7 de novembro de 2015

Capítulo 10 - Para minha filha, esta criação minha, eu dou o dom Divino da Noite


Nyx encontrou seu acampamento facilmente, embora Kalona estivesse fora. Ela quis sair rapidamente, seguir a ligação que tinha com ele e encontrá-lo, mas o acampamento que Kalona montara a intrigava.
Ficava na borda da pradaria, onde ela se encontrava com as árvores da floresta que se alinhavam num riacho arenoso, na outra extremidade de onde havia um grande assentamento de humanos. Nyx pensava que era um ótimo lugar para um acampamento, e Kalona certamente o tornara confortável.
Ela olhou através das pilhas de peles, cestos, ferramentas e alimentos, percebendo que seu amante tinha, obviamente, feito amizade com o povo da pradaria – ou ela esperava que ele tivesse. A mão de Nyx tocou uma pele particularmente grossa, muito parecida com a que ele forrara seu barco no dia em que ele o esculpira para ela.
Que negociação Kalona fizera para ganhar uma rica variedade de brindes? Nyx conhecia os mortais nativos – bem, até. Eles poderiam ser gentis e generosos, mas também raramente davam sem um propósito.
Uma pequena onda de apreensão surgiu na mente da Deusa enquanto ela se lembrava do primeiro encontro de Kalona com o Povo da Pradaria. Eles o haviam chamado de um deus alado e estavam pronto para adorá-lo.
— Não! Eu não pensarei mal de Kalona. Ele não é responsável pelas superstições do Povo da Pradaria — Nyx disse a si mesma com firmeza.
A deusa virou o rosto da pilha de presentes e deixou o pequeno acampamento acolhedor. Ela ficou na beira da pradaria e abriu os braços, jogando a cabeça para trás e bebendo a luz da lua cheia. A noite estava clara, e o céu estava cheio de estrelas. A brisa era quente e suave, e Nyx enviou sua magia.
— Leve-me para o meu amor, para que eu consertar o que tornou errado entre nós — Nyx pediu para a noite.
Faíscas de magia, como a cauda cintilante de estrelas cadentes, fluíram a partir da Deusa. Suavemente, mas certeiras elas puxaram-na para a frente. Nyx seguiu. Confiante de que Kalona estava por perto, ela sentiu seu coração acelerar em antecipação.
Ele tinha sido criado para ela; ele a amava. Ela só precisava olhar em seus olhos cor de âmbar, tocar a força suave de seu corpo, e ele saberia, tão certo como ela, que não havia nada e ninguém entre eles, que nunca haveria.
Nyx viu os pássaros pretos antes de ver Kalona. Eles a fizeram olhar para uma elevação distante na planície que ficava entre algumas pequenas árvores e algumas bordas de arenito cobertas de líquen. Ela podia ver a silhueta de Kalona.
Ele estava sentado em uma grande laje plana de pedra, a cabeça nas mãos, os ombros caídos. Suas asas brilhavam como se estivessem absorvendo a luz da lua cheia. Nyx parou e ficou em silêncio, estudando-o de longe. Ele é tão bonito, tão majestoso e tão triste, ela pensou. Eu sofro para aliviar sua tristeza.
Nyx tinha apenas começado a diminuir a distância entre si e Kalona quando uma figura se moveu no canto superior da visão da Deusa, tomando a atenção do alado imortal.
Acima dele, sobre um afloramento ainda maior de rocha de arenito, um homem enfeitado de penas aparecera. Ele se levantou, endireitando lentamente seu corpo curvado pela idade.
Quando ele ficou ereto, Nyx pôde ver que ele não estava sozinho. Uma mulher estava com ele, uma menina, na verdade. Ela usava um vestido elaboradamente decorado de pele curtida, que Nyx pensou ser realmente bonito. Na verdade, mesmo à distância a Deusa podia dizer que a moça era espetacularmente bela.
A testa de Nyx franziu e ela sentiu uma pontada de ciúme. Estava o velho oferecendo a empregada para Kalona? E se ele a aceitasse?
A Deusa estava rasgada. Parte dela queria desaparecer na noite para permitir que seu amor tomasse o seu prazer onde poderia encontrá-lo.
Outra parte dela queria correr para frente e exigir que Kalona não escolhesse ninguém além dela.
Nyx baixou a cabeça e entregou-se ao conhecimento do que era a sensação de ser ciumenta, vulnerável e cheia de desespero.
O velho começou a entoar algumas palavras, uma melodia rítmica. Sua voz era hipnótica, e Nyx sentiu seus próprios pés descalços começando a se mover no ritmo dele quando Kalona falou.
— Xamã, basta! Tenho sofrido muitas misérias hoje. Eu não preciso da sua música interminável adicionada a eles — ele levantou a cabeça, e Nyx pôde ver seu corpo estremecer de surpresa. — Por que trouxe uma criança para cá?
— Eu faço apenas o que manda meu sonho.
— Sobre esse sonho, você poderia ter me contado dele...
A voz do velho homem cortou a de Kalona. Enquanto ele cantava a sua canção, o timbre de sua voz mudou, ampliado com um estranho poder que brilhava a partir do centro da testa em uma luz pura e branca, a forma de uma lua crescente.

