31 de outubro de 2015

Vinte

Depois do almoço, dirigi até a Místicos raios de lua. Ansiosa por começar meu treinamento no trabalho, com a esperança de que me proporcionasse uma boa distração da confusão também conhecida como: minha vida.
Já foi bastante ruim quando Damen desapareceu entre as dimensões para que pudesse comprovar o que ocorreu com as gêmeas, mas à hora do almoço, quando me assegurei que estava bem, que Roman não me incomodaria, e que ele só devia ficar em casa, dirigi a nossa mesa só para saber que Haven estava com o Roman. Comendo um sorvete de baunilha, enquanto dizia com excessiva efusão algo relacionado com o suco, sobre o armazém da colheita de uvas, apesar de sua chegada à entrevista, com um atraso de dez minutos.
E tudo o que pude fazer foi balbuciar alguma palavra à distância, que não era muito boa. Então, depois de me dizer que relaxasse e me liberasse pela enésima vez, joguei fora meu sanduíche sem comê-lo e me dirigi à porta, me comprometendo a protegê-la, ou que fosse necessário para impedir que se reunissem. Só um ponto a mais na minha enorme lista de tarefas.
Chego ao beco, estacionando em um dos dois espaços atrás, antes de me dirigir para frente, esperando encontrar a porta fechada, pensando que Jude não pôde ter resistido à chamada das ondas assassinas em um dia tão lindo, e me surpreendo ao encontrá-las totalmente abertas, com Jude atrás de sua mesa.
— Oh, hey, aqui está Avalon agora. — Ele assente. — Dizia a Susan sobre nossa nova leitora psíquica, e você justo aparece no momento, como um sinal.
Susan olha-me com o cenho franzido. Então ela diz:
— Não é um pouco jovem para ler minha mente? — Ela me lança um olhar de desafio.
Sorrio, com uma inclinação torpe em meus lábios, como se tivesse uns dardos em meu olhar, insegura de como responder, especialmente com a forma como Jude me olhava.
— Ser psíquica é um presente — murmuro, quase me asfixiando com a palavra. Recordo que faz algum tempo, não muito tempo atrás, quando me acostumava com a ideia, certa de que era justamente o contrário. — Não tem nada que ver com a idade — eu adicionei, vendo a piscada de sua aura e as labaredas, sabendo que não consegui convencê-la. — Você o vê, ou não. — Encolho os de ombros, escavando um buraco muito profundo em mim mesma.
— Posso reservar uma leitura? — Jude pergunta, sorrindo de uma forma tão difícil de resistir.
Mas não para Susan. Movendo a cabeça e obstinada com sua bolsa, dirige-se à porta, dizendo:
— Você só me chame quando Ava retornar.
O sino soou forte quando a porta se fechou atrás dela.
— Bom, isso não foi bom. — Encolho os ombros, virando-me para Jude e olhando o expediente da recepção antes de acrescentar: — Minha idade será um problema aqui?
— Tem dezesseis anos? — Pergunta, logo me olhando. Aperto meus lábios e aceno com minha cabeça. — Então está em idade de trabalhar aqui. A drogada psíquica da Susan não resistirá muito tempo. Ela tinha sua folha de inscrição antes que soubesse.
— Drogada psíquica? É algo como uma groupie? — Eu o sigo até sua mesa, me dando conta de que em suas costas está usando exatamente o mesmo símbolo da paz em sua camiseta como antes. — Não pode fazer um movimento sem antes consultar às cartas, as estrelas, o que seja.
Ele assente.
— Embora suponha que é o habitual no curso das leituras que dei.
Ele me olha por cima do ombro enquanto abre a porta, com os olhos estreitados, sabendo, de uma maneira que não pode falhar.
— Sobre isso — começo, a pensar que eu poderia confessar, obviamente, porque ele sabe. Mas ele levanta a mão decidido a me parar quando diz, — Por favor, confissões não. — Sorrindo e agitando a cabeça. — Tenho a esperança de desfrutar das enormes ondas por aí, então eu não me dou o luxo de lamentar minha decisão. Embora seja possível que deseje te reconsiderar com um pequeno presente.
Olho-o, surpresa de escutá-lo dizer isso, já que todos os médiuns que conheci que, bem, não são muitos e consistem só em Ava, mas ainda assim, a maioria deles pensam que é sem dúvida algo que têm.
