6 de novembro de 2015

15 de abril de 1893

Diário de Emily Wheiler


Eu deveria ter escrito em meu diário antes, mas os meses desde a última vez que escrevi foram tão confusos, tão difíceis que eu não tenha sido eu mesma. Infantilmente, pensei que ao não escrever, não registrar os acontecimentos que se desdobraram, eu poderia fazer parecer como se não tivesse acontecido, que não continuaria a acontecer.
Eu estava muito errada.
Tudo mudou, e eu devo usar este diário como prova. Mesmo que eu esteja ficando louca, ele mostrará um desenrolar da loucura e, como eu esperava inicialmente, proporcionará um caminho para o meu tratamento. E se, como suspeito disso agora, eu não sou louca, um registro desses eventos deve ser feito e poderá, de alguma forma, me ajudar se tiver que escolher um novo futuro.
Deixe-me começar de novo.
Depois daquela noite fria em janeiro, quando o pai voltou para casa bêbado, nunca mais esperei por ele novamente. Tentei não pensar muito nele –tentei não lembrar da  sua respiração, a sensação quente e pesada de sua mão, e as coisas que ele tinha dito.
Em vez disso, quando ele partia para reuniões e jantares tardios, eu lhe desejava uma noite agradável, e dizia que eu teria a certeza de que Carson o ajudaria quando ele voltasse.
Primeiro os olhares calorosos pararam. Eu estava tão ocupada com a manutenção da Casa Wheiler que, exceto nos nossos jantares juntos, eu via meu pai bem pouco.
Mas, nos últimos meses, os jantares tinham mudado. Não, os jantares não tinham mudado – a quantidade de vinho consumida pelo meu pai é o que mudou. Quanto mais ele bebia, mais frequentemente seus olhos ardiam em mim quando ele me desejava boa noite.
Comecei a misturar água cuidadosamente seu vinho. Ele ainda não tinha notado.
E então desviei toda a minha atenção para assumir a responsabilidade completa da manutenção da casa dos Wheiler. Sim, claro, Mary e Carson me ajudaram... me aconselharam. O cozinheiro feitas as listas da mercearia, mas eu aprovava os menus. Como Mary comentara uma vez, era como se o espírito da minha mãe tivesse me tomado, e eu não era mais uma garotinha.
Tentei dizer a mim mesma que era uma coisa boa, um belo elogio. A verdade é que, como acredito hoje, penso que fiz o meu dever, e continuarei a fazê-lo, mas não estou certa de que seja uma coisa boa em tudo.
Não foi simplesmente o trabalho de ser a Senhora da Casa Wheiler que me mudou. As pessoas começaram a mudar seu tratamento em relação a mim. Sim, no começo eu tinha esmagada pela extensão dos deveres da minha mãe. Eu não tinha ideia de que ela não cuidava só da casa, mas instruía os funcionários, via todos os detalhes da rotina do pai, me supervisionava e era voluntária duas vezes por semana na sede da Federação Geral do Clube das Mulheres, ajudando a alimentar e cuidar das mulheres e crianças desabrigadas de Chicago. Mamãe morrera fazia cinco meses, e durante esse tempo eu tinha me dedicado completamente a ser Senhora da Casa Wheiler. Assim, quando Evelyn Field e Camille me convidaram no meio da manhã, mês passado, perguntando se eu gostaria de me juntar a elas a um passeio de bicicleta na praia e um piquenique, eu ficara justificadamente alegre com a liberdade do imprevisto, principalmente quando pensei que o pai já tivesse saído para o banco.
“Oh, sim!” respondi alegremente, baixando minha caneta-tinteiro e afastando a lista de mercearia que eu examinava. Lembro-me de quão feliz Evelyn e Camille ficaram quando respondi que sim. Nós três rimos espontaneamente.
“Emily, estou tão, tão feliz que você virá com a gente.” Camille me abraçou. “E você não está parecendo mais tão pálida ou magra.”
“Não, não tão pálida de todo!” Evelyn concordou. “Você está mais bonita que nunca.”
“Obrigada, Evelyn. Eu perdi tanto.” Eu hesitei, sentindo a necessidade de confiar em alguém que não fosse um empregado ou meu pai. “Tem sido tão difícil desde que minha mãe se foi. Realmente difícil.”
