20 de novembro de 2015

Capítulo 11

Bonnie não conseguia se lembrar de outra oração mais sofisticada e então, como uma criança cansada, dizia uma antiga:
―... Eu rezo para que o Senhor leve a minha alma...
Ela tinha usado toda a sua energia pedindo ajuda e não recebera resposta alguma, só algum barulho de reação. Estava tão sonolenta agora. A dor tinha ido e estava simplesmente entorpecida. A única coisa incomodando-a era o frio. Mas também, podia-se dar um jeito nisso. Podia simplesmente puxar um cobertor sobre si, um cobertor grosso e felpudo, e se aqueceria. Ela sabia disso sem saber como sabia.
A única coisa que a detinha de puxar o cobertor era pensar em sua mãe. Sua mãe ficaria triste se ela parasse de lutar. Essa era outra coisa que sabia sem saber como sabia. Se simplesmente pudesse mandar uma mensagem para sua mãe, explicando que tinha lutado o mais arduamente possível, mas que com esse entorpecimento e o frio, não conseguia sustentar. E que ela soubera que estava morrendo, mas que não tinha doído no final, então não havia razão para mamãe chorar. E da próxima vez aprenderia com seus erros, ela jurava... da próxima vez...


A entrada de Damon deveria ser dramática, coordenada com um relampejo de luz bem quando suas botas atingissem o carro. Simultaneamente, ele mandou outra chicotada cruel de Poder, dessa vez diretamente para as árvores, os fantoches que estavam sendo controlados por um mestre invisível. Foi tão forte que sentiu uma resposta chocada de Stefan lá da pensão. E as árvores... derreteram-se na escuridão. Elas arrancaram o topo como se o carro fosse uma lata de sardinha gigante, meditou, de pé no capô. Útil para ele.
Então voltou sua atenção para a humana Bonnie, aquela dos cachos, que devia estar abraçando seus pés agora, e arfando Obrigada!
Ela não estava. Estava deitada, bem como estivera no abraço das árvores. Chateado, Damon se esticou para agarrar sua mão, quando ele próprio sentiu um choque. O sentiu antes de tocar, cheirou-o antes de senti-lo sujar seus dedos. Mil pequenas picadas, cada uma vazando sangue. As folhas agudas devem ter feito isso, tomando sangue dela ou – não, bombeando alguma substância resinosa para dentro. Algo anestésico para mantê-la parada enquanto dava qualquer que fosse o próximo passo em sua consumação da vítima – algo um tanto desagradável, julgando pela educação da criatura até esse ponto.
Uma injeção de sucos digestivos parecia mais provável.
Ou talvez simplesmente algo para mantê-la viva, como um anticongelante para um carro, pensou, percebendo com outro choque horrendo como ela estava fria. Seu pulso era como gelo. Ele olhou para os outros dois humanos, a garota de cabelo negro com os olhos perturbadores e lógicos, e o garoto de cabelos claros que estava sempre tentando arranjar uma briga. Ele parecia ter chegado bem na hora. Certamente os outros dois pareciam mal. Mas ele salvaria essa. Porque era um capricho seu. Porque ela chamara sua ajuda tão pateticamente. Porque aquelas criaturas, aqueles malach, tinham tentado fazê-lo assistir a morte dela, os olhos parcialmente focados nisso enquanto tiravam sua mente do presente com um devaneio glorioso. Malach – era uma palavra universal que indicava uma criatura das trevas: uma irmã ou irmão da noite. Mas Damon pensava agora como se a própria palavra fosse maligna, um som a ser cuspido ou sibilado.
Ele não tinha intenção de deixá-los ganhar. Pegou Bonnie como se fosse uma pétala de dente de leão e ergueu-a sobre um ombro. Então disparou do carro. Voar sem primeiro mudar de forma era um desafio.
Damon gostava de desafios.
Decidiu levá-la para a fonte mais próxima de água quente, e este lugar era a pensão. Não precisava perturbar Stefan. Havia meia dúzia de quartos naquela área populosa que faziam a alta sociedade cair na boa lama da Virgínia. A não ser que Stefan fosse bisbilhoteiro, não entraria no banheiro de outras pessoas.