“O que eu faço, eu faço para dois
Um para ela
E um para você
Tome esta donzela
De sangue verdadeiro
Sacrifício para dois
Um para ela
E um para você”

Hipnotizada, Nyx assistia e ouvia, mas enquanto a canção do Xamã progredia, um terrível sentimento de mau presságio encheu a Deusa e ela começou a se mover para frente, lentamente no início, e depois mais rapidamente, até que ela estava correndo.

Esperança de equilíbrio
Novo e antigo
Escala de dois
Um para ela
E um para você!

Com a última linha de sua canção, o xamã levantou a mão. Nyx viu que nela havia uma lâmina de obsidiana longa e afiada.
— Não! — gritou a Deusa.
A lâmina do xamã não vacilou. Ele cortou a garganta da donzela, liberando uma torrente de sangue. Ela caiu aos pés dele, arfando a última respiração de sua vida e inundando o arenito com uma maré carmesim.
— Por que você fez isso? — Nyx correu às pressas para a moça e puxou a menina para morrer em seus braços.
— O sacrifício foi para dois. Um para ele. Um para você. Perdoe-me, Deusa. Eu fiz apenas o que podia.
Então os olhos do velho reviraram. Ele apertou o peito e caiu na grama, sem respirar mais.
Nyx olhou para cima para ver que o rosto de Kalona estava tão pálido quanto o luar.
— Que loucura é essa?
— E-eu não sei. Pensei que o velho homem estivesse iludido, mesmo equivocado. Não pensei que ele fosse capaz disso.
— Ele e seu povo o estavam adorando?
Nyx viu surpresa genuína na expressão de Kalona.
— Eles me deixaram presentes, e o velho muitas vezes cantava e marchava em torno de mim. Isso é adoração? — Kalona balançou a cabeça, olhando para a moça morrendo. — Eu sou um tolo. Sou culpado por essas duas mortes.
— Não! — Nyx disse severamente, não estava disposta a permitir que Kalona caísse em desespero e culpa. — Ele era um homem velho. Seu coração falhou. Isso não poderia ser alterado e não é culpa sua. Mas essa garota, essa criança, que ele equivocadamente sacrificou para você, ela ainda se agarra à vida. Podemos salvá-la, você e eu. Me dê seu presente emprestado da criação, e invoque o Espírito. O que me agradaria mais é que seu teste final salvasse a vida desta garota.
— Mas a Mãe Terra...
— Eu sou a deusa! E proclamo que estou disposta a trocar a minha amizade com a Terra pela vida desta criança.
Kalona inclinou a cabeça para ela.
— Sim, minha Deusa.

