6 de novembro de 2015

15 janeiro de 1893

Diário de Emily Wheiler
Primeira anotação


Este não é um diário. Eu detesto a ideia de compilar meus pensamentos e ações em um livro secreto, trancado longe de todos como se fossem joias preciosas.
Eu sei que meus pensamentos não são joias preciosas.
Comecei a suspeitar que meus pensamentos são muito loucos.
É por isso que me sinto obrigada a registrá-los. Pode ser que ao relê-los em algum momento futuro, eu descubra por que essas coisas horríveis me aconteceram.
Ou talvez eu descubra que, de fato, perdi a cabeça.
Se for esse o caso, então isso servirá como um registro do início da minha paranoia e loucura, de modo a estabelecer as bases para descobrir uma cura.
Não quero ser curada?
Talvez seja uma questão que seria melhor pôr de lado por enquanto.
Primeiro, deixe-me começar quando tudo mudou. Não foi hoje, na primeira anotação meu diário. Foi dois meses e meio atrás, no primeiro dia de novembro, no ano de 1892. Foi na manhã em que minha mãe morreu.
Mesmo aqui, nas páginas silenciosas deste diário hesito em recordar aquela terrível manhã. Minha mãe morreu em uma maré de sangue que surgiu de dentro dela após o nascimento do pequeno corpo sem vida do meu irmão, Barrett, em homenagem ao pai. Pareceu-me então, como hoje, que a mãe simplesmente desistiu quando viu que Barrett não respirava.
Era como se até mesmo a força da vida que a sustentava não pudesse suportar a perda de seu precioso único filho.
Ou a verdade completa era que ela não podia suportar a ideia de enfrentar o pai após a perda de seu precioso único filho?
Esta questão não teria passado pela minha mente antes daquela manhã. Até a manhã em que minha mãe morreu, as questões que mais frequentemente passavam pela minha mente estavam focadas em como eu poderia convencer a mãe a me permitir comprar outra das novas roupas de ciclismo, ou como eu poderia deixar meu cabelo exatamente igual a um penteado Gibson.
Se eu tivesse pensado no pai antes da manhã em que a mãe morreu, seria como a maioria das minhas amigas pensaria em seus pais – como um patriarca distante e um pouco intimidante. No meu caso particular, o pai só me elogiou por meio de comentários da mãe. Na verdade, antes da morte dela, ele raramente parecia me perceber em tudo.
Ele não estava no quarto quando a mãe morreu. O médico proclamara o processo de parto vulgar demais para um homem testemunhar, especialmente um homem com a importância de Barrett H. Wheiler, presidente do First National Bank of Chicago.
E eu? Filha de Barrett e Alice Wheiler? O médico não mencionou a vulgaridade do parto para mim. Na verdade, o médico nem me notou até depois que a mãe estava morta e o pai me trouxe a sua atenção.
“Emily, você não deve me deixar. Espere comigo até que o médico chegue e, em seguida, fique lá, no assento da janela. Você deve saber o que é ser uma esposa e uma mãe. Não deve ir cegamente como eu fiz.” A mãe me ordenara com aquela voz suave dela, que fazia com que todos que não a conhecessem melhor acreditassem que ela era facilmente levada e não fosse mais do que um belo enfeite condescendente nos braços do meu pai.
“Sim, mãe”, respondi com um aceno de cabeça, e fiz o que ela ordenara.
Lembro-me de estar, ainda como sombra, no assento da janela em frente à cama no opulento quarto de dormir da mãe. Eu vi tudo. Não demorou muito tempo para ela morrer.
Havia muito sangue. Barrett nascera em uma poça de sangue, ainda uma criatura pequena. Ele parecia uma boneca quebrada e grotesca. Após o espasmo que o expulsara de entre as pernas da mãe, o sangue não parou. Manteve-se saindo e saindo, enquanto minha mãe chorava lágrimas tão silenciosas quanto seu filho. Eu sabia que ela chorava porque ela tinha virado a cabeça para longe da vista do médico embalando o bebê morto em lençóis. O olhar da mãe encontrou o meu, então.
Eu não podia permanecer no assento sob a janela. Corri para o lado de sua cama e, enquanto o médico e sua enfermeira inutilmente tentavam estancar o rio escarlate que jorrava dela, agarrei sua mão e tirei o cabelo úmido da testa. Através das minhas lágrimas e meu medo, tentei murmurar tranquilidade para ela, dizer-lhe que tudo ficaria bem, uma vez que ela descansasse.
A mãe apertou minha mão e sussurrou:
“Estou feliz que você esteja aqui comigo no final.”
“Não! Você vai ficar melhor, mãe!”, eu protestara.
“Sssh”, ela me acalmou. “Basta segurar a minha mão.” Sua voz tinha desaparecido em seguida, mas os olhos de esmeralda da mãe, os que todo mundo dizia que eram tão parecidos com os meus, não desviaram o olhar de mim o tempo todo, seu rosto corado foi ficando branco e sua respiração se suavizou, travando, e em seguida, com um suspiro, cessou por completo.