Camille mordera o lábio. Evelyn parecia à beira das lágrimas. Eu rapidamente limpei o rosto com a palma da mão e sorri novamente.
“Mas agora que vocês estão aqui, estou me sentindo muito mais leve do que me sinto há semanas.”
“É o que pretendíamos. Minha mãe tentou me dizer que você estava ocupada demais para ser incomodada com um convite para andar de bicicleta, mas fiz de conta que não ouvi e te convidei de qualquer maneira” Camille falou.
“Sua mãe é sempre muito séria”, disse Evelyn, revirando os olhos para o céu. “Nós todos sabemos disso.”
“Não acredito que um dia ela tenha sido jovem”, Camille disse, fazendo-nos rir.
Eu ainda ria enquanto corria pelo salão, determinada a correr escada acima e mudar o mais rápido possível para a minha roupa de ciclismo. Foi quando eu corri direto para o pai.
Perdi o fôlego e meus olhos se arregalaram.
“Emily, por que você sempre sai da sala de estar de forma tão incivilizada?” O pai parecia uma nuvem de tempestade em formação.
“Eu – me desculpe, pai,” gaguejei. “Camille Elcott e Evelyn Field me convidaram para andar de bicicleta no lago com elas e almoçar. Eu estava me apressando para trocar de roupa.”
“Andar de bicicleta é excelente para o coração. Ele fica mais forte, embora eu não aprove que os jovens andem juntos de bicicleta sem a supervisão de um adulto.”
Eu não tinha notado a mulher alta no hall de entrada até que ela falou. Ela me pegou de surpresa, e fiquei ali, sem palavras, olhando para ela. Em seu vestido azul profundo e o chapéu com penas de pavão, ela fazia uma figura bastante imponente. E mesmo que eu não a reconhecesse, queria dizer a ela que eu não aprovava mulheres idosas vestindo descontroladamente chapéus emplumados, mas é claro que segurei minha língua.
“Emily, você não se lembra Sra. Armour? Ela é a presidente da Federação Geral do Clube das Mulheres” meu pai me informou.
“Oh, sim. Sra Armour, peço desculpas por não reconhecê-la.” Eu reconheci o nome dela agora que o pai falou, mas não conseguia me lembrar da mulher em si. “E-e eu também peço desculpas por correr”, continuei apressadamente. “Não quero ser indelicada” virei e fiz um gesto apontando para onde Evelyn e Camille onde se sentavam na sala, assistindo com curiosidade – é claro “mas como pode ver, as minhas amigas estão me esperando. Pai, pedirei para Mary trazer chá enquanto o senhor conversa com a Sra. Armour em seu escritório.”
“Você se enganou, Srta. Wheiler. É com você, e não com seu pai, que quero conversar.”
Eu estava confusa, e acredito que fiquei estupidamente boquiaberta para a velha.
Meu pai não ficou tão confuso quanto eu.
“Emily, a Sra. Armour veio falar com você o seu lugar herdado no FGCM. Era uma paixão de sua mãe. Esperamos que seja uma das suas, também.”
Minha confusão aumentou quando percebi porque o nome Armour me pareceu familiar. Philip Armour era um dos homens mais ricos de Chicago, e mantinha grande parte de seu dinheiro no banco do meu pai. Virei para a Sra. Armour e me obriguei a sorrir, tornando a minha voz mais suave e calma, assim como mãe costumava soar.
“Eu ficaria honrada em herdar o lugar da mãe no FGCM. Talvez possamos marcar uma data para nos encontrarmos no Mercado Municipal e conversarmos sobre...”
De repente, a grande mão do pai envolveu meu cotovelo, apertando enquanto ele ordenou:
“Você vai se reunir com a Sra. Armour agora, Emily.
Em comparação com a minha doçura, meu pai soava como um campo de batalha. Ouvi Evelyn e Camille suspirando em sua contundência. Em seguida, Camille estava lá ao meu lado, dizendo:
“Nós podemos facilmente marcar outra vez, Emily. Por favor, o trabalho de sua mãe é muito mais importante do que o nosso passeio bobo de bicicleta.”
“Sim, é verdade”, Evelyn acrescentou enquanto as minhas amigas seguiam apressadamente para a porta. “Vamos chamá-la novamente.”
O som da porta se fechando atrás delas me pareceu o de tumba sendo vedada.