Acabou que Stefan não só era bisbilhoteiro, como rápido. Houve quase uma colisão: Damon e sua carga dobraram uma esquina para encontrar Stefan dirigindo pela estrada escura com Elena, flutuando como Damon, aparecendo atrás do carro como se fosse o balão de alguma criança.
A primeira troca de palavras não foi nem brilhante nem genial.
 Que diabos você está fazendo aqui?  exclamou Stefan.
 Que infernos você está fazendo aqui?  Damon devolveu, ou começou a dizer, quando notou a tremenda diferença em Stefan e o tremendo Poder que era Elena.
Enquanto a maior parte de sua mente simplesmente vacilava por causa do choque, uma pequena parte dela começou imediatamente a analisar a situação, descobrir como Stefan tinha passado de um nada para um... um...
Que ótimo. Ah, bom, poderia muito bem fazer cara de corajoso.
 Eu senti uma luta  Stefan falou. ― Quando você se transformou no Peter Pan?
 Você deveria ficar feliz por não estar na luta. E eu consigo voar porque tenho Poder, menino.
Isso era pura bravata. De qualquer forma, era perfeitamente correto, quando nasceram, se dirigir a um parente mais novo como um ragazzo, ou menino.
Agora não era. E enquanto isso a parte de seu cérebro que não tinha simplesmente se desligado ainda analisava. Ele conseguia ver, sentir, fazer qualquer coisa, exceto tocar a aura de Stefan. E era... inimaginável. Se Damon não estivesse tão perto, não tivesse experimentado isso de primeira mão, não teria acreditado ser possível uma pessoa ter tanto Poder.
Mas estava olhando para a situação com a mesma habilidade de avaliação fria e lógica que dizia a ele que seu próprio Poder – mesmo depois de se embebedar com a variedade de sangue de mulheres que havia tomado nos últimos dias – seu Poder não era nada comparado ao de Stefan agora. E sua habilidade fria e lógica também lhe dizia que Stefan fora tirado da cama por causa disso, e que ele não tivera tempo – ou não fora racional o bastante – para esconder sua aura.
 Ora, ora, olhe só para você  Damon disse com todo o sarcasmo que conseguiu reunir – e isso acabou sendo bastante. ― Isso é uma auréola? Você foi canonizado quando eu não estava olhando? Estou me dirigindo ao São Stefan agora?
A resposta telepática de Stefan foi inconveniente.
 Onde estão Meredith e Matt? ― acrescentou ferozmente.
 Ou  continuou Damon, exatamente como se Stefan não tivesse falado ― pode ser que você mereça parabéns por ter aprendido por fim a arte da enganação?
 E o que está fazendo com a Bonnie?  Stefan exigiu, ignorando os comentários de Damon por sua vez.
 Mas você ainda não parece ter o controle de um inglês polissilábico, então diria isso o mais simples que puder. Você causou a luta.
 Eu causei a luta  Stefan repetiu categoricamente, aparentemente percebendo que Damon não responderia nenhuma de suas perguntas até que ele lhe contasse a verdade. ― Eu simplesmente agradeci a Deus você parecer bêbado ou zangado demais para ser um bom observador. Queria impedir você e o resto do mundo de descobrir o que exatamente o sangue de Elena faz. Então você foi embora sem nem mesmo tentar dar uma olhada nela. E sem suspeitar que eu pudesse ter me livrado de você como se fosse uma mosca desde o comecinho.
 Nunca pensei que você fosse capaz  Damon estava revivendo a pequena luta deles em detalhes vívidos demais. Era verdade: nunca tinha suspeitado que a atuação de Stefan fosse inteiramente isso – uma atuação – e que poderia ter derrotado Damon a qualquer momento e feito o que ele quisesse.
