Então o assassino pode estar aqui agora — sussurrou uma garota de quimono.
— E não é difícil adivinhar quem é — Tyler continuou. — Alguém que odiava Tanner, que estava sempre se metendo em discussões com ele. Alguém que estava discutindo com ele hoje mais cedo. Eu vi.
Então você era o lobisomem nessa sala, pensou Elena perplexamente. Mas o que você estava fazendo aqui em primeiro lugar? Você não está na equipe.
— Alguém que tem um histórico de violência — Tyler continuou, seus lábios recuando por cima de seus dentes. — Alguém que, pelo que sabemos, é um psicopata que veio para Fell’s Church só para matar.
— Tyler, do que está falando? — o sentimento de perplexidade de Elena estourou como uma bolha. Furiosa, ela andou até o garoto alto e atlético. — Você está louco!
Ele gesticulou para ela sem olhá-la.
— É o que diz a namorada dele... mas talvez ela seja um pouco parcial.
— E talvez você seja parcial, Tyler — disse uma voz atrás de multidão, e Elena viu um segundo lobisomem abrir caminho pela sala. Matt.
— Ah, é? Bem, por que não nos conta o que você sabe sobre o Salvatore? De onde ele vem? Onde está sua família? Onde ele conseguiu todo aquele dinheiro? — Tyler virou-se para se dirigir ao resto da multidão. —Quem sabe alguma coisa sobre ele?
As pessoas estavam balançando suas cabeças. Elena pôde ver, em cada rosto, a desconfiança brotando. A desconfiança de algo desconhecido, algo diferente. E Stefan era diferente. Ele era o estranho entre eles, e justamente agora eles precisavam de um bode expiatório.
A garota de quimono começou.
— Eu escutei um rumor...
— Isso é tudo o que todos ouviram, rumores! — Tyler disse. — Ninguém realmente sabe algo sobre ele. Mas tem algo que eu sei. Os ataques em Fell’s Church começaram na primeira semana de aula... que foi a semana em que Stefan Salvatore chegou.
Houve um murmúrio crescente com isso, e a própria Elena sentiu um choque de compreensão. É claro, era tudo ridículo, era só uma coincidência. Mas o que Tyler dizia era verdade. Os ataques tinham começado quando Stefan chegou.
— Eu lhes digo outra coisa — gritou Tyler, gesticulando para que ficassem quietos. — Escutem-me! Eu lhes digo outra coisa! — ele esperou até que todo mundo estivesse olhando para ele e então disse lentamente, de modo impressionante. — Ele estava no cemitério na noite em que Vickie Bennett foi atacada.
— Claro que ele estava no cemitério... reorganizando seu rosto — Matt respondeu, mas sua voz carecia de sua força habitual.
Tyler agarrou o comentário e correu com ele.
— Sim, e ele quase me matou. E hoje à noite alguém matou Tanner. Não sei o que vocês acham, mas acho que ele fez isso. Acho que foi ele!
— Mas onde ele está? — alguém gritou da multidão.
Tyler olhou ao redor.
— Se ele fez isso, ainda deve estar por aqui — ele gritou. — Vamos achá-lo.
— Stefan não fez nada! Tyler... — gritou Elena, mas o barulho da multidão a abafou. As palavras de Tyler começaram a serem levadas e repetidas. Achá-lo... achá-lo… achá-lo. Elena ouviu isso passar de pessoa a pessoa. E os rostos na Sala da Stonehenge estavam cheios com mais do que desconfiança agora; Elena pôde ver raiva e uma sede de vingança neles, também. A multidão tinha se transformado em algo feio, algo além do controle.
— Onde ele está, Elena? — disse Tyler, e ela viu o triunfo flamejante em seus olhos. Ele estava gostando disso.
— Eu não sei — ela respondeu ferozmente, esperando para bater nele.
— Ele ainda deve estar por aqui! Ache-o! — alguém gritou, e então pareceu que todos estavam se movendo, apontando, empurrando, tudo de uma só vez. Divisórias estavam sendo derrubadas e empurradas de lado.
O coração de Elena martelava. Isso não era mais uma multidão; era um motim. Ela estava aterrorizada com o que poderiam fazer com Stefan se o achassem. Mas se tentasse avisá-lo, levaria Tyler direto até ele.
Olhou ao redor desesperadamente. Bonnie ainda encarava o rosto morto do Sr. Tanner. Não havia nenhuma ajuda ali. Se virou para escanear a multidão novamente, e seus olhos se encontraram com os de Matt.
Ele parecia confuso e nervoso, seu cabelo loiro despenteado, as bochechas ruborizadas e suadas. Elena colocou toda a sua força de persuasão em um olhar implorante.
Por favor, Matt, ela pensou. Você não pode acreditar em tudo isso. Você sabe que não é verdade.
Mas seus olhos mostravam que ele não sabia. Havia um tumulto de perplexidade e agitação neles.
Por favor, pensou Elena, olhando naqueles olhos azuis, desejando que ele entendesse. Ah, por favor, Matt, somente você pode salvá-lo. Mesmo que você não acredite, por favor simplesmente confie... por favor…
Ela viu a mudança chegando ao seu rosto, a confusão elevando-se enquanto uma amarga determinação aparecia. Ele a encarou por outro momento, os olhos perfurando os dela, e concordou uma vez. Então se virou e escapou pela multidão esmagadora e caçadora.