— Estou pensando em acrescentar algumas aulas ao horário, coisas do desenvolvimento psíquico, talvez inclusive um pouco de Wicca, e acredite, estamos preparados, e todo mundo pensará que tem uma oportunidade justa.
— Mas, não? — Eu peço, vendo-o como se dirige ao escritório desordenado atrás de uma pilha de documentos.
— Claro. — Ele assente, recolhendo uma folha, e olhando-a por cima, sacudindo a cabeça enquanto a troca por outra. — Toda pessoa tem o potencial, é só uma questão de desenvolvimento. Com um pouco mais, não o poderiam ignorar, e para outros, só têm que aprofundar um pouco mais para encontrá-la. E você? Quando soube?
Me olhou, com seus olhos verdes mar, que olham de uma forma que faz dançar meu estômago. Por um minuto ele está falando abstrato, folheando os papéis, como se apenas lhe importassem suas palavras, então se detém, seu olhar se encontra com o meu, é como se o tempo parasse. Engulo em seco, sem saber o que dizer, uma parte de mim deseja confessar tudo, sabendo que é um dos poucos que entenderia, mas a outra parte resiste. Damen é o único que conhece minha história, e sinto que devo guardar dessa forma.
— Nasci assim, suponho. — Levanto meus ombros, sentindo como minha voz se eleva no fundo. Meus olhos se movem ao redor da sala, com a esperança de evitar o tema, assim como seu olhar quando adiciono, — tantos cursos! Quem os dará? — Encolhe os ombros inclinando a cabeça de uma forma que permite que seu temor se reflita em sua cara.
— Suponho que eu — diz, empurrando-se para trás e revelando a cicatriz em sua fronte. — É algo que estive querendo fazer faz tempo, mas Lina sempre foi contra. Imagino que também possa ser uma vantagem que ela não esteja aqui para ver se vai funcionar.
— Por que ela é contra? — Pergunto-lhe, meu estômago se relaxa, quando ele se inclina para trás e coloca seus pés na mesa.
— Lhe agrada que sejam livros simples, música, figuras de anjo, com a leitura de vez em quando, com segurança. Algo benévolo. Incorporando o misticismo, não quer que ninguém saia ferido.
— E a sua forma de fazer as leituras ? As pessoas se machucam? — Estudo-o, para identificar o que há sobre ele que me põe os cabelos em pé.
— Não, absolutamente. Meu objetivo é capacitar às pessoas, lhes ajudar a viver melhor suas vidas e que sejam mais plenas, por ter acesso a sua própria intuição, isso é tudo. — Me olha, com seus olhos verdes, seu olhar fixo, fazendo com que meu estômago sinta-se estranho de novo.
— E Lina não o quer dar às pessoas? — Peço-lhe, me sentindo toda agitada sob seu olhar.
— Com o conhecimento vem o poder. E aposto que o poder tende a corromper, ela pensa que é um risco muito grande. Embora não tenha planos de seguir para a magia negra, ela acha que isso poderia acabar acontecendo. — Aceno com a cabeça, pensando em Roman e Drina e definitivamente entendendo ponto de vista de Lina. O poder em mãos equivocadas é perigoso.
— Mesmo assim, te interessa? — Sorri. Meus olhos se cruzam com os seus, segura certa do que isso significa. — Aprender em uma aula?
Nego, me perguntando se foi brincadeira ou se é sério, continuando, vendo que não é nenhum dos dois, só desconverso.
— Confie em mim, eu não sei nada sobre Wicca, ou nada disso realmente. Não tenho nem ideia de como trabalha. Sou melhor em dar alguma leitura de vez em quando, e talvez em organizar esta confusão. — Gesticulo para seu escritório, as prateleiras, a superfície sem ver-se, quase tudo está encoberto por um montão de papéis e lixo.
— Tinha a esperança de que fosse dizer isso — ele ri. — Ah, e se por acaso acontecer algo, no momento, fui praticar surfe se alguém te perguntar. — Ele se levanta, e avança para a prancha de surfe apoiada contra a parede do fundo. — Eu não espero que mantenha isto completamente organizado, a desordem é muito grande. Mas se pudesse conseguir alguma ordem, bem. — Ele assente com a cabeça, me olhando. — Acabaria ganhando uma estrela de ouro.
— Prefiro ter uma placa — digo-lhe, fingindo estar séria. — Sabe, algo bom que possa pendurar na parede. Ou inclusive uma estátua. Ou um troféu, um troféu seria bom.
