6 de novembro de 2015

27 de abril de 1893

Diário de Emily Wheiler


Começo este registro do diário com trepidação. Posso sentir-me mudando. Espero que a mudança seja para melhor, mas confesso que não estou certa de que seja. Na verdade, se vou escrever com toda a honestidade, devo admitir que, mesmo a esperança mudou seu significado para mim.
Estou tão confusa! E com muito, muito medo.
De apenas uma coisa estou certa, e é que eu devo escapar da Casa Wheiler de qualquer maneira. Arthur Simpton proporcionou-me uma fuga lógica e segura, e eu a aceito.
Não sou a criança tonta que era há oito dias, depois daquela primeira noite que Arthur e eu falamos. Continuo a achá-lo ele gentil e charmoso e, é claro, bonito. Acredito que eu poderia amá-lo. Um belo futuro está ao meu alcance, então por que é que sinto uma frieza crescente dentro de mim?
Será que o medo e o ódio que tenho pelo pai começou a me contaminar?
Tremo só de pensar.
Talvez quando eu revir os acontecimentos dos últimos dias, eu encontre as respostas para as minhas perguntas.
A visita de Arthur no jardim tinha, de fato, mudado meu mundo. De repente, o jantar de sábado já não era algo que eu temia, era algo que eu contava as horas para chegar.
Atirei-me no menu, nas decorações, e em cada pequeno detalhe do meu vestido.
O que seria um jantar de cinco pratos que pedi para o cozinheiro fazer de acordo com um dos antigos livros de festa da minha mãe mudou completamente. Em vez disso, passei pelas minhas memórias, desejando que eu tivesse prestado mais atenção – prestado alguma atenção na verdade, quando mamãe e papai discutiam os jantares sociais, especialmente os suntuosos que eles frequentaram no ano anterior, quando ela teve que se retirar da sociedade por causa de sua gravidez. Por fim, lembrei-me como até mesmo meu pai havia elogiado um jantar especial no University Club que fora patrocinado por seu banco e realizado em honra aos arquitetos de exposição. Enviei Mary, cuja irmã participara da equipe de cozinheiros do University Club, para obter uma cópia do menu e, em seguida, fiquei agradavelmente surpreendida quando ela realmente retornou com uma lista  não apenas dos pratos, mas dos vinhos que deviam acompanhá-los. O cozinheiro, que acredito estar até então principalmente penalizado e achando graça das minhas tentativas de tomada do menu, começou a olhar para mim com respeito.
Em seguida, mudei as configurações de mesa e decorações. Eu queria trazer o jardim para dentro, para lembrar Arthur do nosso tempo juntos, então eu supervisionava os jardineiros colhendo lírios perfumados de nossos jardins, embora não de todos os canteiros. Também pedi para eles reunissem taboas da área pantanosa em torno do lago, bem como cortinas de hera. Então comecei a encher vasos e vasos com lírios, taboas e os cobri com hera, esperando todo o tempo que Arthur notasse.
E enquanto eu estava no centro de um turbilhão de atividades de minha própria criação, percebi uma coisa muito interessante: quanto mais exigente eu ficava, mais as pessoas me atenderam. Onde uma vez eu tinha que ficar na ponta dos pés em torno Casa Wheiler, o fantasma da menina tímida que costumava ser, agora eu caminhava propositadamente, gritando comandos com confiança.
Eu continuo a aprender. Esta lição é uma que estou achando importante. Pode haver uma maneira melhor de ordenar o mundo ao meu redor do que a maneira da minha mãe. Ela usou sua beleza e sua voz suave e agradável para convencer, persuadir e conseguir o que queria. Estou descobrindo que prefiro uma abordagem mais forte.
Isso é errado? E a parte da frieza que sinto se espalhando dentro de mim? Como ganhar confiança e controle ser errado?
Seja certo ou errado, usei meu conhecimento recém-descoberto quando escolhi meu vestido. Meu pai tinha, é claro, me mandado usar um dos vestidos de veludo verde da mãe novamente.
Eu recusei.
Oh, eu não era tola o suficiente para recusá-lo sem mais nem menos. Simplesmente rejeitei cada um dos vestidos de veludo verde de minha mãe que Mary me ofereceu. Onde antes ela teria insistido até que eu cedesse, minha nova atitude a deixou confusa.
“Mas, senhorita, você deve usar um dos vestidos de sua mãe. Seu pai tem sido muito firme sobre isso”, ela protestou uma última vez.
“Vou seguir o pedido do pai, mas será em meus próprios termos. Eu sou a Senhora da Casa Wheiler, e não uma boneca para ser vestida.”
Fui ao meu armário e puxei dos cabides o vestido que eu tinha planejado usar em meu baile de debutante. Era de seda creme com cascatas de hera verde bordadas que decoravam a saia. O corpete, embora modesto, era cheio, como a saia, mas a cintura era pequena, de modo que a minha figura tornou-se uma ampulheta perfeita. E os meus braços pareceram mais longos, embora de forma adequada, e nus. Entreguei o vestido a Mary.
“Pegue uma faixa verde de veludo e um laço de um dos vestidos da mamãe. Vou querer a faixa em volta da minha cintura, e costurar o laço na lateral do corpete. E me traga uma de suas fitas de cabelo verdes. Usarei-a em volta do pescoço. Se o pai objetar, posso verdadeiramente dizer a ele que estou usando, o que ele pediu, vestindo veludo verde da mamãe.”
Mary franziu a testa e murmurou para si mesma, mas fez o que pedi. Todo mundo fez o que lhes ordenei. Até o pai foi subjugado quando me recusei a ir para o FGCM na sexta-feira, dizendo que eu estava simplesmente demasiada ocupada.
“Bem, Emily, amanhã tudo deverá estar tão... estar perfeito. Ignorar o trabalho voluntário desta semana é certamente compreensível. É louvável vê-la cumprindo suas responsabilidades como Senhora Casa Wheiler.”
“Obrigada, pai.” Respondi com as mesmas palavras que usei inúmeras vezes antes, mas não tinha suavizado o meu tom e deixado cair a cabeça. Em vez disso, encarei-o diretamente nos olhos, e acrescentei: “E não poderei jantar com você esta noite. Há muito para fazer e o tempo é muito curto.”
“Verdade, bem, verdade. Tenha certeza de usar bem seu tempo, Emily.”
“Oh, não se preocupe, pai. Eu vou”.
Balançando a cabeça para si mesmo, o pai não pareceu perceber que eu deixei a sala antes que ele tivesse me permitido.
Tinha sido um delicioso luxo comandar George para levar uma bandeja até a minha sala de estar sexta-feira. Eu comi em perfeita paz, tomei um gole de um copo pequeno de vinho, e recontei os RSVPs – todos os vinte convites folheados a ouro tinham, de fato, recebido confirmação.
Eu colocara o cartão de resposta dos Simptons no topo da pilha.
Então eu descansava no meu sofá que ficava na pequena varanda do terceiro andar, e queimei seis velas dos castiçais enquanto folheava o último catálogo Montgomery Ward. Pela primeira vez, comecei a acreditar que eu poderia gostar de ser a Senhora da Casa Wheiler.