“Ah, bem, assim é melhor. Quanta tolice” meu pai disse enquanto soltava o meu cotovelo.
“Senhora Armour, por favor, junte-se a mim na sala de estar e eu pedirei que Mary traga chá” pedi.
“Bom. Continue com seus assuntos, Emily. Te vejo no jantar. Boa garota... boa garota,” meu pai falou rispidamente. Curvou-se para a Sra. Armour, e depois nos deixou a sós no saguão.
“Posso dizer que você é uma jovem de excelente caráter”, disse a Sra. Armour enquanto eu gentilmente a conduzia para a sala de minha mãe. “Estou certa de que nos daremos bem, assim como sua mãe e eu nos demos.”
Balancei a cabeça e concordei, deixando a velha senhora falar sobre a importância das mulheres, o significado da união delas em sua dedicação para melhorar a comunidade através de serviço voluntário.
Nas semanas que se seguiram, vim a perceber quão irônico era a Sra. Armour, que dissertava infinitamente sobre a importância da união das mulheres, pois isso vinha se tornando um dos principais instrumentos para me isolar das outras garotas da minha idade. Veja, Evelyn e Camille não me chamaram novamente para andar de bicicleta com elas. Evelyn não me ligou desde aquela manhã. Camille, bem, Camille era diferente. Seria preciso mais para perdê-la como amiga, muito mais.

* * *

Março se transformou em abril – o frio do inverno se viu atenuado por uma primavera que veio com a luz, revivendo os chuveiros. Minha vida se alinhara em um ritmo entorpecente. Eu cuido da casa. Sou voluntária no miserável Mercado Municipal, alimentando os pobres, enquanto aceno e concordo com as mulheres mais velhas que me cercam enquantam falam monotonamente sobre como o centro das atenções do mundo em breve estaria em nós e a Feira Mundial, que devemos utilizar todos os nossos recursos para mudar e moldar Chicago a partir de um encontro bárbaro em uma cidade moderna. Eu jantei com meu pai. Eu assisti, e aprendi muito.
Aprendi a não interromper o pai. Ele gostava de falar, enquanto nós jantávamos. Falar – não conversar. Meu pai e eu não podíamos conversar. Ele falava e eu escutava. Eu queria acreditar que tomava o lugar de minha mãe no lar e honrava sua memória, e no início acreditei. Mas logo comecei a ver que eu não estava fazendo nada além de provar do recipiente no qual meu pai derramava a sua opinião hostil do mundo. Os nossos jantares noturnos eram um palco para seu monólogo de raiva e desprezo.
Continuei a colocar água secretamente em seu vinho. Sóbrio, ele era abrupto, arrogante e grosseiro. Bêbado, ele era aterrorizante. Ele não me bateu, nunca tinha batido em mim, embora eu quase desejasse que ele fizesse isso. No mínimo, seria uma prova visível de seu abuso. Ao invés disso, ele fazia o contrário, ele me queimava com os olhos. Vim a odiar o seu olhar penetrante.
Entretanto, como podia ser? E, melhor perguntando: por quê? Por que eu vim a odiar um simples olhar? A resposta, eu espero, rogo, será desvendada aqui, nas páginas deste diário.

* * *

Camille me visitava, embora com cada vez menos frequência. O problema não era que a nossa amizade tivesse terminado. De modo nenhum! Ela e eu ainda éramos tão próximas quanto irmãs quando estávamos juntas. O problema era que estava cada vez mais difícil ficarmos juntas. A Sra. Armour e meu pai decidiram que eu deveria continuar o trabalho de minha mãe. Então eu dava sopa aos miseravelmente famintos e distribuía roupas aos desabrigados fedorentos três dias por semana. Isso deixou apenas dois dias dos cinco, quando o pai trabalhava, para Camille e eu nos vermos. E para eu escapar, embora tenha se tornado cada vez mais claro para mim que a fuga não era possível.
Tentei fugir da Casa Wheiler e convidar Camille como eu fazia antes da morte de minha mãe. Tentei quatro vezes; meu pai me frustrando todas as vezes. Na primeira vez, saindo tarde para seu trabalho no bancoele me espiou enquanto eu saía negligentemente de bicicleta. Não veio para a rua me chamar de volta. Não. Ele enviou Carson atrás de mim. O pobre criado de idade estava vermelho como uma maçã madura enquanto corria ao longo da Avenida South Prairie para me acompanhar.
