10 de novembro de 2015

Capítulo 10

Soou a sineta. Não havia tempo para voltar ao refeitório e informar a Bonnie e Meredith. Foi para a sua próxima aula, passando pelos rostos indiferentes e os olhares hostis que estavam se transformando em familiares demais por esses dias.
Foi difícil, na aula de história, não olhar fixamente para Caroline, não deixar que Caroline soubesse o que sabia. Alaric perguntou por Matt e Stefan, que estavam ausentes pelo segundo dia consecutivo, e Elena deu de ombros, sentindo-se desprotegida e exposta. Não confiava naquele homem de sorriso juvenil e olhos avelã e sua ânsia de informações sobre a morte do Sr. Tanner. E Bonnie, que se limitava a contemplar a Alaric espiritualmente, não servia de nenhuma ajuda.
Depois da aula, captou um pedaço da conversa de Sue Carson.
— ... está de férias da faculdade... não lembro exatamente de onde...
Já estava cansada de manter um silêncio discreto. Girou para trás e falou diretamente com Sue e a garota com quem ela conversava, interrompendo-as sem ser convidada na discussão.
— Se eu fosse você — disse a Sue — manteria distancia de Damon. Falo sério.
Houve uma risada sobressaltada e embaraçada. Sue era uma das poucas pessoas do colégio que não evitara Elena, e agora parecia querer tê-lo feito.
— Quer dizer — disse a outra garota em tom vacilante — que ele também te pertence? Ou...
O riso da própria Elena foi discordante.
— Quero dizer que é perigoso — respondeu. — Não estou brincando.
Elas se limitaram a olhá-la, e Elena guardou a violência de ter que responder girando os calcanhares e se distanciando. Puxou Bonnie do grupo extraescolar de seguidores de Alaric e se encaminhou ao armário de Meredith.
— Aonde vamos? Pensei que íamos falar com Caroline.
— Agora não — respondeu Elena. — Espere até chegarmos em casa. Então direi o motivo.


— Não posso acreditar — disse Bonnie uma hora mais tarde. — Quero dizer, acredito, mas não posso acreditar. Não de Caroline.
— É Tyler — respondeu Elena. — Foi ele quem teve o grande plano. Depois dizem que os homens não se interessam por diários.
— Na verdade, devíamos agradecer — comentou Meredith. — Graças a ele pelo menos temos até o Dia do Fundador para fazer alguma coisa. Por que o Dia do Fundador, Elena?
— Tyler tem algo contra os Fell.
— Mas estão todos mortos — apontou Bonnie.
— Bom, isso não parece importante para Tyler. Lembro que ele também falou disso no cemitério, quando olhávamos a tumba dele. Acha que roubaram de seus antepassados o lugar que lhes correspondia como fundadores da cidade, ou algo assim.
— Elena — Meredith falou em tom sério — tem alguma coisa mais que possa prejudicar Stefan? Além da coisa do velho, quero dizer.
— Não é o suficiente?
Com aqueles olhos firmes e escuros fixos nela, Elena sentiu o desconforto em seu estômago. O que Meredith estava perguntando?
— O suficiente para tirar Stefan da cidade, como eles disseram — concordou Bonnie.
— O suficiente para que recuperemos o diário que Caroline tem em seu poder, — disse Elena. — A única questão é como.
— Caroline disse que tinha escondido em algum lugar seguro. Isso provavelmente significa sua casa — Meredith mordeu o lábio pensativamente. — Ela só tem esse irmão que está na oitava, não é? E a mãe trabalha, mas vai comprar na Roanoke com assiduidade. Eles têm empregada? 
— Por quê? — perguntou Bonnie. — O que isso importa?
— Bom, não queremos que ninguém entre enquanto roubamos a casa.
— Enquanto o quê? — A voz de Bonnie se lançou em um agudo guincho. — Não pode estar falando sério!
— O que sugere que façamos, simplesmente sentemos e esperemos até o Dia do Fundador e deixar que leia o diário para toda a cidade? Ela roubou da sua casa. Simplesmente temos que trazê-lo de volta — respondeu Meredith com exasperante tranquilidade.
— Vão nos pegar. Nos expulsarão do colégio... se é que não vamos acabar na cadeia — Bonnie virou a cabeça para Elena em atitude suplicante. — Diga, alguma coisa Elena.
— Bom...