 E aí está a sua benfeitora  Damon acenou para onde Elena estava flutuando, segura por – sim, é verdade – segura por varais à embreagem. ― Só um pouco abaixo dos anjos, e coroada com glória e honra  observou, incapaz de evitar enquanto olhava para ela. Elena estava, de fato, tão brilhante que olhar para ela com Poder canalizado em seus olhos era como tentar encarar o sol diretamente. ― Ela também parece ter se esquecido de como se esconder; está brilhando como uma estrela, como o Sol.
 Ela não sabe mentir, Damon.  Estava claro que a raiva de Stefan estava aumentando cada vez mais. ― Agora me conte o que está acontecendo e o que você fez com Bonnie.
O impulso era responder “Nada. Por que, acha que eu deveria?” era quase irresistível – quase. Mas Damon estava encarando um Stefan diferente do que já tinha visto antes. Esse não é o irmãozinho que você conhece e ama pisar em cima, a voz da lógica disse a ele, e ele prestou atenção a ela.
 Os outros dois huuu-manos,  Damon falou, esticando a palavra para seu obsceno comprimento total ― estão no automóvel. E  repentinamente virtuoso  eu estava levando a Bonnie para a sua casa.
Stefan estava parado ao lado do carro, a uma distância perfeita para examinar o braço esticado de Bonnie. As picadas tinham se transformado em uma mancha de sangue onde ele as havia tocado, e Stefan examinou seus próprios dedos com horror.
Continuou repetindo seu experimento. Logo Damon estaria babando, um comportamento altamente indigno que desejava evitar.
Ao invés, se concentrou em um fenômeno astronômico próximo.
A lua cheia, a meia altura, e branca e pura como a neve. E Elena flutuando na frente dela, usando uma camisola fora de moda de gola alta e pequena, ainda. Enquanto olhava para ela sem o Poder que era preciso para discernir sua aura, ele podia examiná-la como uma garota ao invés de como um anjo no meio de uma incandescência cegante.
Damon inclinou sua cabeça para conseguir uma visão melhor de sua silhueta. Sim, esse era definitivamente o traje certo para ela, e ela devia sempre ficar na frente de luzes claras. Se ele...
Pam.
Ele estava voando para trás e para a esquerda. Bateu numa árvore, tentando se certificar que Bonnie não a atingisse, também – ela poderia quebrar.
Momentaneamente estupefato, flutuou – boiou, na verdade – até atingir o chão.
Stefan estava em cima dele.
 Você  disse Damon de modo indistinto por causa do sangue em sua boca,  tem sido uma garoto levado, menino.
 Ela me transformou. Literalmente. Achei que ela pudesse morrer se eu não tomasse um pouco do seu sangue ― sua aura estava inchada a esse ponto. Agora me conte qual o problema com Bonnie...
 Então você a drenou apesar de sua perseverante resistência heroica...
Pam.
Essa árvore nova cheirava a resina. Eu particularmente nunca quis conhecer as entranhas de árvores, Damon pensou enquanto cuspia uma bocada de sangue. Mesmo como corvo eu só as uso quando é necessário.
Stefan tinha de algum modo pegado Bonnie no ar enquanto Damon voava na direção da árvore. Ele era veloz assim agora. Era muito, muito veloz. Elena era um fenômeno.
 Então agora você tem uma ideia indireta de como é o sangue da Elena.
E Stefan conseguia ouvir os pensamentos privados de Damon. Normalmente, Damon estava sempre pronto para uma luta, mas agora quase conseguia ouvir Elena choramingar por seus amigos humanos, e algo dentro dele se sentia cansado. Muito velho – velho há séculos – e muito cansado.
Mas quanto à pergunta, bem, sim. Elena ainda estava sacudindo-se desinteressadamente, algumas vezes com os braços esticados e algumas vezes enrolada como um gatinho. Seu sangue era o combustível de um foguete comparado à gasolina sem chumbo na maioria das garotas.
E Stefan queria lutar. Não estava nem mesmo tentando esconder isso. Eu estava certo, Damon pensou. Para os vampiros, a vontade de lutar é mais forte que qualquer outra vontade, até mesmo a necessidade de se alimentar ou, no caso de Stefan, sua preocupação com seus – qual era a palavra? Ah, sim. Amigos.