Eu tinha beijado a mão dela, e então cambaleei para trás no meu assento da janela, onde chorei, passando despercebida quando a enfermeira realizava a difícil tarefa de se livrar das roupas encharcadas e fazendo a mãe ficar apresentável para a visão do pai. Mas o pai não esperou até que a mãe tivesse sido preparada para ele. Ele abriu caminho para dentro do quarto, ignorando os protestos do médico.
“É um menino, você disse?” O pai não tinha muito como olhar para a cama. Em vez disso, ele tinha se apressado para o berço em que jazia o corpo envolto de Barrett.
Era, de fato, um menino”, disse o médico sombriamente. “Nasceu cedo demais, como eu lhe disse, senhor. Não havia nada a ser feito. Seus pulmões estavam muito fracos. Ele nunca conseguiu respirar. Não conseguiu nem gritar.”
“Morto... em silêncio.” O pai passou a mão em seu rosto cansado. “Sabia que quando Emily nasceu, ela chorou tanto que se podia ouvi-la na sala de estar no andar de baixo, e eu acreditei que ela fosse um menino?
“Bem, Sr. Wheiler, sei que é de pouco consolo depois de perder um filho e a esposa, mas você tem uma filha, e através dela a promessa de herdeiros.”
“Ela me prometeu herdeiros!” o pai gritou, finalmente voltando a olhar para minha mãe.
Devo ter feito algum som baixo e ferido, porque os olhos do pai desviaram imediatamente para a minha janela. Eles se estreitaram, e por um momento pareceu que ele não me reconhecia.
E então ele se sacudiu, como se estivesse tentando tirar algo desconfortável de sua pele.
“Emily, por que você está aqui?” A voz do pai tinha soado tão irritada que parecia que a pergunta que ele queria fazer era muito mais do por que eu estava no quarto naquele momento em particular.
“M-mãe me mandou f-ficar”, eu gaguejara.
“Sua mãe está morta”, ele respondeu, a raiva misturada À verdade em duros gumes.
“E este não é lugar para uma jovem.” O rosto do médico corou quando ele enfrentou o meu pai. “Perdão, Sr. Wheiler. Eu estava muito ocupado com o nascimento para notar a menina ali.”
“A culpa não foi sua, Doutor Fisher. Minha esposa sempre fazia e dizia coisas que me deixavam perplexo. Esta foi simplesmente a última delas.” O pai fez um gesto de desprezo que embarcou o médico, as empregadas e a mim. “Agora me deixem com a Sra. Wheiler, todos vocês.”
Eu queria correr do quarto e fugir o mais rápido possível, mas meus pés haviam ficado dormentes e frios de sentar-se imóvel por tanto tempo, e quando passei pelo pai, eu tropecei.
Sua mão segurou meu cotovelo. Eu olhei para cima, assustada.
A expressão dele de repente pareceu amolecer quando olhou para mim.
“Você tem os olhos de sua mãe.”
“Sim.” Respirar e concordar era tudo o que eu podia fazer.
“Assim é como deveria ser. Você será agora a Senhora da Casa Wheiler.” Então o pai me soltou e caminhou lentamente, com dificuldade, para a cama ensanguentada.
Quando fechei a porta atrás de mim, eu o ouvi começar a chorar.
Desse modo, também começou o meu tempo estranho e solitário de luto. Movi-me entorpecida pelo funeral e depois desabei. Era como se um sonho tivesse assumido. Eu não conseguia me libertar dele. Durante dois meses completos, mal saí da minha cama. Eu não me importava de crescer magra e pálida. Não me importava que as condolências sociais vindas de amigos da minha mãe e suas filhas ficassem sem resposta. Eu não percebi que o Natal e um ano novo chegou e passou. Mary, a empregada doméstica da minha mãe que eu tinha herdado, implorou, seduziu e repreendeu. Eu não me importava com nada.
Foi no quinto dia de janeiro quando meu pai me arrancou das garras do sonho, libertando-me. Meu quarto tinha ficado frio, tão frio que o meu tremor me despertara. O fogo em meu coração tinha morrido e não foi reacendido, então puxei a cordinha ligada ao sino que convocava Mary, que tilintava todo o caminho dos quartos dos empregados nas entranhas da casa, mas ela não havia respondido o meu chamado. Lembro-me de vestir o meu roupão e pensar brevemente como ele parecia grande e como me envolvia inteira. Fazendo lentamente meu caminho do meu quarto no terceiro andar e descendo a larga escada de madeira, tremendo, eu procurei por Mary.
Meu pai tinha saído de seu escritório quando terminei de descer as escadas. Quando me viu, seus olhos estavam brancos de surpresa, então sua expressão mudou. Surpresa seguida por algo que eu estava quase certa de que era desgosto.
“Emily, você está miserável! Magra e pálida! Está doente?”
Antes que eu pudesse responder, Mary estava lá, correndo através do foyer em nossa direção.
