15 de novembro de 2015

Capítulo 11

O carro derrapou atrás de um dos carros da polícia que estava estacionado tortamente na rua. Havia luzes por toda a parte, piscando azul, vermelho e âmbar, luzes queimando da casa dos Bennett.
— Fique aqui, — Matt retrucou, e precipitou-se para fora, seguindo Stefan.
— Não! — A cabeça de Bonnie jogou-se para cima; ela queria agarrá-lo e arrastá-lo de volta. A náusea vertiginosa que tinha sentido desde que Tyler tinha mencionado Vickie estava sobrecarregando-a. Era tarde demais; soubera no primeiro instante que era tarde demais. Matt só ia acabar sendo morto também.
— Você fica, Bonnie – mantenha as portas fechadas. Irei atrás deles. — Essa foi Meredith.
— Não! Estou cansada de ter todos me dizendo para ficar! — Bonnie gritou, lutando contra o cinto de segurança, finalmente soltando-o. Ela ainda estava chorando, mas conseguia ver bem o bastante para sair do carro e começar a ir em direção à casa da Vickie. Escutou Meredith logo atrás dela.
A atividade parecia toda concentrada na frente: pessoas gritando, uma mulher berrando, as vozes crepitantes dos rádios da polícia. Bonnie e Meredith se dirigiram diretamente para os fundos, para a janela de Vickie. O que tem de errado com esse quadro? Bonnie pensou selvagemente enquanto se aproximavam. A incoerência do que estava vendo era inegável, ainda assim, difícil de definir. A janela de Vickie estava aberta – mas não podia estar aberta. O painel do meio de uma janela saliente nunca se abre, Bonnie pensou. Mas então, como as cortinas poderiam estar flutuando como bainhas de camisa?
Não aberta, quebrada. Vidro estava por toda a trilha de cascalhos, triturando sob os pés. Havia cacos deixados como dentes sorridentes na moldura nua. A casa de Vickie tinha sido invadida.
— Ela o convidou a entrar, — Bonnie gritou com uma fúria agonizante. — Por que ela fez isso? Por quê? 
— Fique aqui, — Meredith disse, tentando molhar seus lábios secos.
— Pare de me dizer isso. Consigo aguentar, Meredith. Estou com raiva, é só. Eu odeio ele. — Ela agarrou o braço de Meredith e foi para a frente.
O buraco escancarado ficou cada vez mais perto. As cortinas ondulavam. Havia espaço o suficiente entre elas para ver do lado de dentro.
No último instante, Meredith empurrou Bonnie para longe e ela mesma olhou por dentro primeiro. Não importava. Os sentidos psíquicos de Bonnie estavam acordados e já lhe contavam sobre esse lugar. Era como a cratera deixada no chão depois que um meteoro atingiu e explodiu, ou como o esqueleto carbonizado de uma floresta após um fogo que se expandiu. Poder e violência ainda arranhavam o ar, mas o evento principal tinha acabado. Esse lugar tinha sido violado.
Meredith girou para longe da janela, se dobrando, forçando vômito sem êxito. Apertando seus punhos fazendo com que suas unhas afundassem em suas palmas, Bonnie se inclinou para frente e olhou para dentro.
O cheiro foi o que a atingiu primeiro. Um cheiro molhado, de carne e de cobre. Ela conseguia quase prová-lo, e tinha gosto de uma língua acidentalmente mordida. O som estava tocando algo que não conseguia ouvir por cima da gritaria na frente e o som de batidas surfou em seus próprios ouvidos. Seus olhos, ajustando da escuridão do lado de fora, só conseguiam ver vermelho. Só vermelho.
Porque essa era a nova cor do quarto de Vickie. O azul clarinho tinha ido embora. Papel de parede vermelho, acolchoado vermelho. Vermelho em grandes salpicos berrantes pelo chão. Como se alguma criança tivesse pego um pote de tinta vermelha e enlouquecido.
A vitrola fez um clique e a agulha de pau voltou para o começo. Com choque, Bonnie reconheceu a música enquanto recomeçava.