Honestamente, a perspectiva intranquilizava um pouco Elena. Não tanto a ideia da expulsão, ou inclusive a cadeia, mas a ideia de ser pega. O rosto altivo da Sra. Forbes flutuou diante de seus olhos, cheio de justificada indignação. Logo mudou para o de Caroline, rindo com rancor enquanto sua mãe apontava com o dedo acusador para Elena.
Além do mais, parecia tal... violação entrar na casa de alguém quando não tinha ninguém ali para remexer suas coisas. Odiaria que alguém lhe fizesse isso.
Entretanto, já haviam feito. Caroline violara a casa de Bonnie, e naquele momento teve em suas mãos a coisa mais íntima de Elena.
— Vamos fazer — Elena falou pausadamente. — Mas faremos com cuidado.
— Não podemos apenas conversar? — Bonnie inquiriu em um tom débil, passando os olhos do rosto decidido de Meredith para o de Elena.
— Não há nada o que conversar. Você vem — indicou Meredith. — Você prometeu — acrescentou quando Bonnie tomou ar para voltar a discutir, e levantou seu dedo indicador.
— O juramento de sangue foi só para ajudar Elena a conquistar Stefan! — exclamou Bonnie.
— Pense de novo — disse Meredith. — Você jurou que faria qualquer coisa que Elena pedisse em relação a Stefan. Não havia nada sobre um limite de tempo ou sobre “só até que Elena o consiga”.
Bonnie ficou boquiaberta. Olhou para Elena, que quase sorria.
— Está certo — respondeu, solenemente. — E você mesma disse “jurar solenemente com sangue significa manter sua promessa aconteça o que acontecer”.
Bonnie fechou a boca e ergueu o queixo.
— Ok — replicou com tom sombrio. — Agora sou obrigada durante a minha vida toda a fazer o que a Elena quiser que eu faça em relação a Stefan. Maravilhoso.
— Esta é a última coisa que te pedirei — disse Elena. — Prometo. Juro que...
— Não diga isso! — interveio Meredith, repentinamente séria. — Não diga isso, Elena. Poderá lamentar mais tarde.
— Agora você também está se afeiçoando às profecias?  inquiriu Elena, e logo perguntou: — Então, como vamos conseguir a chave da casa de Caroline durante uma hora pelo menos?


Sábado, 9 de novembro
Querido diário,
Sinto por ter passado tanto tempo. Ultimamente tenho estado ocupada demais ou deprimida demais – ou ambas as coisas – para escrever.
Além do mais, com tudo o que aconteceu, tenho quase medo de ter um diário. Mas preciso de alguém a quem recorrer, por que justamente agora não existe um só ser humano, uma só pessoa na Terra, de quem eu não esteja ocultando algo.
Bonnie e Meredith não podem saber a verdade sobre Stefan. Stefan não pode saber a verdade sobre Damon. Tia Judith não pode saber nada de nada. Bonnie e Meredith sabem sobre Caroline estar com o diário; Stefan, não. Stefan sabe da verbena que uso todo dia agora; Bonnie e Meredith, não. Inclusive que suas bolsas estão repletas dela. Uma boa coisa: parece funcionar, ou ao menos não voltei a andar sonâmbula pela noite. Mas seria mentira dizer que não tenho sonhado com Damon. Aparece em todos os meus pesadelos.
Minha vida está cheia de mentiras nesse momento, preciso de alguém com quem possa ser totalmente honesta. Vou esconder o diário embaixo da tábua solta do closet, de modo que ninguém o encontre, ainda que eu morra e esvaziem meu quarto. Um dia, algum dos netos de Margareth brincarão ali dentro e levantarão a tábua o tirarão de lá, mas até então, ninguém mais. Este diário é meu último segredo.
Não sei porque penso na morte e em morrer. Esta é a mania de Bonnie; é ela quem romantiza tudo. Sei o que realmente é: não houve nada de romântico quando mamãe e papai morreram. É simplesmente as piores sensações do mundo. Quero viver por muito tempo, casar com Stefan e ser feliz. E não há motivo para que não possa, uma vez que todos esses problemas fiquem para trás.
Exceto que há vezes em que me assusto e acredito nisso. E há coisas que não deveriam me importar, mas que preocupam. Como por que Stefan ainda leva o anel de Katherine pendurado no pescoço, embora eu saiba que me ama. Como por que nunca disse que me ama, apesar de que eu saiba que sim.