“Eu lhe disse, Sr. Wheiler. Ela não está comendo. Eu disse que ela não estava fazendo nada, só dormindo. Perdida à distância, ela está.” Mary tinha falado rapidamente, seu sotaque irlandês macio mais pronunciado do que o habitual.
“Bem, esse comportamento tem de acabar de uma vez,” o pai lhe disse com firmeza. “Emily, você vai sair de sua cama. Vai comer. Fará caminhadas diárias nos jardins. Eu simplesmente não serei obrigado a vê-la emagrecendo. Você será, afinal, a Senhora da Casa Wheiler, e minha senhora não pode ser vista como se fosse uma criança abandonada na sarjeta morrendo de fome”.
Seus olhos estavam duros. Sua raiva tinha sido intimidante, especialmente quando percebi que a mãe não apareceria a partir de sua sala, cheia de energia distrativa e me enxotando enquanto pacificava o pai com um sorriso e um toque.
Dei um passo automático para longe dele, o que só tornou sua expressão mais escura.
“Você tem o olhar de sua mãe, mas não sua coragem. Irritante como ela era, por vezes, eu admirava sua coragem. Sinto sua falta.”
“E-eu sinto falta da mãe, também”, ouvi-me deixar escapar.
“É claro que sentes, senhorita” Mary tinha se acalmado. “Faz apenas pouco mais de dois meses.”
“Então nós temos algo em comum, afinal.” O pai havia ignorado Mary completamente e falado como se ela não estivesse lá, nervosamente tocando meu cabelo, alisando meu roupão. “A perda de Alice Wheiler criou a nossa semelhança.” Ele virou a cabeça, em seguida, me estudando. “Você tem os olhos dela.” O pai coçou a barba escura e seu olhar perdido era duro e intimidante. “Teremos que fazer o melhor na ausência dela, sabe.”
“Sim, pai.” Eu me senti aliviada com as gentileza de sua voz.
“Bom. Então espero que você se junte a mim para jantar todas as noites, como você e sua mãe costumavam fazer. Não se esconda mais em seu quarto, morrendo de fome.”
Eu tinha sorrido então, sorrido de verdade.
“Eu adoraria,” respondi.
Ele grunhiu, bateu o jornal que segurava sob seu braço e acenou com a cabeça.
“Até o jantar, então,” ele disse, e passou por mim, desaparecendo na ala oeste da casa.
“Posso até estar um pouco faminta esta noite”, falei para Mary, que veio até mim e me ajudou a subir a escada.
“É bom ver que ele está tomando interesse pela senhorita” Mary tinha sussurrado feliz.
Eu mal prestei atenção nela. Meu único pensamento foi que, pela primeira vez em um mês, eu tinha algo mais do que dormir e parecer triste pela frente. Meu pai e eu compartilharíamos um jantar!
Eu me vestira cuidadosamente para o jantar naquela noite, entendendo pela primeira vez como eu havia me tornado bastante magra quando meu vestido preto de luto teve que ser apertado para que não ficasse largo demais. Mary penteou meu cabelo, entrelaçando-o em um coque grosso que pensei que fez o meu rosto recém-emagrecido parecesse muito mais velho do que os meus 15 anos.
Eu nunca vou esquecer o modo como ele me recebeu quando entrei na nossa sala de jantar e vi os dois lugares – o lugar que meu pai sempre teve na cabeceira da mesa e o meu, agora colocado na cadeira da minha mãe, à direita do pai.
Ele se levantou e puxou a cadeira da mãe para mim. Eu tinha certeza de que quando eu me sentei, ainda podia sentir seu perfume de água de rosas, com apenas uma sugestão do creme de limão que ela usava nos cabelos para trazer seus reflexos.
George, um homem negro que servia o nosso jantar, começou servir a sopeira. Eu temia que o silêncio fosse terrível, mas como pai começou a comer, e também, iniciou suas palavras familiares.
“O Comitê da Feira Mundial juntou-se atrás de Burnham; estamos apoiando-o completamente. Perguntei-me, em primeiro lugar, se o homem poderia ter um toque de loucura – ele estava tentando algo inatingível, mas a sua visão da Exposição Mundial de Columbia de Chicago suplantando o esplendor de Paris parece estar ao alcance, ou pelo menos o seu projeto parece soar... extravagante, mas não é.”
Ele fez uma pausa para dar uma mordida saudável do bife e batatas que substituíra a sua tigela de sopa vazia, e na pausa eu podia ouvir a voz de minha mãe.
“Não é por extravagância que todo mundo está pedindo?” E não percebi até que o pai olhou para mim que fui eu quem tinha falado e não, afinal de contas, o fantasma da minha mãe.
Eu congelei sob seu olhar afiado, o escrutínio de olhos escuros, desejando que eu tivesse me mantido em silêncio e sonhando acordada durante a refeição como fizera tantas vezes no passado.