* * *

A excitação não me impediu de sentir uma corrida vertiginosa de nervos quando Carson fez o anúncio ontem à noite quando os convidados começaram a chegar. Eu tinha dado um último olhar no espelho enquanto Mary amarrava a fita de veludo fino ao redor do meu pescoço.
“A senhorita está muito bela,” Mary me dissera. “Será um sucesso esta noite.”
Eu levantei meu queixo e falei com o meu reflexo, banindo o fantasma da minha mãe.
“Sim, eu serei.”
Quando cheguei ao patamar, meu pai estava de costas para mim. Ele já estava envolvido em uma conversa animada com o Sr. Pullman e Sr. Ryerson. Carson abria a porta da frente para vários casais. Duas mulheres – uma reconheci como a bastante gorda Sra. Pullman, e a outra, a mulher mais bonita – estava admirando o grande arranjo central de lírios, taboas e cortinas de hera que passei tantas horas montando. Flutuando em prazer, suas vozes foram transportadas facilmente até mim.
“Bem, isto é muito lindo e incomum”, comentou a Sra Pullman.
A mulher mais alta assentira com apreço. “É uma excelente opção usar esses lírios. Eles encheram o hall de entrada com um perfume requintado. É como se nós tivéssemos entrado em um jardim interior perfumado.”
Eu não tinha me movido. Queria ter um momento privado de prazer, então imaginei, só por um instante, que eu estava de volta no meu banco no jardim, coberta por salgueiros, envolta pela escuridão e sentada ao lado de Arthur Simpton. Fechei os olhos, tomando uma respiração profunda, inalando a calma, e quando soltei o ar, a voz dele se elevou até mim, como se minha imaginação o tivesse materializado aqui.
“isto é próprio da senhorita Wheiler. Mãe, acredito que o arranjo que você admira mostre evidências da mão dela.”
Abri meus olhos e vi Arthur, de pé ao lado da mulher bonita que não tinha reconhecido. Eu sorri, falei: “Boa noite, Sr. Simpton”, e comecei a descer o último lance de escadas. Meu pai tinha passado por eles e correu para me atender, movendo-se tão rapidamente que estava respirando forte pelo esforço quando me ofereceu o braço.
“Emily, acredito que não tenha conhecido a mãe de Arthur, a Sra. Simpton” meu pai falou, me apresentando para ela.
“Senhorita Wheiler, você é ainda mais linda do que o meu filho descreveu,” a Sra. Simpton falou. “E esse arranjo central de sua decoração é espetacular. Será que você, como meu filho supôs, o criou?”
“Sim, Sra. Simpton, eu o fiz. E estou lisonjeada que tenha gostado.”
Eu não tinha sido capaz de me impedir de sorrir para Arthur enquanto falava. Seus olhos azuis amáveis ​​foram acesos com seu próprio sorriso que, já estava achando familiar e cada vez mais caro.
“E como é que você sabe que Emily criou o arranjo?”
Eu estava chocada com o tom áspero da voz do pai, a certeza de que todos ao nosso redor podiam ouvir a possessividade nele. Embaraçado, Arthur riu bem-humorado.
“Bem, eu reconheço os lírios do...”
Parando através de sua explicação, ele deve ter visto o horror nos meus olhos, porque interrompeu suas palavras com uma tosse exagerada.
“Filho, você está bem?” Sua mãe tocou seu braço em preocupação.
Arthur limpou a garganta e recuperou o sorriso.
“Oh, muito bem, mãe. Apenas uma coceira em minha garganta.”
“O que você estava dizendo sobre as flores de Emily?” meu pai soava como um cachorro velho com um osso.
Arthur tinha perdido o ritmo, mas continuou sem problemas:
“São flores de Emily? Então dei um excelente palpite, porque instantaneamente me lembrei dela. Elas, também, são excepcionalmente bonitas e encantadoras.”
“Oh, Arthur, você parece mais e mais com o seu pai a cada dia” a mãe de Arthur apertou seu braço com carinho óbvio.
“Arthur! Oh, meu. Eu esperava que você estivesse aqui.”
Camille havia corrido até nós, à frente de sua mãe, embora a Sra. Elcott seguisse tão de perto os saltos de sua filha que parecia que uma estava presa na outra.
“Senhorita Elcott.” Arthur fizera uma reverência rígida e formalmente. “Senhora Elcott, boa noite. Estou acompanhando minha mãe, já que meu pai ainda está doente.”
“Que coincidência! Minha Camille está me acompanhando esta noite porque o Sr. Elcott acredita que pode estar com malária. E, é claro, eu queria ter a certeza de que estar aqui para apoiar Emily em seu primeiro jantar formal como a Senhora da Casa Wheiler que não podia suportar cancelar.” A Sra. Elcott explicara num tom meloso, mas mudou a expressão quando mudou seu olhar para Arthur, desmentindo suas palavras. “Apesar de que, infelizmente, tenho apenas filhas e nenhum filho dedicado. Você é uma mãe feliz, Sra. Simpton.”
“Oh, eu prontamente concordo com você, Sra. Elcott,” a mãe de Arthur respondeu com um sorriso carinhoso. “Ele é um filho dedicado e observador. Nós estávamos discutindo que foi ele quem adivinhou que estas decorações encantadoras foram criadas pela própria senhorita Wheiler.”
“Emily? Você fez isso?”
Camille soou tão chocada que tive uma súbita vontade de dar um tapa nela. Em vez disso, ergui meu queixo e não suavizei a minha voz, fazendo pouco das minhas realizações, como minha mãe teria feito.
“Olá, Camille, que surpresa vê-la. E, sim, eu fiz este arranjo. Também criei todos os arranjos na mesa de jantar, bem como aqueles na biblioteca do pai.”
“Você é um presente para mim, minha querida,” Pai disse.
Eu o ignorei e mantive meu foco em Camille, e muito justamente disse:
“Como você e sua mãe observaram durante sua última visita, estou aprendendo cedo o que é ser a senhora de uma grande casa.”
Eu não tinha acrescentado o resto do que a Sra. Elcott dissera, que era algo que o meu futuro marido ficaria feliz de saber. Eu não precisava. Simplesmente precisava mudar meu olhar de Camille para Arthur, e depois devolver o sorriso caloroso que ele me dirigia.
“Sim, bem, como eu disse. Você é um presente para mim.” Meu pai ofereceu o braço novamente. Eu tive que aceitá-lo. Ele acenou para os Simptons e Elcotts, dizendo: “E agora temos de cumprimentar o resto dos nossos hóspedes. Emily, não vejo champanhe sendo servido.”
“Isso é porque escolhi seguir o exemplo do University Club no menu de hoje à noite. George servirá vinho amontillado antes do primeiro prato, em vez de champanhe. Ele combinará muito melhor com as ostras frescas.”
“Bom, muito bom. Vamos encontrar algum amontillado então, minha querida. Ah, vejo que os Ayers chegaram. Fala-se de uma coleção de arte permanente para suas relíquias indianas, que o banco estará muito interessado em...”
Eu tinha parado de ouvir, embora permitisse que o pai me levasse embora com ele. Naquela noite inteira, enquanto eu fazia o papel de anfitriã e Senhora da Casa Wheiler, ficava sempre na minha mente a esperança de que Arthur Simpton me percebesse, e cada vez que eu conseguia roubar um olhar dele nossos olhos se encontravam, porque ele estava me assistindo. Seu sorriso parecia dizer que ele também havia me valorizado.
À medida que a noite avançava, eu tinha entendido que, como sempre, depois do jantar os homens nos deixariam e iriam para a biblioteca do pai beber conhaque e fumar charutos. As mulheres iriam para a sala de estar formal, da minha mãe, saborear o vinho gelado, mordiscar bolos de chá e, é claro, fofocar. Eu tinha temido a separação, e não simplesmente porque Arthur não estaria lá, mas porque não tinha experiência de conversar com as senhoras de idade da minha mãe. Camille era a única delas com menos de uma década de fiferença de idade. Percebi que tinha uma escolha a fazer. Eu poderia sentar-me ao lado de Camille e conversar bastante como se eu não fosse nada mais do que qualquer outra jovem, ou poderia realmente tentar ser Senhora da Casa Wheiler. Eu sabia que poderia ser tratada com condescendência. Havia, afinal, grandes damas como Sra. Ryerson, Sra. Pullman, e Sra. Ayer presentes, e eu era apenas uma garota de dezesseis anos de idade. Mas quando levei as senhoras para o salão da minha mãe e fui recebida pelo cheiro familiar e reconfortante dos arranjos que eu tinha arranjado tão meticulosamente, fiz a minha escolha. Eu não me retirei para o assento da janela com Camille e me apeguei à minha infância. Em vez disso, tomei a posição da mãe no centro da sala, no divã, supervisionado Mary servindo vinho refrescante para as senhoras, e tentei manter meu queixo erguido e pensar em algo – alguma coisa inteligente – para falar para a sala em silêncio.
A mãe de Arthur foi a minha salvação.
“Senhorita Wheiler, estou interessada nessas criações, esses arranjos incomuns que você lindamente exibiu em cada um dos cômodos. Quer compartilhar comigo a sua inspiração?” Ela perguntou com um sorriso caloroso que me lembrou tanto de seu filho.
“Sim, querida,” fiquei espantada ao ouvir a Sra. Ayer dizer. “As decorações são muito astutas. Você deve compartilhar seu segredo conosco.”
“Eu me inspirei em nossos jardins e na fonte em seu centro. Queria trazer o cheiro de lírio e as imagens de água, e minha árvore favorita, o salgueiro, para casa esta noite.”
“Oh, eu vejo! As taboas evocam a presença de água”, a Sra. Simpton falou.
“E a cortina de hera organizada é muito parecida com as folhas de salgueiro,” a Sra. Ayer concordou, balançando a cabeça em óbvia apreciação. “Esta foi uma excelente ideia.”
“Emily, eu não sabia que você se interessava particularmente pelo jardim. Pensei que você e Camille estivessem muito mais preocupadas com o ciclismo e os mais recentes estilos Gibson do que com a jardinagem.” A Sra. Elcott falou com o tom exato de condescendência que eu temia.
Por um momento, eu não disse nada. Parecia haver um silêncio ofegante na sala, como se a própria casa aguardasse minha resposta. Eu seria uma menina ou uma mulher?
Arrumei minha postura, levantei meu queixo, e encontrei o olhar paternalista da Sra. Elcott.
“Na verdade, Sra. Elcott, desfrutei do ciclismo e do estilo Gibson para garotas, mas isso foi quando minha mãe, sua amiga em particular, era a Senhora da Casa Wheiler. Ela está morta. Tive que entrar em seu papel, e acredito que tenho que preocupar-me com coisas que não sejam tão femininas”.
Ouvi os murmúrios de preocupação e várias das mulheres sussurram com pena. Isso ainda me encorajou, e percebi como eu poderia usar a condescendência da Sra. Elcott ao meu favor. Continuei:
“Eu sei que não se pode esperar que eu seja uma grande senhora como mãe era, mas resolvi fazer o meu melhor. Só espero que ela esteja olhando para mim com orgulho.”
Chorei delicadamente e usei o meu guardanapo para enxugar os cantos dos olhos.