“Eu lhe chamo, Espírito, Poder Divino e a criação de magia também.
Tenho mais um teste para passar, mais um conto para contar.
Como manda a Deusa, que assim seja,
Como ela deseja usá-lo, com ela eu concordo.”

Kalona se curvou e beijou Nyx suavemente nos lábios, e enquanto a Deusa aceitou seu beijo, sentiu dentro seu corpo o Espírito, a magia da criação e o poder do Divino.
Nyx ergueu a faca de obsidiana de onde o velho tinha deixado cair, rapidamente passando a lâmina através de seu próprio pulso. Então ela colocou a linha vermelha que escorria nos lábios pálidos da menina, dizendo:

“Sangue do meu sangue, você deve sempre ser.
Tome, beba. A partir desta noite, a tua nova vida é o meu decreto.”

Os olhos da garota permaneceram fechados, mas os lábios se abriram contra o ferimento da Deusa, e ela bebeu como Nyx ordenou.
A Deusa inclinou e soprou suavemente sobre a garganta sangrenta da menina. A carne rasgada imediatamente começou a consertar.

“Para minha filha, esta criação minha,
Eu dou o dom Divino da Noite.”

Nyx beijou os lábios da menina, passando o último resquício de Espírito para dentro dela, e então beijou o meio da testa lisa da menina, tocando a criança com a Antiga Magia da Deusa, sussurrando:
— Com esta tatuagem, sua vida começa de novo.
No meio da testa da menina, uma lua crescente cor de safira apareceu.
A partir dela, espalhando-se para baixo de cada lado do rosto da menina, cresceu uma série complexa de redemoinhos filigranados e sinais misteriosos que sustentavam símbolos de cada um dos cinco elementos, magicamente espelhando as tatuagens com o qual tantas vezes Nyx escolheu decorar seu próprio corpo.
A moça abriu os olhos.
— Grande Deusa da Noite, diga-me o seu nome para que eu possa te adorar.
— Você pode me chamar de Nyx.
Em seguida, a noite em volta deles explodiu quando a Mãe Terra se materializou, seguida por uma multidão de dríades falantes que lançaram um olhar para sua Deusa e ficaram repentinamente caladas.
— Ah, então, é como eu pensava — disse a Mãe Terra. Ela balançou a cabeça tristemente. — O teste foi maculado. Kalona deve falhar.
Erebus pousou do céu, segurando uma cesta tecida. Seu sorriso iluminado pelo sol desapareceu quando ele viu a cena sombria.
— Eu senti o teste começar. Apressei-me para acompanhá-lo — disse Erebus.
— Filha, durma, e quando acordar, você esquecerá o terror da sua criação e lembrará apenas do amor, sempre o amor — Nyx ordenou à donzela e passou a mão pelo seu rosto, fazendo com que os olhos da menina fechassem.
Em seguida, a deusa moveu-a gentilmente de seu colo e se levantou para enfrentar Erebus e a Mãe Terra.
— O que aconteceu aqui foi minha responsabilidade. O velho estava confuso e enganado. Ele sacrificou esta donzela para Kalona em um acesso de loucura. Ordenei que Kalona me desse seu dom da criação e invocasse o Espírito, para que eu pudesse misturar nossa magia e salvar sua vida. Suas ações foram para me agradar. Eu decreto que Kalona passou pelo terceiro e último de seus testes — Nyx virou-se para Erebus. — Você pode completar o teste agora, também.
Sem nenhuma das brincadeiras a que eles normalmente eram expostos, Erebus caminhou para Nyx e colocou a cesta no chão entre ela e a donzela adormecida.
— Queria fazer isso como um presente para o Povo da Pradaria que você tanto ama — ele disse a ela. — Parece certo que agora pertença à sua filha mortal mais favorecida.
Erebus tirou a tampa da cesta para revelar os cinco gatinhos que ele lhe mostrara mais cedo naquela noite. Ele estendeu as mãos sobre a cesta, e invocou:

“Magia Antiga, criação emprestada e poder do Espírito, eu vos chamo.
Conheça a minha vontade e faça o que ordeno do meu próprio coração.
Criar alegria desta noite de confusão, morte e lágrimas.
Conforte esta filha de Nyx com companheirismo durante longos anos.
Familiares, amigos e companheiros que estarão no nome e no coração.
Uma vez escolhido, pela força do sol nunca mais irão separar.”