“E como você sabe o que todo mundo está pedindo?” Seus penetrantes olhos escuros estavam afiados em mim, mas seus lábios levantaram ligeiramente nos cantos, como ele costumava quase sorrir para minha mãe.
Lembro-me de sentir uma onda de alívio e sorri cordialmente em troca. Sua pergunta era uma que eu o ouvira fazer à minha mãe mais vezes do que eu podia começar a contar. Deixei as palavras dela responderem por mim.
“Eu sei que você acredita que todas as mulheres só sabe falar, mas elas sabem escutar também.” Eu falei com mais rapidez e mais baixo do que a mãe, mas os olhos do pai se enrugaram nos cantos, mostrando sua aprovação e diversão.
“De fato...” ele respondeu com uma risada, cortando um grande pedaço de carne vermelha sangrenta e comendo vorazmente enquanto ele engolia taças de vinho vermelho escuro como o líquido que corria de sua carne. “Mas tenho que controlar Burnham e seu bando de arquitetos, perto, de fato. Eles são grotescos sobre o orçamento, e aqueles trabalhadores... sempre um problema... sempre um problema...” meu pai falou enquanto mastigava, derrubando gotas de vinho em sua barba, um hábito que eu sabia que minha mãe havia detestado, e muitas vezes o repreendeu.
Eu não o repreenderia, nem detestaria seu hábito bem enraizado. Simplesmente me forcei a comer e fazer os sons próprios de apreciação enquanto ele falava sobre a importância da responsabilidade fiscal e a preocupação de que a saúde frágil de um dos arquitetos causava às pessoas em geral. Afinal de contas, o Sr. Root já tinha sucumbido à pneumonia. Alguns diziam que ele tinha sido a força motriz por trás de todo o projeto, e não Burnham.
O jantar correu rapidamente até que o pai tivesse finalmente comido e falado até cansar. Ele logo se pôs de pé, e como eu o ouvira falar inúmeras vezes para minha mãe, ele disse:
“Vou me retirar para a minha biblioteca para um charuto e um uísque. Tenha uma noite agradável, minha querida, e eu a verei novamente em breve.”
Lembro-me vividamente de ter sentindo um grande calor enquanto eu pensava, ele está me tratando como se eu fosse uma mulher adulta, uma verdadeira senhora da casa!
“Emily”, ele continuou, embora tivesse sido bastante instável, obviamente devido às suas taças, “vamos combinar que, como nós apenas começamos um novo ano, ele marcará um novo começo para todos nós. Vamos tentar avançar juntos, minha querida?”
As lágrimas vieram aos meus olhos, e eu sorri timidamente para ele.
“Sim, pai. Eu gostaria muito disso.”
Então, inesperadamente, ele levantou minha mão magra nas suas, inclinou-se sobre ela e a beijou exatamente como fazia com minha mãe. Mesmo que seus lábios e barba estivessem úmidos do vinho e da comida, eu ainda estava sorrindo e me sentia muito como uma dama quando, segurando a minha mão na sua, ele encontrou o meu olhar.
Essa foi a primeira vez que vi, o que vim a pensar como um olhar ardente. Era como se os olhos me avistassem tão violentamente que eu temia que me fizessem entrar em combustão.
“Seus olhos são os da sua mãe”, disse ele.
Suas palavras eram arrastadas e eu cheirava o cheiro afiado de sua respiração, fortemente contaminada pelo vinho.
Pensei que eu não pudesse falar. Só tremi e balancei a cabeça.
O pai soltou minha mão, em seguida, caminhou cambaleando para o quarto. Antes de George começar a limpar a mesa, peguei meu guardanapo de linho e esfreguei as costas da minha mão, enxugando a umidade deixada lá e me perguntando por que senti uma sensação tão desconfortável na boca do estômago.

* * *

Madeleine Elcott e sua filha, Camille, foram as primeiras a me fazer convites sociais dois dias depois. O Sr. Elcott fazia parte do conselho do banco do pai, e Sra. Elcott tinha sido uma grande amiga da mãe, embora eu nunca tivesse realmente entendido o porquê. Minha mãe era linda e encantadora, e uma anfitriã de renome. Em comparação, a Sra. Elcott parecia irascível, fofoqueira e avarenta. Quando ela e minha mãe sentavam-se juntas em jantares, eu costumava pensar que a Sra. Elcott parecia uma galinha cacarejando ao lado de uma pomba, mas ela tinha a capacidade de fazer a mãe rir, e o sorriso da minha mãe era tão mágico que tornava a razão disso irrelevante.
Certa vez ouvi meu pai dizendo à minha mãe que ela simplesmente tinha que fazer mais festas, pois os jantares na mansão Elcott eram curtos de espírito e de tempo, e longos na fofoca. Se alguém tivesse pedido a minha opinião, o que é claro que não pediram, eu teria concordado plenamente com o pai. A mansão Elcott ficava menos de um quilômetro e meio de nossa casa, e de fora parecia imponente e adequada, mas o interior era espartano e, na verdade, um pouco sombrio. Não era de admirar que Camille amasse me visitar!