Era — Goodnight Sweetheart.
— Seu monstro, — Bonnie arfou. Dor atingiu seu estômago. Sua mão agarrou a moldura da janela, cada vez mais apertado. — Seu monstro, te odeio! Eu te odeio!
Meredith escutou e se endireitou, virando. Ela instavelmente empurrou seu cabelo para trás e conseguiu respirar fundo algumas vezes, tentando parecer como se pudesse lidar com isso. — Você está cortando sua mão, — disse. — Aqui, deixe-me dar uma olhada.
Bonnie não tinha nem ao menos percebido que estava agarrando vidro quebrado. Deixou Meredith pegar a mão, mas ao invés de deixá-la examinar, ela a virou e entrelaçou a mão gelada de Meredith apertadamente. Meredith parecia horrível: olhos pretos vidrados, lábios azuis-esbranquiçados tremendo. Mas ainda estava tentando cuidar dela, ainda tentando manter-se em controle.
— Vá em frente, — ela disse, olhando intensamente para sua amiga. — Chore, Meredith. Grite se quiser. Mas liberte de alguma forma. Você não tem que agir friamente agora e guardar tudo dentro. Tem todo o direito de perder o controle hoje.
Por um momento Meredith apenas ficou de parada ali, tremendo, mas então balançou sua cabeça com uma fantasmagórica tentativa de sorriso. — Não posso. Simplesmente não sou feita dessa maneira. Vamos, deixe-me olhar a sua mão.
Bonnie poderia ter discutido, mas bem então Matt veio da esquina. Ele parou violentamente ao ver as garotas paradas ali.
— O que vocês estão fazendo...? — ele começou. Então viu a janela.
— Ela está morta, — Meredith disse sem rodeios.
— Eu sei. — Matt parecia uma fotografia feia de si mesmo, superexposta. — Me disseram de imediato. Estão tirando... — Ele parou.
— Nós estragamos. Mesmo depois de termos prometido à ela... — Meredith parou também. Não havia nada mais a dizer.
— Mas a polícia terá que acreditar em nós agora, — Bonnie disse, olhando para Matt, então Meredith, achando uma coisa pela qual ser grata. — Eles terão que.
— Não, — Matt disse, — não acreditarão. Porque estão dizendo que foi suicídio.
— Um suicídio? Eles viram aquele quarto? Chamam aquilo de suicídio? — Bonnie gritou, sua voz aumentando.
— Estão dizendo que ela estava mentalmente desequilibrada. Estão dizendo que ela... pegou algumas tesouras...
— Ai, meu Deus, — Meredith disse, virando-se.
— Acham que talvez ela estivesse se sentindo culpada por matar Sue.
— Alguém arrombou esta casa, — Bonnie disse ferozmente. — Eles tem que admitir isso!
— Não. — A voz de Meredith estava suave, como se ela estivesse muito cansada. — Olhe para a janela aqui. O vidro está todo do lado de fora. Alguém de dentro a quebrou. — E esse é o resto do que estava errado com esse quadro, Bonnie pensou.
— Ele provavelmente quebrou, saindo, — Matt disse. Eles olharam um para o outro silenciosamente, em derrota.
— Onde está o Stefan? — Meredith perguntou à Matt silenciosamente. — Está lá na frente onde todos podem vê-lo? 
— Não, uma vez que descobrimos que ela estava morta, nos dirigimos de volta para cá. Eu estava vindo procurá-lo. Deve estar em algum lugar ao redor...
— Shh! — disse Bonnie. A gritaria da frente tinha parado. Assim como os berros da mulher. Na relativa calmaria eles conseguiam ouviu uma fraca voz vinda de trás das árvores de nogueira preta no fim do quintal.
— ...enquanto você deveria estar cuidando dela! 
O tom fez a pele de Bonnie se arrepiar toda. — É ele! — Matt disse. — E ele está com Damon. Vamos!
Uma vez que estavam entre as árvores, Bonnie conseguia ouvir a voz de Stefan claramente. Os dois irmãos estavam se encarando à luz do luar.
