7 de novembro de 2015

Capítulo 1 - Intriga gerou curiosidade, e curiosidade gerou exploração...



Era uma vez, há muito, muito tempo, havia apenas a energia divina do universo. A energia não era boa nem ruim, nem luz nem sombra, nem masculina nem feminina. Ela simplesmente existia, um turbilhão de possibilidades, chocando-se, juntando-se e crescendo. Quando a energia cresceu, evoluiu. Quando ela evoluiu, criou.
Primeiro veio a criação dos reinos do Outromundo – intermináveis preenchidos com os sonhos da Divindade. Estes domínios eram tão bonitos que inspiraram a energia a continuar a criar, e desde o ventre de cada um dos reinos do Outromundo grandes sistemas solares nasceram, reflexões tangíveis da mágica do velho Outromundo.
A energia divina do universo estava tão satisfeita com suas criações que começou a mudar e mudar conforme os vórtices de poder dentro de si, como borboletas, eram atraídos para os diferentes universos. Em alguns, a Energia estava contente e descansada, eternamente existente em uma órbita espiral de belas estrelas e luas e planetas, mas vazios.
Em alguns a energia destruiu suas criações, mais satisfeita com ela mesma do que com as possibilidades.
E em alguns a energia continuou a mudar, evoluir e criar.
Em um reino do Outromundo, a Energia Divina era particularmente questionadora e precoce, agitada e alegre, porque mais do que qualquer coisa, desejava companheirismo. Assim, a partir dos bosques verdejantes e lagos cor de safira do Outromundo, o Divino criou seres fabulosos e deu vida a eles.
O sopro do Divino trazia consigo imortalidade e consciência. O Divino nomeou esses seres Deuses, Deusas e deidades. Ele concedeu aos Deuses e Deusas domínio sobre todos os reinos do Outromundo, e encarregou as deidades de servi-los.
Muitos dos seres imortais se espalharam por todos os domínios infinitos do Outromundo, mas os que ficaram satisfizeram grandemente o Divino. A eles, o Divino presenteou um domínio adicional sobre todos os outros imortais, o da gestão de um planeta em particular no seu sistema – um planeta que intrigou a Energia Divina porque refletia a beleza verde e azul do Outromundo.
Intriga gerou a curiosidade, e curiosidade gerou exploração, até que finalmente o Divino não pôde resistir a acariciar a superfície do planeta verde-e-safira. O planeta acordou, nomeado Terra. Terra acenou para o Divino, convidando-o para dentro de suas terras exuberantes e suas doces águas calmantes.
Cheios de admiração, os Deuses e Deusas assistiam.
Encantada com a sua própria criação, a Energia Divina se juntou à Terra. Ela lhe agradava muito, mas a energia não podia ser contida. A Terra compreendeu e aceitou a sua natureza, nunca a amando menos por aquilo que não poderia ser mudado. Antes que a deixasse para perambular o universo, buscando mais companheirismo, a Energia Divina deu a Terra o seu dom – a mais preciosa magia – que era o poder de criação.
A Terra, jovem, sensual e fértil, começou a criar.
A Terra semeou as terras e os oceanos com seu dom da criação, e deles evoluíram criaturas de tal magnitude que os Deuses e Deusas que assistiam do Outromundo começaram a visitá-la frequentemente, deleitando-se com a diversidade da Terra viva.
A Terra congratulou-se com os imortais, filhos de seu amado Divino. Ela os amava tão ternamente que se inspirou para criar uma criação muito especial. A partir de seu seio, ela formou e, em seguida, deu vida a seres que ela criou à própria imagem dos Deuses e Deusas, nomeando-os seres humanos.
Embora a Mãe Terra não fosse capaz de presentear a seus filhos com imortalidade – que era um presente que apenas a Energia Divina podia conceder – ela colocou dentro de cada um deles uma centelha da Divindade que havia sido compartilhada com ela, garantindo que, apesar de seus corpos devessem sempre voltar à terra do qual tinham sido feitos, sua consciência continuaria eternamente sob a forma de espírito, para que eles pudessem renascer de novo e de novo para a Mãe Terra.
