6 de novembro de 2015

8 de maio de 1893

Diário de Emily Wheiler
Diário de Neferet
Primeira e última anotação


Eu decidi. Eu fiz a minha escolha. Esta será a minha última anotação no diário. Ao reler o fim da história de Emily Wheiler e o início de uma nova vida maravilhosa como Neferet, completarei o que comecei aqui nestas páginas, há seis meses.
Eu não sou louca.
Os eventos horríveis que me aconteceram e que estão registrados nestas páginas não aconteceram por causa da histeria ou paranoia.
Os eventos horríveis aos quais sobrevivi aconteceram porque, como uma jovem humana, eu não tinha controle sobre a minha própria vida. Mulheres invejosas me condenaram. Um homem fraco me rejeitou. Um monstro abusou de mim. Tudo porque eu não tinha o poder de controlar o meu próprio destino.
O que quer que esta nova vida como uma caloura – e apenas posso esperar, uma vampira totalmente Transformada – me traga, faço uma promessa a mim mesma: eu nunca permitirei que qualquer pessoa possa ganhar controle sobre mim novamente. Não importa o custo – eu escolherei o meu próprio destino.
É por isso que na noite passada eu o matei. Ele usou e abusou de mim. Quando fez o que tinha total controle sobre mim. Tive que matá-lo para recuperar o controle. Ninguém nunca vai me prejudicar sem sofrer igual ou mais em troca. Fingi para Cordelia e o Conselho Escolar que eu não tinha a intenção de matá-lo, que ele havia me forçado a isso, mas isso não é a verdade.
Aqui nestas páginas finais do meu diário, direi apenas a verdade.
E então a verdade será enterrada com este livro, e com ele enterrarei meu passado.
Até a minha mentora, Cordelia, uma Alta Sacerdotisa que tem poder e beleza, em igual medida, e que tem estado ao serviço da Deusa da Noite, Nyx, por quase dois séculos, não entende a minha necessidade de equilibrar a balança da minha vida.  A noite depois de eu ter sido Marcada e entrado na House of Night, que eu tinha deixado a enferaria e ela me mostrara o meu novo quarto de dormir – belo e espaçoso – que, por causa do meu corpo ferido, eu o tinha só para mim. Lá, ela tentou falar comigo sobre ele.
“Emily, o que aquele homem fez com você foi abominável. Quero que você ouça com atenção. Você não tem culpa nenhuma da violência que ele fez com você”, ela disse.
“Não acredito que seja assim que ele e seus amigos vejam”, falei.
“A lei humana e a dos vampiros não são a mesma. Os seres humanos não têm jurisdição sobre nós.”
“Por quê?” perguntei.
“Porque os seres humanos e vampiros não são os mesmos. Há, de fato, mais deles do que nós, mas poucos possuem maior riqueza e poder em comparação como indivíduos do que eles podem ter a esperança de alcançar. Nós somos mais fortes, mais inteligentes, mais talentosos e mais bonitos. Sem vampiros, seu mundo não seria nada mais do que uma vela apagada.”
“Mas e se ele vier atrás de mim?”
“Ele será impedido. Aquele homem nunca vai machucá-la novamente. Você tem meu juramento sobre isso.”
Cordelia não erguera a voz, mas eu podia sentir o poder da raiva em suas palavras tocando minha pele, e eu acreditei nela.
“Mas e se eu quiser ir atrás dele?”
“Para quê?”
“Para fazê-lo pagar pelo o que ele fez a mim!”
Cordelia suspirou. “Emily, não podemos prendê-lo mais do que ele pode apreender um de nós.”
“Eu não quero que ele fique preso!” gritei.
“O que você quer?”
Eu quase admiti a verdade para ela, mas havia algo em seu olhar sereno e na honestidade em seu belo rosto que parou minhas palavras. Eu não tinha feito minha escolha ainda, mas o instinto me disse para manter os meus mais profundos pensamentos e desejos para mim, e isso foi exatamente o que fiz.
“Eu quero que ele admita que é um monstro, e que o que ele fez para mim foi errado”, falei no lugar.
“E você acha que isso a ajudaria a se recuperar?”
“Sim.”
“Emily, em verdade lhe digo que acredito que você tem um poder único para se formar dentro de você. Senti isso desde a primeira vez em que a vi. Sinto que a nossa Deusa tem grandes dons preparados para você. Você poderia ser uma grande força para o bem, especialmente à medida que foi ferida de forma tão violenta pelo mal, mas deve escolher curar e libertar o mal feito para você, para deixá-lo morrer com sua antiga vida.”
“Então ele nunca pagará pelo o que fez a mim.” Eu não tinha elaborado as palavras como uma pergunta, mas ela respondeu.
“Talvez não nesta vida. Isto já não é sua preocupação. Filha, uma coisa que aprendi ao longo dos últimos dois séculos é que a necessidade de retribuição é uma maldição, porque é impossível de alcançar. Não há duas pessoas, humanos ou vampiros, nunca irão amar, odiar, sofrer ou perdoar da mesma forma. Assim, uma necessidade insaciável de retribuição e vingança torna-se um veneno que vai manchar a sua vida e destruir a sua alma.” Ela tocou no meu braço e continuou com mais delicadeza. “Pode ajudar se seguir a tradição de inúmeros novatos antes de você e escolher um novo nome para simbolizar a sua nova vida.”
“Considerarei isso”, concordei. “E também vou tentar esquecê-lo.”
Eu não levei muito tempo para considerar. Eu sabia o nome que eu queria levar para minha nova vida.
Tentei esquecê-lo. Quando olhava no espelho e via os hematomas roxos em minha pele branca, eu me lembrava dele. Quando as partes mais íntimas do meu corpo doíam e sangravam, eu me lembrava dele. Quando eu acordava gritando, minha voz rouca de reviver o pesadelo do que ele fez para mim, eu me lembrava dele.
Então ele tinha que morrer. Se eu fosse amaldiçoada por minha necessidade de retribuição e vingança, então que assim fosse.