— Confiei em você, Damon. Confiei em você! — Stefan dizia. Bonnie nunca tinha o visto tão bravo, nem mesmo com Tyler no cemitério. Mas era mais do que simplesmente raiva.
— E simplesmente deixou isso acontecer, — Stefan continuou, sem olhar para Bonnie e os outros enquanto apareciam, sem dar uma chance a Damon de responder. — Por que não fez alguma coisa? Se você era muito covarde para lutar contra ele, podia pelo menos ter me chamado. Mas você simplesmente ficou parado lá!
O rosto de Damon estava duro, fechado. Seus olhos negros brilhavam, e não havia nada de preguiçoso ou casual sobre sua postura. Ele parecia tão firme e frágil como um painel de vidro. Abriu a boca, mas Stefan interrompeu.
— É minha própria culpa. Eu deveria ter sabido. Eu sabia. Todos sabiam, eles me alertaram, mas não escutei.
— Ah, eles alertaram? — Damon bruscamente olhou na direção de Bonnie na lateral. Um arrepio correu por ela.
— Stefan, espera, — Matt disse. — Acho... 
— Eu deveria ter escutado! — Stefan enfurecia-se. Nem ao menos parecia estar ouvindo Matt. — Deveria ter ficado com ela eu mesmo. Prometi a ela que ficaria a salvo – e menti! Ela morreu achando que eu a traí. — Bonnie conseguia ver em seu rosto agora, a culpa devorando-o como um ácido. — Se eu tivesse ficado aqui...
— Você estaria morto também! — Damon sibilou. — Não está lidando com um vampiro comum. Ele teria te quebrado em dois como um galho seco...
— E isso teria sido melhor! — Stefan gritou. Seu peito pesava. — Eu preferia ter morrido com ela a ficar parado e assistir! O que aconteceu, Damon? — Ele tinha se controlado agora e estava calmo, calmo demais; seus olhos verdes estavam queimando fervorosamente em seu rosto pálido, sua voz cruel, venenosa, enquanto falava. — Estava ocupado demais caçando alguma outra garota nos arbustos? Ou simplesmente desinteressado demais para interferir?
Damon disse nada. Estava tão pálido quanto seu irmão, cada músculo tenso e rígido. Ondas de fúria negras estavam crescendo enquanto ele observava Stefan.
— Ou talvez tenha gostado disso, — Stefan continuava, movendo-se mais outro meio passo para frente para que estivesse bem na cara de Damon. — Sim, foi provavelmente isso; gostou disso, estar com outro assassino. Foi bom, Damon? Ele te deixou assistir?
O punho de Damon sacolejou para trás e atingiu Stefan.
Aconteceu rápido demais para os olhos de Bonnie acompanharem. Stefan caiu de costas no chão macio, pernas longas se espalhando. Meredith gritou alguma coisa, e Matt pulou na frente de Damon.
Corajoso, Bonnie pensou perplexamente, mas estúpido. O ar estava estalando com eletricidade. Stefan levantou uma mão para sua boca e encontrou sangue, negro na luz do luar. Bonnie inclinou-se para seu lado e agarrou seu braço.
Damon estava vindo atrás dele novamente. Matt caiu perante ele, mas não completamente. Ficou de joelhos ao lado de Stefan, sentando em seus calcanhares, uma mão levantada.
— Chega, gente! Chega, está bem? — ele berrou.
Stefan estava tentando se levantar. Bonnie segurou seu braço mais apertadamente. — Não! Stefan, não! Não! — ela implorou. Meredith agarrou seu outro braço.
— Damon, larga mão! Simplesmente larga mão! — Matt dizia aguçadamente.
Estamos todos loucos, nos metendo nisso, Bonnie pensou. Tentando apartar uma briga entre dois vampiros nervosos. Vão nos matar só para nos calarem. Damon vai golpear Matt como uma mosca.
Mas Damon tinha parado, com Matt bloqueando seu caminho. Por um longo momento a cena permaneceu congelada, ninguém se movendo, todos rígidos com tensão. Então, lentamente, a postura de Damon relaxou.