“Bicicleta não são para moças!” meu pai vociferara quando eu relutantemente segui Carson para casa.
“Mas mamãe nunca se importou que eu andasse de bicicleta. Ela até me permitiu fazer parte do Clube de Ciclistas Hermes com Camille e o resto das meninas!”, protestei.
“Sua mãe está morta, e você não é mais uma do resto das meninas.” Os olhos do meu pai se moveram para meu corpo, notando minhas roupas e meus modestos e reparados sapatos de couro liso sem adornos. “O que você está vestindo é indecente.”
“Pai, estas roupas são o que todas as meninas vestem.”
Seus olhos continuaram fixos em mim, me queimando da cintura para baixo. Cerrei meus punhos para evitar me cobrir.
“Posso ver a forma do seu corpo – as suas pernas.” Sua voz soava estranha, sem fôlego.
Meu estômago revirou.
“Eu não vou usá-las novamente”, ouvi-me dizendo.
“Certifique-se disso. Não é adequado, não é absolutamente apropriado.” Seu olhar quente finalmente se afastou de mim. Ele colocou seu chapéu firmemente em sua cabeça e se inclinou ironicamente para mim. “Eu vou vê-la no jantar, onde você vai se comportar, e estará vestida como uma senhora civilizada, digna de sua posição como dona da minha casa. Entendeu?
“Sim, pai.”
“Carson!”
“Sim, senhor!” Seu pobre criado, que estava parado nervosamente no canto do corredor de entrada, saltara com o tom violento do meu pai e deslizou até ele, lembrando-me de um grande e velho besouro.
“Certifique-se de que a senhorita Wheiler permaneça em casa hoje, aonde ela pertence. E livre-se da bicicleta infernal!”
“Muito bem, senhor. Farei como diz...” O velho desgraçado tinha sorrido e curvado quando o pai saiu da casa.
Sozinha com ele, os olhos de Carson passaram de mim até a tapeçaria na parede atrás de nós, em seguida, para o lustre, depois para o chão – para todos os lugares, exceto realmente encontrando o meu olhar.
“Por favor, senhorita. Sabe que eu não posso deixá-la sair.”
“Sim. Eu sei.” Mordi meu lábio e acrescentei, hesitante: “Carson, você poderia, talvez, levar a minha bicicleta da garagem para a barraca de jardinagem no fundo do quintal em vez de realmente se livrar dela? Meu pai nunca vai lá – ele nunca saberá. Tenho certeza de que ele será mais razoável em breve, e me permitirá voltar para o meu clube.”
“Eu gostaria disso, senhorita, e o faria. Mas não posso desobedecer o Sr. Wheiler. Jamais.”
Eu me virei e bati a porta da sala que se tornou minha. Não estava realmente zangada com Carson, nem o culpava. Entendia muito bem o que era ser marionete do meu pai.
Naquela noite, eu me vesti com cuidado para o jantar com meu vestido mais modesto. Meu pai mal olhou para mim enquanto falava sem parar sobre o banco, o estado precário das finanças da cidade, e a Feira Mundial iminente. Eu raramente falava. Balançava a cabeça timidamente e fazia ruídos agradáveis quando ele fez uma pausa. Ele bebeu o cálice depois cálice do vinho secretamente misturado com água e comeu um prato inteiro de cordeiro.
Não foi até que ele se levantou e me deu boa-noite que o seu olhar permaneceu no meu. Pude ver que, apesar de o vinho fraco, ele bebeu o suficiente para se alterar.
“Boa-noite, pai,” eu disse rapidamente.
Seu olhar escaldante foi dos meus olhos para os meus lábios. Eu os mantive bem fechados, desejando que eles fossem menos cheios e menos rosados.
O olhar em seguida, passou de meus lábios para o alto corpete do meu vestido. Em seguida, abruptamente, ele olhou em meus olhos novamente.
“Diga ao cozinheiro para fazer cordeiro com mais freqüência. E certifique-se que da próxima vez esteja mal-passado como foi esta noite. Descobri que gostei dessa forma”, disse ele.
“Sim, pai.” Mantive minha voz suave e baixa. “Boa-noite”, repeti.
“Você sabe que tem os olhos de sua mãe.”
Meu estômago revirou.
“Sim. Eu sei. Boa-noite, pai”, eu disse pela terceira vez.