As mãos de Erebus brilhavam com o fulgor alaranjado de um pôr do sol, e quando a cesta para o alto, Nyx viu que a pele cinza dos gatinhos selvagens tinha sido alterada para laranja da luz do sol e creme do céu de nuvens. Erebus puxou um dos gatinhos da cesta, e em vez de assobios e arranhões, ele foi recebido com um ronronar, aninhando-o com a sua cara fofa. O imortal alado sorriu.
— Não para mim, docinho. Ela precisa mais de sua amizade do que eu.
Ele colocou o gatinho ao lado da moça adormecida, e então levou os outros quatro para a menina, de modo que eles formassem um círculo quente contra ela.
Em seguida, virou-se para Nyx.
A deusa tomou seu rosto entre as mãos e beijou-o suavemente.
— Seu presente me agradou muito. Você também passou no último dos testes — então Nyx virou-se para a Mãe Terra. — Eu não planejei o que aconteceu esta noite.
— E eu planejei com muito cuidado. Tentei controlar demais. Esta noite eu percebi que há algumas coisas que nem mesmo a sua grande capacidade de amar ou o meu presente da criação pode evitar.
— Ainda somos amigas?
— Sempre — respondeu a Mãe Terra. — Mas acredito que é hora de eu parar de me intrometer em seus assuntos pessoais.
— Eu nunca vou ser capaz de lhe agradecer o suficiente pela sua adorável intervenção. Você terminou com a minha solidão, e agora, com Kalona e Erebus, o Outromundo será preenchido com vida novamente.
— Está mais do que agradecido — disse a Mãe Terra. Ela caminhou para Erebus e abraçou-o calorosamente. — Você sempre será a memória de um dia perfeito e repleto de sol de verão para mim. Gostei de ser sua mãe.
— E eu de ser seu filho. Será que continuaremos com nossas visitas?
— Talvez, mas acredito que você se encontrará bastante ocupado no Outromundo, e percebo que me cansei novamente. Eu preciso dormir.
A Mãe Terra aceitou o beijo de Erebus em sua bochecha, em seguida, moveu-se para estar diante de Kalona.
— Eu tenho sido dura, meu filho de luar, mas isso é por causa do que sinto dentro de você. Kalona, ​​você é um tipo diferente de criação de seu irmão. Você nasceu guerreiro e amante, e esses dois papéis não são fáceis de suportar lado a lado. Vejo dentro de si uma capacidade ilimitada para o bem, assim como uma capacidade igualmente ilimitada para o mal. Através dos testes, eu quis que aprendesse que com grande poder, grandes responsabilidades vêm junto. Somente suas escolhas futuras mostrarão se consegui ensinar bem.
— Não tenho a intenção de fazer mal — Kalona disse seriamente.
— Intenção é um amigo volúvel — apontou a Mãe Terra. — Você não tinha a intenção que quaisquer mortais morressem esta noite, não é?
— Não. Eu não tinha.
— E ainda assim um está morto, e outra está alterada para sempre. Kalona, ​​ouça-me bem, pois isso eu juro: caso permita ser controlado por sua raiva, seu lado sombrio, o abraço da Terra não deve socorrer-te. Então eu tenho dito, que assim seja.
Selando o juramento, a Mãe Terra o beijou nos lábios frios e, em seguida, virou-se para Nyx, cansada. As duas mulheres se abraçaram.
O olhar de Nyx foi para a donzela.
— Quando você não estiver dormindo, poderia cuidar de minha filha comigo? Ela é um ser novo, o único de sua espécie. Ela precisará de cuidados especiais, e não se pode ter muitas mães.