Suas mãos se abaixaram e se abriram. Ele tomou um vagaroso fôlego. Bonnie percebeu que estivera segurando sua própria respiração, e a soltou.
O rosto de Damon estava frio como uma estátua entalhada no gelo. — Tudo bem, faça do seu jeito, — disse, e sua voz estava fria também. — Mas acabei por aqui. Vou embora. E dessa vez, irmão, se me seguir, eu te mato. Com ou sem promessa.
— Não te seguirei, — Stefan disse de onde estava sentado. Sua voz soava como se estivesse engolindo esmerilada.
Damon levantou abruptamente sua jaqueta, desamassando-a. Com um olhar para Bonnie que mal parecia vê-la, virou-se para ir. Então se virou de volta e falou clara e precisamente, cada palavra uma flecha apontada para Stefan.
— Te avisei, — disse. — Sobre quem sou, e sobre qual lado ganharia. Você deveria ter me escutado, irmãozinho. Talvez você aprenda algo de hoje à noite. 
— Aprendi o que custa confiar em você, — Stefan disse. — Caia fora daqui, Damon. Nunca mais quero vê-lo. 
Sem outra palavra, Damon virou e andou para longe para a escuridão.
Bonnie soltou o braço de Stefan e colocou sua cabeça em suas mãos.
Stefan se levantou, chacoalhando-se como um gato que tivera sido segurado contra sua vontade. Andou um pouco distante dos outros, seu rosto virado para longe deles. Então simplesmente ficou parado ali. A raiva parecia ter deixado-o tão rapidamente quanto tinha vindo.
O que dizemos agora? Bonnie se perguntou, olhando para cima. O que podemos dizer? Stefan estava certo sobre uma coisa: tinham alertado-o sobre Damon e ele não tinha escutado.
Ele verdadeiramente parecia acreditar que seu irmão podia ser confiado. E então todos ficaram descuidados, dependendo de Damon porque era fácil e porque precisavam de ajuda. Ninguém tinha discutido contra deixar Damon cuidar de Vickie hoje à noite.
Todos tinham culpa. Mas era Stefan quem iria se martirizar com culpa por isso. Ela sabia o que estava por trás de sua fúria fora de controle por Damon: sua própria vergonha e remorso. Se perguntou se Damon sabia disso, ou se importava. E se perguntou o que tinha realmente acontecido hoje à noite. Agora que Damon tinha ido embora, provavelmente nunca saberiam.
Não importava o que, ela pensou, era melhor que ele tivesse ido embora.
Barulhos de fora estavam reafirmando-os: carros sendo ligados na rua, a explosão curta de uma sirene, portas batendo. Estavam salvos na pequena alameda de árvores por ora, mas não podiam ficar aqui.
Meredith tinha uma mão pressionada em sua testa, seus olhos fechados. Bonnie olhou dela para Stefan, para as luzes da casa silenciosa de Vickie além das árvores. Uma onda de pura exaustão passou pelo seu corpo. Toda a adrenalina que a estivera suportando por essa noite parecia ter sido drenada. Ela nem ao menos sentia mais raiva pela morta de Vickie; somente depressão, e enjoo e muito, muito cansaço. Desejou poder se arrastar para sua cama em casa e puxar as cobertas sobre sua cabeça.
— Tyler, — disse em voz alta. E quando todos se viraram para olhá-la, ela disse, — O deixamos na Igreja arruinada. E ele é nossa última esperança agora. Temos que fazê-lo nos ajudar. 
Isso incitou a todos. Stefan se virou silenciosamente, não falando e encontrando os olhos de ninguém enquanto os seguia de volta para a rua.
Os carros da polícia e a ambulância tinham ido, e eles dirigiram para o cemitério sem incidentes.
Mas quando alcançaram a Igreja arruinada, Tyler não estava lá.
— Deixamos seu pé desamarrado, — Matt disse pesadamente, com um sorriso de autodepreciação. — Ele deve ter ido embora a pé já que seu carro ainda está lá embaixo. — Ou foi levado, Bonnie pensou. Não havia marca no chão de pedra para mostrar qual dos dois.