“Oh, você é uma menina doce.” A Sra. Simpton bateu no meu ombro. “Tal como o seu pai disse anteriormente, você é um presente para a sua família. Sua mãe e eu não éramos muito familiarizadas, mas sou uma mãe para meu próprio filho, então me sinto confiante quando digo que ela estaria muito orgulhosa de você, muito orgulhosa de fato!”
Em seguida, cada uma das senhoras, por sua vez, me consolou e me assegurou de sua admiração. Cada uma das senhoras, exceto a Sra. e a senhorita Elcott. Camille e sua mãe disseram pouco pelo resto da noite, e foram as primeiras dos meus convidados a saírem.
Uma hora mais tarde, quando os homens chegaram para buscar suas mulheres, a conversa fluiu em minha sala de estar tão livremente quanto o brandy tinha obviamente fluído na biblioteca do pai. Os nossos convidados nos desejaram efusivas boas-noites, elogiando tudo sobre a noite.
Arthur e sua mãe foram os últimos a sair.
“Senhor Wheiler, faz bastante tempo desde que tive uma noite tão agradável”, disse a Sra. Simpton ao pai, quando ele se inclinou para ela. “E eu assim aprecio, como estive extraordinariamente preocupada com a saúde do meu bom marido. Mas sua filha foi uma anfitriã tão atenciosa que senti que meu espírito foi elevado.”
“Agradavelmente dito, agradavelmente dito” meu pai concordou, cambaleando um pouco quando estava ao meu lado no foyer.
“Por favor, minha senhora, envie a Sr. Simpton meus melhores votos de uma rápida recuperação”, falei, segurando minha respiração na expectativa esperançosa de suas próximas palavras.
“Bem, a senhorita deve desejar ao Sr. Simpton por si mesma!” A mãe de Arthur exclamou, exatamente como eu queria que fizesse. “A senhorita seria uma bela surpresa, especialmente porque ele sente falta desesperadamente de nossas duas filhas. Ambas estão casadas ​​e permanecem em Nova York com as famílias de seus maridos.”
“Eu adoraria conversar mais com vocês,” falei, tocando o braço do pai e acrescentando: “Pai, você não acha que seria uma gentileza visitar o Sr. e a Sra. Simpton, com ele tão mal?”
“Sim, sim, claro,” meu pai concordou, acenando com desdém.
“Excelente. Então enviarei Arthur com nossa carruagem na segunda-feira à tarde.”
“Arthur? Carruagem? Eu não faço...” meu pai começara, mas a Sra. Simpton o interrompeu, balançando a cabeça como se concordasse com o que ele estava se preparando para falar.
“Eu não gosto da mania atual dos jovens e suas bicicletas por toda parte, de qualquer maneira. E essas saias-calças que as garotas estão usando, que atrocidade!” A Sra. Simpton empatou o seu olhar sobre o seu filho. “Arthur, sei que você gosta de sua bicicleta, mas o Sr. Wheiler e sua filha viajam de uma forma mais civilizada. Certo, Sr. Wheiler?”
“De fato,” meu pai havia concordado. “As bicicletas não são apropriados para senhoras.”
“Exatamente! Então, meu filho trará a carruagem para a senhorita Wheiler na segunda-feira à tarde. Está bem resolvido. Boa noite!”
A Sra. Simpton tomou o braço de seu filho. Arthur fez uma reverência formal ao pai, oferecendo-lhe boa-noite. Quando ele se virou para mim, sua reverência foi tão formal, mas o seu olhar encontrou o meu e sua piscadela foi só para mim.
Assim que a porta se fechou, entrei em ação. Reconheci o cambalear do pai e sua voz arrastada. Meu coração estava muito cheio com o sucesso da noite e as atenções óbvias sendo pagas por Arthur e sua mãe. Eu não quis tomar qualquer chance de que o pai teria de estragar minha felicidade com seu hálito de álcool, suas mãos pesadas e quentes e seu olhar ardente.
“Desejo-lhe uma boa-noite agora, pai,” falei com uma reverência rápida. “Preciso ver se tudo está de volta em seu devido lugar esta noite, e já é tão tarde. Carson!” Chamei e depois soltei um grande suspiro de alívio quando o valete de meu pai correu para o foyer. “Por favor, ajude meu pai a ir para seu quarto de dormir.”
Então eu me virei e, com propositados passos confiantes, me retirei da sala.
E o pai não tinha me chamado de volta!
Eu estava tão atordoada com a vitória que praticamente dancei para a sala de jantar, onde, como eu já tinha mandado, George colocara tudo de volta à ordem.
“Deixe os arranjos de flores, George,” eu lhe ordenei. “O cheiro é realmente espetacular.”
“Sim, senhorita.”
Mary foi arrumar a sala.
“Você pode deixar aqui, por enquanto. Prefiro tê-la me ajudando a sair deste vestido. Estou exausta.”
“Sim, senhorita,” foi a sua resposta, também.
Se eu tivesse realmente terminado a noite depois que Mary me ajudara a vestir minha chemise, esta noite estaria gravada como a noite mais perfeita da minha vida. Infelizmente, eu estava agitada demais para dormir e muito inquieta até mesmo para escrever de eventos da noite em meu diário. Eu desejava o conforto de meu doce jardim familiar, e o toque suave da escuridão que me trouxe uma sensação especial de calma.
Envolvi meu robe ao meu redor e, enfiando os pés nos chinelos, desci silenciosa e rapidamente, pela grande escada. Ouvi os empregados à distância na cozinha, mas ninguém me viu enquanto escorreguei da casa para dentro dos meus jardins.
Era muito mais tarde do que eu costumava arriscar sair, mas a lua estava mais que meio cheia, e os meus pés conheciam o caminho. Meu salgueiro me aguardava. Sob sua escuridão, eu me encolhi no banco de mármore, olhei para a fonte e, em seguida, como cada memória uma joia, revivi os acontecimentos da noite.
A mãe de Arthur Simpton havia deixado claro que me prefere! Até parecia que ela e seu filho estavam em conluio, e que eles trabalharam juntos para escorregar em torno da desaprovação possessiva do pai.
Eu queria ficar e dançar e rir com alegria, mas Arthur me ensinara uma lição valiosa. Eu não tinha intenção que ninguém, nem mesmo um dos empregados, descobrisse meu lugar especial, então permaneci em silêncio no banco e me imaginei dançando e rindo de alegria sob a minha árvore de salgueiro, e prometi a mim mesma, então, que um dia eu seria senhora da minha própria casa grande, e meu senhor e marido teria olhos azuis e um sorriso caloroso.
Enquanto escrevo isso, lembrando-me da noite, não acredito em minhas manipulações maliciosas. Arthur e sua mãe haviam me dado atenção especial. O que havia de errado em eu querer usar suas afeições para escapar de uma situação que eu estava achando mais e mais difícil de suportar?
A resposta que penso é nada. Eu seria boa para Arthur. Ficaria próxima de sua mãe. Eu não estava fazendo um ato de maldade, incentivando os Simptons.
Mas eu divaguei. Devo continuar a relatar os acontecimentos terríveis que se seguiram.
Naquela noite, as confortáveis ​​sombras sob meu salgueiro tinham trabalhado sua magia habitual. Minha mente tinha deixado o seu zumbido e senti uma leve sonolência vir sobre mim.
Quase como se estivesse em um sonho acordado, eu lentamente, languidamente, deixei os jardins e fiz meu caminho de volta pela casa escura e silenciosa. Estava bocejando muito quando cheguei ao patamar do segundo andar. Cobri minha boca para abafar o som quando meu pai saiu do corredor escuro.
“O que você está fazendo?” Suas palavras eram ásperas, e vieram a mim em uma onda de conhaque e alho.
“Eu só queria ter certeza de que tudo foi organizado antes que eu fosse dormir. Tudo está bem, por isso boa noite, pai.”
Eu tinha me virado e tentado continuar a subir as escadas quando sua mão pesada pegou meu braço.
“Você deve tomar uma bebida comigo. Seria bom para a sua histeria.”
Eu tinha parado de me mover no instante em que ele me tocou, com medo que, se eu começasse a lutar para longe dele, ele só apertaria mais meu braço.
“Pai, eu não estou histérica. Só tenho cansaço. O jantar me cansou muito e eu preciso dormir agora.”
Mesmo no escuro eu podia ver a intensidade de seus olhos enquanto seu olhar ardente acompanhou meu roupão de dormir leve e meu cabelo solto.
“É a túnica de Alice que você está vestindo?”
“Não. Este é o meu manto, pai”.
“Você não usava um dos vestidos de sua mãe esta noite.” A mão dele tinha apertado no meu braço, e eu sabia que haveria marcas lá no dia seguinte.
“Eu remodelei um dos vestidos da mãe para que encaixasse em mim. Provavelmente por isso você não o reconheceu,” falei rapidamente, me odiando que eu tenha sido tão teimosa, tão vaidosa e que tenha dado uma desculpa para concentrar sua atenção em mim.
“Seus tamanhos são muito semelhantes, apesar de tudo.”
Ele deu uma guinada em direção a mim, fechando o espaço entre nós e aumentando o cheiro de álcool e suor.
Pânico emprestou força à minha de voz e eu falei mais acentuadamente do que já ouvi qualquer mulher falar com ele.
“Similar, mas não é o mesmo! Eu sou sua filha. Não a sua esposa. Eu o convido a se lembrar que é meu pai.”
Ele parou de se mover na minha direção e piscou, então, como se não conseguisse se concentrar em mim.
Usei a sua hesitação para puxar meu braço e seu aperto afrouxou.
“O que é que você está dizendo?”
“Estou dizendo boa-noite, pai.”
Antes que ele pudesse me agarrar novamente eu tinha me virado, levantado minha saia e correndo até a escada, subindo dois degraus de cada vez. Não parei de correr até fechar a porta do meu quarto de dormir e inclinar-me contra ela. Minha respiração estava rápida e meu coração batia freneticamente. Eu tinha certeza, certeza absoluta, que ouvi seus pés pesados ​​me seguindo, e eu estava de pé, tremendo, com medo de me mover, mesmo depois de todos os sons de fora do meu quarto sumirem.
Meu pânico finalmente diminuiu, e fui para a minha cama, puxando o cobertor em torno de mim, tentando ainda encontrar a calma dentro de mim novamente. Minhas pálpebras tinham apenas começado a se fechar, quando houve um passo pesado fora do meu quarto. Enterrei mais para baixo dentro das minhas roupas de cama e vi, de olhos arregalados, como a maçaneta devagar, em silêncio, virou.
A porta abriu numa fresta e apertei meus olhos fechados, prendi a respiração e imaginei com toda a minha mente que eu estava de volta no meu banco sob a árvore de salgueiro, camuflada com segurança nas sombras reconfortantes.
Eu sei que ele entrou no meu quarto. Tenho certeza disso. Eu podia sentir o cheiro dele. Mas permaneci perfeitamente em silêncio, sem me mover, imaginando que eu estava completamente oculta nas trevas. Pareceu um tempo muito longo, mas ouvi a minha porta se fechando. Abri meus olhos para encontrar meu quarto vazio, embora cheirando a conhaque, suor e meu medo. Apressadamente saí da cama. Descalça, usei toda a minha força para empurrar e arrastar minha pesada escrivaninha para frente da minha porta, barrando a entrada.
E eu ainda não me permiti dormir até o amanhecer iluminar o céu e eu ouvir os funcionários começarem a se mexer.