* * *

Esperei uma semana. Demorou tanto tempo para o meu corpo se recuperar. E quando recuperou, eu agi. Eu tinha sido Marcada há apenas sete dias, mas já era mais forte do que uma fêmea humana. Minhas unhas tinham endurecido e alongado. Meu cabelo estava mais grosso e mais cheio, mais do que antes.
Mesmo meus olhos esmeralda estavam começando a mudar.
Ouvi um dos Filhos de Erebus, os guerreiros cujo único dever era proteger calouros e vampiras, dizer que os meus olhos estavam se tornando as esmeraldas mais fascinantes que já tinha contemplado.
Gostei do que eu estava me tornando, o que me deixou ainda mais determinada a livrar-me do meu passado.
Não tinha sido difícil deixar a House of Night. Eu não era uma prisioneira. Era uma estudante, respeitada e apreciada pela minha beleza e pelo o que Cordelia chamou de meu potencial. Os alunos tinham acesso a uma frota de carruagens e mais bicicletas do que todos os membros do Clube Hermes possuíam. Poderíamos deixar o campus sempre que desejássemos. Me foi dada uma liberdade quase ilimitada. A única ressalva era usamos um toque de maquiagem para cobrir a lua crescente tatuada no centro de nossas testas, e vestir-nos modestamente para chamar o mínimo de atenção possível.
Meu vestido era modesto. Apesar de ter sido elegantemente feito de linho fino, era na cor cinza, de gola alta, e sem adornos. Sem tocá-lo, não se saberia como era caro, e ninguém estava autorizado a me tocar.
Minha capa com capuz escondia facilmente a única parte opulenta - o meu conjunto de pérolas de Alice Wheiler. A minha escolha de usá-las naquela noite tinha sido premeditada. A ideia de usá-las tinha chegado a mim enquanto eu estava sentada no meu novo jardim e esperando que o meu corpo se curasse.
A House of Night é uma escola, mas uma pouco usual. As aulas eram ministradas apenas à noite. Os estudantes e os nossos professores e mentores, sacerdotisas e guerreiros, dormiam durante o dia, seguros atrás de espessas paredes de mármore que eram fortemente reforçadas com uma magia de outro mundo que retirava força da noite, da lua, e da deusa que reina sobre todos nós.
Cordelia tinha me explicado que eu seria dispensada das aulas até que meu corpo estivesse completamente curado, mas então eu me juntaria aos outros calouros e seria imersa em uma grade fascinante, onde cresceria e continuaria ao longo dos próximos quatro anos, culminando em uma das duas coisas: a minha Mudança para vampira completa ou a minha morte.
A única morte que me preocupava era a dele.
Enquanto ganhava força e saúde, eu explorava o palácio que era a House of Night e os jardins que eram cercados por muros de mármore branco. Eu pensei que os jardins da Casa Wheiler fossem bonitos, e que nunca esqueceria meu salgueiro, minha fonte e o conforto que encontrei dentro das sombras de lá, mas depois de ver os jardins dos vampiros, todos os outros seriam insignificantes em comparação.
Os jardins da House of Night tinham sido criados para serem totalmente apreciados somente após o pôr do sol.
Jasmins que floresciam à noite, flores da lua, prímulas e lírios que se abriam para a lua e lançavam uma fragrância que era doce e gratificante, e estendiam-se por hectares e hectares. Dezenas de fontes e estátuas estavam situadas em toda a propriedade, cada uma delas ilustrando uma versão diferente da Deusa Nyx.
Eu tinha procurado e encontrado facilmente um salgueiro que ficava em uma área não muito longe de uma estátua de mármore particularmente bela da deusa, seus braços levantados, o corpo exuberante descaradamente nu. Sob o meu novo salgueiro, também encontrei a escuridão familiar e as sombras que acalmavam meu corpo e espírito maltratado.
Foi lá que eu me sentei, de pernas cruzadas sobre um tapete de musgo, e derramei as pérolas do colar quebrado de Alice Wheiler em um pano escuro. Então, cercada por dissimulação, confortada pelas sombras, usei um fio, fino como um fio de cabelo, e construí um novo colar a partir dos restos do antigo. Este não era o de fio triplo e elegante. Este seria um longo colar de pérolas – muito parecido com um laço.
Cordelia ficara confusa quando pedi o fio, a agulha e uma tesoura. Quando expliquei que eu queria refazer o antigo colar da minha mãe, assim como eu estava fazendo a minha vida de novo, ela me deu os suprimentos que eu precisava, mas eu podia dizer pelo seu rosto que ela não aprovava.