Meredith foi até a parede da altura do joelho e se sentou, uma mão apertando a ponte de seu nariz.
Bonnie afundou contra o campanário.
Eles tinham falhado por completo. Essa era a história toda e o resumo da noite. Tinham perdido e tinha ganho. Tudo o que tinham feito hoje acabou em derrota.
E Stefan, ela conseguia afirmar, estava colocando toda a responsabilidade em seus próprios ombros.
Ela olhou para a cabeça escura e curvada no assento da frente enquanto dirigiam de volta à pensão. Outro pensamento ocorreu à ela, um que mandou tremores de alarme pelos seus nervos. Stefan era tudo o que tinham para protegê-los agora que Damon se fora. E se o próprio Stefan estava fraco e exausto...
Bonnie mordeu seu lábio enquanto Meredith estacionava no celeiro. Uma ideia estava se formando em sua mente. Isso a deixava desconfortável, até mesmo assustada, mas outro olhar para Stefan endureceu a sua resolução.
A Ferrari ainda estava estacionada atrás do celeiro – aparentemente Damon tinha abandonado-a. Bonnie se perguntou como ele tinha planejado viajar para o campo, e então ela pensou em asas. Asas de corvo suaves como veludos e fortemente negras que refletiam arco-íris em suas penas. Damon não precisava de um carro.
Entraram na pensão só tempo o suficiente para Bonnie ligar para seus pais e dizer que passaria a noite na casa de Meredith. Essa era a ideia dela. Mas depois de Stefan ter subido as escadas para seu quarto no ático, Bonnie parou Matt na varanda da frente.
— Matt? Posso te pedir um favor? 
Ele girou ao redor, olhos azuis se arregalando. — Essa é uma frase carregada. Toda vez que Elena dizia essas palavras em particular... 
— Não, não, não é nada horrível. Só quero tomar conta da Meredith, ver que ela está bem uma vez que chegar em casa e tudo. — Ela gesticulou na direção da outra garota, que já estava andando na direção do carro.
— Mas você vai vir conosco. 
Bonnie olhou para as escadas através da porta aberta. — Não. Acho que vou ficar alguns minutos. Stefan pode me levar para casa. Só quero falar com ele sobre algo. 
Matt parecia perplexo. — Falar com ele sobre o quê?
— Só um negócio. Não posso explicar agora. Você fará, Matt? 
— Mas... ah, está bem. Estou cansado demais para me importar. Faça o que quiser. Te vejo amanhã. — Ele foi para longe, parecendo desnorteado e um pouco nervoso.
A própria Bonnie ficou desnorteada com a atitude dele. Por que deveria se importar, cansado ou não, se ela falava com Stefan? Mas não havia tempo a perder quebrando a cabeça com isso. Ela encarou a escada e, esquadrinhando seus ombros, foi para cima por elas.
O bulbo na lâmpada no teto do ático estava faltando, e Stefan tinha acendido uma vela. Estava deitado arbitrariamente na cama, uma perna para fora e uma dentro, seus olhos fechados. Talvez adormecido. Bonnie foi para cima na ponta dos pés e se fortaleceu com um profundo fôlego.
— Stefan? 
Seus olhos se abriram. — Achei que vocês tinham ido embora. 
— Eles foram. Eu não. — Deus, ele está pálido, pensou Bonnie. Impulsivamente, foi diretamente ao ponto.
— Stefan, estive pensando. Com o Damon fora, você é a única coisa entre nós e o assassino. Isso quer dizer que tem que estar forte, o mais forte que puder. E, bem, me ocorreu que talvez... sabe… você talvez precisasse... — A voz dela vacilou. Inconscientemente ela começou a ocupar-se com o bolo de tecido formando uma bandagem em sua palma. Ainda estava sangrando preguiçosamente de onde ela tinha cortado no vidro.
O olhar dele seguiu o dela até ele. Então seus olhos se levantaram rapidamente para o rosto dela, lendo a confirmação ali. Houve um longo momento de silêncio.
Então ele balançou a cabeça.