* * *

Domingo, acordei e fiz o que se tornaria meu ritual da manhã: arrastei a escrivaninha que ficava em minha porta. Então evitei o pai o dia todo. Falei a Mary que estava exausta da excitação do jantar, e que desejava permanecer em meu quarto, descansando. Soei firme, e Mary não me questionou. Ela deixou-me sozinha, e por isso fiquei grata. Eu dormi, mas eu também planejei.
Eu não sou louca. Não sou histérica. Não sei exatamente o que vejo no olhar do meu pai, mas sei que é uma obsessão doentia e isso só reforça a minha determinação de deixar Casa Wheiler em breve.
Fui para o meu espelho, tirando o meu vestido de dia, e estudei o meu corpo nu, catalogando meus atributos. Eu tenho seios firmes e cheios, uma cintura fina e quadris generosos que não têm inclinação para gordura. Meu cabelo é grosso e cai quase até minha cintura. Como o de minha mãe, tinha uma cor escura incomum, mas era iluminado por mechas ruivas. Meus lábios são cheios.
Meus olhos, de novo, como os da minha mãe, são inegavelmente impressionantes. É uma verdadeira comparação nomeá-los na cor esmeralda.
Com uma total falta de vaidade ou emoção, reconheci que eu era bonita, ainda mais bela do que a minha mãe, e ela muitas vezes tinha sido chamada de mulher mais bonita no Second City. Também percebi que, apesar de ser uma abominação ele ter esses sentimentos, era o meu corpo, a minha beleza, que meu pai tão obviamente cobiçava.
Minha mente e meu coração ainda estavam cheios de Arthur Simpton, mas também estavam preenchidos com um sentimento de desespero que me assustou. Eu precisava que Arthur me amasse, não só porque ele era bonito e amável e bem posicionado no mundo. Eu precisava que Arthur me amasse porque ele era a minha fuga. Na segunda-feira, eu visitaria sua casa. Olhando fixamente em meu espelho, resolvi fazer de tudo para ganhar a sua promessa e sua lealdade.
Se fosse para salvar a minha vida, eu deveria fazê-lo meu.