Criadas à sua imagem, as crias da Terra encantaram os Deuses e Deusas. Os Deuses e Deusas prometeram vigiá-los e compartilhar o Outromundo com os espíritos divinos dentro deles quando o inevitável acontecesse, e os seus corpos mortais morressem.

* * *

No início estava tudo bem; os seres humanos prosperaram e se multiplicaram. Eles estavam agradecidos à Mãe Terra, cada cultura considerando-a sagrada. Os Deuses e Deusas visitaram as crianças da Terra, muitas vezes, e os seres humanos os reverenciavam como o Divino.
A Mãe Terra observava, notando quais filhos do Divino eram benevolentes, e quais eram impetuosos. Quais deles sabiam perdoar, e quais eram vingativos. Quais deles eram amáveis e quais eram cruéis.
Quando os imortais eram benevolentes, tolerantes e bondosos, a Mãe Terra estava satisfeita, e mostrava-lhes o prazer de terras férteis, chuvas têmperas e cultivos em grande quantidade.
Quando os imortais eram impetuosos, vingativos e cruéis, a Mãe Terra virava o seu rosto para longe deles e havia seca, fome e peste.
As impetuosas, vingativas e cruéis divindades tornaram-se entediadas com a seca, a fome e peste e pararam de visitar a Terra viva.
A Mãe Terra estava satisfeita, e se retirou para dentro de si mesma, descansando do esforço da criação, dormindo por eras incontáveis. Quando finalmente acordou, olhou para as crianças do Divino, e estas mal tomaram conhecimento de sua presença em tudo.
Chamando Ar para ela, a Mãe Terra enviou uma mensagem para o Outromundo, rogando aos filhos de seu amado que se lembrassem de seu voto, e convidando-os a voltar para ela.
Apenas um imortal respondeu seu apelo.
A Deusa manifestou-se durante uma noite clara, quando a lua estava quase cheia, em uma ilha acidentada ainda a ser nomeada. Quando a Mãe Terra tornou-se consciente da Deusa, viu a imortal sentada diante de um bosque, a mão delicada estendida para um gato selvagem curioso.
— Onde estão as outras crianças do Divino? — a voz da Mãe Terra era o desprendimento das folhas de espinheiro no bosque.
A Deusa deu de ombros em um gesto que a Mãe Terra achou surpreendentemente infantil.
— Eles foram embora.
O chão tremeu em resposta à surpresa da Mãe Terra.
— Todos? Como podem todos ter ido embora?
— Eles disseram que estavam entediados e tornaram-se inquietos.
A Deusa balançou a cabeça e seu cabelo longo brilhava à luz do luar, mudando de loiro à prata.
As folhas das árvores do bosque estremeceram.
— Assim como seu pai — a Mãe Terra sussurrou tristemente. — Por que todos eles deveriam me deixar?
A Deusa suspirou.
— Eu não sei. Eu não entendo como eles poderiam ficar entediados aqui. — Ela acariciou o gato selvagem que tinha se enrolado amorosamente ao redor de seus pés. — Há algo novo todos os dias. Imagine, ontem eu não sabia que esta maravilhosa criatura existia.
Satisfeita, a Mãe Terra aqueceu a brisa que levava sua voz no bosque.
— Você deve ter sido formada a partir de um dos sonhos mais tangíveis dele.
— Sim — a Deusa disse melancolicamente. — Eu só queria que mais de seus sonhos tivessem sido como eu. É... — Ela hesitou, como se incapaz de decidir se queria continuar.
— É o quê? — Solicitou a Mãe Terra.
— Solitário — admitiu ela suavemente. — Especialmente quando não há outros seres como eu.