— Mas por quê? Stefan, não quero que isso fique pessoal, mas francamente, você não parece muito bem. Não vai ser de muita ajuda para qualquer um se colapsar conosco. E... não me importo, se você só tomar um pouco. Quero dizer, nunca vou sentir falta, certo? Não pode doer tanto assim. E... — Mais uma vez sua voz dissipou-se. Ele estava simplesmente olhando para ela, o que era muito desconcertante. — Bem, por que não? — ela exigiu, sentindo-se ligeiramente para baixo.
— Porque, — ele disse suavemente, — Fiz uma promessa. Talvez não com tantas palavras, mas - uma promessa mesmo assim. Não tomarei sangue humano como alimento, porque isso significa usar uma pessoa, como gado. E não vou trocar sangue com ninguém, porque isso significa amor, e... — Dessa vez foi ele quem não conseguiu terminar. Mas Bonnie entendeu.
— Nunca haverá outra pessoa, haverá? — ela disse.
— Não. Não para mim. — Stefan estava tão cansado que seu controle estava deslizando e Bonnie conseguia ver atrás da máscara. E de novo viu aquela dor e a necessidade, tão grandes que ela teve que olhar para longe dele.
Um tremorzinho estranho de premonição e medo pinicou seu coração. Antes, ela tinha se perguntado se Matt superaria Elena, e ele tinha, ao que parece. Mas Stefan – Stefan, percebeu, o tremor se aprofundando, era diferente. Não importava quanto tempo passasse, não importava o que ele fizesse, nunca se curaria de verdade. Sem Elena ele sempre seria a metade de si, só vivendo pela metade.
Ela tinha que pensar em algo, fazer algo, empurrar esse sentimento horrível de medo para longe. Stefan precisava de Elena; não conseguia ser inteiro sem ela. Hoje à noite tinha começado a desmoronar, balançando entre o controle perigosamente rígido e raiva violenta. Se ao menos ele pudesse ver Elena por apenas um minuto e falar com ela...
Ela tinha vindo aqui para dar a Stefan um presente que ele não queria. Mas havia outra coisa que ele queria, ela percebeu, e somente ela tinha o poder de dar a ele.
Sem olhar para ele, sua voz rouca, disse, — Gostaria de ver Elena?
Silêncio morto veio da cama. Bonnie se sentou, observando as sombras no quarto girarem e piscarem. Por fim,  arriscou um olhar para ele de canto de olho.
Ele estava respirando arduamente, olhos fechados, o corpo tenso como uma corda de arco. Tentando, Bonnie diagnosticou, trabalhar a força para resistir à tentação.
E perdendo. Bonnie viu isso.
Elena sempre fora demais para ele.
Quando os olhos dele encontraram com os dela de novo, estavam amargos, e sua boca era uma linha reta. A pele dele não estava mais pálida, mas corada com cor. Seu corpo ainda estava tremendo – tenso e excitado com ansiedade.
— Você pode se machucar, Bonnie.
— Eu sei. 
— Estaria se abrindo para forças além do seu controle. Não posso garantir que poderei protegê-la delas.
— Eu sei. Como quer fazer isso? 
Ferozmente, ele tomou a mão dela. — Obrigado, Bonnie, — sussurrou.
Ela sentiu o sangue subir para seu rosto. — Está tudo bem, — ela disse. Que pena, ele era lindo. Aqueles olhos... em um minuto ela ou ir pular em cima dele ou derreter em uma poça na cama dele. Com um agradável sentimento agonizante de virtude removeu sua mão da dele e se virou para a vela.
— Que tal se eu entrar em transe e tentar alcançá-la, e então, uma vez que eu tenha feito contato, tentar achar você e atraí-lo? 
— Acha que funcionaria?
— Pode, se eu alcançar você também, — ele disse, retirando aquela intensidade dela e focando-a na vela. — Consigo tocar a sua mente... quando estiver pronta, eu sentirei.
— Certo. — A vela era branca, seus lados de cera suaves e brilhantes. A chama cresceu e então caiu de novo. Bonnie encarou até ficar totalmente perdida nela, até que o resto do quarto escureceu ao redor dela. Havia apenas a chama, ela e a chama.