— Minha amiga, temo que eu possa dormir tanto tempo que de algumas maneiras nunca devo surgir de novo, por isso antes de eu ficar à deriva em minha cama viva, criarei mais uma vez, embora você deva vigiar essas crianças por si mesma.
Nyx ficou confusa por um momento, e depois ela entendeu o que a Mãe Terra falou.
— Você vai criar mais semelhantes dela!
— Eu vou, embora a sua criação seja mais difícil do que foi dela. Ela não é verdadeiramente um novo ser, mas sim um mortal evoluído. Eu semearei a humanidade com as sementes do que ela é. Não sei quantos deles serão capazes de tornar-se mais.
Nyx apertou as mãos de sua amiga.
— Obrigada, Mãe Terra. Obrigada por certificar-se de que a minha filha não viverá sua vida sozinha.
— Não me agradeça ainda. Eu não sei quantos como ela sobreviverão.
— Os seres humanos são fortes e corajosos. Haverá muitos que sobreviverão — disse Nyx. — E eu serei a sua Deusa da Noite!
— Sim minha amiga. Sim — a Mãe Terra concordou. — Agora me abrace novamente, e parta rapidamente. Não quero que nenhuma tristeza ou arrependimento fique entre nós.
Nyx abraçou com força.
— Durma em paz, sem preocupação e sem arrependimento. Eu visitarei seus filhos, e cuidarei do que é eterno dentro deles pela eternidade.
— Cuide-se bem — respondeu a Mãe Terra. Então, ainda abraçando a Deusa, ela sussurrou, apenas para seus ouvidos: — E observe Kalona. Se ele começa a mudar, será porque sua raiva cresceu mais do que o seu amor. Se ele permitir que a raiva o consuma, também consumirá você e seu reino.
Em seguida, ela soltou Nyx e recuou.
— Vá agora, e que todos sejam abençoados...
Trinados pungentes irromperam a partir do grupo de deidades que estavam agrupadas em torno da Mãe Terra. Nyx viu que não havia apenas dríades ali, mas coblyn, náiades, e até mesmo algumas skeeaeds tinham aparecido nas pradarias, pintando a noite com cores brilhantes que refletiam sua ansiedade.
— Não, pequeninas, não se desesperem. Vocês pertencem ao Outromundo – que é o seu lar — disse a Mãe Terra.
— Oh, minha amiga, por favor me diga que as deidades podem continuar a visitar a sua terra — disse Nyx.
A Mãe Terra parecia surpresa.
— Você permitiria isso?
Nyx sorriu calorosamente para as deidades.
— Enquanto houver a Magia Antiga, a anciã, rica e verdadeira, lá você encontrará as deidades, e lá elas a encontrarão.
— Então a sua Deusa tem dito, e assim seja! — gritou a Mãe Terra, animada novamente enquanto as deidades formaram um círculo em torno dela e começaram a dançar em comemoração.
Nyx enxugou uma lágrima, e depois levou Kalona e Erebus pela mão.
— Vamos deixá-la agora, feliz e cercada por aqueles que lhe trazem tanta alegria — disse ela em voz baixa, orientando-os para a escuridão da pradaria gramada. Quando eles estavam fora da vista da Mãe Terra, Nyx soltou suas mãos e disse: — Sigam-me.
A Deusa levantou a mão e um fio de prata esbelta apareceu, como se a lua lhe emprestasse um feixe de luz. Ela agarrou-o e sorriu para os imortais alados que a estavam estudavam com olhares gêmeos de apreensão.
— Não se preocupem. Se você souberem o caminho, a viagem não é longa. E eu lhes mostrarei o caminho, de modo que vocês nunca estarão longe de mim.
Em seguida, a fita brilhante ficou tensa, levantando a Deusa no céu noturno. Kalona e Erebus desfraldaram suas asas juntos, e se ergueram para o céu atrás dela.