Finalmente, sem dizer uma palavra, ele saiu da sala.
Fui para o meu quarto e me sentei na janela, minha roupa para andar de bicicleta cuidadosamente dobrada no colo. Assisti o nascer da lua e segui com os olhos seu caminho pelo céu, e quando a noite estava mais escura, fiz o meu caminho com cuidado, em silêncio, descendo as escadas, e saí pela porta dos fundos, que levava para nossos jardins elaborados. Enquanto passava pela grande fonte do touro, imaginei que eu era apenas mais uma das sombras que o rodeava, não uma coisa viva... não uma menina que poderia ser descoberta.
Encontrei meu caminho para o galpão de ferramentas e achei uma pá. Atrás dele, no limite de nossa propriedade, fui para a pilha de compostagem que os trabalhadores usavam como fertilizante.
Tentando ignorar o cheiro, cavei profundamente, até que eu tivesse certeza de que estariam seguras – e enterrei minhas roupas.
Depois, guardei a pá e lavei minhas mãos no cano de água da chuva. Então fui para o meu banco de pedra sob o salgueiro. Sentei-me no escuro, na cortina reconfortante até que meu estômago parou de revirar e eu me assegurei de que não ia vomitar. Então permaneci um pouco mais, permitindo que as sombras e as trevas da noite me acalmassem.

* * *

Embora não de bicicleta – nunca novamente de bicicleta – fiz meu caminho para a casa de Camille três vezes mais, caminhando a curta distância descendo a Avenida South Prairie até a mansão Elcott. Duas das três vezes conseguimos passear na direção ao lago, querendo ter um vislumbre do mundo mágico que estava sendo criado a partir de pântano e areia, mantendo toda a cidade em polvorosa.
A empregada da Sra. Elcott nos interceptara duas vezes com a mensagem urgente de que eu era necessária em casa. Quando voltava, havia sempre algo a ser cuidado, mas que nunca era urgente. E cada noite meu pai bebia mais, seu olhar ardente focando-me com maior frequência.
Assim, veja, era uma grande loucura eu ir para a casa de Camille uma terceira vez. Não seria loucura fazer algo repetidamente e esperar um resultado diferente? Será que isso não me torna louca?
Mas eu não me sinto louca. Sinto-me muito sozinha. Minha mente está sã. Meus pensamentos são meus. Sinto falta da minha mãe, mas a dormência do luto me deixou. Foi substituído pela espera, uma sensação de temor. Para combater o medo, tenho desejo a normalidade da minha antiga vida tão desesperadamente que está além da minha capacidade de traduzir em palavras.
Talvez eu esteja sofrendo um ataque de histeria.
Mas não fico com a respiração acelerada, ou desmaio ou explodo em um mar de lágrimas. Então, é a frieza do meu temperamento mais uma prova de que estou louca? Ou o modo como me sinto é parecido como qualquer garota se sentiria quando a morte de sua mãe vem tão prematura? O olhar ardente do meu pai é apenas um sintoma da dor de ser viúvo? Eu realmente tenho os olhos da minha mãe.
Qualquer que seja a verdade, eu não podia ficar longe de Camille e da vida que perdi. No fim desta tarde visitei Camille novamente. Nós não tentamos deixar a casa Elcott desta vez. Foi um acordo tácito entre nós, que sabíamos que nosso encontro terminaria abruptamente com Carson vindo para me acompanhar até em casa. Camille me abraçou e então me chamou para tomar chá no antigo quarto de meninos que foi transformado com um papel de parede rosa pelas filhas Elcott. Enquanto estávamos sozinhas, Camille agarrara minha mão.
“Emily, estou muito feliz em vê-la! Estive preocupada. Quando liguei para você na última quarta-feira, o criado de seu pai me disse que você estava indisponível. Isso foi exatamente o que ele falou na sexta-feira anterior também.”
“Eu estava indisponível.” Enruguei meu lábio em empatia à palavra. “Ambos os dias eu estava no Mercado Municipal, atendendo os sem-teto de Chicago.”
A testa lisa de Camille franziu. “Então você não esteve doente?”
Eu suspirei. “Não doente de corpo, mas doente da mente e do coração. É como se meu pai esperasse que eu tomasse o lugar da mamãe em todas as coisas.”
