20 de novembro de 2015

Capítulo 10

Elena estava serenamente feliz. Agora era a vez dela.
Stefan usou um abridor de cartas afiado de madeira de sua mesa para se cortar. Elena sempre detestava vê-lo fazer isso, usar o utensílio mais eficiente que penetraria a pele de um vampiro; então fechou seus olhos com força e só olhou novamente quando sangue vermelho estava pingando de um cortezinho no pescoço dele.
Você não precisa tomar muito – e não deveria Stefan sussurrou, e ela sabia que ele estava dizendo essas coisas enquanto conseguia falá-las.― Não estou te segurando muito forte ou te machucando?
Ele sempre se preocupava tanto. Dessa vez, ela o beijou. E conseguia ver como ele achava que isso era estranho, queria mais beijos do que queria que ela tomasse seu sangue. Rindo, Elena empurrou-o para baixo e flutuou sobre ele, indo diretamente para a área geral do ferimento, sabendo que achava que iria provocá-lo. Mas ao invés, ela se fixou no ferimento como um biquinho e sugou mais e mais, até que o fez pedir, por favor, com sua mente. Mas não ficou satisfeita até que o fez pedir por favor em voz alta também.


No carro, na escuridão, Matt e Meredith tiveram uma ideia ao mesmo tempo. Ela foi mais rápida, mas falaram quase juntos.
Sou uma idiota! Matt, cadê o botão de liberação do assento traseiro?
Bonnie, você tem que desdobrar o assento dela pra trás! Tem uma pequena alavanca, você deve conseguir alcançá-la e puxá-la!
A voz da Bonnie estava tremendo agora, soluçando.
Meus braços, eles estão meio que cutucando os meus braços...
Bonnie Meredith falou concentradamente. ― Eu sei que você consegue fazer isso. Matt, a alavanca está debaixo do assento dianteiro ou...
Sim. Na ponta. No ângulo da uma – não, das duas horas ― Matt não tinha mais fôlego. Uma vez que agarrara a árvore, descobriu que se relaxasse a pressão por um instante, ela empurrava mais forte contra seu pescoço.
Não havia escolha, pensou. Tomou o fôlego mais longo que conseguiu, então empurrou o galho, escutando um grito de Meredith, e se virou, sentindo farpas irregulares como finas facas de madeira rasgarem sua garganta e orelha. Agora ele estava livre da pressão na nuca, apesar de estar chocado por quanto mais da árvore estava no carro desde a última vez que tinha visto. Seu colo estava cheio de galhos; folhas perenes estavam espessamente pilhadas em todo lugar.
Não era de se espantar que Meredith estivesse tão brava, pensou vertiginosamente, se virando na direção dela. Ela estava quase enterrada em galhos, uma mão lutando com algo em sua garganta, mas ela o viu.
Matt... afaste... o seu próprio assento! Rápido! Bonnie, sei que você consegue.
Matt escavou e rasgou os galhos, então tateou a alavanca que causaria o colapso do encosto de seu assento. A alavanca não se movia. Rebentos finos e duros estavam amarrados ao redor dela, difíceis de quebrar. Ele torceu e cortou-os selvagemente.
Seu assento caiu para trás. Ele abaixou-se pelo enorme braço-galho – se é que ainda merecia o nome, já que agora o carro estava cheio de enormes galhos similares. Então, bem quando se esticou para ajudar a Meredith, o assento dela abruptamente foi para trás também.
Ela caiu com ele, para longe dos galhos, arfando por ar. Por um instante ela simplesmente ficou parada no lugar. Então terminou de arrastar-se propriamente para o assento traseiro, puxando consigo uma forma coberta de folhas. Quando falou, sua voz estava rouca e sua fala ainda estava lenta.
Matt. Abençoado seja... por ter... esse quebra-cabeça... de carro ― ela retrocedeu o assento dianteiro para a posição, e Matt fez o mesmo.
Bonnie Matt chamou entorpecidamente.
Bonnie não se moveu. Muitos galhos minúsculos ainda a estavam entrelaçando, presos no tecido de sua camiseta, contorcendo-se em seu cabelo.
Tanto Meredith quanto Matt começaram a puxar. Onde os galhos soltavam, deixavam cortes ou minúsculos ferimentos de perfuração.
É quase como se eles estivessem tentando crescer nela Matt disse enquanto um galho longo e fino retrocedia, deixando picadas sangrentas para trás.
