4 de novembro de 2015

Capítulo 1

Oklahoma – Dias atuais

A ira e a confusão se agitavam dentro de Dragon Lankford. Neferet estava mesmo deixando-os depois de tão pouco tempo desde a morte do garoto e a visita catastrófica de sua deusa?
― Neferet, o que há com o corpo do novato? Não deveríamos seguir mantendo vigília? ― Com um esforço, Dragon Lankford manteve seu tom de voz calmo enquanto se dirigia a sua Alta Sacerdotisa.
Neferet virou seus belos olhos cor de esmeralda até ele. Sorriu-lhe suavemente.
― Está certo em me recordar, Mestre da Espada. Aqueles de vocês que honraram Jack com velas de espírito púrpuras, atirem-nas na pira enquanto se põem em marcha. Os guerreiros Filhos de Erebus manterão a vigília sobre o pobre corpo do novato pelo resto da noite.
― Será como disse, Sacerdotisa.
Dragon se inclinou profundamente ante ela, perguntando-se por que sentia comichões em sua pele – quase como se estivesse coberto de sujeira e pó. Ele teve de repente um desejo inexplicável de tomar um banho com água muito, muito quente. É Neferet, sua consciência lhe falou suavemente. Ela não faz a coisa certa desde que Kalona se libertou da terra. Você costumava sentir isso.
Dragon sacudiu sua cabeça e trincou os dentes. Os acontecimentos secundários não tinham importância. Os sentimentos já não tinham importância. O dever abarcava tudo – a vingança era extrema.
Foco! Devo manter minha mente no trabalho que há para fazer!, ordenou a si mesmo, e logo assentiu rapidamente para alguns guerreiros.
― Dispersem a multidão!
Neferet fez uma pausa para falar com Lenobia antes de sair do centro do campus e se dirigir às habitações dos professores. Dragon apenas lhe deu uma espiada. Logo depois, sua atenção se voltou para a grande pira e para o corpo em chamas do menino.
― A multidão está sendo dispersa, Mestre da Espada. Quantos de nós ficaremos para fazer a vigília com o senhor? ― Christopher, um de seus oficiais superiores, perguntou.
Dragon vacilou antes de contestar, lhe tomou um momento concentrar-se o suficiente para absorber o fato de que os novatos e professores que se aglomeravam incertamente ao redor da brilhante pira ardente estavam agitados e completamente angustiados. O dever. Quando todo o resto falha, recorra ao dever!
― Que dois guardas escoltem os professores de volta a suas residências. O resto de vocês irá com os novatos. Assegurem-se de que todos regressem a suas habitações. Permanecerão perto de seus dormitórios pelo resto desta terrível noite ― a voz de Dragon estava rouca pela emoção ― os estudantes precisam sentir a presença protetora de seus guerreiros Filhos de Erebus para que possam ao menos sentir-se seguros, mesmo que não parecem muito seguros disso.
― Mas a pira do garoto...
― Eu ficarei com Jack ― Dragon falou em um tom que não permitia discussão ― não deixarei o menino até que o resplendor vermelho de suas cinzas se transforme em óxido. Cumpra seu dever, Christopher, a House of Night precisa de você. Me ocuparei para que a tristeza fique apenas aqui.
Christopher fez uma reverência e logo começou a distribuir ordens, seguindo as ordens do Mestre da Espada com fria eficiência.
Parecia que só haviam passado segundos quando Dragon percebeu que estava só. Ali estava o som da pira ardente – o enganosamente tranquilizador estalido do fogo. Exceto por isso, só havia a noite e o enorme vazio no coração de Dragon.
O Mestre da Espada mirava fixamente as chamas como se pudesse descobrir o bálsamo que apaziguaria sua dor dentro delas. O fogo tremeluzia do âmbar ao ouro e ao vermelho, recordando a Dragon uma delicada joia – única, delicada, atada por um fio de cabelo cor de sangue na lenha.
Como se por conta própria, sua mão enfiou-se no bolso. Seus dedos se fecharam ao redor de um disco oval que encontrou ali. Era fino e macio. Ele podia sentir o fino indício do bluebird que uma vez havia estado gravado tão claro e belamente no verso. A peça dourava descansava comodamente em sua mão. Agarrou-a, protegeu-a e segurou-a antes de puxar lentamente o medalhão o bolso. Dragon enrolou a tira de couro aveludada pelos seus dedos, esfregando-a com seu polegar num movimento distraído e familiar que era mais por hábito que tensão. Expulsando uma profunda respiração que soava mais como um soluço que um suspiro, abriu sua palma e mirou o que havia.
A luz da pira de Jack se refletiu na superfície dourada do medalhão, capturando o desenho do bluebird.
― Bluebird, Sialia sialis, a ave estatal do Missouri! ― Dragon disse em voz alta.
Sua voz estava desprovida de emoção, embora a mão que segurava o medalhão tremesse.
― Me pergunto se todavia posso te encontrar no ambiente selvagem, no alto dos girassóis que ficam junto ao rio. Ou a sua beleza e a de todas as flores se extinguiram, também, junto com toda a beleza e a magia deste mundo?
Sua mão se cerrou tão fortemente sobre o medalhão que seus nós dos dedos ficaram brancos.
E logo, tão rapidamente quanto seu punho havia fechado, Dragon afrouxou o aperto, abrindo sua mão e voltando a admirar respeitosamente a joia de ouro outra vez.
― Idiota! ― sua voz era entrecortada ― podia ter quebrado!
Dedos temerosos tocaram nervosamente a peça, tentando abri-la. O medalhão abriu facilmente, ileso, mostrando uma imagem que, embora desvanecida pelo tempo, ainda mostrava o rosto sorridente de uma pequena vampira cujo olhar parecia capturar e reter o dele.
― Como você pôde ir? ― Dragon murmurou.
Um dedo traçou o antigo retrato do lado direito do medalhão, e logo se moveu para a metade esquerda da joia para acariciar um único cacho loiro que havia ali, onde seu retrato mais jovem havia estado uma vez. Seu olhar de moveu do medalhão até o céu noturno e repetiu a pergunta mais forte, desde sua alma, demandando uma resposta.
― Como você pôde ir?
Como em resposta a Dragon, ele escutou o ressonante grasnar peculiar de um corvo.
A ira inundou Dragon, tão forte e fervente que suas mãos outra vez tremeram – só que desta vez não de dor ou perda, mas pela necessidade de controlar seu instinto de golpear, mutilar, vingar.
― Te vingarei ― a voz de Dragon era como a morte. Mirou o medalhão mais uma vez e falou para o trêmulo cacho loiro ― Seu dragão te vingará. Corrigirei o que permiti que saísse mal. Não cometerei o mesmo erro outra vez, meu amor. A criatura não sairá impune. Te dou meu juramento.
Uma rajada de vento cálido da pira soprou repentinamente forte, levantando a mecha de cabelo enquanto Dragon tentava, sem êxito, detê-la, o cacho flutuou fora de seu alcance cada vez mais para cima, pela cálida corrente de ar, quase como uma pluma. Imediatamente depois, com um som parecido com o arquejo de uma mulher, o cálido vento mudou, levando a mecha de cabelo até a fogosa pira, onde se transformou em fumaça e recordações.
― Não! ― Dragon gritou, caindo de joelhos com um soluço. ― E agora perdi a última parte de ti. Foi minha culpa... ― disse, começando a chorar ― foi minha culpa, a sua morte foi minha culpa.
Através das lágrimas que enchiam seus olhos, Dragon viu que a fumaça da mecha de cabelo de sua amada companheira redemoinhou e dançou diante dele – e logo começou a brilhar magicamente, mudando de fumaça a um pó com flashes amarelos, verdes e marrons que seguiram girando várias vezes até que começaram a separar-se e formar partes distintas de uma imagem: os brilhos verdes se converteram em um caule largo e grosso – as delicadas pétalas amarelas de uma flor com seu centro marrom.
Dragon limpou seus olhos inundados de lágrimas para acreditar no que estava vendo.
― Um girassol?
Seus lábios se sentiam tão anestesiados pelo choque quanto seu cérebro. É a sua flor!, sua mente gritou. Deve ser um sinal dela!
― Anastasia! ― Dragon gritou apesar do entorpecimento, dando um passo à terrível e maravilhosa centelha de esperança. ― Está aqui, minha amada?
A imagem do girassol tremulou e começou a flutuar e mudar. O amarelo fluiu em uma cascata que se transformou em louro dourado. O marrom clareou para tomar o tom da pele beijada pelo sol, e o verde se fundiu com a pele, derretendo-se e tornando-se brilhantes orbes que se converteram em olhos que eram de um turquesa familiar e adorado.
― Oh deusa, Anastasia! É você!
A voz de Dragon se quebrou enquanto tratava de alcançá-la. Mas a imagem de elevou – um brilho brincalhão além da ponta de seus dedos. Ele gritou em frustração e logo reprimiu o som de seu sofrimento enquanto a voz de sua companheira começava a verter-se ao redor dele como uma corrente de água musical sobre seixos. Dragon se conteve em alento e escutou a mensagem.