Camille se abanou com os dedos delicados. “Estou tão aliviada! Pensei que você poderia ter sido atingida pela pneumonia. Você sabe, Evelyn morreu disso na semana passada.”
Senti um tremor de choque. “Eu não sabia. Ninguém me contou. Que terrível... muito terrível.”
“Não tenha medo. Você parece forte e tão bonita como sempre.”
Balancei minha cabeça. “Bela e forte? Eu me sinto como se tivesse mil anos de idade, e que o mundo inteiro passou por mim. Sinto falta de você, sinto tanta falta da minha antiga vida!”
“Mamãe diz que o que você está fazendo é mais importante do que as brincadeiras de garotas que costumávamos fazer, e sei que ela deve estar certa – ser senhora de uma grande casa é muito importante.”
“Mas eu não sou a senhora de uma grande casa! Sou mais uma serva do que qualquer outra coisa” senti como se eu quisesse explodir. “Eu não estou autorizada a respirar um pouco de liberdade.”
Camille tentou dar um ar alegre às minhas mudanças. “Estamos no meio de abril. Em duas semanas fará seis meses da morte de sua mãe. Então você estará livre do luto e será capaz de se reintegrar à sociedade.”
“Eu não sei se posso suportar mais de duas semanas, sendo tudo tão triste e muito chato até então” mordi meu lábio diante do olhar surpreendido de Camille, e apressei-me a explicar: “ser a senhora da Casa Wheiler é um trabalho terrivelmente sério. Tudo deve ser tão exato – exatamente como meu pai quer, que é como minha mãe teria feito. Minha mãe o teria feito. Eu não entendia o quão duro e sombrio é ser mulher.” Respirei fundo e continuei: “Ela tentou me dizer. Naquele dia. No dia em que morreu. Foi por isso que eu estava na sala de parto com ela. Mamãe queria que eu soubesse o que era necessário para ser uma esposa, para não ir às cegas como ela tinha ido. Então, eu assisti. Camille, eu a vi morrer em uma enxurrada de sangue, sem um marido amoroso segurando sua mão ao seu lado. Isso é o que é ser mulher – a solidão e a morte. Camille, nunca devemos nos casar!”
Camille mexia seu chá bastante mecanicamente enquanto eu me desfazia em pensamentos que sempre desejara compartilhar com alguém. Ela deixou cair a colher com minha última exclamação. Eu a ví olhando súbita e nervosamente para a porta do salão fechado, e em seguida, de volta para mim.
“Emily, não acho que seja bom que você reviva os pensamentos da morte de sua mãe. Isso não pode ser saudável.”
Eu entendo agora, enquanto me lembro da nossa conversa, que disse mais do que Camille suportaria ouvir, e eu deveria ter terminado o assunto e manter meus pensamentos para mim, em silêncio, sem julgamento, diário. Mas, então, tudo o que eu queria era ter alguém para conversar, com quem compartilhar os meus temores crescentes e frustrações, então continuei.
“Os meus pensamentos devem durar depois da morte dela. Minha própria mãe desejou assim. Foi ela quem insistiu para que eu estivesse lá. Ela queria que eu soubesse a verdade. Eu acho que, talvez, ela soubesse que sua morte estava próxima e estava tentando avisar-me, mostrar-me que eu deveria escolher um caminho diferente do de esposa e mãe.”
“Um caminho diferente? O que você quer dizer? Trabalho religioso?”
Camille e eu tinhamos torcido nossos narizes juntas, nossas mentes eram completamente iguais nesse aspecto.
“Dificilmente! Você devia ver as solteironas da Igreja que se oferecem no FGCM. Elas são tão fechadas e patéticas, como pardais em jejum bicando os pedaços de vida. Não, eu estava pensando nas encantadoras lojinhas que abriram no centro. Se eu posso dirigir a Casa Wheiler, certamente posso dirigir uma simples loja de chapéus.”
“Seu pai nunca permitiria isso!”
“Se eu pudesse fazer meu próprio caminho, eu não precisaria de sua permissão”, falei com firmeza.
“Emily”, Camille dissera, parecendo preocupada e um pouco assustada. “Você não pode estar pensando em sair de casa. Todos os tipos de coisas terríveis acontecem às meninas sem família e sem dinheiro” ela baixou a voz e se inclinou mais perto de mim. “Você sabe que os vampiros acabaram de mudar-se para o palácio deles. Eles compraram toda a Grant Park para a sua escola terrível!”