Camille era a minha melhor amiga. Ela e eu tínhamos idades próximas, sendo ela apenas seis meses mais nova. Camille falava muito, mas não da maneira cruel e fofoqueira de sua mãe. Por causa da proximidade dos nossos pais, Camille e eu crescemos juntas, mais como irmãs do que melhores amigas.
“Oh, minha pobre e triste Emily! Como você está magra,” Camille tinha dito quando percorreu a sala de estar e me abraçou.
“Bem, é claro que ela parece magra e abatida!” a Sra. Elcott havia colocado sua filha de lado e rigidamente tomara minhas mãos nas dela antes de sequer tirar suas luvas de couro branco.
Lembrando seu toque, percebo agora que ela havia parecido fria e bastante reptiliana.
“Emily perdeu a mãe, Camille. Pense em como sua vida seria miserável se tivesse me perdido. Eu esperaria que você parecesse tão terrível quanto a pobre Emily. Estou certa, querida, que Alice está olhando para sua filha em compreensão e apreciação.”
Sem esperar que ela falasse tão livremente da morte da minha mãe, senti um pequeno choque ao ouvir as palavras da Sra. Elcott. Tentei capturar o olhar de Camille enquanto nos afastávamos, acomodando-nos no divã e nas cadeiras correspondentes. Eu queria compartilhar com ela o nosso antigo olhar, que concordava como, às vezes, nossas mães diziam coisas terrivelmente embaraçosas, mas Camille parecia focar todos os lugares, menos em mim.
“Sim, mãe, é claro. Peço desculpas”, foi tudo o que ela murmurou.
Tentando fazer o meu caminho através deste novo mundo social que de repente era muito estranho, dei um longo suspiro de alívio quando a empregada se aproximou com chá e bolos. Eu servi. A Sra. Elcott e Camille me estudaram.
“Você realmente está muito magra”, Camille falou finalmente.
“Estarei melhor em breve”, respondi, enviando-lhe um sorriso tranquilizador. “No começo achei que seria difícil fazer qualquer coisa, exceto dormir, mas o pai tem insistido em que eu fique bem. Lembrou-me que agora sou a Senhora da Casa Wheiler”.
O olhar de Camille se moveu rapidamente para sua mãe. Não pude interpretar o olhar duro da Sra. Elcott, mas foi o suficiente para silenciar sua filha.
“É muito corajoso da sua parte, Emily,” a Sra. Elcott falou em meio ao silêncio. “Estou certa de que você é um grande conforto para o seu pai.”
“Nós tentamos visitá-la por dois meses inteiros, mas você não nos recebia, nem mesmo durante as férias. Era como se você tivesse desaparecido!” Camille deixou escapar enquanto eu lhe entregava o chá. “Pensei que você tivesse morrido, também.”
“Eu sinto muito.” De pronto suas palavras me fizeram sentir arrependida. “Eu não queria preocupá-la.”
“É claro que não,” a Sra. Elcott respondeu, franzindo a testa para a filha. “Camille, Emily não estava desaparecida, ela estava de luto.”
“Eu ainda estou,” falei suavemente.
Camille me ouviu e concordou com a cabeça, enxugando os olhos, mas sua mãe estava ocupada demais servindo-se de bolos gelados para dar a qualquer uma de nós muita atenção.
Houve um silêncio que pareceu grande, embora nós tomássemos nosso chá e eu empurrasse o pequeno bolo branco em volta do meu prato. Em seguida, em uma voz alta e animada, a Sra. Elcott perguntou:
“Emily, você estava realmente lá? No quarto com ela quando Alice morreu?”
Olhei para Camille, desejando por um instante que ela pudesse silenciar sua mãe, mas é claro que era um tolo desejo fútil. O rosto da minha amiga espelhava o meu próprio desconforto, embora ela não parecesse chocada com o desprezo de sua mãe pela propriedade e privacidade. Percebi então que Camille sabia que sua mãe ia me questionar assim. Tomei uma respiração profunda, e respondi com sinceridade, embora hesitantemente:
“Sim. Eu estava lá.”
“Deve ter sido bastante medonho”, Camille observou rapidamente.
“Sim”, confirmei.
Coloquei a minha xícara no pires cuidadosamente antes que uma delas notasse que minha mão tremia.
“Suponho que tenha havido muito sangue”, disse a Sra. Elcott, assentindo lentamente como se soubesse da minha resposta.
“Houve.” Apertei minhas mãos firmemente junto no meu colo.
“Quando soubemos que estava no quarto quando ela morreu, sentimos muito por você,” Camille falou em uma voz baixa, hesitante.
Em silêncio chocado, eu quase podia ouvir a voz da minha mãe dizendo cortantemente, servos e as suas fofocas! Eu estava mortificada que a morte da mãe tivesse tema de fofocas, mas também desejava falar com Camille, para lhe dizer como eu estava assustada. Mas antes que eu pudesse me recompor o bastante para falar, a voz aguda de sua mãe se intrometeu.