Bonnie? Meredith chamou. Era ela quem estava desembaraçando os ramos do cabelo da Bonnie. ― Bonnie? Vamos, levante. Olha pra mim.
Bonnie começou a tremer de novo, mas deixou Meredith virar seu rosto para cima.
Não achei que fosse conseguir.
Você salvou a minha vida.
Eu estava tão assustada...
Boonie continuou chorando silenciosamente contra o ombro de Meredith.
Matt olhou para Meredith bem quando a lâmpada interna piscou e apagou. A última coisa que viu foi seus olhos escuros, que carregavam uma expressão que o fez se sentir repentinamente mais enjoado. Ele olhou para fora pelas três janelas que podia agora ver do assento traseiro.
Deveria ser difícil enxergar qualquer coisa. Mas o que estava procurando estava pressionado bem contra o vidro. Folhas, galhos. Sólidos contra cada centímetro das janelas.
Mesmo assim, ele e Meredith, sem precisar dizer nada, esticaram a mão para a maçaneta do banco traseiro. As portas fizeram um clique e abriram uma fração de centímetro; então fecharam com um baque duro e definitivo. Meredith e Matt olharam um para o outro. Meredith olhou para baixo e começou a arrancar mais ramos de Bonnie.
Isso machuca?
Não. Um pouco...
Você está tremendo.
Está frio.
Estava frio agora. Do lado de fora do carro, ao invés de através da janela que uma vez fora aberta e agora estava completamente coberta de plantas, Matt conseguia ouvir o vento. Ele assobiava, como se através de muitos galhos. Havia também um som de madeira rangendo, assustadoramente alto e ridiculamente bem acima. Soava como uma tempestade.
Que diabos foi isso, de qualquer maneira? ― explodiu, chutando o assento da frente violentamente. ― O negócio que eu desviei na estrada?
A cabeça escura de Meredith se levantou lentamente.
Eu não sei; estava prestes a fechar a janela. Eu só vislumbrei.
Simplesmente apareceu bem no meio da estrada.
Um lobo?
Não estava lá e simplesmente apareceu.
Lobos não são daquela cor. Era vermelho Bonnie disse simplesmente, levantado sua cabeça do ombro da Meredith.
Vermelho? Meredith balançou sua cabeça. ― Era grande demais para ser uma raposa.
Era vermelho, eu acho Matt confirmou.
Lobos não são vermelhos... e quanto a lobisomens? Tyler Smallwood tem algum parente ruivo?
Não era um lobo Bonnie disse. ― Estava... ao contrário.
Ao contrário?
Sua cabeça estava do lado errado. Ou talvez tivesse cabeças de ambos os lados.
Bonnie, você está realmente me assustando Meredith falou.
Matt não diria, mas ela estava realmente assustando-o também. Porque relampejos do animal pareciam mostrar-lhe o mesmo tipo de forma deformada que Bonnie descrevia.
Talvez simplesmente o tenhamos visto em um ângulo esquisito sugeriu, ao mesmo tempo que Meredith disse: Pode ter simplesmente sido um animal assustado por...
Pelo o quê?
Meredith olhou para o alto do carro. Matt seguiu seu olhar. Muito lentamente, e com um guincho de metal, o teto amassou. E de novo. Como se algo muito pesado estivesse se apoiando nele.
Matt se xingou.
Enquanto eu estava dirigindo, por que simplesmente não desviei dele...? Ele encarou avidamente através dos galhos, tentando enxergar o acelerador, a ignição. ― As chaves ainda estão lá?
Matt, nós teríamos acabado numa vala. E além do mais, se fosse mudar alguma coisa eu teria avisado para desviar.
Aquele galho teria arrancado sua cabeça!
Sim Meredith disse simplesmente.
Teria te matado!
― Se isso pudesse salvar vocês dois, eu teria sugerido isso. Mas vocês estavam olhando para os lados; eu conseguia ver diretamente à frente. Elas já estavam aqui; as árvores. Em cada direção.
Isso... não é... possível! Matt bateu no assento na frente dele para enfatizar cada termo.
Isto é possível?
O teto rangeu novamente.
Vocês dois, parem de brigar! Bonnie exclamou, e sua voz virou um soluço.
Houve uma explosão como um tiro e o carro afundou repentinamente para trás e para a esquerda.