Não importa. Tudo sairá bem. Tem que sair bem. Então estaremos juntos e seremos felizes. Não há motivos para que não sejamos. Não há motivos para que não sejamos. Não há motivo.


Elena deixou de escrever, tentando manter as letras da página centradas. Mas só bagunçavam mais, e fechou o livro antes que uma lágrima acusadora pudesse cair sobre a tinta. Foi até o closet, levantou a tábua solta com uma lima para unhas e guardou o diário sob ela.


Levava a lima de unhas no bolso uma semana mais tarde, quando as três, Bonnie, Meredith e ela, se detiveram ante a porta dos fundos da casa de Caroline.
— Depressa! — sibilou Bonnie desesperada, passando os olhos no pátio como se esperasse que algo saltasse entre elas. — Vamos, Meredith!
— Pronto — disse Meredith quando a chave encaixou por fim corretamente na fechadura com a lingueta e a maçaneta cedeu com o giro de seus dedos. — Estamos dentro. 
— Tem certeza de que não estão em casa? Elena, e se voltarem cedo? Por que não podemos fazer isso outro dia, ao menos?
— Bonnie, quer entrar de uma vez? Já falamos sobre isso. A empregada está sempre aqui durante o dia. E não voltarão cedo hoje, a menos que alguém passe mal no Chez Louis. Agora vamos! — disse Elena.
— Ninguém ousaria ficar doente no jantar de aniversario do Sr. Forbes. — disse Meredith com tom consolador a Bonnie enquanto a menor das meninas entrava. — Estamos a salvo.
— Se tÊm dinheiro o suficiente para ir a restaurantes caros, era de se pensar que deixariam umas luzes acesas — replicou Bonnie, negando-se a se deixar consolar.
Em si, Elena deu uma razão para isso. Parecia estranho e desconcertante vagar pela casa de outra pessoa na escuridão, e seu coração martelou asfixiantemente enquanto subiam as escadas. Sua palma, que se fechava na lanterna do chaveiro que mostrava o caminho, estava úmida e escorregadia. Mas além de todos os sintomas de pânico, sua mente continuava funcionando friamente, quase com indiferença.
— Tem que estar em seu quarto — disse.
A janela de Caroline dava para a rua, o que significava que tinham que ser mais cuidadosas ainda para que não vissem nenhuma luz ali. Elena balançou o diminuto feixe da lanterna de um lado para o outro com sensação de desalento. Uma coisa era planejar revistar o quarto de alguém, imaginar mentalmente a revista eficiente e metódica das gavetas, e outra era estar realmente ali de pé, rodeada pelo o que parecia um milhão de lugares para esconder algo, e sentir medo de tocar em alguma coisa e Caroline perceber que estava mexido.
As outras duas garotas também estavam totalmente imóveis.
— Talvez devêssemos ir para casa — sugeriu Bonnie em voz baixa.
Meredith não a contradisse.
— Temos que tentar. Ao menos tentar — disse Elena, ouvindo o quão oca e baixa que soava sua voz.
Abriu com cuidado a gaveta de uma cômoda alta e passou a luz por cima dos delicados montes de roupas intimas. Uns instantes de busca entre elas bastaram para comprovar que não havia nada parecido com livro. Colocou os montinhos de volta e fechou a gaveta. Logo depois soltou o ar.
— Não é tão difícil — disse. — O que precisamos é dividir o quarto e revistá-lo, cada gaveta, cada móvel, cada objeto grande o bastante para esconder um diário.
Ela assinalou o closet e a primeira coisa que fez foi cutucar as tábuas do chão com sua lima de unha. Mas as tábuas de Caroline pareciam estar todas bem pregadas e as paredes do armário embutido pareceram sólidas. Procurando entre as roupas de Caroline, encontrou várias coisas que havia deixado para a outra no ano anterior. Sentiu-se tentada a levá-las, mas, é claro, que não podia. Examinou os sapatos e os bolsos de Caroline, que nada revelaram, inclusive arrastou uma cadeira até ali para investigar a prateleira superior do closet.
Meredith estava sentada no chão examinando um monte de animais de pelúcia que haviam sido relegados junto a outras recordações infantis. A garota passou os longos e sensíveis dedos sobre cada um, procurando fendas no material. Quando chegou a um poodle fofo, se deteve.