“Na verdade, foi tudo em que puderam falar por semanas. Sua pobre mãe estaria horrorizada. Já é ruim o bastante que tenha perdido o Baile de Natal, mas então o tema da conversa da noite ter sido você testemunhar a horrível morte...” a Sra. Elcott estremeceu. “Alice teria pensado que era tão terrível quanto foi.”
Minhas bochechas esquentaram. Eu tinha esquecido completamente o Baile de Natal, e meu décimo sexto aniversário. Ambos haviam ocorrido em dezembro, quando o sonho me havia escondido da vida.
“Todo mundo estava falando de mim no baile?” Tive vontade de correr de volta para o meu quarto e nunca mais sair.
As palavras de Camille vieram rápido, e ela fez um movimento vago, como se entendesse o quão difícil a conversa tinha se tornado para mim e tentasse afastar o assunto.
“Nancy, Evelyn e Elizabeth estavam preocupadas com você. Estávamos todas preocupadas, e ainda estamos”.
“Você deixou de fora alguém que parecia especialmente preocupado: Arthur Simpton. Lembre-se de como ele lhe disse que não podia falar nada, exceto quão horrível tudo isso deveria ser para Emily, mesmo quando ele dançava com você.” A Sra. Elcott não parecia preocupada em tudo. parecia irritada.
Eu pisquei e senti como se estivesse nadando através de profundas águas turvas.
“Arthur Simpton? Ele estava falando de mim?”
“Sim, enquanto dançava com Camille.” O tom da Sra. Elcott tinha sido duro com aborrecimento, e de repente entendi por que – Arthur Simpton era o filho mais velho de uma família rica da estrada de ferro que recentemente se mudara de Nova York para Chicago, por causa de laços comerciais com o Sr. Pullman. Além de rico, devidamente criado e solteiro, ele também era extremamente bonito. Camille e eu tínhamos sussurrado sobre ele quando sua família se mudou para sua mansão na South Prairie Avenue e o viramos andando de bicicleta para cima e para baixo. Arthur tinha sido a força motriz por trás do nosso desejo de ter nossas próprias bicicletas e nos juntarmos ao Clube de Ciclistas Hermes. Ele também fora uma das principais razões pela qual nossas mães pressionaram tanto nossos pais para concordar com isso, apesar de Camille ter me contado que escutou seu pai falando para sua mãe que as saias-calças de bicicleta podiam levar uma jovem mulher a “uma vida perniciosa de libertinagem.” Lembrei-me claramente porque Camille me fizera rir quando deu uma excelente impressão para seu pai. Como ri também quando ela falou que estaria disposta a entrar em uma vida perniciosa de libertinagem se isso significasse entrar com Arthur Simpton.
Eu não disse nada depois. Não parecia necessário. Arthur aparecera, muitas vezes, em nosso caminho, mas nós duas sabíamos que eram meus olhos que ele buscava quando tirou o chapéu, e meu nome que falou ao dizer “Brilhante, bom dia, senhorita Emily”.
Balancei a cabeça, sentindo-me tonta e lenta. Virei-me para Camille.
“Arthur Simpton? Ele dançou com você?”
“Durante a maior parte da noite,” a Sra. Elcott respondeu pela filha, balançando a cabeça tão rapidamente que as penas em seu chapéu vibraram com violência perturbadora, fazendo-a parecer ainda mais uma galinha. “Na verdade, Camille e eu acreditamos que Arthur Simpton abordará o Sr. Elcott em breve e pedirá permissão para cortejá-la formalmente.”
Meu estômago pareceu terrível e oco. Como ele poderia cortejar Camille? Pouco mais de dois meses atrás, ele não falara o nome dela para lhe desejar um bom dia. Poderia um curto espaço de tempo mudá-lo de forma tão drástica?
Sim, eu decidira silenciosa e rapidamente. Sim, um curto período de tempo pode mudar alguém drasticamente. Certamente tinha me mudado.
Abri a boca para falar, embora ainda não soubesse exatamente o quê, quando meu pai surgiu na sala, desarrumado e sem paletó.
“Ah, Emily, você está aqui.” Ele acenou com a cabeça distraidamente para a Sra. Elcott e Camille, dizendo: “Boa tarde, senhoras.” Em seguida, voltou sua atenção para mim. “Emily, que colete devo vestir esta noite? O preto ou o bordô? O conselho se reunirá novamente com aqueles arquitetos infernais, e preciso ter uma mão firme. O tom certo deve ser definido. O orçamento está fora de controle e o tempo é curto. A Feira deve abrir no primeiro dia de maio. Eles simplesmente não estão preparados. Estão subindo alto demais, alto demais!”
Pisquei, tentando me concentrar na cena bizarra. O nome de Arthur Simpton ligado à Camille ainda era quase palpável no ar ao nosso redor, enquanto o pai estava ali, sua camisa para fora da calça e apenas parcialmente abotoada, um colete em cada mão, balançando-os como se fossem bandeiras desfraldadas. A Sra. Elcott e Camille olhavam para ele como se ele tivesse perdido o juízo.