Eu não precisava de sua aprovação.
À noite eu terminei o colar, cortando o fio para prendê-lo em torno do fecho de esmeralda e usei a agulha para espetar o dedo e molhar a ponta do fio. Eu assisti, fascinada, como o meu sangue seguiu o fio fino e desapareceu dentro das pérolas. Parecia certo que o meu sangue selasse a reconstrução do colar.
O longo e único fio tinha sido um peso reconfortante contra o meu peito quando saí da House of Night e comecei andar os três quilômetros a pé até a South Prairie Avenue. A lua minguante estava alta no céu, mas protegida por nuvens, oferecia pouca luz. Fiquei feliz com a cobertura das nuvens. Eu me senti confortada pela escuridão e una com as sombras, tanto que, até o momento em que cheguei à Casa Wheiler, parecia que eu havia me tornado uma sombra de mim.
Era bem depois da meia-noite quando destravei a porta do jardim e, movendo-me em silêncio, refiz o caminho que apenas uma semana atrás eu tinha deixado salpicado com meu sangue.
A entrada de serviço estava, como de costume, destrancada.
A casa dormia. Com exceção de duas lanternas à gas na base da escadaria, estava escuro. Eu apague as luzes quando cheguei às escadas. Nas sombras, subi um degrau depois do outro. Eu me senti como se flutuasse com a escuridão.
A porta dele estava destrancada. A única luz em seu quarto vinha da lua envolta em nuvens que brilhava através de suas longas janelas chanfradas.
Era luz o suficiente para mim.
Seu quarto fedia a ele. O cheiro nocivo de álcool, suor e sujeira fez meu lábio enrugar, mas não me dissuadiu.
Silenciosamente, eu me movi para a sua cabeceira e fiquei em cima dele, assim como ele tinha ficado em cima de mim há uma semana.
Ergui as pérolas do meu pescoço e segurei-as, esticadas e prontas em minhas mãos.
Então juntei catarro na minha boca e cuspi na cara dele.
Ele acordou piscando em confusão, e limpando minha saliva de seu rosto.
“Acordado, não é? Que bom. Você precisa estar. Temos coisas para resolver entre nós,” repeti suas palavras para ele.
Ele balançou a cabeça, como se vindo de dentro de uma tempestade. Em seguida, seus olhos se arregalaram em reconhecimento chocado.
“Emily! É você! Eu sabia que você voltaria para mim. Eu sabia que o que aquele garoto Simpton tinha dito sobre um vampiro Marcá-la e levá-la para longe era uma mentira.”
Quando ele lutou para se sentar, eu bati nele. Com velocidade e força que nenhuma garota humana poderia ter juntado, envolvi as pérolas presas no fio ao redor de sua garganta gorda. Então apertei o laço. Enquanto apertava e apertava, tranquei o meu olhar no dele e com uma voz que não tinha qualquer indício de suavidade humana, falei:
“Eu não voltei para você. Voltei para matar você.”
Seu corpo começou a convulsionar e suas grossas mãos quentes bateram contra mim, mas eu já não era uma garota doente e fraca. Seus golpes me marcaram, mas eles não me impediram.
“Sim, me bata! Contunda-me! Isso só vai dar veracidade à minha história. Veja, eu tive que me defender quando você me atacou novamente. Eu só queria que você admitisse que o que fez para mim estava errado, mas você tentou me violar novamente. Desta vez, você falhou.”
Seus olhos se arregalaram em seu rosto escarlate e até parecia que ele chorou lágrimas de sangue. Pouco antes de ele se engasgar com seu último suspiro, eu lhe disse: “E eu não sou Emily. Eu sou Neferet.”
Depois, soltei as pérolas ao redor de seu pescoço. Elas tinham cortado profundamente sua carne flácida e estavam cobertas de sangue. Eu as carreguei com cuidado, refazendo meu caminho pelas ruas escuras de Chicago. Quando cheguei à ponte de metal State Street, que se estendia das profundezas fétidas do rio Chicago, fiz uma pausa e deixei cair o colar dentro da água. Pareceu que ele flutuou sobre a água escura por muito tempo e, em seguida, gavinhas oleosas banharam por cima, puxando as pérolas da superfície como um sacrifício aceito.
“Isso termina aqui,” jurei em voz alta para a escuridão da noite. “Com a morte dele, minha nova vida como Neferet começa.”
Quando reentrei os portões da House of Night, Cordelia estava, novamente, me esperando. Quando fui para ela foi que comecei a chorar. Minha mentora abriu os braços para mim e, com carinho de uma mãe, me confortou.