— E sua própria vaga de estacionamento lá fora?
— Provavelmente posso pensar nisso.
— Confie em mim, que já a terá. — Rio. — Sim, mas terá seu nome nele. Reservado para você somente. A ninguém será permitido estacionar, nem sequer fora da sua hora de trabalho. Escreverei uma grande advertência que diga: PRECAUÇÃO! ESTE ESPAÇO ESTÁ RESERVADO SOMENTE PARA AVALON. TODOS OS CARROS QUE ESTACIONAREM NESTA VAGA SERÃO REBOCADOS.
— Faria isso? Realmente? — Rio, meus olhos encontram os seus.
Ele pega sua prancha, com os dedos sobre a borda enquanto a coloca sob seu braço.
— Se conseguir manter este lugar limpo não haverá limite às recompensas que lhe esperam. Hoje empregada do mês, amanhã... — encolhe os ombros, movendo-se para a frente e expondo seu rosto incrivelmente lindo.
Nossos olhares se encontram, e sei que ele me surpreendeu de novo com sua beleza. Será que ele sabe o quanto é lindo? Então rapidamente desvio meu olhar, esfregando meu braço, brincando com a manga da blusa, nada mais.
— Há uma um interfone na entrada. — Ele assente com a cabeça para a parede do fundo, de volta aos negócios. — A campainha da porta, deve te alertar para qualquer um que venha enquanto estiver trabalhando aqui.
— Isso do timbre da porta, e o fato de que sou psíquica — digo-lhe, tratando de parecer despreocupada, embora minha voz esteja um pouco instável, ao não me haver recuperado por completo de minha estupidez.
— Deve ser melhor acessar seus poderes, como me esqueci? — Pergunta, com seu sorriso muito lindo, embora seus olhos estejam contidos.
— Isso foi diferente. — Encolhe os de ombros. — É óbvio que sabe como proteger sua energia. A maioria das pessoas não.
— E sabe como proteger sua aura? — Entorta os olhos, com a cabeça inclinada para um lado, com a prancha de surfe que cai até a metade de seu braço enquanto se centra em mim. — Mas estou certo de que chegaremos a isso mais tarde. — Engulo em seco, fingindo não me dar conta de como sua aura vibrantemente amarela tende a ser um pouco rosa nas beiradas.
— De qualquer maneira, tudo é bastante auto-explicativo. Os arquivos devem estar em ordem alfabética, e se pudesse separá-los por tema, seria ótimo. Ah, e não se incomode com as etiquetas dos cristais ou das ervas, se não estiver familiarizada com eles. Eu não gostaria que se confundisse. Embora se estiver familiarizada… — Ele sorri para mim de tal maneira que imediatamente começo a esfregar de novo meu braço.
Olho as pilhas de cristais brilhantes, alguns dos quais reconheço alguns como os elixires que fiz e que têm o amuleto que levo em meu pescoço, mas a maioria é tão estranha que não me é nem sequer vagamente familiar.
— Tem um livro ou algo? — Pergunto-lhe, com a esperança de aprender mais a respeito de suas surpreendentes habilidades. — Sabe, assim posso (encontrar uma maneira de dormir com meu noivo imortal algum dia) conseguir que todas as etiquetas estejam corretas. — Aceno com a cabeça, com a esperança de parecer com um trabalhador, em lugar da auto-motivação preguiçosa que tenho. Vendo como deixa prancha de surfe e se volta para seu escritório, revolvendo uma pilha de livros e recuperando um exemplar pequeno, e grosso, da parte inferior da pilha.
Segura-o em suas mãos, e olha a parte de atrás, quando diz:
— Isto tem tudo. De todos os cristais, tudo que existe nele. Também tem fotos para que possa identificá-los. De todo modo, deve-te ajudar — acrescenta, dando-o para mim.
Agarro-o entre as palmas de minhas mãos, suas páginas vibram de vida quando o conteúdo passa através de mim. Todo o livro já impresso está em meu cérebro enquanto lhe sorrio e lhe digo:
— Acredite, já o li.

2 comentários:

  1. Ever é muito imatura. Ela não devia se revelar tanto pra alguém que mal conhece, mesmo que ele seja lindo!

    ResponderExcluir
  2. queria ter esse dom de somente tocar um livro para saber tudo o tem escrito nele... iria ler tantos..rsrsrs

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!