* * *

Domingo à noite, eu esperava que Mary me trouxesse uma bandeja com meu jantar. Em vez disso, Carson bateu em minha porta.
“Com licença, senhorita Wheiler. Seu pai pede que junte-se a ele para o jantar.”
“Por favor, diga ao pai que ainda estou me sentindo mal”, respondi.
“Perdão, senhorita, mas o seu pai pediu que o cozinheiro fizesse um belo ensopado para curá-la. Ele disse que ou a senhorita vem para a sala de jantar, ou ele a acompanhará em sua sala de estar para jantar”.
Senti uma náusea horrível e tive que apertar as mãos juntas para impedir-me de mostrar como eu tremia.
“Muito bem, então. Diga ao pai que vou acompanhá-lo para o jantar.”
Com pés como chumbo, fiz o meu caminho para a sala de jantar. Meu pai já estava sentado em seu lugar, o jornal de domingo aberto e uma taça de vinho tinto erguido aos lábios. Ele olhou para cima quando entrei na sala.
“Ah, Emily! Aí está você. George!” Ele gritou. “Sirva a Emily este excelente vinho. Isso e ensopado do cozinheiro a deixarão novinha em folha – novinha em folha!”
Sentei-me sem falar. O pai não pareceu notar o meu silêncio.
“Agora, você sabe, é claro, que a abertura da Exposição Universal será em exatamente uma semana a partir de amanhã, no primeiro de maio. Após o sucesso de seu grande jantar ontem à noite, a Sra. Ayer, bem como a Sra. Burnham tomaram um interesse especial por você. As senhoras também a convidaram para ser incluída em suas festividades de cerimônia de abertura, que culminará em um jantar no University Club.”
Fiquei boquiaberta para ele, incapaz de esconder minha surpresa. O University Club era exclusivo e opulento, não um lugar novo em que meninas solteiras eram convidados. As mulheres raramente eram permitidas lá, no geral, somente aquelas autorizadas que acompanhavam seus maridos.
“Bem, você não tem nada a dizer? Vai apenas abrir a boca como um bacalhau?”
Fechei minha boca e levantei meu queixo. Ele ainda não estava bêbado, e o pai sóbrio era muito menos assustador.
“Estou lisonjeada com as atenções das senhoras.”
“É claro que você está. Deveria estar. Agora, você deve considerar cuidadosamente o que vestirá. Primeiro iremos para o centro, e, em seguida, para o clube. Você deve escolher um dos vestidos mais elaborados de sua mãe, mas não um com tal decadência que ficaria fora do lugar durante a cerimônia de abertura.”
Um pequeno pensamento veio como um raio em meu coração, e eu assenti sombriamente.
“Sim, pai. Concordo que o vestido é muito importante. Quando eu encontrar a Sra. Simpton amanhã, pedirei-lhe para me ajudar a escolher, talvez até mesmo opinar nas alterações. Ela é uma senhora de gosto impecável e tenho certeza que ela não errará...”
Ele acenou com a mão, me cortando.
“Eu já tinha dito a Carson para enviar um bilhete para costureira de sua mãe, ela virá amanhã. Você não tem tempo para essas frivolidades sociais, ficar correndo atrás dessas mulheres pela cidade. Enviarei suas desculpas aos Simptons, e lhes assegurarei de que não será necessário que o filho deles venha buscá-la. Em vez disso, encontrarei o Sr. Simpton segunda-feira à noite para um brandy depois do jantar, para que possamos discutir assuntos de negócios. Essa gota o manteve ausente por muito tempo das reuniões do conselho. Se Simpton não vai para o conselho, o presidente do conselho irá até Simpton.”
“O quê?” Pressionei os meus dedos contra a testa, tentando parar as batidas nas minhas têmporas. “Você cancelou a minha visita à casa Simpton? Por que faria isso?”
Olhar duro do meu pai encontrou o meu.
“Você tem estado mal durante todo o dia, se escondendo em seu quarto. Emoção demais não é, obviamente, bom para a sua constituição, Emily. Você ficará em casa a semana inteira, assim estará pronta para a próxima segunda-feira, para o University Club.”
“Pai, eu estava simplesmente cansada da festa. Amanhã estarei muito bem. Estou me sentindo mais como eu mesma já.”
“Talvez se você tivesse se sentido melhor antes, eu daria credibilidade às suas palavras, mas do jeito como está, decidi que é melhor você se preservar até a próxima semana. Fui claro, Emily?”
Mandei seu olhar duro de volta para ele, na minha imaginação, enchendo-o com a profundidade da minha repugnância.
“Sim, o senhor foi claro.” Minha voz era como pedra.
O sorriso do pai era de autossatisfação e crueldade.
“Bom. Mesmo sua mãe teria se curvado à minha vontade.”
“Sim, pai, eu sei que sim.” Eu deveria ter parado por aí, mas minha raiva permitiu minhas palavras saíssem. “Mas eu não sou minha mãe, nem nunca desejaria ser.”
“Você não poderia fazer nada melhor do que sua mãe  já fez.”
Eu ia deixar minha voz espelhar a frieza expandindo dentro de mim.
“Você já se perguntou, pai, o que a mãe diria se pudesse nos ver agora?”
Seus olhos tinham se estreitado.
“Sua mãe nunca está longe dos meus pensamentos.”
George começou a servir o cozido em seguida, e o pai mudou de assunto calmamente, lançando-se em um monólogo sobre os gastos ridículos da Exposição – como trazer uma tribo inteira de pigmeus africanos para o centro – enquanto eu me sentava em silêncio, planejamento, pensando, e acima de tudo, odiando-o.

* * *

Não me atrevi a visitar meu jardim naquela noite. Pedi licença antes que meu pai se servisse de brandy, usando sem problemas suas próprias palavras contra ele, dizendo que percebi, depois de tudo, que ele estava certo, eu realmente estava cansada e precisava descansar para estar preparada para próxima segunda.
Arrastei a pesada escrivaninha até a porta, em seguida, sentei-me sobre ela com meu ouvido pressionado contra a madeira fria, escutando. Até bem depois de a lua se erguer no céu, eu o ouvi andando para lá e para cá em seu andar.
Fiquei frustrada toda a segunda-feira. Eu precisava tanto falar com Arthur e seus pais! O único ponto bom era que eu tinha certeza de que Arthur enxergaria através do ardil do pai. Eu já o avisara de sua possessividade. Esta seria apenas mais uma evidência para provar minhas palavras.
Certamente os Simptons iriam, pelo menos, assistir a abertura da Exposição Mundial de Columbia, e talvez até jantassem no University Club também. Eu certamente veria Arthur novamente na próxima segunda-feira, e precisava vê-lo Arthur de novo, em seguida. Gostaria de usar toda a minha inteligência para encontrar uma oportunidade de falar com ele. Seria avançado da minha parte, mas as minhas circunstâncias eram tais que exigiam ações drásticas. Arthur era gentil e razoável. Ele e sua mãe tinham por mim um interesse especial. Certamente, entre nós três, encontraríamos uma maneira de contornar o comportamento draconiano do pai.
Comportamento draconiano. Eu tinha pensado por muitas horas sobre como eu poderia explicar sua possessividade não-natural. Eu tinha aprendido pela reação de Camille quando tentei, ainda que levemente, confiar-lhe minha angústia a respeito do pai. O choque foi completo e, em seguida, ela dispensara os meus temores. Mesmo Arthur, naquela noite sob o salgueiro, deixara de lado o comportamento do meu pai, como o de um viúvo de luto que lamentava a perda de sua esposa e era, portanto, compreensivelmente cuidadoso com sua filha. Eu sabia melhor. Eu sabia a verdade. Suas atenções crescentes para mim não eram simplesmente arrogantes e possessivas, estavam se tornando horrivelmente inadequadas. Era uma abominação, mas eu tinha chegado a suspeitar que meu pai me queria tomando o lugar de minha mãe, de todas as maneiras. Também vim a acreditar que as minhas suspeitas nunca poderiam ser compartilhadas. Assim, em vez de a verdade, eu pintaria o retrato de um áspero, dominador, que assustava a minha sensibilidade delicada. Apelaria para o cavalheiro dentro de Arthur que me resgatasse.
Seria absurdo para o pai recusar uma proposta de casamento honroso de uma família com a riqueza e status social dos Simptons. A aliança com o seu dinheiro e poder seria muito tentador. Tudo que eu precisava fazer seria garantir os afetos de Arthur e convencê-lo de que o meu medo da dominação do pai era tão grande que minha saúde estava em risco, e que teríamos um curto noivado. Meu próprio pai me ensinou que os homens queriam acreditar na fragilidade e histeria das mulheres. Embora Arthur fosse gentil e bom, ele era um homem.
A costureira chegou na segunda-feira à tarde. Foi decidido que vestido de seda esmeralda mais elegante da minha mãe seria adaptado de acordo com a minha silhueta. Eu ainda estava me vestindo quando o pai chegou de repente em minha sala de estar, no terceiro andar, sem bater ou avisar.
Eu podia ver o choque nos olhos da costureira. Tive que levantar as mãos para cobrir meus seios à mostra enquanto ela estava no processo de ajustar o corpete do vestido.
O olhar dele queimava meu corpo.
“O de seda – uma excelente escolha.” Ele balançou a cabeça em aprovação depois de fazer um círculo completo em volta de mim.
“Sim, senhor. Concordo. Ficará lindo em sua filha”, disse a costureira, baixando os olhos.
“O laço dourado é vulgar, porém, para alguém tão jovem quanto a minha Emily” o pai anunciou. “Remova-o.”
“Eu posso fazê-lo, senhor, mas, o vestido ficará completamente sem adornos, e se me permite dizer, senhor, a ocasião pede algo espetacular.”
“Eu discordo.” Meu pai coçou a barba e continuou a estudar e falar de mim como se eu não estivesse na sala, como se eu fosse apenas um manequim sem alma. “Faça o corte simples, mas agradável. A seda é o mais rico tecido que foi possível adquirir deste lado do mundo, e a inocência de Emily será adorno suficiente para o vestido. Caso contrário, buscarei entre as joias de sua falecida mãe, e talvez encontre algo apropriado esta noite.”
“Muito bem, senhor. Será como deseja.”
A costureira estava distraída demais com as alterações do vestido para notar o ardor nos olhos do meu pai quando ele respondeu com: “Sim. Será, de fato, como eu desejo.”
Eu não disse nada.
“Emily, espero que você venha para o jantar em breve. Depois disso, falarei com os Simptons, de modo que você possa ir para a sua cama descansar. Quero que esteja com boa saúde para a próxima segunda-feira.”
“Sim, pai.”