Eu enfeiticei este medalhão para ti, meu amado, meu companheiro.
Chegou o dia em que a morte nos obrigou a nos separar.
Deve saber que, para sempre, estarei esperando por ti.
Até que nos encontremos, mantenho seu amor seguro dentro do meu coração.
Lembre, seu juramento era equilibrar a força com a misericórdia.
Não importa quanto tempo estivermos separados, tem que cumprir esse juramento.
Eternamente... eternamente...

A imagem sorriu-lhe uma vez antes de perder sua forma e voltar a ser fumaça, e logo nada.
― Meu juramento! ― Dragon gritou, colocando-se de pé. ― Primeiro Nyx e agora você me recorda. Não entende que por culpa desse maldito juramento você está morta? Se tivesse escolhido de maneira diferente há muitos anos, talvez tivesse evitado tudo isso que passou. A força equilibrada pela misericórdia foi um erro. Não se lembra, minha amada? No se lembra? Eu sim. Nunca esquecerei...
Enquanto Dragon Lankford, Mestre da Espada da House of Night, mantinha vigília sobre o corpo de um calouro caído, manteve-se olhando a ardente pira e deixou que as chamas o levassem de volta para que ele pudesse reviver a dor e o prazer – a tragédia e o triunfo – de um passado que havia dado forma a um futuro desolador.

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