Estava indo para a chama.
Claridade insuportável a cercou. Então passou por ela para a escuridão.
A casa funerária estava fria. Bonnie olhou ao redor desconfortavelmente, se perguntando como tinha ido parar aqui, tentando reunir seus pensamentos. Estava completamente sozinha, e por alguma razão isso a incomodava. Não era para mais alguém estar aqui também? Ela estava procurando por alguém.
Havia uma luz na próxima sala. Bonnie se moveu na direção dela e seu coração começou a golpear. Era uma sala de visita, e estava cheio de candelabros altos, as velas brancas brilhando e vibrando. No meio delas estava um caixão branco com uma tampa aberta.
Passo a passo, como se algo a estivesse puxando, Bonnie se aproximou do caixão fúnebre. Não queria olhar para dentro. Ela tinha que. Havia algo naquele caixão esperando por ela.
A sala toda estava coberta com a suave luz branco das velas. Era como flutuar em uma ilha de radiação. Mas não queria olhar...
Movendo-se como se em câmera lenta, alcançou o caixão, encarando o forro de cetim branco dentro. Estava vazio.
Bonnie fechou-o e inclinou-se contra ele, suspirando.
Então capturou movimento em sua visão periférica e girou.
Era Elena.
— Ah, Deus, você me assustou, — Bonnie disse.
— Achei ter te dito para não vir aqui, — Elena respondeu.
Dessa vez seu cabelo estava solto, flutuando sobre seus ombros e por suas costas, o pálido dourado esbranquiçado de uma chama. Estava usando um vestido branco fino que brilhava suavemente à luz de vela. Ela mesma parecia uma vela, luminosa, radiante. Seus pés estavam descalços.
— Vim aqui para... — Bonnie patinou, algum conceito provocando pelas beiradas da sua mente. Esse era o sonho dela, seu transe. Tinha que se lembrar. — Eu vim aqui para deixá-la ver Stefan, — disse.
Os olhos de Elena se arregalaram, seus lábios se separaram. Bonnie reconheceu o olhar de desejo, de saudade quase irresistível. Não há quinze minutos ela tinha visto isso no rosto de Stefan.
— Ah, — Elena sussurrou. Ela engoliu, seus olhos nublando. — Ah, Bonnie... mas não posso.
— Por quê?
Lágrimas brilhavam nos olhos de Elena agora, e seus lábios tremiam. — E se as coisas começarem a mudar? E se ele vier, e... — Ela colocou uma mão em sua boca e Bonnie se lembrou do último sonho, com dentes caindo como a chuva. Bonnie encontrou os olhos de Elena com um horror de entendimento.
— Não vê? Eu não poderia suportar se algo parecido acontecesse, — Elena sussurrou.
— Se ele me visse daquele jeito... E não consigo controlar as coisas aqui; não sou forte o bastante. Bonnie, por favor, não deixe-o passar. Diga à ele o quão arrependida estou. Diga à ele...
Ela fechou seus olhos, lágrimas derramando.
— Tudo bem. — Bonnie sentiu como se fosse chorar também, mas Elena estava certa. Ela alcançou a mente de Stefan para explicar para ele, para ajudá-lo a suportar a decepção. Mas no instante que o tocou ela soube que tinha cometido um erro.
— Stefan, naão! Elena diz... — Não importava. A mente dele era mais forte que a dela, e no instante que fez contato ele tinha tomado controle. Tinha sentido a essência de sua conversa com Elena, mas não aceitaria não como resposta.
Desamparadamente, Bonnie se sentiu ser repelida, sentiu a mente dele chegar mais perto, mais perto do círculo de luz formado pelos candelabros. Sentiu a presença dele aqui, o sentiu tomando forma. Ela se virou e viu ele, cabelo escuro, rosto tenso, olhos verdes ferozes como os de um falcão. E então, sabendo que não havia nada mais que pudesse fazer, ela recuou para permitir-lhes ficarem sozinhos.

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