Agora Damon estava tentando esquivar-se de uma luta, tentando enumerar suas vantagens, que não eram muitas, porque Stefan ainda estava segurando-o. Pensamento. Fala. Um gosto por lutar sujo que Stefan simplesmente não parecia entender. Lógica. Uma habilidade instintiva de achar as fissuras na armadura de seu inimigo...
Hmmm...
 Meredith e...  droga! Qual era o nome daquele garoto seu acompanhante estão mortos agora, acho  ele falou inocentemente. ― Podemos ficar aqui e brigar, se é assim que deseja chamar isso, considerando que nunca sentei um dedo em você. Ou podemos tentar ressuscitá-los. Qual será, me pergunto?
Ele realmente se perguntava quanto controle Stefan tinha sobre si mesmo agora.
Como se Damon tivesse dado um zoom abrupto com uma câmera, Stefan pareceu ficar menor. Ele estivera flutuando há alguns centímetros do chão; agora pousou e olhou para si mesmo com surpresa, obviamente inconsciente que estivera no ar.
Damon falou na pausa enquanto Stefan estava mais vulnerável.
 Não fui eu que os machuquei ― acrescentou. ― Se olhar para a Bonnie ― graças ao diabo, ele sabia o nome dela ― você verá que nenhum vampiro poderia ter feito isso. Acredito  ele acrescentou ingenuamente, para chocar ― que os atacantes foram árvores, controlados por malach.
 Árvores  Stefan mal se deu ao trabalho de olhar para o braço espetado de Bonnie. Então disse: ― Precisamos colocá-los para dentro e na água quente. Você leva a Elena...
Ah, alegremente. De fato, eu daria qualquer coisa, qualquer coisa...
―... e esse carro com a Bonnie de volta diretamente para a pensão. Acorde a Sra. Flowers. Faça o que puder pela Bonnie. Irei em frente e pegarei Meredith e o Matt...
Isso aí! Matt. Agora, se ele ao menos tivesse um mnemônico...
 Eles estão lá na estrada, certo? Foi de lá onde sua primeira bomba de Poder pareceu ter vindo.
Uma bomba, era? Por que não ser honesto e simplesmente chamá-la de um banho débil?
E enquanto estava fresco em sua mente... M de Mortal, A de Aborrecente, T de Troço. E aí estava. Pena era que isso se aplicava a todos eles e ainda assim nem todos se chamavam MAT. Ah, droga – tinha outro T no final? Mortal, Aborrecente, Troço Trabalhoso? Aborrecente Troço Terrível?
 Eu disse, “certo”?
Damon voltou ao presente.
 Não, não está tudo certo. O outro carro está destruído. Não vai funcionar.
 Eu o farei flutuar atrás de mim.  Stefan não estava se gabando, só estabelecendo um fato.
 Nem ao menos está inteiro.
 Eu juntarei os pedaços. Vamos, Damon. Sinto muito tê-lo torturado; tive uma ideia totalmente errada do que estava acontecendo. Mas Matt e Meredith podem realmente estar morrendo, e mesmo com todo o meu Poder novo, e o de Elena, talvez não sejamos capazes de salvar todos. Aumentei a temperatura interna da Bonnie em alguns graus, mas não ouso ficar e subi-la lentamente o bastante. Por favor, Damon.
Ele estava colocando Bonnie no assento do passageiro.
Bem, isso soava como velho Stefan, mas vindo desse Stefan novo e potente, tinha um tom um tanto diferente. Ainda assim, se Stefan achava que ele era um rato, ele era um rato. Fim de discussão.
Mais cedo Damon se sentira como o Vesúvio explodindo. De repente sentia-se como se estivesse próximo ao Vesúvio, e a montanha estivesse retumbando. Oh Deus! Ele realmente sentia-se tostado só estando próximo ao Stefan.
Convocou todos os seus recursos consideráveis, mentalmente se envolvendo em gelo, e esperou que pelo menos um sopro de gelidez sustentasse sua resposta.