— Eu lhe dei isso — murmurou. — Acho que em seu décimo aniversário. Pensava que o tinha jogado fora.
Elena não pôde ver seus olhos, a própria lanterna de Meredith estava dirigida para o poodle. Mas soube como a amiga se sentiu.
— Tentei fazer as pazes com ela — disse em voz baixa. — Tentei, Meredith, na Casa Maldita. Mas ela praticamente me disse que jamais me perdoaria por lhe tirar Stefan. Desejei que as coisas fossem diferentes, mas ela não quis deixar que fossem.
— E agora é guerra. 
— E agora é guerra — repetiu Elena, categórica e contundente.
Observou enquanto Meredith deixava o poodle de lado e pegava o próximo animal; depois voltou para sua própria revista.
Mas não teve melhor sorte na penteadeira do que no closet. E a cada minuto que transcorria, sentia-se mais inquieta, com mais certeza de que estavam a ponto de escutar um carro chegando na entrada de acesso dos Forbes.
— Não serve de nada — disse Meredith por fim, apalpando debaixo do colchão de Caroline. — Deve ter escondido... Espera. Há algo aqui. Sinto um canto.
Elena e Bonnie a olharam fixamente dos lados opostos do quarto, momentaneamente paralisadas.
— Achei. Elena, é um diário! 
O alívio descendeu como uma exalação através de Elena e fez com que se sentisse como um pedaço de papel enrugado que alisam e estiram. Podia voltar a se mover. Respirar era maravilhoso. Sabia, sabia todo o tempo que nada realmente terrível podia acontecer com Stefan. A vida não podia ser tão cruel, não com Elena Gilbert. Todos estavam a salvo agora. 
A voz de Meredith soou perplexa.
— É um diário. Mas é verde e não azul. É o diário errado.
— Quê?
Elena lhe arrancou o pequeno caderno e dirigiu sua lanterna sobre ele, tentando converter o verde esmeralda em azul safira. Não funcionou. Aquele diário era quase exatamente como o seu, mas não era o seu.
— É o de Caroline — disse estupidamente, ainda sem querer acreditar.
Bonnie e Meredith se empoleiraram junto a ela. Todas olhavam o livro fechado e se olharam.
— Pode haver pistas  disse Elena devagar.
— É muito justo — concordou Meredith.
Mas foi Bonnie quem realmente tomou o diário e abriu.
Elena esquadrinhou por cima do seu ombro a letra pontiaguda e inclinada de Caroline, tão diferente das maiúsculas de notas violetas.
Ao principio seus olhos não conseguiram focar bem, mas logo um nome lhe saltou a vista: Elena.
— Espera, o que é isso?
Bonnie, que era a única que realmente estava em uma posição que permitia ler mais de uma ou duas palavras, permaneceu em silêncio um momento, movendo os lábios. Depois suspirou.
— Escuta isso — disse e leu: — Elena é a pessoa mais egoísta que já conheci. Todo mundo pensa que é equilibrada, mas é certo que seja só frieza. Dá nojo o modo como as pessoas babam por ela, sem pensar que ela jamais se importa com nada nem ninguém que não seja Elena.
— Caroline disse isso? Olha quem fala!
Elena sentiu seu rosto ardendo. Era praticamente o que Matt disse quando ela ia atrás de Stefan.
— Vamos, tem mais — disse Meredith, dando tapinhas em Bonnie, que prosseguiu em tom ofendido.
— Bonnie está quase igual de impossível esses dias, sempre tentando se fazer de importante. A última é fingir que é médium para que a gente a note. Se realmente fosse médium, descobriria que Elena só a está usando.
Houve uma pausa embaraçosa e logo Elena disse:
— Isso é tudo?
— Não, há algo sobre Meredith: Meredith não faz nada para detê-la. Na verdade, não faz nada, se limita a observar. É como se não pudesse agir, só reagir às coisas. Além do mais, ouvi meus pais falarem sobre sua família... não me surpreende que nunca a mencione.
O que significa isso?
Meredith não se moveu e Elena via unicamente seu pescoço e seu queixo na tênue luz. A garota falou em voz baixa e firme.
— Não importa. Continue olhando, Bonnie, procure algo sobre o diário de Elena.
— Procure por volta de dezoito de outubro. Foi quando o roubaram — indicou Elena, deixando de lado suas perguntas; já que as faria a Meredith.