A Mãe Terra sentiu a tristeza da Deusa e, tendo pena dela, chamou o bosque, onde à partir do musgo e sujeira, folhas e flores, a Mãe Terra tomou uma forma tangível.
A Deusa sorriu para ela. Tão bonita quanto as asas leves de uma borboleta, a Mãe Terra sorriu de volta, perguntando:
— Qual o seu nome, Deusa?
— Os seres humanos me chamam de muitos nomes.
A Deusa deu ao gato uma carícia final e, em seguida, endireitou-se, abrindo largamente seus braços.
— Alguns me chamam de Sarasvati — o corpo dela mudou na forma, a pele clara escurecendo, o cabelo de um tom claro como o luar indo para o preto tal qual a asa de um corvo enquanto um outro par de braços delgados de repente apareceu. Ainda sorrindo, a Deusa continuou: — Nidaba é o nome que alguns dos seus filhos sussurram em suas orações.
Mais uma vez, a Deusa mudou forma, criando asas e substituindo seus pés em garras.
— E não muito longe desta mesma ilha, eles começaram a me conhecer como Breo-saighead, portadora do fogo e da justiça.
Com esse pronunciamento, a Deusa assumiu a forma de uma bela mulher com cabelos cor de fogo, sua pele branca decorada por tatuagens tribais brilhantes cor de safira.
Encantada, a Mãe Terra bateu palmas, e as borboletas que dormiam despertaram para girar em torno dela.
— Mas eu a conheço! Tenho observado essas Deusas por incontáveis eras. Você é gentil e benevolente e justa.
— Eu sou. E também sou sozinha.
O fogo desapareceu de seu cabelo, e mais uma vez a Deusa parecia uma donzela de cabelos loiros, inocente e docemente triste.
— Que nome você gostaria que eu a chamasse? — perguntou a Mãe Terra, querendo distraí-la de sua melancolia.
A Deusa considerou, e, em seguida, respondeu, um pouco timidamente:
— Há um nome que gosto mais do que os outros – Nyx. Lembra-me da noite, e eu amo tanto a tranquilidade da noite, a beleza do luar.
Enquanto ela falava, a Mãe Terra viu que a sua forma alterou-se ligeiramente. Ela ainda parecia jovem, mas ergueu o queixo, sorrindo para a lua, delicada, a tatuagem filigranada brilhando em prata e safira sobre sua pele, tornando seu olhar misterioso e incrivelmente belo. Com um pensamento, a Mãe Terra chamou magia do céu noturno e espargiu sobre a Deusa, de modo que se estabeleceram em cima dela como um cocar de brilhantes – a lua e as estrelas.
— Oh! É lindo! Posso ficar com ele? — exclamou a Deusa, girando alegremente.
— Você é linda, Nyx. E pode mantê-lo com uma condição: que, em vez de seguir os outros, você não abandone os meus filhos e a mim.
Nyx ficou muito quieta. Seu jeito de menina esvaiu-se dela até que a Mãe Terra estava olhando nos olhos de uma Deusa madura que usava sabedoria e poder, tão certo como ela usava o manto de luar. Quando Nyx falou, a Mãe Terra ouviu em sua voz dentro o poder da Divindade.
— Não precisa me prender aqui com suborno. Esses truques não são dignos de você. Quando criou os humanos, eu jurei que os vigiaria e faria um lugar para que dentro deles permanecesse eterno e divino. Eu nunca quebraria uma promessa.
Lentamente, a Mãe Terra inclinou a cabeça para Nyx.
— Perdoe-me.
— Com todo o meu coração — respondeu Nyx.
A Mãe Terra parou, e com o farfalhar de vento que varre através de um prado da grama alta, ela moveu-se para o lado de Nyx e segurou o rosto da Deusa entre as palmas das mãos verdejantes.