O que foi isso? ― Bonnie indagou.
Silêncio.
―... um pneu estourando Matt disse por fim. Ele não confiava na sua própria voz.
Olhou para Meredith. Assim como Bonnie.
Meredith, os galhos estão enchendo do assento dianteiro. Eu mal consigo ver a luz do luar. Está escurecendo.
Eu sei.
O que vamos fazer?
Matt conseguia ver a tremenda tensão e frustração no rosto de Meredith, como se tudo o que dissesse devesse sair através de dentes cerrados. Mas sua voz estava calma.
Eu não sei.


Com Stefan ainda estremecendo, Elena se enrolou como um gato sobre a cama. Sorriu para ele, um sorriso dopado com prazer e amor. Ele pensou em agarrá-la, puxando-a para baixo, e começar isso tudo de novo.
Era assim que ela o fazia se sentir. Porque ele conhecia muito bem por experiência – o perigo com que estavam flertando. Muito mais disso e Elena seria a primeira espírito-vampira, como fora a primeira vampira-espírito que ele conhecera.
Mas dê uma olhada nela! Ele deslizou debaixo dela como às vezes fazia e simplesmente a observou, sentindo seu coração martelar simplesmente pela visão dela. Seu cabelo, de um dourado verdadeiro, parecia seda na cama, fundindo-se ali. Seu corpo, à luz de um pequeno abajur no quarto, parecia estar delineado em dourado. Ela realmente parecia flutuar, se mover e dormir em uma neblina dourada. Era aterrorizador. Para um vampiro, era como se ele tivesse trazido um sol vivo para sua cama.
Ele se pegou suprimindo um bocejo. Ela fazia isso com ele, também, como uma Dalila inconscientemente tomando a força de Sansão. Supercarregado como estava pelo sangue dela, ele também estava deliciosamente sonolento. Teria passado uma noite quente nos braços dela.


No carro, só escurecia mais enquanto as árvores continuavam a cortar a luz do luar. Por um tempo, eles tentaram gritar por ajuda. Isso não fez bem algum, e além do mais, como Meredith apontou, precisavam conservar o oxigênio no carro. Então se sentaram em silêncio novamente.
Finalmente, Meredith esticou a mão para o bolso de sua calça jeans e tirou um molho de chaves com uma minúscula lanterna de chaveiro. Sua luz era azul.
Apertou o botão e todos se inclinaram para frente. Uma coisinha tão minúscula que significa tanto, Matt pensou.
Havia pressão contra os assentos dianteiros agora.
Bonnie? Meredith chamou. ― Ninguém nos ouvirá aqui gritando. Se alguém pudesse nos ouvir, teriam ouvido o pneu e achado que era um tiro.
Bonnie balançou a cabeça como se não quisesse ouvir. Ainda estava retirando folhas de pinho de sua pele. Ela está certa. Estamos há quilômetros de qualquer pessoa, Matt pensou.
Tem algo muito ruim aqui Bonnie disse isso em voz baixa, mas cada palavra parecia sair forçada, como cascalhos jogados em um lago.
Matt de repente se sentiu enjoado.
Ruim... como?
É tão ruim que é... nunca senti nada como isso antes. Nem quando Elena morreu, nem do Klaus, nem de nada. Nunca senti algo tão ruim quanto isso. É tão ruim, e é tão forte. Não achava que nada pudesse ser tão forte. Está empurrando contra mim, e tenho medo...
Meredith a cortou.
Bonnie, sei que nós conseguimos pensar num jeito de sair desse...
Não há saída daqui!
Eu sei que você tem medo...
Quem há para chamar? Eu poderia fazer isso... se houvesse alguém para chamar. Posso encarar a sua lanterninha e tentar fingir que é uma vela e...
Entrar em transe? Matt olhou para Meredith severamente. ― Ela não deveria mais fazer isso.
Klaus está morto.
Mas...
Não há ninguém para me ouvir! Bonnie berrou e por fim teve um colapso com enormes soluços. ― Elena e Stefan estão longe demais, provavelmente dormindo a essa hora! E não há mais ninguém!
Os três estavam sendo empurrados para perto agora, à medida que os galhos pressionavam os assentos contra eles. Matt e Meredith estavam perto o bastante para olhar um para o outro bem por cima da cabeça de Bonnie.
― Hã Matt disse, assustado. ― Hum... tem certeza?