Não tinha nenhuma anotação para dezoito de outubro nem no fim de semana seguinte. Nenhuma delas mencionava o diário.
— Bom, então é isso — disse Meredith sentando-se atrás. — Este livro não serve. A menos que queiramos chantageá-la com ele. Você sabe, algo como não devolveremos o dela enquanto ela não devolver o seu.
Era uma ideia tentadora, mas Bonnie detectou uma falha.
— Não há nada ruim sobre Caroline aqui; não são mais que queixas sobre outras pessoas. Principalmente nós. Aposto que encantaria Caroline se fosse lido em voz alta no colégio. Animaria seu dia.
— Então, o que faremos com ele?
— Devolvê-lo a seu lugar — respondeu Elena com a voz cansada.
Passou a luz da lanterna pelo quarto, que a seus olhos parecia estar repleto de sutis diferenças em comparação com a que tinham encontrado.
— Simplesmente teremos que continuar fingindo que não sabemos que ela tem meu diário e esperar outra oportunidade.
— Concordo — disse Bonnie, mas continuou lendo o livro, dando risadas soltas de vez em quando e uma bufada ou um sibilar indignados. — Quer ouvir isso? — exclamou.
— Não há tempo — disse Elena.
Havia dito algo mais, mas nesse momento Meredith falou e seu tom exigiu a imediata atenção das duas.
— Um carro.
Demorou só um segundo para determinar que o veículo estava na entrada de acesso dos Forbes. Os olhos e a boca de Bonnie estavam abertos e arregalados e a garota parecia paralisada, ajoelhada junto a cama.
— Anda! Vamos — disse Elena, tirando-lhe o diário. — Apaguem as lanternas e saiam pela porta dos fundos.
Já se moviam, Meredith estando à frente de Bonnie. Elena se deixou cair de joelhos e ergueu o lençol da cama e o colchão de Caroline. Com a outra mão empurrou o diário para frente, encaixando-o entre o colchão e a parte que circundava a parte baixa da cama. As molas finamente recobertas se cravavam no braço que ainda segurava, ainda pior era o peso do colchão que caía por cima. Deu ao livro mais alguns empurrões com os dedos e logo puxou o braço debaixo do colchão, estirando o lençol para deixá-lo como estava.
Deu uma olhada frenética de novo no quarto enquanto saía; não havia tempo para arrumar mais nada. Enquanto descia veloz e em silêncio as escadas, olhou a chave da porta principal.
Logo seguiu-se uma espécie de pega-pega espantoso. Elena sabia que não a estavam perseguindo deliberadamente, mas a família Forbes parecia decidida a esquadrinhar a casa. Regressou por onde havia vindo enquanto luzes e vozes se materializavam no vestíbulo, dirigindo-se para as escadas. Foi até o interior da última entrada do corredor abaixo, e eles pareciam segui-la. Cruzaram o hall; estavam justo ante o quarto principal. Girou em direção ao banheiro, mas viu acender-se a luz de repente por baixo da porta fechada, cortando a fuga.
Estava atrapalhada. Os pais de Caroline podiam entrar a qualquer momento. Viu as portas envidraçadas que davam para a varanda e tomou sua decisão nesse instante.
Lá fora, o ar era fresco e sua respiração arquejante eram ligeiramente invisíveis. Uma luz amarela surgiu do quarto onde estava momentos antes e se agachou à esquerda mantendo-se fora do caminho. Logo, o som que estava temendo veio com terrível clareza: o deslizar da maçaneta da porta, seguida por um ondular de cortinas produzido ao abrir as portas envidraçadas.
Olhou ao redor freneticamente. A distância era grande demais para saltar e não havia nada que a segurasse na descida. Isso deixava só o telhado, mas não havia nada para subir. Contudo, algum instinto a fez tentar, e já estava sobre o corrimão da varanda, procurando com as mãos algum lugar para subir quando uma sombra apareceu entre as vaporosas cortinas. Uma mão as separou, uma figura começou a sair. E então Elena sentiu que algo agarrava com força sua mão, fechando-se no seu pulso e içando-a para o alto. Automaticamente deu impulso com os pés e se encontrou no telhado de madeira. Enquanto tentava estabilizar a respiração irregular, olhou adiante agradecida para ver quem era seu salvador... e ficou gelada.

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