* * *

Exceto por uma conversa insignificante, fiquei em silêncio durante o jantar. No meio da última frase do pai sobre os excessos da Exposição e sua preocupação de que ele, mais uma vez, estivesse correto e que o banco perderia dinheiro, ele abruptamente mudou de assunto.
“Emily, você está aproveitando seu tempo como voluntária do FGCM toda semana?”
Eu não sei o que deu em mim. Talve fosse a exaustão que eu sentia ultimamente, devido ao subterfúgio que precisava recorrer para continuar a viver uma vida na qual eu era forçada a desempenhar o papel de filha obediente a um homem indigno do título de pai. Talvez tenha sido por causa da frieza crescendo dentro de mim, mas decidi não mentir ou evadir sobre a questão. Encontrei o seu olhar e disse a verdade.
“Não. A Sra. Armour é uma velha hipócrita. Os pobres e sem-teto de Chicago fedem e se comportam mal. Não é de admirar que eles tenham de viver da caridade dos outros. Não, pai. Não gosto de ser voluntaria no FGCM. É uma farsa e um desperdício do meu tempo.
Humf! Ele fez um barulho pelo nariz seguido de uma gargalhada.
“Você acabou de dizer quase exatamente as palavras que falei para sua mãe quando ela quis requisitar o apoio do banco à caridade. Muito bem! Você compreedeu tão rapidamente o que sua mãe não entendeu mesmo duas décadas mais nova que ela.”
Segurei minhas palavras. Eu não daria minha alma para ser aliada de um monstro. Em silêncio, continuei a mexer a minha comida em meu prato. Meu pai tinha me observava enquanto bebia profundamente do vinho que eu não tivera a oportunidade de aguar.
“Mas contribuir para uma instituição de caridade é de extrema importância para aqueles de nossa classe social e situação financeira. Vamos imaginar, por um momento, você poder apoiar uma instituição de caridade de sua própria criação. Diga-me, Emily, o que acha?”
Eu hesitei o suficiente para considerar se haveria quaisquer implicações negativas eu lhe responder honestamente, e rapidamente decidi que podia muito bem dizer o que pensava. Era óbvio que eu era o seu brinquedo, a sua boneca, sua distração. Nada do que eu dissesse teria o menor significado para ele.
“Eu não apoiaria o estrato mais baixo da humanidade. Gostaria de elevar aqueles que se esforçam para ir além dos limites do mundano. Eu ouvi o Sr. Ayer falar de sua coleção belas artes nativas. Ouvi o Sr. Pullman discutir sobre o acréscimo de eletricidade para a Estação Central e em seus carros mais exclusivos. Se fosse do meu alcance, eu criaria um Palácio de Belas Artes, e talvez até um Museu de Ciência e Indústria, e gostaria de cultivar a excelência em vez de preguiça.”
“Ha!” O pai deu um tapa na mesa tão violento que seu vinho espirrara por sobre a borda da taça e escorreu como sangue na toalha de linho fino. “Bem dito! Bem dito! Estou em completo acordo. Proclamo a partir de agora que você não será mais voluntária no FGCM.” Em seguida, ele se inclinou para frente e capturou meu olhar. “Você sabe, Alice, poderíamos realizar grandes coisas juntos, nós dois.”
Todo o meu corpo tinha ficou gelado.
“Pai, meu nome é Emily. Alice, sua esposa, minha mãe, está morta.
Antes que ele pudesse responder, levantei-me e, como George entrou na sala de jantar com a sobremesa, pressionei a palma da minha mão contra a testa e cambaleei, quase desmaiando.
“Senhorita, está doente?” ele perguntou, franzindo a testa em preocupação.
“Como o pai disse ontem, ainda estou cansada pela noite de sábado. Você poderia, por favor, chamar Mary para que ela possa me levar para o meu quarto?” olhei para meu pai e acrescentei: “Estou dispensada, pai? Eu não gostaria que minha fraqueza o impedisse de os Simptons de noite”
“Muito bem. George, ligue para Mary. Emily, espero que a sua saúde esteja melhor amanhã.”
“Sim, pai.”
“Carson!” Ele gritou, afastando a sobremesa George deixara para ele. “Traga a carruagem imediatamente!”
Sem outro olhar para mim, ele saiu da sala.
Mary entrara a seguir, murmurando sobre a fragilidade da minha saúde e me levando para o meu quarto como se fosse uma galinha e eu, seu pintinho. Deixei que ela me ajudasse a tirar o vestido de dia e a vestir minha camisola, e depois me enrolei na cama, assegurando-lhe de que eu estaria bem se pudesse descansar. Ela me deixou rapidamente, embora eu pudesse ver que ela estava realmente preocupada comigo.
O que eu poderia ter lhe dito? Ela vira o ardor dos olhos do pai em mim. Ela, George e Carson, e provavelmente até o cozinheiro, tinham que saber que ele me perseguia e me mantinha presa. No entanto, nenhum deles disseram sequer uma palavra contra ele. Nenhum deles me oferecera a sua ajuda no planejamento de minha fuga.
Não importava. Devo ser o veículo para encontrar a minha salvação.
Mas naquela noite, pelo menos por uma ou duas horas, eu poderia planejar uma fuga, se houvesse apenas uma minúscula proposta. O pai deveria ter ido para a casa dos Simpton, e tentaria se insinuar para a família, tentando parecer um pai de família preocupado com sua pobre filhinha frágil.
Mais uma vez, não importava. Isso só queria dizer que eu poderia fugir para o meu jardim!
Em siêncio, na ponta dos pés, desci a ampla escada que volteava o saguão e fiz meu caminho para a saída dos empregados. Eu não fui descoberta. A casa estava como eu preferia, escura e tranqüila.
A noite de abril era escura, também. Encontrei um grande sossego escondida nas sombras.
Sem luzes acesas na parte traseira da casa, e nenhuma lua subido ainda, parecia como se as sombras já tivessem ultrapassado completamente o caminho e, me dando boas-vindas, elas acariciaram meus pés.
Quando eu corria para o meu salgueiro, imaginava que elas cobriam meu corpo para me para camuflar na escuridão tão completa que nunca, jamais, permitiriam que fosse descoberta.
Eu segui a música da fonte até o meu salgueiro, separei os ramos e fui para meu banco, onde eu estava sentada com os pés enrolados debaixo de mim e meus olhos fechados, respirando profunda e uniformemente e procurando a serenidade que sempre encontrei lá.
Quando eu estava lá, não tinha um sentido de tempo real. Tentei manter o tempo em mente. Eu sabia que deveria deixar o meu lugar seguro bem antes que o pai voltasse, mas estava bebendo profundamente a noite. Eu não queria me separar dela.
O trinco do portão lateral para o jardim não tinha sido lubrificado, e seu grito de protesto ecoando em minha cabeça fez a minha mão e meu corpo tremerem.
Momentos depois, um galho nas proximidades do jardim caminho estalou e eu estava certa de que podia distinguir passos arrastados através do cascalho da passagem.
Não pode ser meu pai! Eu me lembrei. Ele não sabe que eu venho para o jardim!
Ou ele sabia? Freneticamente, minha mente correu de volta para as conversas noturnas de sábado, as mulheres elogiando meus arranjos de flores; o sarcasmo da Sra. Elcott em relação a minha lembrança do jardim.
Não. Não foi mencionado que eu estava passando um tempo no jardim. Não! Meu pai não podia saber. Apenas Arthur sabia. Ele tinha sido o único indivíduo que...
“Emily? Você está aí? Por favor, esteja aí.”
Como se eu o tivesse conjurado, a doce voz de Arthur Simpton o precedeu e ele se afastou dos ramos e atravessou a cortina do salgueiro
“Arthur! Sim, eu estou aqui!
Sem me permitir um tempo para pensar, agi por instinto e corri até ele, atirando-me em seu abraço surpreso, chorando e rindo ao mesmo tempo
“Emily, meu Deus! Você está realmente tão mal como o seu pai diz?
Arthur tinha me afastado dele, estudando-me com preocupação.
“Não, não, não! Oh, Arthur Estou perfeitamente bem agora!”
Eu não tinha voltado para seu abraço, sua hesitação me alertara. Eu não devia parecer tão desesperada, tão atirada.
Então limpei o rosto rapidamente e alisei meu cabelo, feliz de novo com o ocultamento da escuridão.
“Perdoe-me. Estou terrivelmente envergonhada.”
Afastei-me dele e corri de volta para a segurança do meu banco.
“Não foi nada. Nós dois fomos surpreendidos. Não há nada a perdoar”, ele assegurou-me em voz calma.
“Obrigada, Arthur. Você se sentaria comigo por um momento e me diria como veio parar aqui? Estou tão feliz!” Não fui capaz de me impedir de dizer. “Eu tenho estado tão perturbada com a ideia de não visitar você e sua família.”
Arthur sentou-se ao meu lado.
“Neste exato momento, seu pai está bebendo brandy com o meu e eles estão compartilhando charutos, bem como histórias bancárias. Vim parar aqui por causa da minha preocupação com você. Minha mãe e eu estamos terrivelmente preocupados desde que recebemos o bilhete de seu pai ontem, dizendo que você estava doente demais para fazer quaisquer visitas sociais nesta semana. Na verdade, foi idéia da mãe que eu viesse para sua casa e verificasse como você está esta noite.”
“Você contou a ela sobre o jardim?” Minha voz estava afiada e fria com medo.
Não havia luz suficiente para eu ver que ele estava franzindo a testa.
“Não, claro que não. Eu não trairia sua confiança, Emily. Minha mãe simplesmente sugeriu que eu a visitasse. E se você realmente não pudesse receber visitas, eu deveria deixar um bilhete com desejos de melhora com a sua
criada. O que foi exatamente o que fiz.”
“Você falou com Mary?”
“Não, creio que foi criado de seu pai quem atendeu a porta.”
Balancei a cabeça, impaciente.
“Sim, Carson. O que ele falou?”
“Eu pedi para ser anunciado para você. Ele disse que estava indisposta. Falei que meus pais e eu estávamos angustiados por ouvir isto, e pedi que ele lhe entregasse o nosso bilhete melhoras amanhã de.”
Ele fez uma pausa e sua expressão tinha começado a mudar para aquela que já se tornava tão amada por mim.
“Então o criado de seu pai me acompanhou até a varanda e me observou sumir à distância na bicicleta. Quando tive certeza de que ele não estava mais olhando, dei a volta e entrei pelo portão como fiz antes, na esperança de que eu pudesse encontrá-la aqui.”
“E então está aqui! Arthur, você é tão inteligente!”
Coloquei minha mão sobre a dele e pressionei. Ele sorriu e apertou a minha mão em troca. Olhei para ele lentamente, compreendendo que não devia me insinuar muito em tão pouco tempo.