― Não Meredith respondeu. Ela soava tanto amarga quanto esperançosa.
Lembra-se desta manhã? Não temos nem um pouco de certeza. De fato, tenho certeza de que ele ainda está por perto em algum lugar.
Agora Matt se sentia enjoado, e Meredith e Bonnie pareceram doentes na luz azul que já tinha uma aparência estranha.
E logo antes disso acontecer, estávamos falando de um monte de coisas, basicamente que tudo o que aconteceu para mudar a Elena era culpa dele.
― Na floresta.
Com uma janela aberta.
Bonnie continuou a soluçar.
Matt e Meredith, contudo, tinham feito um acordo silencioso por contato visual. Meredith falou, muito gentilmente:
Bonnie, o que você falou antes; bem, você terá que fazer. Tente contatar Stefan, ou acordar a Elena ou... ou se desculpar com o... Damon. Provavelmente o último, receio. Mas ele nunca pareceu nos querer mortos, e deve saber que não irá ajudá-lo com a Elena se ele matar os amigos dela.
Matt resmungou, cético.
Ele pode não querer todos nós mortos, mas pode esperar até que alguns estejamos assim para salvar os outros. Eu nunca confi...
Você nunca lhe desejou qualquer mal Meredith o cortou com uma voz mais alta.
Matt pestanejou para ela e então calou a boca. Sentiu-se um idiota.
Então, aqui, a lanterna está ligada Meredith falou, e mesmo nessa crise, sua voz estava firme, rítmica, hipnótica.
A pequena luz patética era tão preciosa, também. Era tudo o que tinham para impedir a escuridão de se tornar absoluta.
Mas quando a escuridão se tornar absoluta, Matt pensou, seria porque toda a luz, todo o ar, tudo do lado de fora se foi, empurrado para fora do caminho pela pressão das árvores. E nessa hora a pressão quebraria os esqueletos deles.
Bonnie? A voz da Meredith era a voz de qualquer irmã mais velha que já foi ao resgate de seus irmãos mais novos. Tão gentil. Tão controlada. ― Você pode tentar fingir que é a chama de uma vela... a chama de uma vela... a chama de uma vela... e tentar entrar em transe?
Eu já estou em transe a voz de Bonnie estava de algum modo distante. Bem distante e quase ecoando.
Então peça ajuda Meredith respondeu suavemente.
Bonnie estava sussurrando continuamente, claramente alheia ao mundo ao seu redor.
Por favor, venha nos ajudar. Damon, se conseguir me escutar, por favor, aceite nossas desculpas e venha. Você nos deu um tremendo susto, e estou certa de que merecemos isso, mas, por favor, por favor, ajude. Machuca, Damon. Machuca tanto que eu poderia gritar. Mas ao invés, estou usando toda essa energia para chamar você. Por favor, por favor, por favor, nos ajude...
Por cinco, dez, quinze minutos ela continuou, enquanto os galhos cresciam, confinando-os com seu odor doce e resinoso. Ela continuou com isso por muito mais tempo do que Matt pensara que conseguiria suportar.
Então a luz se apagou. Depois disso não havia som algum além do sussurro dos pinheiros.


Você tinha que admirar a técnica.
Damon estava novamente reclinado no ar, ainda mais alto dessa vez de quando tinha entrado na janela de terceiro andar de Caroline. Ele ainda não fazia ideia dos nomes das árvores, mas isso não o impedia. Esse galho era como ter um camarote para o drama se desdobrando abaixo. Estava começando a ficar um pouco entediado, já que nada de novo estava acontecendo no térreo. Tinha abandonado Damaris mais cedo naquela noite quando se entediara, falando sobre casamento e outros assuntos que ele desejava evitar. Como o marido atual dela. Té-dio. Tinha ido embora sem realmente checar se ela tinha se tornado uma vampira – ele pensava que sim, e isso não seria uma surpresa quando o marido chegasse em casa? Seus lábios estremeciam a beira de um sorriso.
Abaixo dele, a peça tinha quase atingido o seu clímax.
E você realmente tinha que admirar a técnica. Caçada em bando. Ele não fazia ideia do tipo de criaturinhas nojentas que estavam manipulando a árvore, mas assim como lobos e leoas, pareciam ter se aperfeiçoado nisso. Trabalhando juntas para capturar uma presa que era rápida e pesadamente blindada demais para somente um deles conseguir. Nesse caso, um carro.