De repente eu estava com raiva, e automaticamente defenderia meu pai.
“Mamãe sempre disse que o preto é mais formal, mas o bordô mais rico. Vista o bordô, pai. Os arquitetos devem vê-lo como rico o suficiente para controlar o dinheiro e, portanto, o seu futuro.” Tentei o meu melhor para fazer minha voz soar suave, imitando o tom de minha mãe.
Meu pai assentiu.
“Sim, sim, será como dizia sua mãe. O mais rico é o melhor. Sim, bem feito.” Ele se curvou rapidamente para as outras duas mulheres, desejando-lhes um bom dia e então saiu correndo. Antes de a porta se fechar, pude ver seu criado, Carson, juntando-se a ele no corredor e recolhendo o colete preto descartado que foi lançado em seu caminho. Quando me virei para as mulheres Elcott, ergui meu queixo.
“Como pode ver, o pai está dependendo de mim.”
A Sra. Elcott tinha levantou uma sobrancelha e fungou.
“Posso ver. Seu pai é um homem de sorte, e o homem com quem você se casar será também, tendo uma esposa bem treinada assim.” Seu olhar foi para a filha e, em seguida, ela sorriu suavemente quando continuou: “Embora eu imagine que seu pai não vai querer se separar de você por muitos anos, então a questão do casamento está fora de questão pelo futuro próximo.”
“Casamento?” Um tremor passou por mim com essa palavra. Camille e eu tínhamos conversado sobre isso, é claro, mas sussurramos principalmente sobre o namoro, o noivado, o suntuoso casamento... e não o casamento em si. A voz da minha mãe de repente ecoou em minha memória: Emily, você não deve me deixar... Você deve saber o que é ser uma esposa e uma mãe. Não deve ir cegamente como eu fiz. Senti um arrepio de pânico e acrescentei: “Oh, eu não poderia pensar em casamento agora!”
“É claro que não pode pensar em casamento agora! Nenhuma de nós deve pensar de verdade. Temos dezesseis anos. Isso é bastante jovem. Não é isso o que você sempre disse, mãe?” Camille parecia tensa, quase assustada.
“Pensar em uma coisa e se preparar para ela não são o mesmo, Camille. Oportunidades não devem ser menosprezadas. É o que eu sempre digo” a Sra. Elcott me olhara de cima sobre seu longo nariz enquanto falava com desdém.
“Bem, penso que é uma coisa boa que eu seja dedicada ao meu pai”, respondi, sentindo-me terrivelmente desconfortável e insegura sobre o que mais dizer.
“Ah, todas concordamos com isso!” a Sra. Elcott respondera.
Elas não ficaram muito tempo após o aparecimento do pai. A Sra. Elcott correra com Camille para fora, sem nos dar nem uma chance de conversarmos sozinhas. Era como se tivesse conseguido o que queria e ficou satisfeita.
E eu? O que consegui?
Eu esperava para confirmação. Mesmo que o carinho do belo e jovem Arthur Simpton tivesse desviado de mim para a minha amiga, acreditava que era meu dever como filha cuidar de meu pai. Senti que Camille e sua mãe veriam que eu estava fazendo o meu melhor para continuar depois da mamãe, que em pouco mais de dois meses que eu crescera de menina para mulher. Pensei que de alguma forma eu poderia tornar a perda de mamãe suportável.
Mas com o tempo, nas horas de silêncio após a visita, minha mente começou a repetir os eventos e ver suas facetas de forma diferente, e em retrospectiva, ​​sinto o meu segundo ponto de vista era mais válido do que o primeiro. A Sra. Elcott viera atrás da fofoca; realizou seu desejo. Também queria deixar muito claro que Arthur Simpton agora não seria parte do meu futuro, e que nenhum homem que não fosse papai faria parte dele. Ela tinha realizara ambas as tarefas.
Sentei naquela noite e esperei pelo retorno do pai. Mesmo agora, enquanto escrevo o que aconteceu depois, não posso me culpar por minhas ações. Como a Senhora da Casa Wheiler, era meu dever cuidar do pai – de estar lá com um chá ou, eventualmente, um conhaque para ele – como eu imaginava que a mãe tivesse feito muitas vezes em seu retorno tardio de jantares de trabalho. Eu esperava o pai estivesse cansado. Esperava que fosse o mesmo: arisco, rude e arrogante, mas educado e sensibilizado por minha fidelidade.
Não esperava que ele tivesse bebido.
Eu já tinha visto o pai após tomar vinho. Vislumbrara o nariz vermelho e como era efusivo em seus elogios à beleza da minha mãe ao saírem à noite, vestido formalmente e carregando o aroma de lavanda, limão e cabernet. Não me lembro de alguma vez tê-lo visto voltando. Se eu não estivesse dormindo na hora, estaria escovado meu cabelo ou bordado os detalhes de violetas no corpete do meu vestido mais novo.