 Eu irei. Vejo você mais tarde. Espero que os humanos não estejam mortos ainda.
Enquanto partiam, Stefan mandou a ele uma poderosa mensagem de desaprovação – não torturando-o com dor elemental pura, como fizera antes ao jogar Damon contra a árvore, mas certificando-se de que sua opinião sobre o irmão estivesse estampada em cada palavra.
Damon mandou a Stefan uma última mensagem enquanto ia embora. Eu não entendo, pensou inocentemente na direção do ausente Stefan. O que há de errado em dizer que espero que os humanos ainda estejam vivos? Já estive em lojas de cartões de melhoras, sabe – ele não mencionou que não era por causa dos cartões, mas pelas jovens no caixa – e haviam seções tipo Espero que melhore” e “Compaixão”, o que acho que quer dizer que o desejo do cartão anterior não foi forte o bastante. Então o que tem de errado com dizer “Espero que eles não estejam mortos?”
Stefan nem se incomodou em responder. Mas Damon relampejou um sorriso rápido e brilhante de qualquer jeito, enquanto virava seu Porsche e se mandava para a pensão.
Agarrou o varal que mantinha Elena sacudindo-se acima dele. Ela flutuava – a camisola ondulando acima da cabeça da Bonnie – ou talvez onde a cabeça da Bonnie deveria estar. Bonnie sempre fora pequena, e essa doença congelante a colocara dobrada em uma posição fetal. Elena poderia praticamente sentar nela.
 Olá, princesa. Linda, como sempre. E você não é tão feia também.
Era uma das piores cantadas de sua vida, pensou com desânimo. Mas não estava se sentindo como ele mesmo. A transformação de Stefan tinha o assustado – deve ser isso que tem de errado, decidiu.
 Da... mon.
Damon arrancou. A voz de Elena estava devagar e hesitante... e absolutamente linda: um melaço escorrendo doçura, mel caindo diretamente do favo de mel. O tom era mais baixo, ele tinha certeza, do que fora antes de sua transformação, e tinha se tornado uma verdadeira fala arrastada sulista. Para um vampiro parecia o doce pingar de uma veia humana recentemente aberta.
 Sim, anjo. Já te chamei de “anjo” antes? Se não, foi puramente um equívoco.
E enquanto disse isso, percebeu que havia outro componente em sua voz, um que não tinha percebido antes: pureza. A lanceta de pureza de um serafim. Isso devia tê-lo desestimulado, mas ao invés disso, simplesmente lembrava-o que Elena era alguém que devia ser levada a sério, nunca levianamente.
Eu te levaria a sério ou levianamente ou de qualquer jeito que você preferisse, Damon pensou, se não fosse tão grudada no meu irmãozinho idiota.
Sois violetas gêmeos se viraram para ele: os olhos da Elena. Ela o havia escutado.
Pela primeira vez em sua vida, Damon estava cercado por pessoas mais poderosas que ele. E para um vampiro, Poder era tudo: bens materiais, posição social, um companheiro-prêmio, conforto, sexo, dinheiro, doce.
Era um sentimento estranho. Não era inteiramente desagradável em relação a Elena. Ele gostava de mulheres fortes. Estivera procurando por uma forte o bastante por séculos.
Mas o olhar de Elena trouxe efetivamente demais seus pensamentos de volta para sua situação. Estacionou obliquamente ao lado da pensão, apanhou a endurecida Bonnie e flutuou pela escada trançada e estreita na direção do quarto do Stefan. Era o único lugar que conhecia que tinha uma banheira.
Mal havia espaço para os três do lado de dentro do minúsculo banheiro, e era Damon quem estava carregando Bonnie. Ligou a água na banheira antiga de um metro e vinte, baseado no que seus sentidos primorosamente harmonizados disseram estar cinco graus acima de sua atual temperatura gelada. Tentou explicar para Elena o que estava fazendo, mas ela parecia ter perdido o interesse e flutuava ao redor do quarto de Stefan, como um close da Sininho enjaulada. Ela ficava trombando na janela fechada e então zunindo na porta aberta, olhando para fora.