A arte refinada da cooperação. Uma pena os vampiros serem tão solitários, pensou. Se pudéssemos cooperar, dominaríamos o mundo.
Ele pestanejou sonolentamente e então relampejou um sorriso deslumbrante para alguma coisa. É claro, se pudéssemos fazer isso – digamos, tomar uma cidade e dividir os habitantes – acabaríamos dividindo uns aos outros. Dentes, unhas e Poder seriam utilizados com destreza como a lâmina de uma espada, até que não restasse nada além de retalhos de carne tiritante e sangue correndo nas sarjetas.
Bela imagem, contudo, pensou, e deixou suas pálpebras caírem para apreciá-la. Sangue em poças escarlates, líquido magicamente estagnado, o bastante para descer degraus de mármore branco de – ah, digamos, o Kallimarmaron em Atenas. Uma cidade inteira silenciada, purgada de barulho, caos, humanos hipócritas, com somente seus pedaços necessários deixados para trás: umas poucas artérias para bombear em quantidade o doce elixir vermelho. A versão vampírica do leite e mel caseiro.
Abriu seus olhos novamente em irritação. Agora as coisas estavam ficando altas lá embaixo. Humanos berrando. Por quê? Qual era o objetivo? O coelho sempre guincha na mandíbula da raposa, mas quando é que outro coelho se apressou para salvá-lo?
Pronto, um novo provérbio, e prova de que humanos são tão estúpidos quanto coelhos, pensou, mas seu bom humor estava arruinado. Sua mente deslizou do fato, mas não era apenas o barulho abaixo que estava perturbando-o.
Leite e mel, aquilo tinha sido... um erro. Pensar nisso tinha sido um erro grave. A pele de Elena parecera leite naquela noite há uma semana, um branco quente, não frio, mesmo na luz do luar. Seu cabelo claro na sombra havia sido como mel derramado. Elena não ficaria feliz em ver os resultados da caçada em bando dessa noite. Choraria lágrimas de cristais de orvalho, e cheirariam a sal.
De repente Damon endureceu. Ele mandou uma interrogação furtiva de Poder ao seu redor, um círculo de radar.
Mas nada voltou, exceto as árvores sem mente a seus pés. O que quer que estivesse orquestrando aquilo, era invisível.
Certo, então. Vamos tentar, pensou. Concentrando-se em todo o sangue que havia bebido nos últimos dias, explodiu uma onda de Poder puro, como o Vesúvio entrando em erupção com uma mortífera explosão piroclástica. Ele o circulou completamente em todas as direções, uma bolha de oitenta quilômetros por horas de Poder, como um gás superaquecido.
Porque tinha voltado. Inacreditavelmente, o parasita estava tentando fazer isso de novo, entrar em sua mente. Tinha que estar.
Aquietando-o, ele supôs, esfregando sua nuca com uma fúria distraída, enquanto os membros de seu bando acabavam com sua presa no carro. Sussurrando coisas em sua mente para mantê-lo quieto, tomando seus próprios pensamentos negros e ecoando-os de volta um pouco mais obscuros, em um ciclo que poderia ter acabado com ele saindo correndo para matar repetitivamente só pelo próprio prazer de veludo negro disso.
Agora a mente do Damon estava gelada e negra de fúria. Ficou de pé, esticando seus braços e ombros doloridos, e então procurou cuidadosamente, não com uma simples esfera de radar, mas com uma explosão de Poder atrás de cada explosão, examinando com sua mente para achar o parasita. Tinha que estar ali fora; as árvores ainda continuavam com seu trabalho.
Mas nada conseguia achar, mesmo tendo usado o método mais rápido e eficiente de escaneamento que conhecia: mil golpes aleatórios por segundo em um padrão de busca do tipo Andar de Bêbado. Ele deveria ter achado um corpo morto imediatamente. Ao invés disso, não encontrou nada.
Isso o deixou ainda mais nervoso do que antes, mas havia um matiz de animação em sua fúria. Ele quisera uma briga; uma chance de matar onde a matança fosse significativa. E agora aqui estava um oponente que cumpria todas as qualificações – e Damon não conseguia matá-lo porque não conseguia encontrá-lo.
Ele mandou uma mensagem, tremeluzente com ferocidade, em todas as direções.