Percebo agora que meus pais tinham sido para mim como luas distantes que giravam ao redor do egocentrismo da minha juventude.
E que durante a noite o pai evoluiu da lua para o sol ardente.
Ele balançou para dentro do foyer, chamando em voz alta por seu criado, Carson. Eu estava na sala de visitas da minha mãe, tentando manter os pesados ​​ olhos abertos ao reler o romance gótico de Emily Brontë, O moro dos ventos uivantes. Ao som de sua voz, eu colocaria o livro de lado e correria para ele.
Seu cheiro chegou em mim antes que eu o visse. Eu me lembro que apertei a mão contra o nariz, abafando o odor de conhaque, suor e charutos. Enquanto escrevo isso, temo que esses três cheiros venham para mim, para sempre, a ser o cheiro de homem, o cheiro de pesadelos.
Corri para o seu lado, franzindo os lábios com o fedor grosso de sua respiração, pensando que ele não deveria estar assim.
“Pai, você está doente? Devo chamar o médico?”
“Médico? Não, não, não! Estou ótimo. Ótimo. Só preciso de uma ajuda para chegar ao quarto de Alice. Não sou tão jovem como costumava ser, não de tudo. Mas ainda posso cumprir o meu dever. Eu ainda farei com que tenha um filho!
Meu pai balançava enquanto falava, e colocou a mão pesada sobre meu ombro para se firmar.
Cambaleei sob seu peso, guiando-o para a grande escadaria, tão preocupada que ele estivesse doente que mal compreendia o que estava dizendo.
“Estou aqui. Eu vou te ajudar”, era o que eu sussurrava para ele uma e outra vez.
Ele se inclinou ainda mais contra mim enquanto subíamos desajeitadamente até o segundo andar e finalmente paramos do lado de fora do seu quarto de dormir. Ele balançou a cabeça, murmurando:
“Este não é o seu quarto.”
“É o seu quarto de dormir”, falei, desejando que seu criado ou alguém aparecesse.
Ele olhou para mim como se estivesse tendo dificuldades para se concentrar. Então sua expressão de bêbado mudou.
“Alice? Então, você está disposta a quebrar suas regras frígidas e deitar na minha cama hoje à noite.”
Sua mão estava quente e úmida no ombro da minha camisola de linho fino.
“Pai, sou eu, Emily.”
“Pai?” Ele piscou e trouxe seu rosto mais perto do meu. Sua respiração quase me fez vomitar. “Emily. É claro. É você. Sim, você. Sei que é você agora. Você não pode ser Alice, ela está morta.” O rosto ainda muito próximo ao meu, ele acrescentou: “Você está muito magra, mas tem os olhos dela.” Ele estendeu a mão e, em seguida, ergueu uma mecha do grosso cabelo ruivo que escapara da minha trança. “E o cabelo dela. Você tem o cabelo dela.” Ele esfregou o meu cabelo entre os dedos. “Você deve comer mais – não deveria ser tão magra.”
Então, berrando para Carson para ajudá-lo, papai soltou meu cabelo, me empurrou para o lado e cambaleou em seu quarto.
Eu deveria ter recuado para a minha própria cama em seguida, mas um terrível mal-estar me veio e eu corri, permitindo que meus pés me levassem aonde quisessem. Quando finalmente parei, arfando para recuperar o fôlego, encontrei-me nos jardins que se estendiam por mais de cinco hectares na parte de trás da nossa casa. Lá eu desabei sobre um banco de pedra que ficava escondido sob a cortina de um salgueiro enorme, coloquei o rosto nas mãos e chorei.
Então algo mágico aconteceu. A brisa quente da noite levantou os ramos de salgueiro e as nuvens se afastaram, expondo a lua. Embora apenas um fino crescente, era quase de prata em seu brilho, e um feixe de luz metálico apareceu no jardim, estabelecendo-se sobre a enorme fonte de mármore branco que era o seu enfeite central. Dentro da fonte, expelindo água de sua boca aberta, estava o deus grego Zeus, sob a forma de touro que havia enganado e sequestrado a jovem Europa. A fonte fora um presente de casamento do pai para a minha mãe, e estava no centro do extenso jardim desde as minhas primeiras lembranças.
Talvez fosse porque a fonte era da minha mãe, ou talvez por inveja da musicalidade da água que corria, mas minhas lágrimas pararam de cair quando eu estudei. Eventualmente, meu batimento cardíaco diminuiu e minha respiração tornou-se normal. E, mesmo quando a lua foi encoberta pelas nuvens mais uma vez, permaneci sob a árvore, ouvindo a água e permitindo que ela, assim como o esconderijo do salgueiro nas sombras me acalmasse até que eu soubesse que conseguiria dormir. Então fiz lentamente o caminho até o meu quarto no terceiro andar. Nessa noite sonhei que eu era Europa e o touro branco me levava embora a um belo prado, onde ninguém nunca morria e onde eu era eternamente jovem e despreocupada.

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