“Então você tem se recuperado? Está bem?”
Respirei profundamente. Eu sabia que tinha que seguir com cuidado. Meu futuro, minha segurança e minha salvação dependiam disso.
“Oh, Arthur, é tão difícil para mim dizer isso. Me faz sentir desleal ao pai admitir a verdade.”
“Você? Desleal? Mal posso imaginar.”
“Mas temo que se eu falar a verdade, soarei desleal,” respondi suavemente.
“Emily, eu acredito na verdade. Dizê-la é mostrar a lealdade a Deus, que está além de qualquer lealdade que temos para com o homem. Além disso, somos amigos, e não é desleal compartilhar uma confidência com um amigo.”
“Como meu amigo, você segurará a minha mão enquanto conto o que está acontecendo? Eu me sinto tão assustada e sozinha.”
Eu tinha adicionado um pequeno soluço.
“É claro, doce Emily!” Ele capturou minha mão na sua. Lembro-me de quão maravilhoso foi a sentir a força e firmeza dele, e que grande contraste era o toque quente e pesado do pai.
“Então, esta é a verdade. Parece que meu pai está ficando louco. Ele quer controlar cada movimento meu. Eu não estava mal após noite de sábado, mas de repente ele se recusou a permitir que eu encontrasse com os seus pais. Ele também me proibiu de continuar o trabalho voluntário que tenho feito semanalmente no FGCM, e esta causa era tão importante para a minha mãe!” sufoquei outro soluço e agarrei a mão de Arthur. “Ele disse que não posso sair da Casa Wheiler até a próxima segunda-feira, e então estarei apenas autorizada a assistir a abertura da Exposição Universal de Columbia e a participar do jantar do University Club porque várias senhoras influentes pediram a minha presença. Eu sei que é como você disse antes, que o pai está de luto pela perda de sua esposa, mas seu comportamento tornou-se tão controlador que é assustador! Oh, Arthur, hoje à noite no jantar, quando tentei insistir para que eu continuasse o voluntariado das mães na FGCM, pensei que ele fosse me atacar!”
Comecei a chorar de verdade. Por fim, Arthur me puxou para os seus braços.
“Emily, Emily, por favor, não chore”, ele falou suavemente enquanto acariciava minhas costas.
Eu tinha me pressionado contra ele, chorando baixinho em seu ombro, tornando-me cada vez mais ciente de que eu não usava nada em exceto minha camisola fina e meu roupão largo. Eu não tenho vergonha de admitir que pensei na beleza e plenitude do meu corpo enquanto me agarrava a ele. Sua mão tinha parado de me acariciar, e havia começado se mover para cima e para baixo em minhas costas, calorosa e intimamente. Quando sua respiração começou a aprofundar e seu toque tinha mudado de consolo para carícia, percebi que o seu corpo começava a reagir à quantidade escassa de pano que separava sua mão e minha carne nua. Eu deixaria que o instinto me guiasse. Abracei-o com mais força, deslocando-me de modo que meus seios ficassem pressionados contra o seu peito, e então me afastei abruptamente de seus braços. Com as mãos trêmulas, arrumei meu roupão e me afastei dele.
“O que você deve pensar de mim! Meu comportamento está tão... tão” eu gaguejei, tentando encontrar as palavras de minha mãe. “Tão atirado!”
“Não, Emily. Você não deve pensar isso, porque não é o que eu acho. Você está, obviamente, perturbada, e não está agindo como você mesma.”
“Mas esse é o problema, Arthur. Eu sou eu, porque só tenho a mim mesma, só dependo de mim mesma. Estou completamente sozinha com o pai. Queria tanto que mamãe estivesse aqui pra me ajudar.” Eu não precisei fingir o soluço que se seguiu essas palavras.
“Mas eu estou aqui! Você não está sozinha. Emily, deixe-me falar com a minha mãe e meu pai sobre os seus problemas. Eles são sábios. Eles saberão o que fazer.
Reprimi uma vibração de esperança e balancei a cabeça miseravelmente.
“Não, não há nada a ser feito. Arthur, meu pai me assusta terrivelmente. Se o seu disser alguma coisa para ele a respeito de seu tratamento comigo, só tornaria a minha situação pior.”
“Emily, não posso prometer que meu pai não vai falar com o seu. Eu queria mais tempo para avançar devagar e com cuidado, mas do jeito que estão as coisas, não parece que estamos destinados a ter tempo.” Ele respirou profundamente e se virou para mim no banco. Gentilmente, castamente, ele tomou minhas mãos nas suas e continuou. “Emily Wheiler, eu gostaria de pedir permissão para cortejá-la formalmente, com o propósito expresso de torná-la minha esposa. Você vai me aceitar?”
“Sim, Arthur! Oh, sim!” Não tinha sido apenas alívio com a fuga que me fizera rir e chorar, abraçando-o com força. Eu gostava de Arthur Simpton verdadeiramente.
Eu poderia até amá-lo.
Ele me abraçou de volta e, em seguida, riu comigo, dizendo em seguida:
“Eu não tenho parado de pensar em você desde o momento em que a vi pela primeira vez todos aqueles meses atrás quando você e sua amiga se juntaram ao Clube Hermes. Acho que eu sempre soube que você seria minha.”
Eu tinha inclinado a cabeça para trás e olhei para ele com adoração.
“Arthur Simpton, você me fez a garota mais feliz do mundo.”
Lentamente, ele se inclinou e apertou seus lábios nos meus. Esse primeiro beijo tinha proporcionado um choque elétrico no meu corpo. Eu me senti moldar ao seu corpo e meus lábios se separaram convidativamente.
Arthur tinha aprofundou o beijo, me degustando hesitante com a língua. Não houvera nenhuma hesitação em minha resposta. Eu tinha me aberto para ele, e até mesmo enquanto escrevo aqui, meu corpo se lembra facilmente da onda de calor e umidade que sua boca me fez sentir. Respirando profundamente, ele interrompeu o beijo. Sua risada estava trêmula.
“E-eu devo falar com o seu pai em breve. Amanhã! Vou chamá-lo amanhã.”
Meu bom senso voltou a mim abruptamente.
“Não, Arthur! Você não deve.”
“Mas eu não entendo. Você está com medo, e o tempo é essencial.”
Peguei a mão dele, apertando-a contra meu peito, por cima do meu coração, e me atrevi a dizer: “Você confia mim, meu querido?”
Sua expressão assustada tinha suavizado instantaneamente.
“É claro que confio!”
“Então, por favor, faça o que eu digo e tudo ficará bem. Você não deve falar a sós com o pai. Ele não é ele mesmo. Não vai ser razoável. Arthur, ele pode até proibi-lo de me ver, e em seguida, bater-me quando eu protestar.”
“Não, Emily! Eu não permitirei!”
Eu dei um suspiro de alívio.
“Sei como você pode proteger sua bênção, minha segurança, e nossa felicidade, mas você deve fazer o que eu lhe digo. Conheço meu pai muito melhor do que você.”
“Diga-me o que devo fazer para mantê-la segura.”
“Certifique-se de que você e seus pais irão ao jantar no University Club na próxima segunda-feira após as cerimônias de abertura no centro. No jantar, na frente de seus colegas e das grandes damas de Chicago que expressamente solicitaram que eu acompanhasse papai, é quando você deve pedir publicamente permissão para me cortejar.” Arthur já estava concordando com a cabeça, mas eu continuei: “Mesmo em seu estado instável atual, ele não agirá irracionalmente em público.”
“Quando eu comprometer minhas intenções, e minha família me apoiar, seu pai vai não terá razão para me recusar.”
Parte superior do formulário
Parte inferior do formulário
Apertei sua mão com mais força.
“Isso é verdade, mas só se você fazê-lo em público.”
“Você está certa, doce Emily. Seu pai terá que agir como ele, então.”
“Exatamente! Você é tão sábio, Arthur”, foi o que eu disse. Os meus pensamentos, é claro, tinha sido muito diferente.
“Mas você ficará segura por uma semana? E como posso vê-la sem provocar seu pai?”
Minha mente zumbia.
“O próprio pai disse que estou com mal-estar. Eu serei uma filha obediente e insistirei que ele está certo, que minha saúde é frágil e que tenho que descansar, de modo a estar revigorada para segunda-feira.” E, acrescentei silenciosamente, irei para a minha cama cedo e dormirei com uma pesada escrivaninha barrando a entrada para o meu quarto...
Arthur soltou minha mão e gentilmente acariciou meu nariz.
“E não insista mais para ser voluntária no FGCM. Depois de nos casarmos, haverá anos para que você siga o seu espírito cívico e voluntário muitas vezes e onde quiser, se assim o desejar.”
“Depois de nos casarmos!” repeti as palavras feliz, mentalmente afastando o resto da sua sentença. “Isso soa tão maravilhoso!”
“Minha mãe vai ficar satisfeita”, ele comentou.
Isso tocara meu coração e lágrimas verdadeiras vieram para os meus olhos.
“Eu terei uma mãe novamente.”
Arthur tinha me abraçado, e desta vez não ofereci meus lábios para ele. Desta vez apenas me agarreio feliz a ele.
Logo ele colocou seus braços em torno de mim.
“Emily, eu não gostaria de deixá-la, mas estou preocupado com o passar do tempo. Pai não esquecerá de sua saúde por muito tempo.”
Eu já estava de pé antes de ele terminar de falar. Peguei seu braço e o guiei para a borda da blindagem da escuridão do meu salgueiro.
“Você está completamente certo. Deve sair antes do meu pai voltar.
E eu tenho que correr para barricar-me dentro do meu quarto!
Ele se virou para mim.
“Diga-me como posso vê-la entre agora e na próxima semana. Devo saiber que você está realmente segura e bem.”
“Aqui, você pode vir aqui, mas apenas à noite. Se for seguro, e se eu for capaz de escapar para os jardins, pegarei um lírio e o colocarei no trinco da porta do jardim. Quando você vir o lírio, saberá que estou esperando por você, meu amor.”
Ele me beijou rapidamente e disse: “Esteja segura, minha amada.”
E então se apressou ao longe na escuridão.
Eu estava tendo vertigens de tanta felicidade e sem fôlego com preocupação enquanto corria tão rapidamente e em silêncio
quanto podia de volta pela casa e até os longos lances de escadas. Tinham se passado apenas alguns minutos depois de eu ter empurrado a escrivaninha contra a minha porta que, olhando atrás das cortinas da minha varanda do terceiro andar, vi o pai tropeçar bêbado para fora de nossa carruagem.
Se ele se postou do lado de fora da minha porta naquela noite, eu não percebi. Naquela noite eu dormi em paz, a porta bloqueada, contente de que a minha fuga estava em andamento e que o meu futuro seria seguro e feliz.