Que dilema. Pedir para Elena despir e banhar Bonnie, e arriscar que ela coloque Bonnie na banheira de cabeça para baixo? Ou pedir para Elena fazer o trabalho e observar as duas, mas não tocar – a não ser que um desastre ocorresse?
Além do mais, alguém tinha que encontrar a Sra. Flowers e pegar bebidas quentes. Escrever um bilhete e mandar Elena?
Poderia haver mais casualidades aqui a qualquer momento agora.
Então Damon capturou o olhar de Elena, e todas as preocupações insignificantes e convencionais pareceram sumir. Palavras apareceram em seu cérebro sem se importarem em passar por seus ouvidos.
Ajude-a. Por favor!
Ele se virou de volta para o banheiro, deitou Bonnie no tapete grosso e descascou-a como um camarão. Arrancou o suéter, tirou a regata de verão que ficava debaixo dele. Puxou um pequeno sutiã – tamanho 36, percebeu tristemente, descartando-o, tentando não olhar para Bonnie diretamente. Mas não conseguia evitar ver as marcas de perfuração que a árvore havia deixado em todo lugar.
Tirou a calça jeans, e então encontrou um pequeno obstáculo, porque tinha que se sentar e colocar cada pé em seu colo para tirar os tênis de cano alto firmemente amarrados antes que a calça jeans passasse por seus calcanhares. Arrancou as meias também.
E era isso. Bonnie estava nua, exceto por seu próprio sangue e sua calcinha rosa de seda. Ele a pegou e a colocou na banheira, se ensopando no processo. Vampiros associam banhos com sangues de virgens, mas somente os realmente loucos provam.
A água na banheira de Bonnie se tornou rosa quando ele a colocou lá dentro. Manteve a água correndo porque a banheira era muito grande, e então se sentou de volta para considerar a situação. A árvore estivera bombeando algo nela com suas folhas. O que quer que fosse, não era bom. Então devia sair. A solução mais sensível seria sugar como se fosse veneno de cobra, mas ele estava hesitante em tentar até que tivesse certeza de que Elena não esmagaria seu crânio se o encontrasse sugando metodicamente a parte superior do corpo de Bonnie.
Ele teria que se conformar com a próxima melhor opção. A água sangrenta não escondia bem a diminutiva forma de Bonnie, mas ajudava a borrar os detalhes.
Damon segurava a cabeça de Bonnie contra a beirada da banheira com uma mão, e com a outra começou a apertar e massagear o veneno para fora de um braço.
Sabia que estava fazendo certo quando sentiu o cheiro resinoso de pinheiro. Era tão grosso e viscoso que ainda não desaparecera no corpo de Bonnie. Ele estava tirando uma pequena quantidade, mas era o bastante?
Cuidadosamente, observando a porta e aumentando seus sentidos para cobrir seu largo espectro, Damon levantou a mão de Bonnie até seus lábios como se fosse beijá-la. Ao invés, levou seu pulso para sua boca e, suprimindo cada vontade que tinha de morder, simplesmente sugou.
Cuspiu quase imediatamente. Sua boca estava cheia de resina. A massagem não fora nem de longe o bastante. Cada sucção, mesmo que pegasse uma dúzia de vampiros e os ligasse por todo o pequeno corpo de Bonnie como sanguessugas, não seria o bastante.
Sentou de volta em seus tornozelos e olhou para ela, essa mulher-criança fatalmente envenenada que tinha dado sua palavra que salvaria. Pela primeira vez, ficou ciente de que estava ensopado até a cintura. Olhou irritado na direção do céu e então tirou sua jaqueta preta de couro.
O que poderia fazer? Bonnie precisava de remédio, mas ele não fazia ideia de que remédio específico ela precisava, e não havia bruxa alguma que conhecesse para se apelar. A Sra. Flowers era familiar a conhecimento esotérico?