Encolhi os ombros com desdém. “Sim, sim, o banco do meu pai realizou a transação. Ele é falava sem parar sobre eles e seu dinheiro. Eles chamam a escola de House of Night. Meu pai diz que é completamente murada e separada do resto da cidade, vigiada constantemente por seus próprios guerreiros.”
“Mas eles bebem sangue! Eles são vampiros!”
Eu tinha ficado completamente irritada que o assunto do estado miserável da minha vida tinha sido ofuscado por um dos clientes de meu pai. “Camille, os vampiros são ricos. Todo mundo sabe disso. Eles têm escolas em muitas cidades americanas, bem como nas capitais da Europa. Eles até mesmo ajudaram a financiar a construção da Torre Eiffel para a Feira Mundial de Paris.”
“Ouvi dizer que as mulheres vampiras estão no comando da sociedade deles,” Camille sussurrara enquanto olhava para a porta da sala novamente.
“Se isso for verdade, digo bom para elas! Se eu fosse uma vampira, poderia optar por não ficar presa por meu pai, fingindo ser minha mãe.”
Os olhos de Camille ficaram arregalados. Eu definitivamente encontrei uma maneira de desviar a conversa de volta para os meus problemas. “Emily, ele não poderia querer que você fingisse ser sua mãe. Isso não faz nenhum sentido.”
“Fazendo sentido ou não, é o que parece para mim.”
“Você tem que olhar para ele com olhos diferentes, Emily. O seu pobre pai simplesmente precisa de sua ajuda nesse momento difícil.”
Senti como se algo dentro de mim estivesse começando a ferver, e eu não conseguia parar de falar. “Eu odeio isso, Camille. Odeio tentar tomar o lugar da minha mãe.”
“É claro que você deveria odiar o sentimento de estar compensando a ausência de sua mãe. Eu dificilmente posso imaginar tudo o que há para você fazer” Camille concordou, balançando a cabeça com ar sombrio. “Mas quando você é a grande senhora de uma casa, há também joias para comprar, vestidos a serem encomendados e reuniões brilhantes para ser anfitriã” ela voltou a sorrir novamente quando serviu mais chá em minha xícara. “Assim que seu luto tiver passado, tudo será sua responsabilidade, também.” Ela riu e eu a encarei, percebendo que ela não tinha entendido nada do que eu tentava dizer para ela. Como não disse nada, ela continuou, conversando alegremente, como se nós duas fôssemos garotinhas despreocupadas. “A Feira Mundial abre em duas semanas, apenas o tempo para você estar fora do luto. Pense nisso! Seu pai provavelmente vai precisar de você como anfitriã das festas para todos os tipos de dignitários estrangeiros.”
“Camille, meu pai não permite que eu ande de bicicleta. Ele impede minhas visitas a você. Não posso imaginá-lo permitindo-me ser anfitriã de jantares para os estrangeiros”, tentei explicar, fazê-la entender.
“Mas isso é o que sua mãe faria, e como você disse, ele deixou claro que você herdou o lugar dela na família.”
“Ele deixou claro que estou presa para ser sua escrava e sua esposa imaginária!” gritei. “O único momento que tenho para mim mesma são os poucos minutos que passo com você, e o tempo que passo no jardim da minha mãe... depois, apenas à noite. Durante a luz do dia, ele tem os criados me espionando e os envia atrás de mim quando não gosta dos lugares para onde estou indo ou do que estou fazendo. Você sabe disso! Mesmo aqui, eles vêm buscar-me como se eu fosse uma prisioneira fugitiva. Ser a senhora de uma grande casa não é uma fantasia que se torna realidade, é como acordar em um pesadelo.”
“Oh, Emily! Eu odeio vê-la tão perturbada. Lembre-se o que minha mãe disse meses atrás, o cuidado que você está tendo com seu pai fará com que o homem que se tornar o seu marido seja muito feliz. Eu a invejo, Emily.”
“Não me inveje” vi que a frieza em minha voz a feriu, mas eu não podia impedir. “Eu não tenho mãe e estou presa com um homem cujos olhos ardem quando me veem!” Parei de falar e pressionei a palma da minha mão contra a boca.