Matt cortou caminho de forma limpa pela multidão até que chegou ao outro lado do ginásio. Havia alguns calouros parados perto da porta do vestiário dos garotos; ele bruscamente ordenou que movessem divisórias caídas, e quando a atenção deles estava distraída, abriu a porta e mergulhou para dentro.
Ele olhou ao redor rapidamente, relutante em gritar. Na verdade, pensou, Stefan devia ter escutado toda aquela algazarra no ginásio. Provavelmente já tinha caído fora. Mas então Matt viu uma figura coberta de preto no piso de azulejo branco.
— Stefan! O que aconteceu? — Por um instante terrível, Matt achou que estava olhando para um segundo corpo morto. Mas enquanto ajoelhava-se ao lado de Stefan, ele viu movimento.
— Ei, você está bem, apenas sente-se devagar... calma. Você está bem, Stefan?
— Sim — disse Stefan. Ele não parecia bem, Matt pensou. Seu rosto estava pálido anormalmente e suas pupilas estavam dilatadas. Ele pareceu desorientado e doente. — Obrigado.
— Você pode não me agradecer daqui a um minuto. Stefan, você tem que dar o fora daqui. Pode escutá-los? Eles estão atrás de você.
Stefan virou-se em direção ao ginásio, como se estivesse escutando. Mas não havia compreensão alguma em seu rosto.
— Quem está trás de mim? Por quê?
— Todo mundo. Não importa. O que importa é que você tem que dar o fora daqui antes que eles cheguem — enquanto Stefan continuava a simplesmente encarar vaziamente, ele acrescentou: — Houve outro ataque, dessa vez o Tanner, no Sr. Tanner. Ele está morto, Stefan, e acham que você fez isso.
Agora por fim, ele viu entendimento chegar ao olhos de Stefan. Entendimento e terror e um tipo de derrota resignada que era mais assustadora do que qualquer coisa que Matt vira esta noite. Ele agarrou o ombro de Stefan com força.
— Eu sei que você não fez isso — ele disse, e naquele momento era verdade. — Eles perceberão isso, também, quando puderem pensar de novo. Mas enquanto isso, é melhor você cair fora.
— Cair fora... sim — Stefan repetiu. O olhar de desorientação tinha passado, e havia uma amargura abrasadora no jeito como ele pronunciava as palavras. — Eu irei... cair fora.
— Stefan…
— Matt — os olhos verdes estavam escuros e queimando, e Matt descobriu que não podia desviar o olhar deles. — Elena está a salvo? Bom. Então, tome conta dela. Por favor.
— Stefan, do que está falando? Você é inocente; isso tudo irá passar...
— Só tome conta dela, Matt.
Matt deu um passo para trás, ainda olhando naqueles olhos verdes convincentes. Então, lentamente, concordou.
— Eu irei — ele disse silenciosamente.
E observou Stefan ir embora.

4 comentários:

  1. Eu estou boiando aqui! Bagunça! Oxe...

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  2. Eu acho q foi o Damon q matou o professor, para incriminar o Stefan, porque ele leu o diário da Elena e viu q ela estava namorando o Stefan. Só pode ser isso...

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  3. Aí esse livro é maravilhoso 😁😁😁😁

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