Ela daria isso a ele se fosse? Ou era simplesmente uma velha senhora biruta? Qual era o remédio genérico – para um humano? Ele poderia entregá-la para seu próprio povo e os deixar experimentar suas ciências atrapalhadas – levá-la para um hospital – mas eles estariam trabalhando com uma garota que fora envenenada pelo Outro Lado, pelos lugares sombrios que nunca poderiam ver ou entender.
Distraidamente, estivera esfregando uma toalha em seus braços, mãos e camisa preta. Agora, olhava para a toalha e decidiu que Bonnie merecia pelo menos um pouco de recato, especialmente já que ele não conseguia pensar em mais nada a ser feito nela. Ele ensopou a toalha e então a esticou e empurrou debaixo da água para cobrir Bonnie da garganta até os pés. Ela flutuou em alguns lugares, afundou em outros, mas em geral fez o trabalho.
Aumentou a temperatura da água novamente, mas não fez diferença alguma. Bonnie estava endurecendo como uma verdadeira morta, tão jovem quanto era. Seus amigos na antiga Itália tinham acertado, pensou, uma fêmea como essa era uma donzela, não mais uma menina, ainda não uma mulher. Era especialmente apropriado, já que qualquer vampiro poderia afirmar que ela era uma donzela em ambos os sentidos.
E tudo fora feito bem debaixo de seu nariz. A atração, o ataque em bando, a maravilhosa técnica e sincronização – eles tinham matado essa donzela enquanto ele sentava e assistia. E ele tinha aplaudido.
Lentamente, por dentro, Damon conseguia sentir algo crescendo. Tinha brilhado quando pensou na audácia dos malach, caçando seus humanos bem debaixo de seu nariz. Não se perguntou quando o grupo no carro tinha se tornado os seus humanos – ele supunha que era porque estiveram tão perto ultimamente que parecera que eles eram seus para descartar, para dizer se viviam ou morriam, ou se virariam o que ele era. O negócio crescente agitou-se quando pensou no jeito que os malach tinham manipulado seus pensamentos, atraindo-o para uma contemplação jubilosa da morte em termos gerais, enquanto a morte em termos bem específicos estava acontecendo bem aos seus pés. E agora estava alcançando níveis incendiários porque ele aparecera vezes demais hoje.
Realmente era insuportável...
... e era Bonnie...
Bonnie, que nunca tinha machucado uma – uma criatura indefesa por malícia. Bonnie, que era como um gatinho, arranhando o ar atrás de uma sombra.
Bonnie, com seu cabelo que era chamado de morango, mas que simplesmente parecia que estava pegando fogo. Bonnie da pele translúcida, com os fiordes violetas delicados e estuários de veias por toda sua garganta a interior dos braços.
Bonnie, que ultimamente dera para olhar para ele de lado com seus enormes olhos de criança, grandes e castanhos, debaixo de cílios como estrelas...
Sua mandíbula e caninos estavam doendo, e sua boca parecia pegar fogo pela resina venenosa. Mas tudo isso podia ser ignorado, porque ele estava consumido por outro pensamento.
Bonnie tinha chamado sua ajuda por quase meia hora antes de sucumbir à escuridão.
Era isso que precisava ser dito. Precisava ser examinado. Bonnie chamara Stefan – que estivera distante demais e bastante ocupado com seu anjo – mas ela tinha chamado Damon, também, e implorara sua ajuda.
Ele a tinha ignorado. Com três amigos de Elena aos seus pés, tinha ignorado suas agonias, ignorado as súplicas frenéticas de Bonnie de não deixá-los morrer.
Geralmente, esse tipo de coisa somente o faria dar o fora e ir para outra cidade. Mas de algum modo, ainda estava aqui e ainda saboreava as consequências amargas de seu ato.
Damon reclinou-se com seus olhos fechados, tentando bloquear o cheiro devastador de sangue e o odor bolorento de... alguma coisa.
Franziu a testa e olhou ao redor. O pequeno cômodo estava limpo até os cantos. Nada bolorento aqui. Mas o odor não passava.
E então se lembrou.

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