Eu sabia no instante em que sua expressão mudou de preocupação para choque, e, em seguida, à descrença, que eu tinha cometido um erro terrível em falar a verdade.
“Emily, o que você quer dizer com isso?”
“Nada”, assegurei-lhe. “Estou cansada, isso é tudo. Mas já chega. Eu não deveria estar ocupando todo o nosso tempo juntas falando apenas de mim. Quero ouvir sobre você! Então, me diga, Arthur Simpton tornou o namoro de vocês formal?”
Como eu sabia que aconteceria, a menção a Arthur tirou todos os outros pensamentos da mente de Camille. Embora ele não tivesse falado com o pai dela, no entanto, Camille esteve, por diversas vezes pedalando com ele nas manhãs nas rotas do Clube Hermes. Ele até conversou com ela no dia anterior sobre o quão intrigado estava em relação à roda gigante que todos podiam ver sendo erguida no centro por causa da Feira.
Eu ia dizer a Camille que estava feliz por ela, e que desejava que ela ficasse bem com Arthur, mas as palavras não saíram da minha boca. Não era que eu estivesse sendo egoísta ou invejosa. Era simplesmente que eu não conseguia parar de pensar no fato incontestável de que Arthur pudesse cortejar Camille, o que viria a acontecer um dia, em um futuro não muito distante, e que minha amiga se encontraria em situação de servidão para com ele, esperando para morrer sozinha em um dilúvio de sangue...
“Perdão, senhorita Elcott. O criado do Sr. Wheiler está aqui para buscar a senhorita Wheiler.” Quando a criada de Camille nos interrompeu, percebi que eu não estava ouvindo o que Camille dizia fazia vários minutos.
“Obrigada”, falei, levantando-me rapidamente. “Eu realmente preciso voltar.”
“Senhorita Wheiler, o criado pediu que eu desse este recado para você, e que você devia entregá-lo à senhorita Elcott.”
“Um recado? Para mim? Que emocionante!” Camille tinha dito. Com um nó no estômago, passei o recado para os dedos ansiosos dela. Ela abriu-o rapidamente, leu-o, piscou duas vezes, e em seguida, um sorriso radiante transformou o rosto de bonito para belo. “Oh, Emily, é do seu pai. Em vez de você ter que correr aqui sempre que conseguir encontrar tempo, ele me onvidou para visitá-la na Casa Wheiler e ficar com você na sala de estar formal.” Ela apertara minhas mãos alegremente. “Você não terá que sair de casa de todo. Veja, é isso que significa ser uma grande senhora! Irei imediatamente na próxima semana. Talvez Elizabeth Ryerson queira se juntar a mim.”
“Isso seria ótimo”, respondi com sarcasmo antes de seguir Carson até a carruagem preta que esperava do lado de fora.
Quando ele fechou a porta atrás de mim, eu me senti como se não pudesse respirar. Toda a viagem de volta para Casa Wheiler, senti falta de ar, como faria um peixe fora da água.
Desta forma eu termino isso, a primeira vez que escrevo no diário em meses, e me lembro que nunca deveria esquecer a resposta de Camille à minha confidência. Ela reagiu com choque e confusão, e em seguida, voltou aos nossos sonhos de menina.
Se eu estou louca, devo manter meus pensamentos para mim mesma por medo de que ninguém mais possa entendê-los.
Se não estou, mas sou verdadeiramente tão prisioneira quanto estou começando a acreditar que sou, devo manter meus pensamentos para mim mesma por medo de que ninguém mais possa entendê-los.
Em qualquer perspectiva há uma constante, e só posso confiar em mim mesma, na minha própria inteligência para encontrar uma maneira de me salvar, considerando que exista salvação para mim.
Não! Eu não cairei na melancolia. Eu vivo em um mundo moderno. As mulheres jovens podem sair de casa e encontrar novos futuros – vidas diferentes. Devo usar minha inteligência e meus truques. Eu encontrarei uma maneira de conduzir a minha própria vida! Eu vou!
Mais uma vez, eu me encontro a escrever meus pensamentos mais íntimos em meu diário enquanto aguardo a ascensão da lua e a proclamação da escuridão mais profunda da noite, para que eu volte à minha única e verdadeira fuga – às sombras do jardim e ao conforto escondido que encontrarei lá.
A noite tornou-se a minha segurança, meu escudo e meu consolo –esperemos que não se torne também a minha mortalha...

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