Eu já te avisei uma vez. Agora eu te DESAFIO. Mostre-se – OU ENTÃO FIQUE LONGE DE MIM!
Ele reuniu Poder, juntou-o, e reuniu-o mais uma vez, pensando em todos os mortais diferentes que haviam contribuído. Ele o segurou, cuidando dele, esculpindo-o para seu propósito, e aumentando sua força com tudo que sua mente conhecia de luta e da habilidade e perícia da guerra. Segurou o Poder até que sentiu como se estivesse segurando uma bomba nuclear em seus braços. E então o soltou de uma só vez, uma explosão acelerando na direção oposta, para longe dele, aproximando-se da velocidade da luz.
Agora, com certeza, sentiria os espasmos da morte de algo enormemente poderoso e perspicaz – algo que tinha conseguido sobreviver ao seu bombardeamento anterior, designado somente para criaturas sobrenaturais.
Damon expandiu seus sentidos para seu alcance mais longo, esperando ouvir ou sentir algo se despedaçando, entrando em combustão – algo caindo cegamente, com seu próprio sangue caindo por perto, de um galho, do ar, de algum lugar. De algum lugar uma criatura deveria ter mergulhado para o solo ou raspado – o com enormes garras similares a de dinossauros – uma criatura parcialmente paralisada e completamente condenada, cozida de dentro para fora. Mas apesar de ele conseguir sentir o vento crescendo para um uivo e enormes nuvens pretos unindo-se acima dele em resposta ao seu próprio humor, ainda não conseguia sentir criatura das trevas perto o bastante para ter entrado em seus pensamentos.
Quão forte era essa coisa? De onde vinha?
Só por um momento, um pensamento relampejou em sua mente. Um círculo. Um círculo com um ponto em seu centro. E o círculo era a explosão que tinha enviado em todas as direções, e o centro era o único lugar que a explosão não alcançara. Já dentro del...
Pam! De repente seus pensamentos ficaram em branco. E então ele começou, preguiçosamente, ligeiramente confuso, a tentar juntar os pedaços fraturados. Estivera pensando na explosão de Poder que tinha mandado, sim? E como tinha esperado que algo caísse e morresse.
Diabos, nem mesmo conseguia sentir qualquer animal comum maior que uma raposa na floresta. Apesar da sua varredura de Poder ter sido cuidadosamente feita para afetar somente criaturas do tipo das trevas, os animais comuns tinham ficado tão assustados que correram selvagemente da área. Ele espiou abaixo. Hum. Exceto pelas árvores ao redor do carro; e elas não estavam atrás dele. Além do mais, o que quer que fossem, eram só os peões de um assassino invisível. Não eram realmente conscientes – não dentro dos limites que ele tinha moldado tão cuidadosamente.
Ele poderia ter se enganado? Metade de sua fúria era de si mesmo, por ser tão descuidado, tão bem-alimentado e confiante que tinha baixado sua guarda.
Bem-alimentado... ei, talvez eu esteja bêbado, pensou, e relampejou o sorriso novamente para nada, sem nem pensar nisso. Bêbado, paranoico e tenso. Irritado e puto.
Damon relaxou contra a árvore. O vento estava gritando agora, girando e congelando, o céu cheio de nuvens pretas turvas que cortavam qualquer luz da lua ou das estrelas. Exatamente o seu tipo de tempo.
Ainda estava tenso, mas não conseguia encontrar razão alguma para estar. A única perturbação na aura da floresta era o pequeno choro de uma mente dentro do carro, como um pássaro preso com apenas uma nota. Essa seria a pequenina, a bruxa ruiva com o pescoço delicado. Aquela que estava choramingando demais sobre mudanças na vida.
Damon apoiou um pouco mais de seu peso na árvore. Ele seguira o carro com sua mente por um interesse distraído. Não fora culpa dele que os pegara falando de si, mas diminuiu um tanto as chances deles de serem resgatados.
Ele pestanejou lentamente.
Estranho terem tido um acidente tentando não atropelar uma criatura aproximadamente na mesma área que ele quase batera sua Ferrari tentando atropelar uma. Pena não terem relampejado a criatura deles, mas as árvores eram espessas demais.
O pássaro ruivo estava chorando novamente.
Bem, você quer uma mudança agora ou não, bruxinha? Decida-se. Tem que pedir com jeitinho. E então, é claro, tenho que decidir que tipo de mudança você ganha.

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