* * *

É claro que eu tinha que contar a minha história para o Conselho Escolar. Expliquei-lhes que, embora agora eu pudesse ver que tinha sido imprudente, naquela noite eu simplesmente queria que Barrett Wheiler admitisse que fizera uma coisa medonha para sua filha. Em vez disso, ele me atacou. Eu só tinha tentado me defender.
Foi acordado que eu deveria deixar Chicago, enquanto a polícia local seria subornada e o conselho do banco, silenciado. Foi uma feliz coincidência que um trem da House of Night estivesse saindo na noite seguinte e rumo ao sudoeste, para o Território Oklahoma, com eles buscando uma localização para uma nova House of Night. Eu partiria com ele.
E assim eu fiz. Neste momento, estou sentada em um vagão ricamente decorado, e termino o meu diário.
Cordelia me diz que Oklahoma é a terra sagrada nativo-americana e rica em tradições antigas, bem como a terra mágica. Eu decidi que vou enterrar meu diário lá, nas profundezas da terra, e com ele enterrarei Emily Wheiler, seu passado e seus segredos. Eu realmente começarei de novo e aceitarei o poder e privilégio e a magia da minha deusa, Nyx.
Ninguém nunca saberá meus segredos porque eles serão sepultados na terra, escondidos de forma segura, silenciosa como a morte. Não lamento nenhuma das minhas ações e se isso me amaldiçoa, então a minha oração final é deixar que a maldição seja sepultada com este diário, a ser preso eternamente em solo sagrado.
Assim termina a triste história de Emily Wheiler e assim começa a vida mágica de Neferet – não a pequena rainha do Egito... A rainha da noite!

4 comentários:

  1. vms dizer q nos estamos no lugar de neferet - vcs iriam mata-lo cm ela fez? ou pelo menos, ter um desejo de vinganca?

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  2. Eu também o mataria, mais não tão rápido assim, eu faria com q ele padecesse um pouco antes de terminar com ele.

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  3. Eu o mataria...... Mas o faria sofrer muito mais...

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