* * *

Nyx não soltou o fio de prata reluzente até que, fora da escuridão completa que existe entre reinos, um pedaço de terra batida apareceu de repente. Ela pisou no chão e virou-se para enfrentar Kalona e Erebus.
— É um pedaço da Mãe Terra aqui? — perguntou Erebus, inclinando-se para tocar o chão que parecia tão parecido com a terra vermelha da grama alta  da pradaria.
— Há mais do que lá — Kalona disse, apontando para um bosque aparentemente interminável que se estendia diante deles.
— Não, não há nada da Mãe Terra aqui — Nyx explicou. — Ainda que vocês verão muitos pontos que lembrarão dela.
Nyx pensou que Kalona parecia aliviado. Erebus só olhava curioso.
— O que é aquela árvore? — ele perguntou, começando a andar para frente na direção dela.
Nyx deu um passo diante dele, bloqueando seu caminho.
Ambos os imortais olhavam para ela agora com curiosidade.
— Aquela árvore tem muitos nomes no reino mortal. Yggdrasil, Abellio e Árvore de Pendurar são apenas três dos muitos reflexos de sua Magia Antiga. Aqui, eu a chamo de árvore do desejo, já que eu a enchi com fitas de Energia Divina em que anotei desejos e sonhos, alegria e amor. Ela fica na entrada para o meu reino, o Outromundo. Tenho a intenção de compartilhar o meu reino com vocês, mas antes de eu permitir que entrem, peço que cada um me faça uma promessa de que não importa o que a eternidade vindoura traga, vocês nunca mais falarão dos acontecimentos desta noite. Minha filha, e aqueles que vêm depois dela, nunca devem saber que foram criados por causa de erros da superstição e da loucura. Vocês concordam?
— Sim, e você tem o meu juramento — disse Kalona.
— Eu também. Você tem a minha promessa, gentil e amorosa Deusa — concordou Erebus.
— Então peço de bom grado que entrem no Outromundo, e desejo que juntos sejamos abençoados!

* * *

A Mãe Terra deixou as deidades e sua dança interminável. Ela tinha uma última tarefa a ser executada antes de dormir, mas primeiro ela se aproximou do corpo do xamã. Ajoelhou-se ao lado dele e fechou os olhos cegos; em seguida, agitou as mãos sobre seu corpo, e a terra da pradaria se abriu, formando gentilmente uma abertura na qual embalar o velho.
— Você fez bem, apenas como eu pedi. Sei que quebrou seu coração seguir o meu édito e sacrificar a donzela, mas ao fazê-lo, dei a Kalona sua única chance de redenção, pois ele foi, de fato, manchado pela Escuridão. Nyx não percebe, mas eu vejo tão claramente quanto você. Você fez o que mandei. Agora manterei minha palavra para você, ancião.
A Mãe Terra tocou sua testa e tirou de dentro de si a esfera brilhante que sustentava seu espírito eterno.
Vinde a mim, poderoso animal do mar de grama!
Uma enorme bisão trotou até a Mãe Terra. Os músculos de seu peito largo ondularam enquanto ele se curvava diante dela, o focinho descansando em seu joelho. Ela acariciou seu pelo espesso, murmurando-lhe a apreciação de sua majestade. Em seguida, ela completou sua promessa, dizendo: Juntos para uma vida que você e ele estarão!
Ela apertou o globo de espírito contra a testa do bisão, que desapareceu dentro da besta. Mãe Terra sorriu para ele.
— Vá, um velho agora jovem! Percorra a pradaria e tenha uma vida longa e fértil.
Com um suspiro, o bisão obedeceu, e quando ele se afastou trotando, ele chutou o ar em uma dança alegre da liberdade.

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