* * *

Evitar o pai durante a próxima semana foi muito mais fácil do que eu esperava, graças às agruras financeiras da Exposição Mundial. O banco do meu pai estava em tumulto por causa do financiamento de última hora que o Sr. Burnham estava insistindo Comitê da Exposição aprovasse.
Na terça e quarta-feira ele se apressara durante o jantar e saiu imediatamente depois, murmurando sombriamente sobre arquitetos e expectativas irrealistas. Apesar de ele não voltar para casa até bem depois do nascer da lua, não escapei para o meu jardim. Não colhi um lírio até que a oportunidade surgir. Mas na quinta-feira à noite, quando Carson anunciou que o pai tinha voltado para casa apenas por tempo suficiente para vestir um traje mais formal e em seguida partir para o jantar e uma reunião do conselho no University Club, eu sabia que teria horas de solidão antes que ele retornasse.
Levei o jantar para minha sala de estar privada e dispensei Mary horas antes que o de costume, incentivando-a a tirar a noite para si mesma e visitar sua irmã que morava do outro lado da cidade, no Meatpacking District. Ela ficara grata pelo tempo livre e, como sabia que seria, a notícia de que o senhor e senhora da Casa Wheiler estavam ocupados se espalhou pelos empregados. A casa estava silenciosa como a morte antes que o sol tivesse deixado totalmente o céu, e foi quase difícil para mim esperar a verdadeira escuridão e as sombras da noite. Eu estava parada e aflita até que a lua, quase completamente cheia, se erguera no céu. Então rastejei do meu quarto, movendo-me muito mais lentamente do que o meu coração queria que meus pés fossem, mas entendi que deveria ser mais cuidadosa do que nunca.
Minha liberdade estava à vista. Ser descoberta agora, mesmo que apenas por um dos nossos empregados, poderia colocar tudo o que eu tinha trabalhado tão duro para planejar em risco.
Talvez eu devesse ter permanecido no meu quarto e confiar que Arthur não abandonaria a sua palavra, mas a verdade era que eu precisava vê-lo. Eu desejava ser tocada por sua bondade e sua força, e através de seu toque sentir emoções mais quentes, mas suaves novamente.
A tensão dentro de mim aumentava a cada dia, e a segunda-feira estava cada vez mais próxima. Mesmo que o pai estivesse em grande parte ausente, eu tinha começado a sentir uma crescente sensação de mau agouro. A segunda-feira deveria trazer um fim ao meu medo e sofrimento, mas eu não estava tão surpresa com o pressentimento de que algo terrível poderia acontecer que até a minha imaginação não podia dar-lhe nome, eu estava à espera de acontecer comigo.
Tentando deixar de lado o mau pressentimento e me concentrar nas coisas que eu podia controlar – os eventos que eu podia entender – vesti-me com cuidado, plenamente consciente de que devia chamar a atenção de Arthur para mim e torná-lo irremediavelmente meu. Escolhi a minha melhor roupa de noite, uma camisola feita de linho cor-de-rosa tão suave que parecia seda contra a minha pele nua. Do guarda-roupa da minha mãe, peguei emprestado o roupão mais fino. Era, naturalmente, feito de veludo da cor exata dos nossos olhos. Eu estava diante do meu espelho enquanto o envolvia confortavelmente ao redor do meu corpo, usando a faixa bordada de ouro e apertando-a muito bem, de modo que a magreza da minha cintura contrastasse lindamente com as curvas generosas de meus seios e quadris. Mas eu tinha tido a certeza de que a faixa foi amarrada com um laço que podia ser facilmente solto, como num acidente. Eu havia deixado meu cabelo sem adornos e solto, escovado até brilhar de modo que caísse em uma grossa onda ruiva pelas minhas costas.
Eu colhera um lírio perfumado em plena floração ao lado do caminho do jardim. Antes que eu tivesse enroscado-a através do trinco do lado externo do portão, arranquei uma pétala e esfreguei-a em minha nuca, entre os meus seios e em meus pulsos. Em seguida, coberta pelo doce aroma de lírio e pelas sombras acolhedoras da noite, sentei em meu banco e esperei.
Olhando para trás, imaginei que eu não poderia ter esperado muito tempo. A lua, branca e luminosa, ainda estava suspensa no céu quando ouvi o barulho do portão do jardim sendo aberto e sapatos triturando apressadamente o cascalho no caminho.
Eu não tinha sido capaz de me sentar com calma como deveria fazer. Saltei sobre meus pés, que mal pareciam tocar a grama da primavera, e corri para a beira da minha cortina de salgueiro para atender o meu amante, meu cavaleiro, meu salvador.
“Arthur!”
Seus braços estavam ao meu redor e sua querida voz soava como uma sinfonia em meus ouvidos.
“Min ha doce Emily! Você está bem? Ilesa?”
“Estou completamente bem agora que você está aqui!”
Eu ri e inclinei o rosto para cima, oferecendo os meus lábios para ele. Arthur me beijara, então, e ainda pressionou seu corpo contra o meu, mas quando comecei a sentir um aumento na tensão de seu corpo, ele tinha parado de me abraçar e, com uma risada trêmula, curvou-se formalmente para mim e me ofereceu o braço.
“Minha senhora, posso levá-la para o seu lugar?”
Coloquei o meu cabelo grosso para trás e fiz uma reverência, sorrindo provocativamente para ele.
“Oh, por favor, gentil senhor. E apesar de eu não querer parecer demasiado atirada, você deve saber reservei cada dança desta noite para você.”
Minhas palavras o fizeram rir de novo, menos nervoso do que antes, e não me apeguei com muita força em seu braço, mas dei-lhe a oportunidade de se recompor quando ele me guiou para o banco.
Nós nos sentamos, de mãos dadas. Suspirei feliz quando ele, timidamente, levantou minha mão e beijou-a suavemente.
“Diga-me como você tem estado. Não houve um momento desde a última vez que a vi que você não esteve em minha mente”, ele falou, soando tão sério e jovem que quase me assustou. Como poderia alguém tão bom e gentil quanto Arthur Simpton levantar-se contra o meu pai? Ele não precisará fazer isso! Eu me lembrei tão rapidamente agora. Arthur só precisa fazer uma declaração pública para mim – o medo de meu pai à escândalos e zombaria farão o resto.
“Eu senti sua falta”, falei, segurando firmemente a sua mão forte.
“Mas seu pai, ele não tem...” Quando Arthur vacilou e não conseguiu concluir a sua pergunta, eu continuei para ele:
“Meu Pai não tem estado em casa com frequência nas últimas noites. Raramente temos nos falado. Eu me mantive no quarto, e ele tem estado ocupado com o negócio de financiar a Exposição.
Arthur balançou a cabeça em compreensão. “Até o meu pai se levantou do seu leito de doente, fez refeições e realizou negócios ao lado do Sr. Pullman.”
Ele fez uma pausa, e pareceu desconfortável.
“O que foi?” Eu o cutuquei.
“Minha mãe e meu pai ficarm completamente satisfeitos quando anunciei minhas intenções para com você. Quando expliquei ainda mais suas circunstâncias, minha mãe, em particular, ficou preocupada, especialmente depois que o pai voltou para casa ontem à noite depois de uma reunião e relatou o quanto seu pai ficou bêbado, assim como descortês e beligerante, antes mesmo da reunião mesmo ter chegado ao fim.”
Senti um tremor de medo.
“Oh, por favor, Arthur! Diga-me que seus pais não tentaram controlar os excessos de meu pai contra mim. Ele quebraria meu coração se eles fizessem isso!”
“Claro que não.” Ele gentilmente acariciou minha mão. “Pelo contrário. Porque meu pai testemunhou o comportamento do Sr. Wheiler por si mesmo, e ele e minha mãe estão ainda mais determinados que o nosso namoro seja curto, nosso compromisso seja anunciado formalmente, e você seja resgatada de uma situação tão indesejável logo que seja adequado. Se tudo correr como planejado, no próximo ano eu e você devemos nos casar, minha doce Emily!”
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Ele puxou-me delicadamente em seus braços, em seguida, me abraçou. Eu estava tão satisfeita que poderia enterrar meu rosto em seu peito e começar a gritar com uma impotente frustração. Um ano! Eu não posso prolongar esta situação abominável por mais outros ano!
Deslizei para mais perto de Arthur, secretamente puxando a faixa que fechava o robe de minha mãe.
“Arthur, um ano parece um tempo muito longo a contar de agora,” murmurei, levantando um pouco meu rosto, de modo que minha respiração ficasse quente contra seu pescoço.
Seus braços se apertaram ao meu redor.
“Eu sei. Parece muito para mim também, mas temos de fazer as coisas corretamente, de modo a não causar fofoca.”
“Eu só estou com tanto medo do que o meu pai vai fazer. Ele está bebendo mais e mais, e quando está ébrio, ele é assustador. Seu pai chegou a dizer que ele estava agressivo!”
“Sim, doce Emily, sim”, ele respondeu suavemente, acariciando meu cabelo. “Mas uma vez que estivermos comprometidos, você pertencerá a mim. Embora seja indelicado da minha parte dizer isso, a verdade é que minha família tem mais conexões sociais e é mais rico do que a sua. Eu quero que você saiba que isso não importa para mim, mas isso fará diferença para o seu pai. Ele não ousará ofender minha família, o que significa que, uma vez que estivermos envolvidos, ele não ousará ofender – ou fazer mal – a você.”
É claro que Arthur tinha falado a verdade como ele conhecia. O problema era que Arthur não entendia a profundidade da depravação do meu pai ou a força de seus desejos.
Mas eu não poderia contar-lhe tanta informação chocante. Tudo o que eu podia fazer era ter certeza de que Arthur Simpton estivesse ansioso para casar comigo o mais rápido possível.
Então, eu me desembaracei de seu abraço e fiquei de costas para ele, meu rosto em minhas mãos, e chorei baixinho.
“Minha Emily! Minha querida! O que é isso?”
Eu virei para encará-lo, tendo a certeza de que o meu movimento fez com que o robe se afrouxasse expusesse a camisola embaixo.
“Arthur, você é tão bom e tão gentil, eu não sei como fazer você entender.”
“Simplesmente me diga! Você sabe que nós éramos amigos antes de nos envolvermos.”
Eu arrumei meu cabelo e limpei meu rosto, todo o tempo observando como o seu honesto olhar brilhava enquanto via as curvas do meu corpo.
“Percebo que seus pais sabem o que é melhor, e quero fazer a coisa certa. Estou apenas com tanto medo. E, Arthur, devo contar outro segredo.”
“Você pode contar qualquer coisa para mim!”
“Cada momento que passo longe de você é uma agonia para mim. É muito impróprio admitir isso, mas é a verdade.”
“Venha aqui, Emily. Sente-se ao meu lado.” Eu estava sentada perto dele e inclinei-me contra ele. Ele me cercou com o braço. “Não é impróprio você admitir seus sentimentos por mim. Estamos praticamente noivos. E eu já admiti que passo cada momento pensando em você. Será que aliviaria a sua mente se eu falasse com meus pais e lhes pedisse para tentar encontrar uma desculpa para encurtar o nosso período de namoro?”
“Oh, Arthur, sim! Isso acalmaria muito os meus nervos!”
“Então, considere-o feito. Vamos resolver isso juntos e um dia, em breve, você que não terá mais nada a temer da vida, exceto que seu marido satisfará cada um de seus caprichos.”
Descansei minha cabeça em seu ombro e senti uma maravilhosa sensação de bem-estar de tal forma que o mau pressentimento que me sombreava de repente desapareceu, e eu estava finalmente, finalmente aquecida novamente.
Juro que não vou me gabar, nem fantasiar sobre o que aconteceu em seguida. Quando nós nos sentamos lá juntos, no aconchego do meu salgueiro, a lua ergueu alto o suficiente para enviar sua luz prata para baixo na fonte, emprestando ao touro branco e sua donzela um brilho sobrenatural. As estátuas pareceram brilhar, quase como se a luz da lua desse vida a elas.
“Não é lindo?”, sussurrei com reverência, sentindo como se eu estivesse de alguma forma na presença do divino.
“O luar é adorável”, ele disse, hesitante. “Mas devo admitir que a fonte me deixa confuso.”
Eu tinha sido surpreendida. Ainda sob o feitiço da lua brilhando, levantei minha cabeça, de modo que eu podia olhar em seus olhos.
“Confuso?” Eu tinha balançado minha cabeça, sem compreender. “Mas são Zeus e Europa – e não é a minha fonte. Era a fonte da minha mãe. Meu pai a presenteou como presente de casamento.”
“Eu não quero criticar o seu pai, mas parece um presente inapropriado para uma jovem esposa.” O olhar de Arthur tinha ido de volta para a fonte banhada com a luz da lua. “Emily, eu sei que você é uma inocente, e este é um assunto melhor de não se discutir, mas você não percebe que Zeus violenta a donzela Europa depois que ele, em forma de touro, a rouba?”
Tentei ver o chafariz com outros olhos, mas ainda assim tudo o que eu via era a força e a majestade do touro, e a beleza da donzela núbil. Então, por algum motivo, a minha voz falou palavras que até então eu só tinha considerado silenciosamente.
“E se Europa foi com Zeus de boa vontade? E se ela realmente o amava e ele a ela, e foram só aqueles que não queriam que eles ficassem juntos – não queriam que eles tivesem um final feliz – que chamou isso de violentar?”
Arthur riu e deu um tapinha condescendente no meu braço.
“Quão romântica você é! Acho que gosto de sua versão do mito, é melhor do que a lasciva que conheço.”
“Lasciva? Eu nunca considerei como tal.”
Eu encarava a fonte do jardim – agora a minha fonte, e o calor que Arthur me fez sentir começou a se esvair.
“É claro que não. Você não sabe nada de lascívia, minha doce Emily.”
Quando ele acariciou meu ombro novamente, tive que me esforçar para não me afastar de seu toque condescendente.
“Mas falar de fontes, jardins e tudo mais me lembra que minha mãe começou supervisionar planos para extensos jardins na Casa Simpton. Ela compartilhou comigo que está animada com a sua chegada, especialmente se a Casa Simpton for sua algum dia.”
Senti um choque de mal-estar, então, embora em retrospecto fosse bobagem da minha parte. Em toda a fantasia e planejamento que eu tinha feito sobre o meu futuro e minha fuga, não havia considerado que eu poderia estar me mudando de uma gaiola dourada para outra.
“Então, vamos viver com os seus pais, aqui em Chicago, depois de nos casarmos?”, perguntei.
“Claro! Onde mais? Estou certo de que não poderia residir confortavelmente na Casa Wheiler, não com seu pai em um temperamento tão desagradável.”
“Não, eu não gostaria de viver aqui”, eu lhe assegurei. “Suponho que pensei que você poderia querer voltar para Nova York. Seu pai ainda tem interesses de negócios lá que precisam ser cuidadas, não é mesmo?”
“Na verdade, ele tem, mas os maridos das minhas irmãs são mais do que competentes a esse respeito. Não, Emily, eu não tenho nenhum desejo de deixar Chicago. Esta cidade tem meu coração. Ela está sempre em mudança.Parte superior do formulário
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 Há sempre algo novo acontecendo aqui, sempre outra emoção, uma nova descoberta, levantando-se com a aurora.”
 “Tenho medo de saber tão pouco sobre isso” tentei não soar tão fria e amarga como eu me sentia. “Para mim, Chicago se resumiu a Casa Wheiler.”
“Não há nada de errado em ser uma inocente, Emily. Isso é uma forma intrigante de excitação e descoberta de si própria”.
Ele tinha me surpreendido depois por estar me puxando um pouco mais perto em seus braços e me beijando exaustivamente. Eu lhe permiti o beijo e uma longa carícia quente nas minhas costas quando ele deslizou a mão dentro do meu roupão solto. Seu toque não me repugnava, mas quando considero de volta, tenho que admitir, só aqui no meu diário, em silêncio, que eu gostava de suas atenções muito mais quando eu as provocava. A urgência de sua boca tinha me feito sentir estranha e quase invadida.
Eu tinha sido a primeiro a parar o abraço, afastando-me dele e sinceramente fechando meu roupão.
Arthur limpara a garganta e passou a mão trêmula em seu rosto antes de delicadamente colocar a minha mão na sua novamente.
“Eu não tive a intenção de tirar proveito de nossa solidão e expresso minhas atenções de forma inadequada.”
Suavizei minha voz e olhei timidamente para ele, por debaixo dos meus cílios.
“Sua paixão me surpreendeu, Arthur.”
“É claro que sim. Vou mostrar mais cuidado para a sua inocência no futuro,” ele assegurou-me. “Você não pode saber quão bonita e desejável você é, apesar de tudo. Especialmente da forma como está vestida.”
Engasguei e apertei minhas mãos contra as minhas bochechas, mesmo que através da cortina da escuridão ele não pudesse ver que suas palavras não me fizeram corar.
“Eu não tive a intenção de ser inadequada! Nem sequer considerei meu estado de nudez. Tive que dispensar a minha criada para que eu pudesse ter certeza de que nem mesmo os empregados descobrissem que eu estava esperando por você.”
“Eu não a culpo – não em tudo”, ele me assegurou.
“Obrigada, Arthur. Você é tão bom e gentil”, respondi, embora as palavras quase não saíssem da minha garganta. Eu fiz um show de bocejos em seguida, cobrindo minha boca delicadamente com a mão.
“Esqueço do quão tarde está. Você deve estar exausta. Eu deveria ir, especialmente uma vez que não poderia cruzar com o seu pai ao atravessar o jardim – ou pelo menos ainda não. Lembre-se, eu estarei perto do portão do jardim a cada noite entre hoje e segunda-feira, na esperança de ver um lírio.”
“Arthur, por favor, não fique com raiva de mim se eu não puder escapar. Vou tentar o meu melhor, mas devo estar segura. Você sabe como papai tornou-se imprevisível.”
“Eu não poderia ficar com raiva de você, minha doce Emily. Mas eu terei esperança. Se tudo for possível, rezarei para vê-la antes de segunda-feira.”
Eu tinha concordado e acenado cordialmente, e caminhei de mãos dadas com ele até a borda da cortina de salgueiro, onde ele me beijou suavemente e saiu, assobiando e pisando levemente, como se não tivesse nenhuma preocupação no mundo.
Quando tive certeza de que ele tinha ido, deixei meu salgueiro-esconderijo e caminhei dentro das sombras suaves do caminho escuro para a casa. Ninguém apareceu quando corri para o meu quarto. Lá, empurrei a escrivaninha para frente da porta e puxei meu diário de seu esconderijo.
Agora, enquanto releio minhas palavras, não acredito que eu esteja fazendo com Arthur ou sua família uma injustiça, manipulando os sentimentos dele. Eu me importo com ele, e serei uma esposa boa e obediente, mas entre hoje e segunda-feira não vou pegar um lírio e colocá-lo no portão do jardim. Não vou tentar o destino mais do que eu já tento. Arthur vai se comprometer a mim na segunda-feira à noite, na frente do meu pai, de sua família e dos nossos pares sociais. Meu pai não vai se desgraçar ao recusar uma união tão grande e gloriosa das famílias. Então eu só preciso continuar a estimular Arthur em um casamento apressado, e tudo ficará bem.
É o pai e a abominação de seus desejos não naturais que me faz sentir calafrios. Quando eu estiver livre dele, serei livre para amar e viver novamente.
Eu não vou permitir-me a acreditar em qualquer outra coisa.

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