— E agora dou-lhe livremente um presente – um que é digno de nós duas. A partir desta noite, concedo-lhe o comando sobre os meus cinco elementos: Ar, Fogo, Água, Terra e Espírito. Chame qualquer um deles, e eles devem responder, cumprindo o seu comando eternamente.
A Mãe Terra beijou Nyx em sua testa.
A partir do centro da testa de Nyx uma lua crescente perfeita apareceu, e de ambos os lados de seu rosto, espalhando-se para baixo belo corpo da Deusa, um padrão de filigranas apareceu, tendo sinais e símbolos que representavam todos os cinco elementos.
Nyx ergueu o braço fino, estudando suas novas marcas em apreciação.
— Isto é tão especial como são cada um dos elementos. Apreciarei seu presente eternamente. — O sorriso de menina de Nyx retornou. — Por isso eu também agradeço de todo o meu coração. Depois desta noite, eu não me sinto tão só, nem tão assustada.
— Assustada? Mas o que poderia assustar um imortal criado pelo Divino?
Nyx afastou uma mecha de cabelo de prata de seu rosto, e a Mãe Terra notou que sua mão tremia.
— Escuridão — a Deusa sussurrou a palavra.
A Mãe Terra sorriu enquanto se sentou sob a árvore mais próxima de Nyx.
— Mas você só falou sobre a paz e beleza da noite. Como, então, poderia a escuridão assustá-la?
— A noite nunca poderia me assustar; não é da escuridão literal de que falo, mas de uma intangível em que sinto uma busca, um poder crescente que não conhece nada da paz e alegria e beleza, que não conhece nada do amor — Nyx falou baixinho, mas sinceramente. — Ele não está totalmente inserido no Outromundo ainda, mas eu o tenho percebido muitas vezes aqui, no reino mortal. Acho que fica mais forte quanto mais fico sozinha.
A Mãe Terra considerou suas palavras cuidadosamente antes de responder.
— Sinto a verdade em seu medo. Esta escuridão se agravar com a sua solidão me diz que o que aconteceu com você está afetando meu reino e muito possivelmente se espalhará para o Outromundo. Deusa, temo que nossos reinos tornem-se desequilibrados.
— Como vamos restaurar o que foi perdido?
A Mãe Terra sorriu.
— Eu acredito que o nosso primeiro passo já foi dado. Vamos concordar em ser amigas. Enquanto eu existir, você nunca ficará realmente sozinha novamente.
Nyx lançou os braços ao redor da Mãe Terra.
— Obrigada!
A Mãe Terra devolveu o abraço.
— Querida criança, você me trouxe muita alegria esta noite. Vai me encontrar de novo? Aqui, neste bosque, daqui a três noites, portanto, quando a lua estiver cheia?
— Seria um prazer — Nyx levantou-se e inclinou a cabeça regiamente para a Mãe Terra. Sorrindo, ela inclinou-se e pegou o gato selvagem em seus braços. Em uma explosão de estrelas de brilho prata, ela e o animal desapareceram.
Enquanto observava o rastro de estrelas desaparecer, a Mãe Terra descansou contra a pele de um espinheiro, pensando... pensando... pensando... Durante três dias e três noites a Mãe Terra não se mexeu.
No terceiro dia, o bosque estava tão infundido com a magia de sua presença que trouxe tal abundância de luz solar que a floresta cobrindo a pequena ilha começou a florescer roxa com alegria.
A Mãe Terra sorriu para o sol, e o sol se acelerou em resposta.
Quando a noite caiu no terceiro dia, a lua foi atraída para o bosque pela magia de sua presença, se aproximando tanto da pequena ilha que os aglomerados de rochas escarpadas que pontilhavam a paisagem mudaram de cor permanentemente, refletindo o branco do luar, infundidas com a magia da noite.
A Mãe Terra sorriu para a lua, e a lua se acelerou em resposta.
Com um pequeno som de satisfação, a Mãe Terra soube o que deveria fazer para esta última, esta só, esta mais especial Deusa, Nyx.

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